Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
O Esplendor e a Infâmia às quartas-feiras na Rádio Observador, com o diretor adjunto Pedro Jorge Castro. Estás pronto para mais uma edição, Pedro, em véspera de feriado, dia de greve geral?
Ansioso por isso, mas noto pouca euforia aqui. Acabamos de ser eleitos para o Conselho de Segurança das Nações Unidas, não vamos todos festejar ao Marquês.
É verdade. Não posso agora porque estou a fazer o programa, mas vou já a seguir. Eu ainda pensei nisso, mas a Judite não quis.
Isso mostra mais uma vez que somos ótimos a conseguir estes sucessos diplomáticos e depois não tão memoráveis no exercício dos cargos. António Guterres e António Costa podem dizer isso mesmo, se calhar. Dizem todos aqueles que têm lidado com ele e têm visto estes portugueses influentes no mundo numa altura destas e o pouco resultado que isso tem tido.
Então não será por aqui que vamos para o esplendor.
Não, para o esplendor vamos à praia.
É uma das polémicas do momento. Chapéu de sol, área concessionada e a zona para chapéus de sol. O que há de esplendoroso nesta polémica, Pedro?
Essa é a parte fácil. O que há de esplendoroso aqui são as nossas praias. Temos uma costa lindíssima com quase 400 praias com bandeira azul, de areia branca. É isso que faz muitos de nós querermos ir para as nossas praias. Temos muita sorte por termos estas praias assim acessíveis. Não há comparação, por exemplo, com o que acontece nos Estados Unidos, onde há jipes e SUVs em pleno areal a disputar o espaço com os banhistas. Não há comparação com o que acontece, se calhar, numa parte significativa de Itália, onde as praias são pagas. Não há comparação também com o que acontece noutros países mais nórdicos, onde a água é tão fria que se calhar nem qualifica tecnicamente como praia. Outras zonas onde a areia é escura ou é rocha. Aqui temos um autêntico paraíso no perímetro do nosso país com o mar. E claro que todos nós temos lados nisto, nesta polémica. Vem um verão quente nas nossas praias, com uma luta de classes em pleno areal. E eu próprio tenho uma luta de classes dentro de mim, que é o eu agora com o eu daqui a uns anos. O eu agora sou um forreta gigantesco, mas tenho que reconhecer que há aqui uma equação de dinheiro e conforto. Neste momento, minha ida à praia, eu sou grande fã de praia, eu gosto muito de praia, não se nota pelo meu bronze, porque eu tomo cuidado, obviamente, e protejo a pele, mas começa no telefone a conferir temperaturas nos vários sítios. Tenho uma série de sítios fixos nos termómetros do meu telefone. E depois a ver o trânsito. Quanto tempo é que se demora a chegar a cada praia. E tudo isto está nessa equação. Depois, antes de sair de casa, o farnel. Lá está, furtivo. Eu não saio de casa para a praia sem o farnel com sanduíche e uvas.
Uma rozinha de tomate.
Nada. Não levo geleira, isto é tudo bastante discreto, mas é bastante útil. Dá muito jeito escondido na mochila, para evitar exorbitâncias. Eu também gosto de petiscos, mas lá está, há aqui um ponto de equilíbrio. Uma parte é assegurada a partir de casa, para estar ali é mais prático.
Mas preguiçadeira também não, é isso?
Não, eu não uso preguiçadeira nem toldo. Seria incapaz de pagar o valor que pedem. Já estamos em €30, se calhar numa parte significativa das praias, por um toldo e duas preguiçadeiras. Eu neste momento acho que isto é muito dinheiro, prefiro gastar isso em petiscos no fim da praia. Gosto de ir com a raquete, que é mais chatice, portanto também é preciso espaço. Também não gosto de incomodar as pessoas. Isto é tudo um problema. Isto acaba como normalmente acabo por fazer viagens de uma hora e tal, até encontrar uma praia onde consiga espaço e sem chatear muita gente, sem ninguém me chatear muito a mim, sem pagar toldo, sem pagar nada disso, e estar ali sossegado. Prefiro isto a estar uma hora e tal num engarrafamento na ponte 25 de Abril. Fico muito irritado com isso, de facto. Ter que pagar avulso os estacionamentos, ter que pagar avulso para conseguir os cantinhos na praia. Mas então, isto sou eu agora e se calhar eu daqui a uns tempos, ou vou ser muito rico e é-me indiferente isto, este era o cenário que eu mais gostava.
Vais te aburguesar.
Mas não estou a ver quando é que isso vai chegar, ou então vou ser mais idoso e vou precisar mesmo do conforto do toldo e da preguiçadeira, vou menos vezes para ter isso, não sei. Mas esta tomada de posição pública do presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, Pimenta Machado, até me parece tendencialmente correta em termos de princípio. Em termos simbólicos, é uma maneira de garantir que as praias não são privatizadas, não começam a ser espaços impossíveis de frequentar pela população, mas parece-me desajustada no timing e no tom. Eu não percebi de onde é que isto veio exatamente, ou seja, não me apercebi de ter havido um megaconflito a suscitar esta tomada de posição. E depois, agora sim, depois disto, vejo toda a gente muito extremada. De repente, eu vejo gente preparada não para ir para a praia descansar e fruir do espaço, mas preparada para batalhas campais. Há gente que se vai armar para ir para as praias, para este confronto de um lado e do outro, que é uma coisa que me faz alguma confusão. Eu tenho muitos confrontos nas praias este ano. Imagino muita gente a começar a filmar discussões para pôr nas redes sociais, para mostrar que lado é que tem razão. Aqui, mas isto é facílimo, slogans e palavras de ordem inspirados no PRE não faltam. O povo de chapéu unido jamais será removido. A areia é a quem acorda cedo para lá entrar o chapéu. Nem mais um tostão para os toldos.Eu não vou estar para isso.
O sol é de todos.
Não vou estar para isso, mas temo que haja muita gente a reagir de forma mais tribal. Vamos diretos para o Baú.
E nem de propósito, para o Baú, foste pesquisar os primeiros concessionários de praia. Como é que correu essa viagem ao século XIX?
Pois, já vem de há muito tempo. E curiosamente a praia, só há muito pouco tempo, tendo em conta a nossa história larguíssima, é aquilo que nós fazemos dela hoje, porque durante muito tempo ou não era frequentada de todo, ou era apenas por questões de saúde, portanto, por fruição. Começou por ser algo reservado às elites e à família real. Era caríssimo ir à praia, porque era obrigatório um determinado traje ser usado pelos banhistas, que não estava ao alcance de qualquer pessoa, e depois era preciso contratar um banheiro para levar as pessoas à água. Há registos de umas primeiras concessões com o nome dos pioneiros em Sesimbra. Também lá em cima houve uma tentativa de fazer uma concessão, ainda no fim do século XIX, durante 30 anos, em Viana do Castelo, que ficou vazia, ninguém quis. Vejam lá, tal era o desinteresse. Depois mudaram isto para a Póvoa de Varzim, onde começou a zona de jogo, que ainda hoje tem lá um cassino representado. Mas prova de que a ida à praia não tinha nada a ver com aquilo que é hoje, são as palavras de Gervásio Lobato. Gervásio Lobato é tio-tetravô de Meghan Markle, portanto uma referência, e já tinha muita graça a escrever. Há um relato dele, isto foi publicado em 1885, refere-se a bastantes anos antes, em que ele diz: "Quando tinha cinco anos, pespegavam-me todas as manhãs de setembro dentro do Tejo." Isto era ali em frente à Torre de Belém. "Eu tremia como varas verdes, chorava, gritava, rebolava-me pela areia, fingia doenças, mas era tudo em vão. Vinha o Roque, um banheiro muito alto, muito forte, muito vermelho de cabelos ruivos, pegava em mim e zás, água de toalha. Lembro-me ainda desse tempo com terror. O mês de setembro era para mim um mês de suplício. Não tinha um minuto de felicidade nos 43.200 minutos desse negregado mês." E pronto, assim vemos como o tempo muda as coisas. Hoje todos queremos lá estar. Na altura, coitado do Gervásio, isto era um momento de enorme pesadelo para ele.
E todos sabemos como é difícil tirar os miúdos da água. Vamos à Infâmia. E na Infâmia, a greve.
A greve, sim. Em dois aspetos muito específicos. Um, o medo. Eu acho que está censurável, obviamente, pessoas que vão trabalhar com medo da forma como isso vai ser recebido, como pessoas que não vão trabalhar com medo da forma como os colegas os vão receber em piquetes à caça de fura greves. Ainda não houve muitos casos hoje. Vamos ver até ao fim do dia se aparece algum relato este ano. Espero que não. E depois os números, esta guerra dos números. Não há paciência nenhuma para isto. O PCP iniciou ontem um talk show noturno com deputados no YouTube. Foi um estrondoso sucesso, chegou a ter 100 pessoas a ver. Com todos os piquetes de greve, com umas condições técnicas complicadas, porque estava difícil de acompanhar.
Eu ainda esperei, mas chamavam a fábrica da Super Bock e afinal não era. Vi esse bocadinho.
E foste beber uma cerveja.
Não pude ir dormir.
Mas temos dois balanços da CGTP, um divulgado às primeiras horas do dia e depois outro divulgado já à hora de almoço. E o que eu acho extraordinário é como os balanços demonstram em si a sua inverosimilhança, que é a quantidade de sítios onde a adesão à greve é de exatamente 50%. Isto faz-me temer, eu lamento imenso, mas são mesmo dezenas de sítios onde é 50%. E depois não há nenhum sítio onde a adesão tenha sido inferior a 45%. Portanto, daí para baixo, ou ninguém teve coragem de dizer à CGTP: "Isto ficou abaixo dos 45%".
Só o Antunes é que não vai.
Ou a CGTP entendeu que não devia divulgar esses dados. Faz mal, claro, porque isso descredibilizaria o resto da informação. Mas os 50% parece mesmo aquelas coisas atiradas para o ar. "Olha, aqui é metade." E eles arredondam isto para 50%. Deste ponto de vista, aquilo que disse a ministra pareceu-me mais realista, ou seja, foi aos efeitos reais do que está parado e do que não está parado. Admitiu que nos serviços públicos a adesão foi maior, nos serviços privados não tanto, o que aliás está em linha com aquilo que tem vindo a acontecer e parece-me que confirma o declínio do sindicalismo e da adesão aos sindicatos por parte da população do setor privado. Espero que na próxima greve geral, que virá seguramente mais tarde ou mais cedo, que se reveja esta coisa dos números e que a CGTP arranje maneira de não se descredibilizar com os números que adianta de adesão à sua própria greve.
E fica feito o Esplendor e a Infâmia desta semana. Para a semana há mais Esplendor e Infâmia com o Pedro Jorge Castro aqui nas Tardes Políticas da Rádio Observador.
Até para a semana.