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"O Lado Bom da Vida". Às segundas, "O Lado Bom da Vida" é sobre música e temos conosco hoje o Gonçalo Correia. Gonçalo, bem-vindo, tudo bem?

Olá, tudo bem.

Vamos começar este "Lado Bom da Vida" com uma sugestão de Slowthai. Para quem ainda não conhece Slowthai, queres descrevê-lo um pouco e por que é que o trouxes aqui?

Sim, vamos a isso. Slowthai, na verdade, é o nome artístico de um rapaz de 26 anos chamado Tyron Frampton, que cresceu em Northampton, na Inglaterra, uma cidade muito mais conhecida por exportar calçado do que propriamente por exportar músicos. Artisticamente e, sobretudo, musicalmente, o sítio de onde ele vem é um pouco ninurus, é um bocado atrás do sol posto. Não há muitas bandas vindas de Northampton a singrar. Mas o Slowthai tem um novo álbum. O primeiro disco dele chamava-se "Nothing Great About Britain", foi lançado em 2019 e saiu na sexta-feira passada este disco, "Tyron", que é um álbum dividido em duas partes. Há um primeiro lado mais agressivo, as primeiras sete canções são mais agressivas, mais diretas, mais tensas, e a segunda metade é um pouco mais introspectiva. Slowthai é um rapper e cantor, faz rap e transporta um pouco a energia do punk para o rap. A segunda metade continua a ter essa energia, mas tem um lado mais do Tyron em casa com as suas inquietações, a escrever sobre aquilo que o deixa mais confuso e com algumas dúvidas. Estamos a ouvir a canção "Feel Away", que é um dos singles, foi feita com o James Blake e com os Mount Kimbie, e é uma canção que mostra um pouco esse lado mais despido e mais pessoal do Slowthai.

Gonçalo, o Slowthai aparece num movimento mais alternativo da música britânica, mas claramente nos últimos tempos também apadrinhado por muitos outros. Parece que em Inglaterra toda a gente agora quer colaborar com o Slowthai, não é?

Pois, parece que sim. Ele está numa fase boa. Ele está, aliás, nomeado para um Grammy por causa de uma música que fez com os Disclosure, chamada "My High", que eu penso que também terá a Kelis, não tenho a certeza, mas pelo menos com os Disclosure foi feita. Mas é um pouco também curioso. Temos neste disco, por exemplo, convidados como o Skepta e o A$AP Rocky, que são dentro do hip-hop dois pesos pesados, o Skepta do Reino Unido, o A$AP Rocky dos Estados Unidos. Mas, por exemplo, este tipo de canção que estamos a ouvir, mais canção que rap. Nós não estamos habituados a ver o Slowthai aparecer como uma espécie de diabo, porque víamo-lo a segurar, por exemplo, em prêmios, uma réplica da cabeça do Boris Johnson, víamo-lo nas letras a provocar tudo e mais um par de botas, a injuriar a própria rainha Isabel II, portanto, num modo muito do tipo mal-comportado, vindo dos pubs e das ruas mal-afamadas do Reino Unido. E nesse disco, "Nothing Great About Britain", isso era muito notório. Aqui é um pouco mais a vida que ele levou nos últimos anos, não só a adolescência, que foi muito complicada, obviamente, porque para ter este lado meio de anti-herói, a adolescência foi o que foi. Cresceu com uma mãe que o teve aos 16 anos, o pai ausente. Teve aqueles problemas todos clássicos do artista. Mas, nos últimos anos, ele debateu-se muito com a necessidade de recuperar da adição de álcool e de drogas. Foi uma coisa que o deixou bastante na lama. Ele esteve bastante mal. Conseguiu recuperar disso e fez um disco como uma espécie de terapia. Mas é um disco, dentro do meio hip-hop, interessante, original e vale a pena ouvir.

E a próxima sugestão, que eu não conheço, R&R Now, como é que pronuncias isto?

Acho que a pronunciavamos em inglês, mas aí talvez fosse um pouco difícil. Eu diria o R&R Now, talvez seja o mais correto, ou então íamos para o R mais R igual a now, mas isso soaria um pouco mal.

Now era aquela coletânea de êxitos do ano, não era?

Era, com vários volumes.

Sim.

Now 11, Now 12.

Boas músicas, que tinham now. Às vezes.

Muito boas músicas.

Antes do Now havia o Fido, número um. Também era fixe essas coletâneas.

Esse já não apanhei. Mas quem é esta banda, estes R mais R igual a now? O que temos aqui? Temos no piano o Robert Glasper, um tipo de 41 anos, é um dos tipos com mais currículo no jazz americano. Já venceu um Grammy, já colaborou com artistas como o Kendrick Lamar, o Herbie Hancock, o Mac Miller, o Common, a Jill Scott, a Erykah Badu, o Mos Def, portanto, tem aqui créditos suficientes para reclamar um grande percurso nessa mistura, sobretudo de hip-hop com rap, aliás, de hip-hop com jazz e com funk e nessas ondas. E na banda temos também o Terrace Martin, no sintetizador, vocoder e saxofone. Temos o Christian Scott no trompete, temos o Derrick Hodges no baixo, o Taylor McFerrin no sintetizador e o Justin Tyson na bateria. É uma espécie de supergrupo de malta, não só jazz, mas de malta que tenta fazer um jazz em ligação com outras estéticas da música popular. Eles lançaram o primeiro álbum chamado "Kaledically Speaking", em 2018. E na passada sexta-feira lançaram um disco novo, gravado ao vivo, chama-se "R mais R igual a Now Live". Para quem quiser escrever é mais fácil ao ouvir assim. É um disco gravado em outubro de 2018 no clube de jazz da Blue Note, em Nova York. Esta versão que estamos a ouvir, este tema que estamos a ouvir é uma versão da "How Much a Dollar Cost", do Kendrick Lamar, em modo jazz e em modo instrumental, mas o disco vale a pena ouvir na íntegra, porque são músicos de grande nível, todos mais ou menos nessa linhagem de mistura do jazz com o hip-hop. Acho que até faz sentido falar nisto, tendo em conta que morreu muito recentemente o Chick Corea, que será sempre lembrado pela fusão e pela capacidade de criar pontes musicais que conseguiu fazer com outras estéticas que não o jazz. Por exemplo, o rock, mais evidentemente, música latina. Neste caso, a fusão é mais com o hip-hop e com o R&B, com o funk, mas vale muito a pena ouvir ainda assim.

"R mais R igual now". É este o projeto também destacado aqui pelo Gonçalo Correia. Mais algum destaque, Gonçalo?

Sim, rapidamente. Já que morreu o Chick Corea, que era um pianista. Quando morreu, foi deixada uma mensagem em nome dele, que ele teria gravado, que ele teria registado antes de morrer, em que dizia que: "É minha esperança que todos aqueles que têm uma intuição e inclinação para tocar, compor, atuar ou qualquer coisa o que façam, se não o fizerem por vocês, façam-no pelo resto de nós. Não só o mundo precisa de mais artistas, como também é realmente divertido". E por isso trouxe aqui um disco novo de um pianista também, tal como o Chick Corea, mas neste caso português, chama-se Luís Figueiredo. Tem um álbum novo chamado "À Deriva". Por enquanto, o disco só se pode ouvir na plataforma e site Bandcamp, mas a partir do dia 26 ficará disponível noutros formatos. E também muito rapidamente, é um pianista português nascido em 1979, já com uma longa carreira. O primeiro álbum como compositor líder saiu há cerca de 10 anos, em 2010, mas nos últimos anos trabalhou, gravou, atuou ao vivo com artistas como Cristina Branco, Luísa Sobral, Ana Bacalhau, Márcia, Gisela João, Diabo na Cruz, Carlos Bica, Mário Laginha, Alexandre Frazão, Ricardo Toscano, Mário Delgado. Portanto, é um artista também dentro do jazz, que é o meio em que ele se move mais, com muitos créditos, lança um disco de piano solo, de improvisações. Vale a pena ouvir também na plataforma Bandcamp, chama-se "À Deriva".

"À Deriva", de Luís Figueiredo. A última sugestão no "O Lado Bom da Vida" desta segunda-feira com o Gonçalo Correia. No início da semana olhamos sempre para novidades musicais. Aqui ficaram algumas delas. Gonçalo, boa semana. Um abraço.

Boa semana.

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