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Sabia que dois terços de Portugal continental são ocupados por agricultura e floresta? É verdade, 70% do nosso território vive do que a terra dá, mas a maioria de nós vive de costas voltadas para esta realidade. Seja muito bem-vindo ao "Lado B da Terra", o novo podcast da Rádio Observador, em parceria com a B Rural, em que vamos pôr as mãos na terra, mas sempre com os olhos no futuro. Eu sou o João Costa e Silva e ao longo destes 12 episódios vamos mostrar-lhe que o setor agrícola e florestal em Portugal não é o que viu nos livros de história, é tecnológico, sustentável e está cheio de oportunidades. Aliás, neste episódio vamos falar sobre isso mesmo com o Pedro Santos, diretor-geral da Consulai, Rui Almeida, diretor operacional da Consulai e também coordenador do projeto B Rural. Bem-vindos aos dois. Estou em boas mãos hoje para conhecermos este projeto. Pedro Santos, vou começar por si. Este dado que disse aqui logo na introdução, dois terços do território, surpreende muita gente. Temos uma população muito ligada às cidades, maioritariamente urbana, que parece até desconhecer o próprio país. Que fotografia que nós podemos tirar hoje à agricultura e à floresta em Portugal? Falamos de um setor estagnado ou, como já disse também e avancei aqui, cheio de oportunidades e muita coisa para descobrir. Bem-vindo.

João, muito obrigado. Quando se fala em dois terços, até estamos a ser modestos.

É?

Na verdade, são praticamente três quartos. Se nós pensarmos, Portugal tem qualquer coisa como 9, 9,2 milhões de hectares, a agricultura ocupa 3,9 milhões de hectares, a floresta 3,2 milhões de hectares, portanto, são sete milhões de hectares.

Eu nunca fui bom a contas. Portanto, está aqui a resposta à verdade.

São praticamente três quartos de Portugal com estas culturas, e que de facto marcam o nosso território. Se olharmos para os dados do INEC, que classifica os municípios entre urbanos, rurais e mistos, nós temos 46% dos municípios são rurais e apenas 22% são urbanos, mas estes urbanos é onde está a população.

Claro.

44% da população está nestes territórios, mas se olharmos para aquilo que são as cidades, mais alargados, porque tem alguns municípios que apesar nesta orla urbana são classificados como rurais, são praticamente 80% da população, estão nestes 5% de área em Portugal. E portanto, esta dicotomia faz com que os setores pareçam um bocadinho fora do contexto, um bocadinho afastados, e às vezes quando vamos a passar na autoestrada não nos apercebemos daquilo que é a evolução do setor. E o setor tem evoluído muito. Apesar de hoje em dia, este complexo entre agricultura e floresta representar apenas 5,1% do PIB, tem vindo a fazer uma revolução tecnológica brutal. Nós vamos ao campo e vemos os tratores autónomos, vemos os drones a monitorizarem culturas, vemos biotecnologia da mais evoluída que existe. Nós vamos ao campo e vemos um conjunto de controlo de precisão, por exemplo, da água nas plantas, que nós não temos em casa. Você pergunta a um agricultor quanto é que ele gasta por hectare e ele sabe quanto é que gasta porque vê no telemóvel.

Sim.

Se eu lhe perguntar quanto é que gasta de água, o João não sabe.

Não faço ideia.

Não faz ideia. E esta diferença é uma diferença que tem evoluído muito, tem sido uma evolução brutal, e a agricultura e a floresta, no fundo, têm esta capacidade de ter que alimentar pessoas, ter que se adaptar àquilo que são as alterações climáticas, e isso é um vetor de inovação brutal, porque temos que responder a isto quotidianamente, e ao mesmo tempo, temos que gerir território, que ocupamos os tais três quartos do território. Mas é um setor onde a revolução está de facto acontecendo todos os dias e é um setor altamente motivador também por causa disso.

E temos de estar atentos a isso. Há muito este preconceito que o interior e o mundo rural estão abandonados, ou até esse sinônimo de isolamento. Rui Almeida, está muito ligado à operação e ao terreno com a B Rural. Como é que este projeto nasce para contrariar precisamente esta narrativa que existe em Portugal? Todos temos uma espécie de preconceito em relação a isto, nomeadamente os mais jovens, não é assim?

Sim, é verdade. E o enquadramento que vocês fizeram foi perfeito. Ou seja, no mundo onde a nossa agricultura é realmente como o Pedro disse, e o João também confirmou, é cada vez mais tecnológica e mais moderna, mas, por outro lado, a perceção que existe não é essa, é exatamente a oposta. E então aqui o B Rural, no fundo, é o movimento do setor, que é representado e promovido pelas principais associações do setor, e onde se pretende é exatamente isto, é passar a mensagem, que vamos passar aqui neste programa do "Lado B da Terra", passar a mensagem de que as perceções que ainda existem e muitos dos mitos, porque existem também muitos mitos-

Às vezes também são falados nas escolas, não é? Alimentam-se esses mitos.

É verdade, que são falados nas escolas, é um trabalho que o B Rural também está a ter uma grande aposta para tentar ir logo à escola, logo desde os pequenos.

Desconstruir isso, não é?

Desconstruir um pouco isto, porque a verdade é, e isto acontece, acho, com quase todos nós, que no antigamente, bem ou mal, tínhamos uma ligação à terra dos nossos avós, onde nós íamos passar um mês de férias, uns com gosto, outros em contragosto, digamos assim No meu caso, até era com gosto. Isso acontecia na nossa geração, mas agora nos mais novos, isso perdeu-se muito. E quando se perde, como essa ligação deixa de existir, a imagem que fica era de como era antigamente. E eu, por exemplo, se tivesse essa imagem, pensava que realmente a agricultura, no fundo, era andar de um lado para o outro com uma enxada no ombro. E isso atualmente não é verdade de todo. Hoje em dia podemos dizer que há mais sensores num hectare de terreno do que em muitas das nossas casas. Mas isto é preciso ser mostrado e comunicado. E é para isso que o B Rural apareceu e daí a expectativa aqui do lado B da terra, que pensamos que vai desconstruir muitos dos mitos que ainda existem, que persistem.

E há muitas pessoas que vão conhecer aqui as potencialidades e se calhar ainda vão a tempo de mudar, quem sabe, de carreira.

Sim, muitas pessoas, e agora o João disse muito bem, especialmente os mais jovens. Porque o queremos demonstrar aqui e também para os mais jovens, ou sobretudo para os mais jovens, é que existe aqui um espaço muito grande para eles poderem crescer e criar impacto nos tais três quartos de território, que o Pedro falava.

Três quartos. Já não me vou esquecer.

Exatamente, é um dos números que fica.

E Pedro Santos, vamos precisamente aí aos jovens. Como é que convencemos um jovem de que o futuro da tecnologia, da inteligência artificial e até do combate às alterações climáticas, passa precisamente pela agricultura e pela floresta?

Eu se calhar pegava até nestas palavras do Rui também e fazia aqui a ponte para um dos mitos que marcam o setor, que é a agricultura ser a arte de empobrecer alegremente. E nós, com este mito que existe, é impossível motivar qualquer jovem para vir para a agricultura. E, portanto, a primeira mensagem que eu queria passar é que de facto é possível viver bem nestas atividades. São atividades que são verdadeiras oportunidades, porque dão oportunidades de carreira, a ganhar como outras atividades. E, portanto, desde logo dizer aos jovens que não, a agricultura não é pobre e pode ser rica. Eu acho que não temos que ter vergonha dessas coisas, porque é possível fazê-lo. Do lado da motivação, eu acho que desde logo, perceber que estes setores são setores que respondem de uma forma muito concreta, se calhar, aos maiores desafios societais que se colocam nos próximos tempos. As perspetivas apontam para 10 bilhões de pessoas, vamos ter que produzir mais 70% do que produzimos atualmente. Temos que trabalhar muito no combate ao desperdício alimentar. Portanto, temos aqui tantos desafios pela frente, que estar no centro desta alteração, eu acho que só por si, é motivador. Mas ao mesmo tempo, pensar que é um setor que tem, e eu acho que os próximos episódios vão mostrar também isso de uma forma muito marcada, um conjunto de tecnologia no seu DNA, quase. Quer dizer, se pensarmos até nos nomes, percebemos que está ligado à agricultura e à produção. São as biotecnologias, são os biomateriais, são os biocombustíveis e tudo isto está a ser trabalhado hoje em dia na agricultura e, portanto, diria que a agricultura e a floresta, desse ponto de vista, são laboratórios a céu aberto, onde é possível fazer a diferença. Portanto, falando diretamente para os jovens, eu acho que se quem quer trabalhar com inteligência artificial e resolver problemas concretos, eu acho que poucos setores são tão relevantes e com tantas oportunidades como aqui o setor agrícola e florestal, onde é possível, desde logo, prever colheitas, gerir água, reduzir incêndios florestais.

Há um mar de possibilidades, no fundo, não é?

Há um mar de possibilidades e que têm impacto direto na sociedade e naquilo que é o futuro da sociedade.

Muito bem. Rui Almeida, a B Rural tem também este grande desafio, que é rejuvenescer o setor. Que tipo de projetos ou histórias é que vamos também poder acompanhar ao longo desta série? E vamos possivelmente conhecer muitas histórias que nos vão fascinar por isso mesmo, pelas novidades e por aquilo que está a mudar na agricultura. Mas acima de tudo, o que é que pode atrair e pode ser viável para estas novas gerações?

Sim, no fundo, vamos mostrar o que normalmente não aparece, que falamos há pouco, que é o tal lado B.

E C, e D, por aí fora.

Sim, eu espero que sim. Até porque vamos ter aqui muitas histórias e, na verdade, é isto, em vez de sermos nós a falar pelo setor agrícola e florestal, vamos ter aqui histórias na primeira pessoa. E eu acho que isso é muito importante, porque é importante não só para quem nos vai ouvir, mas também é importante para quem vai passar a mensagem, porque vai ter aqui uma oportunidade de realmente, como falámos há pouco, tentar desmistificar muitas coisas que acontecem e tentar mostrar de forma clara. Nós tínhamos um claim aqui do B Rural, que é: "A agricultura evoluiu, só você é que não viu", que foi dos primeiros claims que nós tivemos logo no início. E portanto, vamos ter aqui histórias de diferentes fileiras, digamos assim. Vamos ter o setor hortofrutícula, vamos ter o setor do azeite, vamos ter o setor dos cereais, vamos ter a floresta, vamos ter os frutos secos e, portanto, vamos ter aqui muitas histórias na primeira pessoa, onde vão realmente mostrar como trabalhar na agricultura não só é tecnológico, mas é também, acima de tudo, atrativo. É atrativo e é um prazer. E eu vejo mesmo muitas das pessoas que trabalham conosco, muitos deles são citadinos, mas que a partir do momento em que percebem o que é o setor agrícola e o setor florestal, parece que estão em um mundo novo e depois o difícil é sair de lá, porque a partir do momento em que se entra, a paixão é imediata, é o chamado paixão à primeira vista. A paixão é imediata e é muito difícil sair depois de lá. E, portanto, o que nós vamos querer aqui demonstrar, e através do B Rural, é exatamente isto, é contar histórias na primeira pessoa, histórias que possam inspirar, não só quem nos ouve, mas especialmente, e acima de tudo, os jovens, justamente aqueles que estão agora, porque agora é uma fase importante de De tentar selecionar para que universidades é que vão e qual é que poderá ser o seu futuro. E para perceberem que há uma vida para além de estar no escritório atrás de um computador. Há uma vida a céu aberto, como o Pedro aqui dizia, estar em laboratórios a céu aberto, há uma vida lá fora e que as oportunidades são imensas. São essas histórias que nós queremos contar.

E vamos conhecê-las ao longo dos próximos episódios. Pedro, sabemos melhor do que ninguém que há muitos jovens empreendedores que até que têm ideias muito cedo, ideias que querem pôr em prática. E se pudesse aqui deixar uma mensagem para alguém que tem uma ideia de negócio ou que quer ter um impacto ambiental positivo no mundo e que nunca olhou para o setor agrícola como uma opção, o que é que lhe diria?

Desde logo, que venham o mais rapidamente possível, porque, e isso é uma coisa importante, geralmente onde estão os maiores problemas é onde existem as maiores oportunidades. E este setor, eu diria, este território, tem, de facto, um conjunto de dificuldades e de problemas e tem aqui um conjunto grande de oportunidades. Nós se olharmos para isto de uma forma mais holística, vamos perceber claramente que as oportunidades estão aí e que há muito para fazer. Desde logo, e também porque o Rui estava a focar esta questão da escolha e da seleção da sua formação, eu diria que chamar a atenção de que hoje em dia não precisamos só de engenheiros agrónomos e de engenheiros florestais. Na agricultura e neste setor, temos sido capazes de atrair programadores informáticos, gente até da aeroespacial, designers, mecânicos, comunicadores.

Ou seja, estamos a fugir ao óbvio, àquilo que seria mais óbvio para o setor.

O que temos a fazer, o que eu acho que tem acontecido, é que de facto estes setores estão a ser reconhecidos como um setor de atividade dinâmico e com capacidade de atrair aquilo que outros já o fizeram, porque nós sabemos que a maior parte das profissões são capazes de atrair muitas competências e este setor esteve mais focado em produzir. E hoje em dia esta produção necessita de relevar e apostar em mudanças para maior eficiência na parte produtiva, na parte ambiental, na parte social, que atrai muita gente, que percebeu também que, por exemplo, que a comunicação passou a ser um vetor absolutamente central na decisão. Mas qualquer empreendedor que consiga olhar para a nossa realidade e perceber como é que consegue criar valor, tem aqui pano para mangas. Se nós olharmos até para a realidade dos Estados Unidos, vamos perceber que muitas das empresas mais tecnológicas e mais inovadoras acabam por ter no setor agrícola, geralmente, um início, uma aplicação, uma solução e acho que há aqui muitas oportunidades. Pensar que agricultura e florestas não são apenas, mais uma vez o que eu disse, não são apenas produção. Temos um conjunto de outras coisas dentro do território. Temos turismo de natureza, temos mercados de carbono, temos a valorização de património natural. E eu acho que isso são coisas que vale a pena pensar nelas e quem quiser apostar no setor, tem aqui pano para mangas. Hoje em dia com a inteligência artificial-

Ainda mais

...se calhar vão ter, e vai-se dar mais valor a atividades que estão mais ligadas aos territórios, estão mais ligadas à utilização da inteligência humana e não tanto da inteligência artificial, porque os programadores vão ser substituídos por máquinas e os agricultores, esses não vão ser substituídos por ninguém, diria.

Vão continuar.

E há aqui muita oportunidade. Eu diria que quem quiser olhar para o setor, venha, que é bem-vindo.

Rui Almeida, uma mensagem também para um jovem que possivelmente nos esteja a ouvir, a tentar encontrar, quem sabe, o seu caminho agora nas escolhas para a universidade, por exemplo.

Eu espero mesmo que sim, que estejam, pelo menos, e nós também estamos a fazer por isso, para que os jovens nos estejam a ver, mas a mensagem é sempre para os jovens e também para a sociedade em geral. Ou seja, que para nós era muito importante que no nosso dia a dia, quando vamos a um supermercado, a uma prateleira e comprar um produto alimentar, que haja uma perceção de toda a história que existe por trás de um produto básico, como seja um arroz, uma batata, um tomate, como alguém diz, que existe mais tecnologia num tomate do que numa Ferrari. E se nós conseguirmos fazer isto com estes episódios, que é tentar que as pessoas tenham consciência de quando vão ao supermercado e parar para pensar três ou quatro segundos a história que este produto tem e o que levou, todo o trajeto que o levou, desde que foi produzido até que chegou à prateleira, isso para nós também já era importante. Não só isto, mas também tentar perceber, como o Pedro há pouco dizia, e eu gostava de reforçar esse ponto, que o nosso território, o nosso setor está a precisar de jovens com diferentes perfis, como o Pedro disse, mas acima de tudo, com talento. E esta é uma área que também precisa de pessoas com talento.

Isso é mais um mito.

É mais um mito, porque há uma mensagem de quem vai para a agricultura, são aqueles que não conseguiram entrar para mais lado nenhum. Ora, isso é das maiores falsidades que existe. Hoje em dia há pessoas muito talentosas no nosso setor e há espaço para essas mesmo, onde estou a incluir também as mulheres, porque estatisticamente vê-se que as mulheres estão cada vez mais envolvidas, e é um gosto enorme que nós temos quanto a isso, estão cada vez mais envolvidas e já estão também elas a puxar e a forçar para que o setor seja cada vez mais atrativo e mais moderno. E esta imagem de que, mais uma vez, sei lá, existe mais tecnologia no bolso de um agricultor do que num carro que nós usamos hoje no dia a dia, é uma mensagem verdadeira e que irá ser passada nestes episódios e que, por certo, estamos certos disso, vai pelo menos despertar a curiosidade de muitos dos nossos ouvintes.

Vai certamente. Pedro Santos, Rui Almeida, muito obrigado por terem vindo aqui ao Observador. Ficamos a saber que olhar para Portugal é olhar para a terra, no fundo, mas que há muito futuro para crescer nesses três quartos, não é? Não são dois terços. Está reposta a verdade neste episódio. O Lado B da Terra, em parceria com a B Rural, volta em breve com um novo episódio e vamos conhecer muitas histórias. Até lá, acompanhe este projeto e subscreva também este podcast no site da Rádio Observador ou na sua plataforma habitual que usa para ouvir os seus podcasts favoritos e até ao próximo episódio.