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Começa agora mais um O Domínio da Guerra da Rádio Observador, sempre com o major-general Álvaro Moreira. Bom dia!

Olá, bom dia a todos.

Bem-vindo, general. Enquanto prosseguem os esforços diplomáticos para encontrar um princípio de acordo entre Washington e Teerão, esta semana houve vários ataques militares de gravidade envolvendo Israel, Irão e Estados Unidos. General, que ponto de situação podemos fazer sobre esta semana em que o som das armas se tornou a ouvir e com muita intensidade?

Com muita intensidade. Vamos deixar as últimas notícias para o final. Vamos começar por fazer aqui um pequeno enquadramento, porque esta semana foi extraordinariamente interessante e merece alguma análise e alguma reflexão. Nós, no último programa, no final da semana passada, tínhamos em vigor dois cessar-fogos. Um entre os Estados Unidos e o Irão, outro entre Israel e o Líbano. Nenhum deles estava a ser cumprido de acordo com aquilo que estava exatamente escrito. Mas, na verdade, o acordo de cessar-fogo entre o Irão e os Estados Unidos estava a manter-se com algum grau de empenhamento, pelo menos para que os pequenos incidentes de natureza militar não tivessem nenhuma escalada. Pelo lado contrário, o acordo entre Israel e o Líbano estava mais difícil de ser visualizado. Nós falámos aqui na semana passada, no Castelo de Beaufort, na importância que isso tinha para o desenvolvimento subsequente de operações de Israel no sul do Líbano, progredindo em direção a Beirute, e de como isso assustava o Irão, porque começou a ver em risco aquilo que é a organização, a logística, o comando e controle, tudo aquilo que diz respeito ao financiamento do Hezbollah. E, portanto, durante o fim de semana, tivemos o primeiro grande desenvolvimento desta semana, com o Irão a reclamar um apoio ao Hezbollah, bombardeando com mísseis balísticos Israel. E, portanto, durante o fim de semana, houve aqui, na verdade, um sobressalto a que não estávamos habituados. Não tinha sido esse o padrão até ao momento. Naturalmente que Israel teve que reagir, porque tinha sido bombardeado por mísseis balísticos pelo Irão, no seu próprio território. Isto terá ocorrido no domingo e ainda na noite de domingo, Israel lançou também um conjunto de ataques sobre alvos do Irão. Quem ficou assustado com este elevar desta escalada foi Donald Trump.

Ai, ai, ai.

Ai, ai, ai, o meu acordo. Porque viu aqui que a dimensão, quer do ataque do Irão com mísseis balísticos, quer da resposta de Israel, continha potencial para uma escalada que lhe ia fugir ao controle. E Donald Trump reagiu aqui em vários tempos. Aconselhou às partes. Ele ordenou, mas o ordenar aqui tem o valor que tem. Ele aconselhou às partes que parassem os ataques imediatamente e tendo dado conta que Israel se preparava para intensificar esses ataques, mandou cancelar a Israel o ataque que estava preparado já para segunda-feira à tarde. A troca de ataques entre Israel e o Irão foi o grande motivo de início desta semana, com Donald Trump a ter aqui um papel decisivo para manter esta escalada sob controle. Esta intervenção de Donald Trump tem uma leitura complexa, que eu gostava de partilhar. Na verdade, do ponto de vista prático, o que aconteceu é que os Estados Unidos foram ajudar o Irão, porque o Hezbollah é uma extensão do Irão. Ao protegerem, para proteger o acordo, foram impedir Israel de atingir um objetivo, que era um objetivo claro e explícito de Israel, porque Donald Trump, de alguma maneira e na prática, o que fez foi proteger o Hezbollah e, portanto, protegeu o Irão para proteger o acordo.

Portanto, indiretamente está tudo ligado.

Para ver como essas coisas às vezes são diferentes daquilo que é expectável. Ele, de qualquer maneira, criou condições para que as duas partes deixassem de se atacar diretamente e mutuamente entre territórios e que as negociações pudessem prosseguir. Mas as negociações prosseguiram também durante pouco tempo, porque logo a seguir, neste início da semana, há o incidente com o helicóptero APACHE. Há muitas teorias sobre este encontro, eu ponho encontro, é sempre um encontro entre o helicóptero e o drone, provavelmente um Shahed 136. As teorias da conspiração dizem que o helicóptero chocou contra o droneDo ponto de vista das probabilidades físicas, isto é muito raro, que duas bolas que sejam atiradas ao ar choquem uma com a outra. Podemos repetir isto milhares de vezes, temos muitas dificuldades em que isto venha a acontecer. A probabilidade aumenta se eu souber qual é a rota de um helicóptero e puser um drone na mesma rota, à mesma altitude, porque isto o Irão consegue saber, qual é a rota do helicóptero e a que altitude voa. E portanto, se eu puser um drone na mesma rota com a mesma altitude, a probabilidade já das duas peças, digamos, se encontrarem é muito grande. Os Estados Unidos tomaram isto como um ato deliberado de ataque a uma força militar e não podiam deixar de reagir. Tínhamos acabado de extinguir um fogo, Donald Trump tinha acabado de extinguir um fogo entre o Hezbollah, o Líbano e Israel, e acendeu um novo fogo, que foi a questão do Apache. Bom, o que os Estados Unidos fizeram foi uma resposta, do meu ponto de vista, proporcional.

Era isso que eu lhe ia perguntar, se tinha sido proporcional.

Uma resposta proporcional àquilo que tinham sido os meios utilizados no estreito de Ormuz pelo Irão, que permitiram que este ataque pudesse ser conduzido ao helicóptero Apache. Portanto, pareceu uma coisa que o Irão até podia encaixar. Isto é, o Irão dizia: "Nós abatemos um helicóptero Apache", e os Estados Unidos: "Nós respondemos e eliminamos aqui um conjunto de infraestruturas que permitiram que este ataque fosse conduzido". Ponto final.

Mas o ponto final não foi.

Ponto final, só que este ponto final não acabou aqui, porque o Irão entendeu responder a isto. Quer dizer, em vez de ter aceitado, resolveu responder. E respondeu com o ataque de uma magnitude que surpreendeu tudo e todos, inclusivamente os Estados Unidos, que pensavam que este incidente tinha ficado por ali. A partir do momento em que uma base norte-americana na Jordânia é atacada, uma base que é importante do ponto de vista da logística dos F-35, que os alvos do costume preferidos do Irão, Bahrein e Kuwait, são atingidos, os Estados Unidos entenderam que foram ultrapassados aqui outra vez os limites de contenção e de proporcionalidade, e os Estados Unidos decidiram-se por duas noites de ataque contra o Irão. Sabemos que foram lançados mísseis de cruzeiro Tomahawk, que a Força Aérea dos Estados Unidos esteve envolvida em mais ataques à zona do estreito de Ormuz. Temos pouca informação sobre o conjunto de alvos abatidos, mas, na verdade, quando estava preparado e anunciado a terceira noite de ataques dos Estados Unidos, Donald Trump veio dizer: "Não vai haver essa, porque, entretanto, esta pressão de natureza militar exercida vai produzir resultados do ponto de vista do avanço das negociações do memorando". E portanto, chegamos agora a quinta-feira, ao dia de ontem, com o Donald Trump a dizer que a guerra com o Irão acabou, que está previsto o acordo, que sente que a liderança iraniana já terá acordado com os termos do acordo, e anunciou até detalhes importantes. Dois detalhes, um de tempo, em que nos próximos dias, até avançou a hipótese ser no fim de semana, o acordo pudesse ser assinado. Falou na personalidade que o iria representar, J. D. Vance, e falou no local, na Europa. Há um indício técnico aqui muito importante, é que nos últimos dias, quatro aviões da Força Aérea dos Estados Unidos com equipamento para essa cerimônia vieram para a Europa. Portanto, há aqui um indício técnico também que bate certo com isto, porque as declarações são declarações. Mas há aqui um indício técnico que suporta isto. Portanto, nós estamos neste momento expectantes se o Irão confirma, do ponto de vista oficial, não apenas do ponto de vista oficioso, que o acordo está aceito, está pronto para ser assinado. Bom, se assim for, teremos um programa especial sobre isto.

Tem que ser, na próxima sexta-feira.

Um programa especial sobre isto, porque me parece que ocorreu uma coisa muito complicada.

E por que Europa?

Isso faz parte também do acordo. Uma coisa muito complicada. É que falta entendimento sobre o Trump. Falta-nos entendimento sobre o Trump. Nós quando vamos a Trump, vamos sempre pelo lado simples das suas declarações. E como eu já tenho dito aqui, Trump é um manipulador de percepções. E enquanto não se perceber o que é isso de um manipulador de percepções, estaremos sempre errados na nossa avaliação de Trump. Mas isso será um ponto forte. Mas vamos fazer esse programa especial se este memorando for efetivamente assinado.

Entretanto, e depois de ter recebido Donald Trump e Vladimir Putin com pompa e circunstância em Pequim, tivemos esta semana uma visita inesperada de Xi Jinping à Coreia do Norte. General, há que remorar, o que é que levou o líder chinês a visitar Pequim?

Eu gostei imenso. Não falámos nada disto, andámos entretidos com as declarações de Trump. Falámos nada sobre isto, mas esta visita é extraordinária do ponto de vista da análise dos equilíbrios globais e dos equilíbrios regionais. E eu gostava de partilhar esta reflexão aquiDe quê agora? Na verdade, a ida de Xi Jinping à Coreia do Norte é uma coisa rara. A última vez foi em 2019. Há sete anos que o presidente da China não visita o seu vizinho, com quem partilha uma fronteira de cerca de 1400 km. Há sete anos que Xi Jinping não vai à Coreia. Isto levanta-nos logo aqui. Completamente. E depois as outras visitas. Agora. Depois, no tempo em que acontece, ele recebe em Pequim, com pompa e circunstância, Putin e Trump. Trump e Putin. Trump e Putin. E depois, o que se lembra é de ir visitar Kim. Depois de receber os dois grandes vultos do sistema internacional, as personalidades do sistema internacional. Foi contar ao amigo como é que correu. Contar ao amigo. É isto que temos que escalpelizar. Depois, é a primeira visita ao exterior, a um país estrangeiro, por parte de Xi Jinping este ano. Ainda não tinha ido a lado nenhum. Escolheu a ida à Coreia do Norte como a primeira saída deste ano. Tudo isso tem significado. Tudo isto tem significado. Depois temos a parte formal. Eu gosto muito das partes formais, já devem ter notado, por causa das crianças e das bandejinhas. Eu posso partilhar aqui um segredo, isto é um segredo, fica entre nós. As nossas recepções de Estado são uma maçada. Temos de pôr os olhos. É uma coisa, parece um enterro as nossas coisas aqui na Europa. Não, ali não! Temos crianças aos pulos com bandejinhas e desta vez Kim, para surpreender Xi, até inventou balões. Meteu também balões. As crianças agora- Subiu a fasquia. Subiu a fasquia. Agora não há só bandejinhas e danças, há também balões. Para vermos que Kim não quis ficar atrás da recepção que tinha sido dada a Trump e a Putin. Do ponto de vista formal, também foi bonito ver o automóvel oficial de Xi Jinping entrar dentro do palácio. Eu ainda não tinha visto isto. O que nós vemos normalmente nas nossas recepções, os automóveis param à porta, à porta está o chefe de Estado à espera, cumprimentam-se ali, fazem uma fotografia nas escadas, depois entram. Mas em Pyongyang não é assim. O carro entra dentro do palácio, o carro passa sobre um chão de mármore e em frente do chão de mármore está uma passadeira, que não é dessas passadeiras que se compram nos supermercados por €15 o metro, não. Uma passadeira à maneira. Xi Jinping, quando sai do carro, o carro parado em cima do mármore, dentro do palácio, sai diretamente para uma passadeira dessas que temos nas nossas cerimônias. Nós não temos, porque não temos dinheiro pra isso. Uma passadeira à maneira. Uma passadeira à maneira. Tudo isto faz parte de um cerimonial que procura valorizar aquilo que é a visita. Vamos lá agora ao que interessa. Por que Xi Jinping foi agora a Pyongyang? Xi Jinping anda nervoso. E anda nervoso com duas ou três coisas, assuntos que eu gostaria de trazer para aqui. Primeiro, Xi Jinping está ciumento. É que de repente, Kim encontrou em Vladimir Putin um parceiro de diálogo, que considera um diálogo entre iguais. Isto é, enquanto a relação de Pyongyang com Pequim é uma relação tradicionalmente de subserviência, porque a China é que alimenta e permite ao regime de Kim sobreviver, a ligação da Coreia do Norte à Federação Russa tornou-se imprescindível para a Federação Russa. Não podemos esquecer que ele enviou efetivos de quase uma divisão para ajudar a Federação Russa em Kursk, e que morreram milhares de soldados norte-coreanos aí. Isto é, a Rússia ficou com uma dívida também com a Coreia do Norte, que fez subir o estatuto da Coreia do Norte. Isto é, a Coreia do Norte encontrou na guerra da Ucrânia um nivelador de relações internacionais, encontrou aí também uma forma de alternativas de aliança estratégica que não passam exclusivamente pela China. A minha interpretação aqui é que o principal motivo que levou Xi Jinping a Pyongyang, à Coreia do Norte, são ciúmes. Foi recordar a Kim que a sua grande dependência estratégica é da China e que esta questão dos namoros a Vladimir Putin tem que ter limites, não pode ser uma coisa sem limites.Porque a China não está a gostar. Houve certamente uma sinalização por parte de Xi Jinping de que a Federação Russa não é o parceiro igual para a Coreia do Norte, e que a China continua a ter uma preponderância fundamental nesta relação. Além disso, há uma outra questão, que é uma questão de que não se fala e da qual a Coreia do Norte não quer falar. Isto tem a ver com o processo de desnuclearização. Este processo tem que voltar a vir para cima da mesa. Xi Jinping não apenas está com medo de que uma excessiva aproximação de Pyongyang ao Kremlin o afaste da China e, portanto, faça a China perder alguém que está sob o seu controle regional, como as sucessivas intervenções de Donald Trump, com a sua predisposição para ir encontrar-se mais uma vez com Kim, venha dar ainda novos horizontes de relacionamento à Coreia do Norte, que a afastem progressivamente de uma dependência de que Kim naturalmente não gostará excessivamente da China. E portanto, estas são as reflexões que eu queria partilhar sobre esta visita ciumenta de Xi Jinping a Pyongyang.

Terminou em São Petersburgo o Fórum Económico Internacional promovido por Vladimir Putin para valorizar as oportunidades de negócio entre a Federação Russa e a economia global. Mas, general, este ano falou-se muito mais de política do que de economia. Afinal, que cortina de fumo foi esta?

É porque o fórum internacional tem sido utilizado com duas intenções. A primeira é uma intenção que é normal em todos os países, que é diversificar o investimento estrangeiro no seu país, neste caso, na Federação Russa. Por outro lado, propor oportunidades de negócio a firmas que queiram ou comprar ou vender para a Federação Russa. E portanto, é de alguma maneira também uma feira, não no sentido vulgar, mas no sentido mais sofisticado de um sítio onde compradores, vendedores, investidores, etc., se encontram para firmar, estudar, antecipar, investir, etc. Portanto, há uma perspectiva de natureza econômica aqui importante. Depois há a perspectiva de natureza política, porque normalmente Vladimir Putin faz uma intervenção também de natureza política, centrada sempre com a base de natureza econômica, mas virando para uma análise mais global da situação política internacional. Ora, para estas duas componentes são precisas duas coisas. Uma, precisamos de Putin que vá falar. Estava disponível para falar. A outra é que alguém de importância nos venha falar sobre economia russa. Quer dizer, eu não posso atrair investidores e não ter o presidente do Banco Central da Rússia a falar. Ora, quando nós olhamos pra lista dos palestrantes, lá estava Elvira Nabiullina, presidente do Banco Central da Rússia, que ia fazer duas intervenções, uma das quais sobre a situação econômica na Rússia.

E o que aconteceu?

Não apareceu. À última da hora, foi eliminada da lista das intervenções. É aqui que está a nossa cortina de fumo. Quer dizer, então no Fórum Econômico Internacional destinado a promover a economia russa, Elvira Nabiullina, a presidente do Banco Central, que ia fazer uma intervenção sobre as perspectivas da economia russa, como ela está, como ela se vai desenvolver, resolve não aparecer. Ou foi cancelada.

A política de cancelamento.

É a política de cancelamento. Ou não interessava ouvir aquilo que ela, que é uma pessoa muito menos política e muito mais técnica, tinha para dizer sobre a economia russa. Ficou aqui uma cortina de fumo imensa que nunca será esclarecida.

General Arnombrar, hoje trazemos para o nosso ponto miro o número 1568. Por que é tão importante o número 1568?

1568 é o número que toda esta semana vamos falar. O que é 1568? É o número de dias que durou a Primeira Guerra Mundial. Pois acontece que hoje já estamos em 1570 dias de combate na Ucrânia. Isto é, a duração do combate da guerra entre a Rússia e a Ucrânia já dura mais tempo do que durou toda a Primeira Guerra Mundial.

E aquele povo ali a resistir.

E é importante aqui também dizer que a Federação Russa, na altura o Império Russo, ainda estávamos, teve dissabores muito grandes na Primeira Guerra Mundial. Aliás, não chegou ao final, não chegou a 1918, porque entretanto a Revolução Soviética ocorreu. Uma das razões da Revolução Soviética foi a insatisfação relativamente aos resultados da guerra e às imensas perdas que a Rússia estava a ter na Primeira Guerra Mundial. E, portanto, este número 1568 é certamente um número que vamos nos lembrar durante toda a semana.

Sem dúvida. General Arnombrar, muito obrigada.

Foi um prazer. Um bom fim de semana a todos.

Até para a semana. Obrigada.