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É sexta-feira, começa agora o "Domínio da Guerra", da Rádio Observador, com o major General Arnaud Moreira. Muito bom dia, bem-vindos.

Olá, muito bom dia a todos.

No dia 5 de novembro de 2024, portanto há cerca de um ano, Donald Trump venceu as eleições presidenciais norte-americanas com o lema "Make America Great Again". General, um ano depois, o Donald Trump que temos é o Donald Trump que nos foi prometido? Isto é, a que desafios nacionais e internacionais respondeu e como é que se perspectiva o desenvolvimento deste mandato?

As eleições foram em novembro, mas ele só tomou posse em janeiro. O que se passa nos Estados Unidos afeta-nos a todos.

Como temos visto desde janeiro.

Isto é muito interessante. Nós não votamos para o presidente dos Estados Unidos, mas a pessoa escolhida pelos americanos afeta o nosso dia a dia. E o que se passa nos Estados Unidos afeta-nos por quê? Afeta-nos por causa da dimensão dos Estados Unidos no sistema internacional, a sua imensa dimensão económica, a sua enorme dimensão militar e o vetor de segurança que pode dar aos seus aliados. A dimensão também e a réplica que os movimentos sociais nos Estados Unidos têm depois nas várias sociedades, sobretudo nas sociedades ocidentais. Tudo aquilo que começa nos Estados Unidos acaba por nos afetar a todos. O que nos foi prometido durante a campanha eleitoral foi basicamente uns Estados Unidos a olharem para dentro, para si, para a homeland, parecendo, através dos discursos de Donald Trump, que a questão do sistema internacional era uma questão que se resolvia num instante. Todos nos temos lembrados da questão das 24 horas para resolver o problema da Ucrânia. Tudo parecia muito simples e tudo muito encaminhado para que todas as atenções de Donald Trump estivessem viradas para a parte interna da gestão da economia dos Estados Unidos. O movimento MAGA organizou-se muito em função dos temas internos dos Estados Unidos. Quando há eleições nos Estados Unidos, vêm sempre ao de cima duas linhas de análise que são muito interessantes. A primeira é a que eu chamo de a linha civilizacional. Há uma fratura imensa na sociedade americana, que depois tem repercussões também nas outras sociedades ocidentais, entre aquilo que são os valores de natureza tradicional e aquilo a que se chamou depois o wokeism, um liberalismo levado a alguns extremos. Esta linha é uma linha fraturante na sociedade americana e está presente em todas as eleições. Depois há uma outra linha que parece que tem sido a mais decisiva para a análise dos resultados: a situação económica. Quando Donald Trump chegou ao poder nas eleições de 2024, as pessoas nos Estados Unidos estavam muito cansadas com a alta inflação que tinha resultado do mandato de Joe Biden. Estavam economicamente estressadas e viam em Donald Trump, um homem que vinha do mundo dos negócios, alguém com conhecimento econômico adequado para travar esta inflação.

E arrumar a casa, arrumar as finanças.

Arrumar as finanças locais. Um ano depois da eleição, as sondagens mostram que Donald Trump tem notas muito baixas na gestão da economia e da inflação. Isto não são boas notícias para o Partido Republicano, não são boas notícias para Trump, porque temos as eleições de meio mandato agora para o ano que vem. Mas tivemos já um appetizer.

Esta semana.

Para abrir o apetite. Tivemos um cheirinho de como estão as coisas do ponto de vista eleitoral, com três eleições que são distintas e que eu encaixaria em duas áreas. Essas eleições foram as eleições para o mayor de Nova York e para os governadores, neste caso foram as governadoras, de New Jersey e da Virgínia. E as três eleições trouxeram vitórias muito saborosas para o Partido Democrata, mas trouxeram também um conjunto de problemas que eu agora vou aqui rapidamente mostrar. Na Virgínia, a nova governadora, Abigail Spanberger, ganhou com uma margem muito confortável, uma margem grande de 15%. Em New Jersey, a nova governadora, Mikie Sherrill, ganhou também com uma margem muito interessante, 13%. Estes eram candidatos que eu chamaria os candidatos da família tradicional dos democratas. É o perfil que normalmente os democratas entregam para concorrerem a estes cargos de governador. A linha democrata mais de natureza ao centro Provou ser uma boa alternativa às linhas de Trump nestas eleições em New Jersey e na Virgínia. Portanto, temos aqui um ponto também interessante. Quer dizer, todas as luzes foram parar a Mamdani em Nova Iorque.

Sim, mas falou de outra coisa.

Mas, na verdade, quem ganhou verdadeiramente por margens expressivas foi o Partido Democrata tradicional, na Virgínia e em Nova Jersey. O que aconteceu em Nova Iorque? O caso de Nova Iorque vai ser um caso que vai agora focar certamente as nossas atenções, porque Nova Iorque é a maior cidade dos Estados Unidos, e é um sítio que tem um ícone também da política norte-americana. A vitória dos democratas em Nova Iorque não é surpreendente. Nova Iorque sempre foi um estado virado para votar nos democratas.

O que surpreendeu foi o perfil do candidato.

O que surpreendeu foi como é que o Partido Democrata foi arranjar este candidato. E eu acho que o que se passou aqui é: este candidato impôs-se ao Partido Democrata e às estruturas do Partido Democrata. Mais do que uma escolha de cima para baixo, esta foi uma escolha de baixo para cima. Mamdani impôs-se ao Partido Democrata como o seu representante para concorrer a estas eleições. O que é que o perfil dele tem de especial? Tem 34 anos para concorrer a mayor de uma cidade gigantesca como Nova Iorque. Alguém com 34 anos parece não ter acumulado a experiência suficiente para gerir uma cidade com aquela dimensão e com aqueles problemas. Depois, é muçulmano, portanto também sai daquilo que é a linha tradicional dos democratas. Depois nasceu no Uganda, é imigrante. Juntaram-se em Mamdani um conjunto de características que o tornam um alvo especialmente apetecível para Trump. Isto é, ele encarna exatamente o contrário da linha civilizacional que Trump vai procurar agora utilizar. Trump ficou assustado. Certamente que ficou assustado. O Partido Republicano é uma brincadeira em Nova Iorque, mas o que assusta Trump foi a capacidade de mobilização de Mamdani junto de um conjunto de eleitores que normalmente não ia às urnas. O facto de terem sido eleições muitíssimo concorridas mostra a capacidade de mobilização de eleitorado que Mamdani foi capaz de fazer. E portanto, Mamdani tem pela frente um conjunto de desafios enormes. O primeiro é que ele próprio desafiou Trump no seu discurso de vitória. Foi muito dirigido para Trump. Muito incendiário, e portanto, de alguma maneira provocou também Trump. Trump já respondeu a dizer que o comunismo nunca funcionou, não vai agora passar a funcionar em Nova Iorque. E portanto, Trump vai escolher Mamdani também como o seu alvo preferido. E agora o Partido Democrata. O Partido Democrata é, do meu ponto de vista, quem corre mais riscos com o perfil de Mamdani. Mamdani disse, e eu fiquei com esta frase nos ouvidos. No seu discurso de vitória, disse assim: "Meus amigos, deitámos abaixo a dinastia política." Porque a política nos Estados Unidos era tradicionalmente feita por famílias. Eram os pais, os avós, os filhos. Isto é, havia uma tradição de passagem ao longo da mesma família daquilo que eram as convicções políticas. Os democratas. Cuomo, que concorreu como independente, mas que era do Partido Democrata, era também de uma dessas dinastias. Quando Mamdani vem dizer que deitou abaixo o fim das dinastias, isto vem pôr também um ponto de grande interrogação sobre a forma como Mamdani pode ser, dentro do Partido Democrata, também um risco para o próprio Partido Democrata. E portanto, ele vai ter um enorme desafio pela frente, um desafio que ele próprio levantou ao prometer gratuidade em imensos serviços para os quais não tem dinheiro. Qual é a solução sempre nestes casos? É taxar os ricos. Tenho aqui uma lista dos ricos norte-americanos. Em Nova Iorque, há 80 a 90 mil milionários.

Só em Nova Iorque.

Só em Nova Iorque. E 125 bilionários. Pronto.

Portanto, estes 125.

Estes 125 bilionários e os 90 mil milionários já pagam 48% das taxas. Isto é, metade do orçamento de Nova Iorque em taxas resulta das taxas que já são aplicadas aos bilionários e aos milionários. O que é que se passa quando agora forem sobrecarregados? Porque é aí que o seu programa eleitoral pretende ir buscar dinheiro. É que as pessoas não estão presas nos Estados Unidos. Estes bilionários e milionários vivem onde quiserem.

Exatamente.

Onde quiserem. E portanto, vamos ver agora qual é o reflexo Se ele prosseguir este seu programa de taxar os ricos, se os ricos não vão deixar Nova York e sediar-se em outros estados onde paguem menos taxas. Aliás, já começou esse processo de sedução. Vários governadores já vieram dizer: "Atenção, pessoal de Nova York, agora que se vai instalar o comunismo em Nova York, nós estamos disponíveis para vos receber aqui". É um processo que vai ser muito interessante e certamente teremos atentos.

Vamos agora até a Ucrânia e hoje temos de olhar para Pokrovsk, essa cidade do Donbass que tem sido um bastião da defesa ucraniana no Oblast de Donetsk, com combates intensos entre forças russas infiltradas e forças especiais ucranianas. General Arno Moreira, que balanço podemos fazer do que se passa realmente em Pokrovsk?

Pokrovsk situa-se numa linha de sucessivas posições defensivas que a Ucrânia tem procurado manter desde 2022. Nós lembramo-nos que em 2023, foi em maio, caiu Bakhmut, que estava logo na primeira linha. Isto foi em maio de 2023. Depois, em fevereiro de 2024, não chegou a um ano, caiu Avdiivka, também completamente destruída pelos russos. E há cerca de 18 meses que as forças russas progrediram de Avdiivka sobre Pokrovsk. Portanto, Pokrovsk está sob o alvo, sob a mira das forças russas há 18 meses, sendo que há pelo menos 16 meses que há combates intensos sobre Pokrovsk. Durante bastante mais de um ano, as forças ucranianas impediram os avanços da Federação Russa sobre Pokrovsk, sobretudo através da operação de drones, que impediam que todas as colunas que procuravam avançar sobre Pokrovsk tivessem sucesso. Isto durou durante imenso tempo. Em face da incapacidade de se aproximarem de Pokrovsk, o que fizeram as forças russas? Começaram a fazer um envolvimento largo da cidade para ir atacar aquilo que era as rotas de abastecimento logístico de Pokrovsk. Este cerco foi se apertando ao longo do tempo, do ponto de vista logístico, já começa a ser difícil fazer o abastecimento de Pokrovsk, e agora os russos começaram a introduzir pequenos contingentes de tropas, aí motorizadas, outros disfarçados à civil, que foram conseguindo entrar na cidade. E são esses combatentes que estão já dentro da cidade, que agora alteraram a forma de combate, porque obrigou as forças ucranianas, que até aqui faziam um combate à distância através dos drones, a ter agora um combate urbano muito difícil dentro da cidade. As forças ucranianas não estavam preparadas para o combate urbano. Tiveram que ir buscar reforços, forças especiais, que também já não conseguiam passar através das linhas logísticas e vieram através de operações de helitransporte. Foram transportadas estas forças especiais para dentro de Pokrovsk por helicóptero. E são essas forças especiais que estão agora a procurar combater aquilo que são as forças russas infiltradas em cidade. É um combate muito difícil. O prognóstico é muito difícil também de fazer neste momento, porque agora há dois combates que as forças ucranianas têm que fazer. Têm que fazer o combate urbano para as forças que já lá estão e têm que continuar a fazer um combate à distância para impedir que essas forças russas sejam agora reforçadas por outros contingentes da Federação Russa. A situação é muito complicada, muito complexa em Pokrovsk. Vamos ver o resultado, sobre o qual só há propaganda neste momento. Não conseguimos ter nenhuma avaliação verdadeiramente independente sobre o estado real deste combate. A Federação Russa clama vitórias, a Ucrânia diz que tem tido sucesso nesses combates. Na verdade, a única coisa que sabemos, que temos ao certo, é que há um combate intensíssimo entre forças russas e ucranianas já dentro da cidade de Pokrovsk.

Esta manhã trazemos Donald Trump e a ameaça nuclear para a nossa cortina de fundo. Na sua rede social, o presidente dizia: "Face aos programas de teste dos outros países, dei instruções ao departamento de guerra para começar a testar as nossas armas nucleares em termos iguais. Este processo começará imediatamente". E, General, esta quarta-feira assistimos ao primeiro teste, mas a verdade é que estas declarações sobre testes nucleares nos surpreenderam a todos. Afinal, o que pretende o presidente dos Estados Unidos?

Como nós já tínhamos dito há bocadinho, aquilo que se passa nos Estados Unidos é uma coisa que afeta todo o sistema internacional. Isto recomendaria que o presidente dos Estados Unidos tivesse uma comunicação estruturada, pensada, em que sobretudo abundasse aquilo que eu chamo a clareza. A clareza era importante para o presidente dos Estados Unidos. Ora, nós não temos nada disto em Trump. Nada disto existe em Trump. O que temos em Trump é o levantamento permanente de confusões, de equívocos, de coisas ou mal estudadas ou mal explicadas. E quando nós tratamos de temas tão sérios como o tema nuclear, era importante que o presidente dos Estados Unidos tivesse uma comunicação mais estruturada e consistente sobre o assunto. Há uma diferença muito grande e temos que dar esse benefício da dúvida a Donald Trump. Ele é trapalhão na forma como escolhe os termos e como articula as suas mensagens, mas há uma diferença muito grande entre aquilo que são as armas nucleares, que são as ogivas nucleares, e aquilo que são os vetores de lançamento dessas ogivas nucleares. Portanto, aquilo que nós assistimos por parte da Federação Russa, falamos disso aqui, foi ao teste dos vetores. Não houve testes nucleares feitos pela Federação Russa. Os testes nucleares feitos pelas três grandes potências, Estados Unidos, Rússia e China, são coisas dos anos 60, terminaram nos anos 60. A partir daí, o que tem havido é uma melhoria dos vetores que transportam essas coisas, mas muitos desses vetores também podem levar cargas de natureza convencional, não precisam de levar armas atômicas. Portanto, há aqui uma enorme confusão, porque o que, na verdade, temos assistido com abundância é ao teste dos vetores de lançamento das armas nucleares e não aos testes nucleares. Isso deixou imediatamente no ar, quer do ponto de vista interno, uma escalada com os Estados Unidos, ao fim de 60 anos, resolvem recomeçar outra vez os seus testes nucleares. Isto serviu para quê? Serviu para aproveitar, eventualmente, o lançamento do Minuteman III. Não acredito que o Minuteman III tenha sido lançado por causa daquilo que foram as experiências da Federação Russa com o Poseidon e com o Burevestnik. Aquilo que é o lançamento de um sistema destes requer meses de preparação e, portanto, certamente já estava previsto. O que Donald Trump fez aqui no meio desta cortina de fumo, foi justificar este lançamento com base naquilo que tinha sido as tentativas e os ensaios da Federação Russa. Isso lança aqui uma enorme cortina de fumo e julgo eu que não haverá testes de natureza nuclear. O que continuará a haver, como sempre houve em todos os atores do sistema internacional, é testes dos seus vetores de lançamento das armas nucleares.

Esta semana, o nosso ponto de mira dirige-se para a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, que com uma declaração descuidada provocou a fúria do governo italiano. O que se passou, General, com a Maria Zakharova?

O que se passou é que houve o desmoronamento de uma torre medieval em Itália, a Torre dei Conti, e Maria Zakharova não resistiu à oportunidade de ligar o desmoronamento desta torre ao esforço italiano em apoiar a Ucrânia. Cai uma torre do século XIII e a culpa é da Itália, que está a gastar o dinheiro dos seus contribuintes na guerra e no apoio à Ucrânia, em vez de se preocupar com as suas torres medievais. Ninguém consegue mostrar que não tem havido preocupação com as torres medievais e não parece haver nenhum link direto entre uma coisa e outra. Portanto, isto foi uma declaração absurda, fora de contexto, que mereceu naturalmente o repúdio das autoridades italianas e assim ficou. E agora que temos que terminar, Lavrov está onde?

Onde é que está Lavrov?

Lavrov desapareceu. Para a semana-

O que é feito de Lavrov?

O que é feito de Lavrov. Se alguém encontrar, pode entregar aqui na Rádio Observador.

General Arlindo Mourão, muito obrigada. Bom fim de semana.

Muito obrigado. Bom fim de semana.