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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de hostilidade conjugal. Olá, Eduardo. Que sinais mostram que um casal deixou de partilhar uma história e passou só a dividir uma casa?

Olá, Judite. Muitos. Judite, desde as pequenas coisas. Às vezes, até desde os momentos repetidos, o repetidos faz diferença, em que não conseguem todos sentar-se à frente de uma televisão e partilhar um conteúdo qualquer que tenha qualquer coisa a ver com os dois. Quando, afinal de contas, só são capazes de falar dos filhos ou do trabalho, como acontece tantas vezes, e não são capazes de pôr em cima da mesa as coisas que às vezes os magoam, mesmo que reconhecidamente sejam pequenos pormenores que são promovidos sem intenção, mas que feitas as contas, arranham um bocadinho o coração. Desde o momento em que parece que já não têm quaisquer motivos para chocar de frente um com o outro e às vezes terem uma pequena discussão, o que só acontece quando as pessoas defendem aquilo em que acreditam e ao mesmo tempo não desistem uma da outra. Portanto, há muitos pequenos sinais que fazem com que as pessoas assumam que têm uma relação, se calhar já foi uma relação muito importante e muito preenchida, e que depois, por causa dos filhos, do trabalho, da vida, como as pessoas acabam por assumir, com toda a verdade, aliás, vão se afastando um bocadinho e outro, e a certa altura, de facto, são familiares, mas vão se tornando mais estranhos um para o outro do que era suposto.

Há uma tendência para comentários entre dentes e pequenos apartes. São comuns nesta fase.

Judite, eu gostava tanto de lhe dizer que não, mas há, claro. Às vezes, o grande problema não é a maneira como nos descuidam. Às vezes, é também a forma como nos desconsideram e às vezes como nos desvalorizam. Uma coisa é uma pessoa estar num dia de uma fúria qualquer, que é absolutamente normal e transversal a todos nós. Outra coisa é haver sempre uma espécie de desconto que um dá em relação ao outro e que não se inibe, sequer, de manifestar junto dos filhos ou às vezes até junto do grupo de amigos, como se faça o outro o que fizer ou diga o que disser, está sempre mal visto, está sempre aquém e sobretudo quando se está em presença de terceiros, acaba por parecer pagar imposto de luxo e merecer críticas, suspiros em falo ou reparos, às vezes até um pouquinho mal-educados, para lhe dizer a verdade. Nessas circunstâncias, é como se entre dentes, por meio de palavras, ainda se manifestasse alguma raiva. Mas se calhar o pior de tudo é que a determinada altura, haverá momentos em que essa raiva já nem se manifesta e parece-se viver numa atmosfera de uma indiferença que magoa muito. Pode não dar discussões regulares, mas magoa muito e faz com que nós acabemos por ir morrendo devagarinho, nomeadamente ir morrendo para o amor, que é uma coisa que não é de somenos importância.

Essa hostilidade instala-se por acumulação de pequenas coisas ou há aqui um ponto de viragem?

Não, instala-se por acumulação de pequenas coisas e muitas até muito acidentais. Eu costumo dizer que não há nada que una mais duas pessoas do que um filho e às vezes o melhor espatifa uma relação. Às vezes um filho é tão glutão naquilo que exige ou naquilo que nós imaginamos que ele quer de nós, que de repente comecemos neste movimento de tapar a cabeça e destapar os pés, mas de facto, às vezes as pessoas vão se afastando devagarinho. Nós falamos muito de violência doméstica, e ainda bem que falamos, e era ótimo que ela não existisse, mas às vezes há esta hostilidade conjugal que faz com que, com aquilo que se diz, às vezes com os impropérios que se acabam por dedicar a outra pessoa, com o modo como se desqualifica, ou às vezes, na maneira como se criam ali insinuações e outras coisas do gênero, não são uma violência doméstica de manual, digamos assim, mas são uma violenciazinha. A hostilidade conjugal é uma violenciazinha, que se calhar não dá chamadas negras, mas que vai estragando muito as pessoas, vai fazendo com que elas se sintam absolutamente desvalorizadas, absolutamente desqualificadas, e isso destrói-as muito mais do que parece.

E é possível reverter esse estado?

Ó Judite, quando duas pessoas querem. Porque é preciso que duas pessoas queiram. E já agora, muitas vezes os filhos fazem um trabalho magnífico. Quando chamam a atenção de um dos pais ou dos dois, do que eles estão a fazer e da forma como às vezes exigem aos filhos coisas que eles próprios não fazem entre si, porque a boa educação entre os pais nem sempre existe. E portanto, sejamos razoáveis, para que os pais exijam aos filhos em relação aos pais e em relação a terceiros, os pais têm que dar esse exemplo. E eu não acho que seja tão sumptuoso ou tão faraônico, as pessoas quando têm uma relação, serem mais do que cordatas, têm que ser bem-educadas. Mas quando passam para além de uma linha vermelha e se desconsideram, e se magoam, e se banaliza quase com indiferença, isso significa não só que estão a dar um mau exemplo, como no fundo vão convivendo com violenciazinhas, como se isso fossem picadelas insignificantes, e não são, destroem devagarinho.

E não são. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Até amanhã.