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Há 40 anos, a principal seleção portuguesa de futebol passou rapidamente do sonho ao pesadelo. Da qualificação para o mundial às ameaças de greve por parte dos jogadores, o Observador reconstruiu o polêmico caso Saltillo em quatro episódios. O escândalo que destruiu a seleção é um podcast que pode ouvir na íntegra nas habituais plataformas. Falamos com jogadores, dirigentes e jornalistas que estiveram no México. Consultamos também as páginas dos jornais desportivos desse período, bem como o relatório da participação portuguesa no Mundial de 1986. Desta vez, importa olhar para outro documento decisivo na forma como se olha hoje para os atletas que em tempos foram apelidados de mercenários. Recebemos, por isso, o advogado Jaime Dória Cortesão. Eu sou a Carla Jorge Carvalho e ao meu lado está o Carlos Pedro.
É licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, tinha 41 anos em 1986 e foi ele quem ficou responsável, a pedido da Federação Portuguesa de Futebol, por instruir um inquérito aos fatos ocorridos durante o Campeonato do Mundo do México. Jaime Dória Cortesão está conosco em estúdio. Bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por aceitar falar conosco. Perguntava-lhe já em que circunstâncias foi convidado para fazer o relatório sobre os acontecimentos de Saltillo. Quem o contactou?
Quem me contactou foi exatamente o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, o doutor Silva Resende, por indicação de um amigo comum que tinha trabalhado comigo, exatamente antes do 25 de abril, no Ministério das Cooperações. Foi essa pessoa que um dia eu estou no Porto e recebo uma chamada telefônica e que me diz: "Vou te passar o doutor Silva Resende", que eu não conhecia de parte nenhuma, a não ser de nome e de bom nome, aliás. E ele disse: "Senhor doutor, como sabe, houve aquele caso Saltillo e tal. Gostaríamos que o senhor doutor procedesse ao inquérito do que se passou em Saltillo". E eu disse: "Deixe-me pensar, dou-lhe a resposta". Presumo que disse: "Dou-lhe a resposta amanhã", uma coisa qualquer assim. E pronto. E então avancei.
Avançou. O que ponderou? O que o levou a aceitar e o que o levou a pensar, se é que isso aconteceu, que não valia a pena entrar nesse processo?
Eu vou dizer com toda a sinceridade que aceitei o inquérito no pressuposto de que tinha havido um comportamento perfeitamente censurável da parte dos jogadores e que, portanto, era necessário um inquérito para que isso viesse ao de cima e apurar as responsabilidades. Foi essa a convicção com que eu aceitei. Modifiquei-a toda ao longo do processo.
Pois foi, e queremos perceber como é que acontece isso, porque de facto, todos os portugueses na altura tinham uma opinião sobre o que tinha acontecido em Saltillo. Ficou indignado com a atitude dos jogadores.
Fiquei indignado porque o que vinha cá para fora era um comportamento indecoroso dos jogadores. E lembro perfeitamente que até havia, nessa altura, a ideia de que os jogadores tinham tido uma voz ativa por intermédio de um triunvirato, que era o Bento, o Carlos Manuel e o Diamantino, o chamado Grupo do Barreiro. Portanto, identificados com esquerdismo, para não dizer o PC. Era o que constava nessa altura na chamada sociedade, que hoje nós denominamos com muito orgulho, sociedade civil. E eu fazia parte dessa sociedade civil e também estava convencido que tinha sido isso.
Mas quando é que ouve falar pela primeira vez de polêmicas em Saltillo, quando é que chega aos seus ouvidos que há, de facto, problemas com a seleção nacional no estágio do Mundial 1986?
Não lhe posso precisar a data certa, mas foi na altura, exatamente, quando a seleção já estava no México, já estava em Saltillo.
Na altura do comunicado.
Antes disso, antes da partida, não. Que eu me lembre, não tive qualquer noção acerca do que é que se iria passar, do que estava a acontecer, do que podia acontecer.
Então, diz-nos que parte com a convicção já de quem são os principais responsáveis por aquilo que acontece em Saltillo. Quais são os primeiros passos que faz na execução do trabalho, do inquérito?
O primeiro passo que eu faço: fui à federação, na sequência do telefonema do doutor Silva Resende. Eu estava no Porto nessa altura quando recebi esse telefonema. Já não sei passado quanto tempo, se um dia, dois dias ou três, já lá vai tanto tempo, já lá vão 40 anos. E fui à federação recolher o chamado material.
Que era?
Que era nada mais, nada menos que o relatório feito pela própria federação. Deram-me esse relatório, conhecia nessa altura o doutor Silva Resende. Acho que conheci também nessa altura os outros dirigentes, o António Pimenta, o Armando de Carvalho e os funcionários superiores da federação, o César Graça e António Malva. Foi esse contato que eu tive. Peguei no dossiê, levei-o comigo Fiz questão de não levar o dossiê para o meu escritório de advocacia, porque não queria confundir o plano profissional com aquela missão de que estaria incumbido. E até utilizei uma sala fora do meu escritório para, em Lisboa, ouvir os jogadores que estavam cá. No Porto foi diferente, ouvi os jogadores todos no hotel Porto Atlântico, no Graham.
Portanto, com esse material da federação, reforça a convicção de que os jogadores não estiveram bem, porque o contexto ou as conclusões desse relatório é para aí que apontava.
Sim, vamos lá ver o seguinte: talvez seja um bocado de exagero da minha parte, mas aquele relatório funcionava como nota de culpa aos jogadores. Portanto, era um ponto de partida para se ajuizar do comportamento da comitiva. Eu digo comitiva porque englobava também dirigentes, o selecionador, os médicos e isso tudo. Não era só os jogadores, nem de perto, nem de longe. Englobava toda a gente.
E depois para elaborar o seu inquérito aos factos, falou com todos os intervenientes ou falou com toda a gente que quis?
Falei com toda a gente que quis, mas queria aqui deixar dito que pouco tempo depois de me ter sido entregue o relatório da federação, ele veio publicado nos jornais. Houve, portanto, uma fuga de dentro da federação, certamente com o espírito de, talvez a palavra é um bocado dura, vou utilizar uma não a que ia utilizar que era sabotar, mas contornar.
O seu trabalho. Interpretou assim como um condicionamento.
Não era o meu trabalho, era o próprio trabalho da federação. Acho que alguém lá de dentro que discordaria do que se teria passado, da reação da federação no pós-Saltillo, resolveu, digamos, por sua iniciativa, nunca soube quem foi e não sei se a federação alguma vez conseguiu apurar quem foi. Essa pessoa, digamos, apercebendo-se de que me tinha sido entregue um relatório, que como eu digo, era uma verdadeira nota de culpa relativamente à comitiva, quis contornar, para não dizer sabotar, o trabalho. Tanto assim que eu tive mesmo para não iniciar o trabalho e ir entregar o dossiê: "Olhe, está aqui, não pegue nisto, uma vez que já veio a cor do dia e é público, não vale a pena fazer isso".
Reconsiderou e começou a ouvir os jogadores a seguir, foi o que fez?
Eu acho que comecei a ouvir os jogadores em seguida, já não me lembro se comecei pelos de Lisboa, se comecei pelos do Porto, mas ouvi os jogadores todos.
Ouviu os jogadores todos.
Todos, não falhou. A única pessoa que eu não consegui ouvir, porque pura e simplesmente se recusou, eu aliás até o conhecia, sem ser dessas lides desportivas, conhecia-o de que ele frequentava o mesmo restaurante que eu nessa altura, que era ali na Penha de Chagas. Foi o Joaquim Oliveira, o homem do Olivo Desportos.
Que nunca falou consigo.
Esse não.
Era importante tê-lo ouvido?
Ele disse: "Ó doutor, gosto muito de si, tenho muito respeito por si, mas não me meta nesse caldo". Caldo ou sarilho, alguma coisa qualquer assim. Foi assim. Desculpe, eu estou a falar com à vontade, mas acho que é assim que as coisas devem ser faladas.
Mas houve algum testemunho de um jogador que o tenha particularmente surpreendido?
Não, por uma razão muito simples que eu lhe vou dizer. Com a publicação do relatório, o que é que aconteceu? Presumo eu, para não dizer que tenho a certeza, o Sindicato dos Jogadores, através do doutor Paulo Relógio, meu colega, estudou o processo e deu instruções aos jogadores. Portanto, ouvir um jogador hoje ou ouvir 30 jogadores 30 dias depois, era exatamente a mesma coisa. O argumento deles era sempre o mesmo e dali não saíam.
Todos disseram o mesmo?
Todos disseram o mesmo. E o que diziam era isto: se havia publicidade, nós tínhamos que participar dela, até porque nós éramos a montra da publicidade. E era isso que eles diziam. E foi à volta disso que andou ali o inquérito.
E foi aí que começou a mudar de opinião quando ouviu esse argumento?
Não, comecei a mudar de opinião quando me apercebi que tinha havido já reuniões em Lisboa antes da comitiva partir, em que os jogadores tinham levantado os problemas dos prémios, da participação ou não nas receitas de publicidade, etc, nessa tal perspetiva de serem a montra. E aí disse: "Alto". E depois havia também umas histórias que se contavam em redor da presença de Portugal em Saltillo Que envolvia coisas menos, hoje talvez consideradas normais, naquela altura menos normais.
Está a falar do álcool ou da presença de mulheres?
Estou a falar da presença de mulheres. E até se constava naquela altura que aquilo tinha sido incentivado pela comitiva, com controles feitos temporalmente pelo próprio seleccionador nacional, o José Torres, que foi das pessoas mais encantadoras que eu conheci no âmbito do futebol. Era um homem extraordinário, era um amigo dos jogadores e era respeitado pelos jogadores.
Precisamente sobre o mister José Torres. Ficou claro o papel do treinador nesse braço de ferro entre a Federação Portuguesa de Futebol e os jogadores? Que papel teve o mister?
Ele era o conselheiro, era o jogador mais velho da selecção, era o conselheiro dos jogadores, no sentido de temperar as águas e pôr água na fervura. Teve sempre uma intervenção da acalmia dos ambientes, porque aquilo, de facto, esteve aceso porque havia promessas atrás de promessas. Quem estava em Saltillo era o Amândio de Carvalho, o dirigente da Federação, quem tinha ficado em Lisboa era o António Pimenta. Eu poupo os senhores ao designá-los como senhores, o Amândio Carvalho, o António Pimenta, porque o António Pimenta é que tinha tido reuniões com os jogadores em Lisboa, no continente, mas ele não foi. E quem foi? Foi o Amândio Carvalho. Presumo que houve ali uma desinteligência no percurso antes da selecção partir para o México. E, portanto, quem estava no México não tinha falado com os jogadores cá, quem ficou em Lisboa é que tinha falado com os jogadores. E isso, no fundo, contribuiu imenso para o agudizar da situação.
Do grupo de jogadores, todos os jogadores com quem falou, já disse que todos disseram o mesmo, mas encontrou diferenças nesse tal grupo citado, Bento, Carlos Manuel, Diamantino, eles eram de facto líderes, de alguma forma, do resto da equipa e sentiu que exerciam algum poder sobre os restantes companheiros?
Vamos lá ver, aquilo foi uma manifestação colectiva em que não se destacou A ou B. Quem se destacou mais, mas porque tinha um papel de intermediário entre os jogadores e a federação e os dirigentes, foi o jogador Fernando Gomes, do Porto. Ele é que levava, digamos, como se costuma dizer, a carta a Garcia e trazia novamente a carta.
Não era o capitão de equipa, o Manuel Bento?
Nem me lembro quem era o capitão.
Era o Manuel Bento.
Era o Manuel Bento. Manuel Garrinho Bento.
Exato.
Os jogadores não se destacaram durante o inquérito. Aliás, houve um, curiosamente, que eu anotei por uma razão muito simples, porque tinha havido um caso qualquer, uma peripécia entre o doutor Camacho Vieira, que era médico da seleção, e o Jaime Pacheco. Enfim, eu não vou agora aqui descrever essa peripécia, mas foi o único lado que se destacou de todas as intervenções dos jogadores. E curiosamente, foi um facto que eu registei. Houve um jogador que me disse, no fim da inquirição, em que disse o mesmo que os outros, voltou-se para mim, cá fora do Hotel Porto Atlântico, no Porto, voltou-se para mim e diz-me assim: "Ó senhor doutor, não faça nada ao Jaime Pacheco, contra o Jaime Pacheco. Ele é um tipo extraordinário, é um homem cheio de graça, é um brincalhão. Não leve a sério a peripécia que ele teve com o doutor Camacho e Vieira". Foi o único jogador que interferiu, que intercedeu por outro. Foi uma coisa que eu assinalei. Aquilo era de tal maneira colectivo que eles não tinham necessidade de se defenderem uns aos outros ou de se incriminarem uns aos outros. Não.
E não o distinguiu, de facto, ao Jaime Pacheco, no final do seu trabalho?
Olhe, já não me lembro. Acho que relatei qualquer coisa a propósito do Jaime Pacheco.
Não o distinguiu.
Não, o processo foi arquivado. Sou-lhe franco, o processo nem devia ter começado. E só começou porque Portugal perdeu. Porque se Portugal não tem perdido, não havia caso Saltillo. Tenha dúvidas nenhumas. Aquilo foi, não digo um pretexto, mas uma razão para aligeirar as culpas na ida da seleção para o México, porque não houve programação nenhuma, não houve planeamento, foi tudo diletante. Ao contrário dos clubes que principalmente tinham dado jogadores à selecção.
Já estavam muito mais profissionalizados.
Estavam muito mais profissionalizados, muito mais organizados, muito mais comandados. E isso refletiu-se muito lá nos jogos treinos, na ausência de competidores. Aconteceu tudo o que não devia acontecer. E não aconteceu o que devia acontecer.
Disse que o tema não deveria vir a público, mas não considera que se não se falasse disso nessa altura, o problema não podia ficar ainda pior, uma espécie de bola de neve?
Não, vamos falar o seguinte: a certa altura, falava-se tanto naquilo, que o alvo a abater era o presidente da Federação, o doutor Silva Resende.
Até porque já havia informações de que no Europeu de 84, a coisa também não tinha corrido bem.
No Europeu. E o clima geral, e até posso dizer e revelar que os próprios serviços administrativos da Federação me disseram a mim, nomeadamente o César Grazzi e o António Malva, já desaparecidos, me disseram: "Doutor Saltinho, comparado com França 84, não é nada".
Jaime Dória Cortesão, vamos continuar a conversar, vamos só fazer uma pausa e já voltamos. Até já. Estamos de regresso à conversa com o Jaime Dória Cortesão, nesta entrevista a propósito da participação portuguesa no Mundial de 86. Estávamos a falar aqui das condições de trabalho, quer do Mundial em 86, quer dois anos antes no Europeu de França. As condições de trabalho que ficou a conhecer através do inquérito que realizou chocaram-no, de facto? O que é que ali estava errado?
Vamos dizer, ali faltava tudo. Nem se pode dizer o que estava errado ou o que estava certo. Faltava tudo. Faltou todo o planeamento, a programação, as marcações, a viagem para o México foi organizada, até havia naquela altura que corria que tinham sido favores que a Federação tinha feito a uma agência de viagem, coisa que nunca se provou, pelo contrário. E, portanto, falava-se muito, dizia-se muito, mas de factualidade, pouco ou nada existia.
Havia uma equipa técnica, havia um preparador físico, havia um médico.
Havia o médico, era o doutor Camacho Vieira. O preparador físico, julgo que era o professor Monge da Silva.
Precisamente. Era sim.
Não garanto, porque isto já lá vão 40 e tal anos.
Não era aí que a seleção estava mal, era na questão de organização, de planeamento.
De organização. O hotel não era um hotel, era um motel, não teria aquelas condições. Tinha as mínimas, mas não tinha as desejáveis. E, portanto, falhou. A Federação aí falhou. E portanto, isso talvez tenha feito os jogadores não se sentirem acompanhados por uma boa organização. Isso era evidente. Toda a gente criticava. Acho que o hotel nem sequer tinha uma sala de estar para reunir. Os jogadores se queriam falar uns com os outros e reunir, tinha que ser à volta da piscina, julgo eu. Enfim, era um horror.
Houve falta de disciplina no estágio. A responsabilidade, no fundo, pode ser atribuída a alguém em concreto?
Olhe, há uma expressão portuguesa que eu não gosto de utilizar, mas que se aplica inteiramente ali. Eu, na minha vida profissional, não sou assim, que é o nacional porreirismo. Está tudo a correr bem, nós improvisamos isto e aquilo. Era assim que se fazia. Hoje em dia, não. Hoje em dia, a Federação Portuguesa de Futebol, não é que eu conheça lá alguém de perto, é uma estrutura mesmo séria e a sério. É tudo ao pormenor.
E 86 teve impacto no que é hoje a Federação Portuguesa?
A falta de organização, de planeamento, de programação, veio tudo ao de cima. E culminou, digamos, com as reivindicações dos jogadores e aquela coisa absurda de quem esteve cá não foi e quem foi não tinha cá estado.
O Sindicato dos Jogadores foi importante para a discussão que se seguiu ao caso de Saltinho. Consigo, nomeadamente. Ouvíu também o sindicato ou o facto de os jogadores já terem tido conversas prévias antes de falar consigo, dispensou de ter essa?
Eu tenho ideia que não cheguei a falar com o sindicato e o mundo dá muitas voltas. Veja lá bem que o presidente do sindicato naquela altura era o José Eduardo Sampaio. E nada mais, nada menos. Há uns anos, eu fui advogado do José Eduardo Sampaio num processo do Marco Silva contra ele, por causa de umas declarações que ele tinha feito.
O mundo é pequeno.
O mundo é muito pequeno, dá muitas voltas.
Foi difícil apresentar um relatório que contrariava a tese de quem o convidou a fazer o relatório?
Como deve calcular, talvez a entrega do relatório correspondesse, no espírito de algumas pessoas, à natureza de uma encomenda. "Toma lá isto e faz lá aquilo que é o desejável para a Federação." Mas tenho que ser muito sincero: nunca tive pressão alguma de ninguém. E sobretudo, quero aqui referir a total ausência de pressão pelo doutor Silva Resende. O doutor Silva Resende nunca me dirigiu a palavra, nunca disse: "Ó doutor Corsão, veja lá como é que isso está, como é que vai o processo". Nada. Tive liberdade total. Portanto, eu fui à Federação pela segunda vez para entregar o relatório.
E não voltou a falar com Silva Resende a propósito do caso?
Não voltei a falar com o doutor Silva Resende.
Não foi contactado por ninguém depois de entregue o relatório, por alguém da Federação Portuguesa de Futebol?
Que eu me lembre, não fui contactado. Não fui. Eu não tenho dúvidas nenhumas que o relatório surpreendeu a direção da Federação por ser eventualmente inconveniente para os desígnios iniciais, se é que os houve. A Federação foi obrigada a fazer o inquérito, porque as associações de futebol regionais, distritais ou concelhias, como se queira chamar, faziam uma grande pressão para que houvesse o inquérito. Em nome de quê? Daquilo que constava cá fora e que se provou que não foi nada. Aquilo foi uma reivindicação tal, mas sou claro numa coisa: tivesse Portugal tido um sucesso futebolístico, Saltinho hoje era recordado por ideias contrárias àquelas que ainda hoje se falam.
Mas isso é também o tal nacional correria de que estava a falar. Quando as coisas correm bem, quando os resultados desportivos são bons, não se olha para os problemas.
Não se olha para os problemas. As pessoas passam ao lado deles, por cima deles, etc.
Mas era uma bomba-relógio.
Era. Mas queria deixar aqui bem frisado: fui duas vezes à Federação, uma para recolher o relatório e outra para o entregar. Conheci aí o doutor Silva Resende, que nunca me falou em nada, nunca me pressionou em nada. Ninguém. Lembro-me de ter almoçado com o senhor César Grácio, o doutor César Grácio, e o António Malva. Almoçamos duas vezes a um restaurante onde por acaso ia o Joaquim Oliveira, que era ali na Pinheiro Chagas. E eles também nunca me pressionaram. Só saber se eu era bem tratado pelos jogadores, se era mal tratado. E não passou disto. Não tive a mínima pressão.
Ainda assim, acredita que o relatório terá surpreendido a Federação Portuguesa de Futebol e a sociedade portuguesa. Surpreendeu os portugueses? Ficaram surpreendidos? Quais foram as reações?
Naquela altura, é capaz de ter surpreendido alguém, porque as coisas não estavam esclarecidas e, portanto, os jogadores tinham sido os maus da fita. É natural que tenha surpreendido. Hoje em dia, se o relatório fosse hoje, se o caso Saltinho fosse hoje, não surpreendia ninguém, porque as pessoas não estão habituadas a que os inquéritos e os processos dêem em alguma coisa. Isto é um país de brandos costumes, mas ali não foi brandos costumes. Ali foi justiça feita.
E acha que o seu relatório contribuiu para acabar com este braço de ferro?
E vou dizer mais uma coisa: eu acho que até o meu relatório, se fosse no sentido contrário, por alguma razão, que ia complicar muito mais a vida à Federação.
Por quê?
Eu acho que o relatório, por não se ter transformado o inquérito num processo disciplinar e ter sido praticamente arquivado, até terá aliviado a Federação, porque as pressões das associações junto da Federação eram imensas.
As pressões, porque além dos castigados, houve também uma série de indisponíveis. Muitos jogadores que deixaram de querer ou de poder alinhar pela seleção.
Houve jogadores que não quiseram representar mais a seleção. Houve jogadores que se autosuspenderam, não se autoexcluíram. E houve só um jogador que eu conhecia bem, porque eu sou da Académica e ele tinha sido jogador da Académica durante vários anos, vindo do Crac Slamek, que era o Álvaro. Eu conhecia-o bem como jogador da Académica. Os outros, conhecia-os de nome apenas.
Este caso tornou-se também num caso político. O assunto esteve no Parlamento, o assunto foi discutido pelo primeiro-ministro, pelo presidente da República. Isso foi também uma pressão para que a situação se resolvesse?
Não, eu acho que com a entrega do relatório o assunto ficou resolvido. E depois, como sabe, os políticos apanham o comboio.
Foi isso que fizeram também aqui?
Acho que sim.
Esteve em discussão e houve uma possibilidade muito séria de haver uma comissão parlamentar de inquérito ao caso, só não aconteceu por um voto dos deputados. Teria sido diferente se o assunto fosse levado ao Parlamento?
Eu gosto das comissões de inquérito, politicamente falando, e parlamentares, porque acho que se apura lá muita coisa, embora fique também muita coisa por apurar. Mas há trabalho profícuo das comissões de inquérito. Portanto, era natural que essa comissão de inquérito produzisse um trabalho útil, mas quase que lhe garanto, embora ninguém possa afirmar isso, que as conclusões não seriam diferentes daquelas que constavam do relatório feito por mim, que não havia razão para haver um escândalo do caso Saltillo. É o que eu pensei na altura e continuo a pensar. Os jogadores naquela altura não eram perspetivados como são hoje, que são titulares de direitos e deveres. Naquela altura eram pessoas que, como dizia a sociedade civil, elitista: "Eles nem sabem comer". Hoje não é assim. Hoje, se calhar, temos dirigentes é que não sabem comer.
Os jogadores não eram trabalhadores privilegiados na altura, eram montras.
Eram privilegiados na medida em que ganhavam muito mais que o cidadão comum. Embora nada parecido com as somas astronômicas de hoje. Mas eram seres humanos como os demais. Mas havia muita gente que olhava para o jogador como o tipo que só sabia dar pontapés na bola e que não tinha massa cinzenta. Não é assim hoje. E deixou de ser a partir do caso Saltillo, acho que o papel do jogador e do próprio dirigente desportivo ganhou uma nuance e um grau.
Já está a gravar de novo.
Sim.
Podem continuar a falar.
Estava a contar-nos que depois de entrega o relatório, teve um contacto da federação, de alguém da federação.
Não foi da federação, foi do senhor Armando Carvalho. Emocionado, porque eu na véspera tinha referido na televisão, numa entrevista, presumo, conduzida pelo jornalista Ribeiro Cristóvão, tinha resgatado a imagem do Armando Carvalho. Tinha resgatado, dizendo que ele não era culpado do que se tinha passado, mas que a situação a montante é que era a responsável por aquilo que se lá passou. E ele telefonou-me: "Dr., era só para lhe agradecer as suas palavras". Eu disse: "Não há nada a agradecer, eu não disse mentira nenhuma, são justas. E, portanto, olhe, durma descansado, que é o que o senhor precisa, durma descansado, porque o senhor tem andado sempre aí, o seu nome sempre aí atravessado". E depois, curiosamente, uma vez encontrei-o no Tribunal do Montijo, quando ele foi apresentar a candidatura para a Câmara do Montijo, uma coisa que ele queria com as assinaturas necessárias, encontrei e ele fez uma grande festa, eu fiz uma grande festa, nunca mais o vi. Sei que ele, entretanto, morreu. O António Pimenta nunca mais o vi.
O Silva Reis também não.
Como eu lhe disse, foi na entrega do relatório da federação e depois na entrega do meu relatório. Duas vezes. Nunca mais.
Então o que nos está a dizer é que conseguiu passar por este processo não fazendo inimigos.
Que eu sinta, não, mas às vezes os inimigos vêm de onde menos se espera. Mas neste caso concreto, posso lhe dizer que não senti da parte de nenhum jogador. Eles tinham receio, os jogadores tinham receio, estavam convencidos que eu estava ali mancomunado com a federação para lhes cair em cima. Mas acho que eles foram se convencendo à la longue do processo de que eu era isento. Estava ali para apurar.
Não fez questão de dizer isso logo no início das conversas com os jogadores?
Não. Que eu me lembre, não senti necessidade de dizer: "Olhe, que eu não estou aqui para lhe tirar a pele e os ossos".
Mas não foram conversas tensas.
Não. Foram conversas normais, naturais Distingui-se de alguns jogadores por uma terminologia mais rica do que outros. Mas de resto, não. Eu acho que eles a certa altura convenceram-se que eu seria tão isento quanto possível, tão independente quanto possível. Acho que se convenceram disso. E se convenceram, convenceram-se com razão.
Só uma curiosidade: por acaso seguiu alguma ordem em específico, definiu alguma ordem de conversas com os jogadores ou foi tudo aleatório?
Olhe que eu me lembro, não. Já nem sei por quem é que comecei. Já nem sei se comecei por Lisboa ou comecei pelo Porto. Eu só me lembro de uma coisa que era um episódio giro. É quando chamei o Futo para ir prestar declarações, praticamente tive que o acordar, porque o Futo dormia com uma facilidade em todo o sítio. Era impressionante.
Mas adormeceu no escritório?
Não, no hotel, no Porto Atlântico. Estava semi-adormecido. E lá vai ele.
Era um jovem atleta rebelde, não era?
Era. Rebelde era igual aos outros. Era simpático, talvez atrevidote, não sei.
Ouviu também os jornalistas? Para si era importante ouvir também quem lá esteve, quem esteve em Saltillo e foi relatando os acontecimentos. Até porque há acusações de alguma indisciplina que envolvem os próprios jornalistas que lá estavam.
Olhe, sinceramente, não lhe sei dizer se ouvi jornalistas ou não. Se não ouvi, foi porque achei que não era necessário. Se ouvi, foi porque achei que era necessário. Mas se me perguntar hoje se eu ouvi ou não ouvi, não lhe posso dizer, e muito menos quem.
Não tem memória, não regista ou é porque não foi importante.
É.
Agora já conseguimos dizer isto: houve, de facto, um antes e depois de Saltillo para a forma de funcionamento do futebol português.
Completamente.
Ou de cada vez que há um problema com a Seleção Nacional, nos lembramos de Saltillo?
Vamos lá ver o seguinte: o futebol de hoje, a organização, o futebol que está a montante e a jusante do futebol é completamente diferente daquela altura. Agora, Saltillo serviu exactamente para mostrar como é que as coisas não podiam acontecer antes de uma comitiva partir e representar o país.
E se fosse hoje?
Não havia Saltillo.
Por quê?
Não havia Saltillo. Porque estava tudo programado, tudo planeado, tudo como deve ser. Trems marcados, horas, o hotel como devia ser, etc.
Não vai voltar a acontecer.
Olhe, nunca podemos dizer o que é possível. Como a lei de Murphy diz, o que é possível acontecer, acontece. Mas eu estou convencido que não será provável. Hoje as coisas são levadas muito a sério. O futebol de hoje não tem nada a ver com o futebol de há 40 anos e o de há 40 anos não tinha nada a ver com o futebol de 40 anos antes, do tempo da Segunda Grande Guerra e assim sucessivamente. Estamos em evolução. Hoje em dia, o futebol está muito estruturado, mesmo a nível da terceira e da segunda divisão. É impressionante. Com os seus departamentos técnicos e, sobretudo, com uma coisa que hoje é palavra de ordem em todos os clubes: é a formação.
No fim de tudo isto, e 40 anos depois, tem a convicção de que se fez justiça neste caso?
Completamente. Fez justiça completamente. Ou por outra, até diria o contrário. Seria uma injustiça ter havido alguma condenação. Olhe, era a época. A falta de estrutura era a época, traduzia a época. Também tínhamos 10 anos de democracia naquela altura. Enfim, estavam as coisas a iniciar-se.
O que espera da seleção que vai começar este mundial?
Olhe, para lhe ser franco, as minhas esperanças não são muitas. Os jogadores têm uma acumulação de jogos impressionante e, portanto, a questão física, penso quanto a mim, vai ser preponderante, porque a questão técnica, nós somos dos melhores do mundo, como sabe. Não é por termos o melhor do mundo ou o ex-melhor do mundo, não é por isso, mas de facto temos uma capacidade técnica espantosa.
E outro tipo de condições também. Já não vamos com 40 dias de antecedência.
Não. O quê? Sim, aquilo foi uma loucura a estadia e a duração de estadia, ainda por cima num sítio sem quaisquer condições.
Com o campo inclinado.
Campo inclinado, com buracos, sem equipas para treinar. Havia muito pouco. Mas enfim.
Jaime Torto Curtidão, muito obrigada por teres vindo à Rádio Observador.
Muito obrigado.