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"O Pior Mês", este é o novo programa da Rádio Observador, é para ouvir ao longo de novembro, mês batizado por Fernando Araújo, o diretor executivo do SNS, como possivelmente o pior dos últimos 44 anos. De segunda a sexta, escutamos na Rádio Observador testemunhos de profissionais ligados ao Serviço Nacional de Saúde. No programa de hoje, conversamos com Gonçalo Cordeiro Ferreira, médico com mais de 30 anos de experiência. É o antigo diretor da área pediátrica do Hospital Dona Estefânia. Dr. Gonçalo Cordeiro Ferreira, obrigado pela sua disponibilidade. Estamos, de facto, em novembro, este mês que foi descrito, foi apontado como o pior desde a fundação do SNS, ou que poderá ser o pior desde a fundação do SNS. Esta frase é uma dramatização ou esta descrição corresponde à realidade?

Muito obrigado por me dar esta oportunidade de refletir sobre um assunto que eu sempre estive preocupado, que é a questão do SNS, e fiz parte de várias comissões para estudar o problema das urgências e que de facto nunca se chegou a soluções, porque também não houve vontade política para as haver. Agora, a questão que me põe, se isto é uma dramatização. Claro que isto é uma dramatização, como é evidente, isto é uma dramatização. Isto é claramente um chavão político. É daquelas coisas que se corre mal: "Já tínhamos avisado!" Se corre bem: "Fomos nós que conseguimos evitar." Portanto, isto é uma dramatização. O SNS já tem passado por muitas crises, basta ver recentemente a questão do Covid e da falta de camas, que também foi de responsabilidade de quem, ao longo destes anos todos, foi fechando camas de cuidados intensivos e foi fechando camas de medicina, etc. E, portanto, isto é uma dramatização, ponto final. E eu digo-lhe mais.

Mas há problemas.

Sempre há e vai continuar a haver enquanto tivermos esta política de tentar cobrir o sol com a peneira, que é deitarmos tudo para cima das urgências e não falarmos do que se passa a montante. Deixe-me dizer-lhe duas coisas: o problema que se passa é que nós, no nosso SNS, temos problemas crónicos que vêm desde a fundação do mesmo, de falta de definição de circuitos. Nunca se definiu, ao contrário do inspirador do SNS português, que era o National Health Service, em Inglaterra, mas que tem uma definição clara dos circuitos. Quem entra, onde e por quê. Entra-se pelos cuidados primários, entra-se pelos hospitais, e uma ligação perfeita nisso. Agora menos, porque também há problemas, mas na altura havia e cá nunca se preocuparam com isso. Cá foi uma jogada também ela política e, portanto, nunca se definiram os circuitos e os doentes passavam a entrar pelo sítio onde havia mais facilidade. Com isso tudo, o que se passa no nosso SNS é que o nosso SNS, na área pediátrica pelo menos, é muito bom para doenças graves, muito bom, porque de facto os médicos estão muito bem preparados e têm até estruturas e equipamentos dos melhores hospitais para lidarem com a doença grave, mas muito mau para doenças ligeiras. E por quê? Porque a doença ligeira é tirada indiscriminadamente para a urgência, porque não consegue ser resolvido o problema a montante dos cuidados de proximidade, que seriam seus cuidados primários. E, portanto, os doentes, não tendo médico a quem recorrer nos cuidados primários, acabam por pegar nas urgências, onde são maltratados, não porque sejam maltratados de ser doente, mas porque a urgência não é um sítio para se tratar doença ligeira e para se perder o contacto com o doente e, portanto, ser um médico sempre diferente daí aquele doente. Portanto, essa é a pecha fundamental na área pediátrica do SNS. E por que isto não vai ser muito mau para os doentes? É um incômodo. Vai ser, é verdade, com o fecho das urgências, mas se nós olharmos para as urgências pediátricas, nós vemos que menos de 5% dos doentes que lá recorrem, e recorrem esmagotes, são internados. Portanto, as doenças que lá vêm, aliás, nós temos urgências por diversas cores, e se formos ver, a esmagadora maioria são cores frias, digamos assim, os verdes, até os azuis.

Sim, menos graves.

E alguns amarelos, poucos laranjas e quase nenhuns internados. Os doentes não vão sofrer, o doente grave não vai tanto sofrer nisso, sobretudo havendo uma rede do INEM que pode fazer os socorros de imediato e levá-lo para os hospitais que estão abertos.

Doutor, estamos num período em que temos muitos médicos a pedir escusa ao trabalho extraordinário para lá das 150 horas anuais que estão definidas por lei. Sabemos que isto depois, para um diretor clínico, que tem que lidar com isto e tem que fazer escalas, será certamente um problema. Eu pergunto-lhe pela sua experiência no serviço de pediatria do Hospital Dona Estefânia, se garantir escalas é efetivamente um problema no SNS.

Isso é um problema que é um problema de sempre e que os médicos, ao darem o corpo ao manifesto e fazerem mais horas, muito mais do que aquilo que eram obrigados por lei, conseguiam resolver. Mas o problema não se resolve em abrir mais urgências ou receber mais doentes nas urgências, o problema resolve-se em reduzir drasticamente a procura. Portanto, neste momento, o Hospital Dona Estefânia vai ser tal como o Hospital de Santa Maria, provavelmente, os dois hospitais vão ficar abertos toda a noite e vão receber os doentes de todo o lado, os graves e os não graves. Pior do que isso, se nós concentrássemos à moda do Porto, que tem no São João o paradigma, os médicos de lá são reforçados por equipes de outros hospitais. Mas neste momento, há tão poucos nesses outros hospitais que vão fechar Que esses médicos não poderão reforçar os hospitais que ficam abertos. Resultado: os que ficam abertos, se não tiverem uma redução brusca da procura, vão ser ultrapassados, não vão conseguir dar resposta e então mais gente ainda vai meter os papéis.

O que me está a dizer é que há um problema-

A tutela tem que dizer: a urgência à noite, naquele hospital A e B, está sempre aberta, mas tem que ser obrigatoriamente de referência. Não pode lá aparecer quem quer, tem que ser referenciado e bem referenciado.

Estamos então perante um problema de gestão e também um problema da maneira como os utentes também encaram os serviços de urgência.

Mas os utentes são os menos culpados. A culpa é toda dos políticos. Desculpe lá, eu esta tenho que dizer, o PS e o PSD são os grandes culpados do que se passou na saúde em Portugal desde o princípio do SNS, porque nunca prepararam a população para aquilo que devia ser. Haver médicos e pediatras, eu acho que faz muita falta haver pediatras de família a trabalhar com os médicos de família nos cuidados primários. É como esta história agora de dizerem equipes dedicadas de urgência nos hospitais, de pediatria. Não sei de medicina, provavelmente, ou de cirurgia, terá algum interesse. Agora, pediatria, nós já tivemos isso e ninguém quer. Por quê? Porque não há um número suficiente de doentes graves pra justificarem essas equipes. No fundo, o que eles estão a fazer é aquilo que poderiam estar a fazer era nos centros de saúde. Portanto, essas equipes acabam por não resultar. As pessoas fartam-se, não é aquilo que querem, não é pra aquilo que tiveram o treino que tiveram nos hospitais. Ficam muito aquém do treino que tiveram. Portanto, essa ideia também é uma ideia que não vai ter pernas pra andar.

Doutor, este cargo-

Só pra dizer uma coisa. A questão dos médicos. Finalmente, houve uma geração de médicos que saiu da casca, saiu do armário nesse aspeto, digamos assim. Por quê? Porque antigamente os médicos eram, de fato, e sempre foram, muito mal pagos. Isto não começou agora, isto já vem de muito longe. Lembram-se, se calhar não se lembram, são novos, mas em 1988 começaram a haver grandes greves de médicos no tempo da ministra Leonor Beleza, que aliás foi uma boa ministra da Saúde, foi das poucas ministras da Saúde que teve um trabalho em profundidade, criando também uma comissão de saúde materno-infantil que revolucionou toda a assistência perinatal e neonatal em Portugal e que nos trouxe, posteriormente, a níveis fantásticos da mortalidade perinatal e neonatal. A nível europeu, contávamos muito abaixo. E a ministra deu um grande apoio político a essas medidas técnicas que foram sugeridas pela comissão. Mas tirando isso, já nessa altura, houve uma grande revolta dos médicos, estavam a ganhar muito pouco e os internos eram obrigados depois à exclusividade e a terem que sair, não eram considerados da função pública, quando acabavam, tinham que sair. E eu lembro-me da ministra dizer: "Os médicos estão a pedir 150% de aumentos". Eu hoje em dia digo: olhe, foi pena não terem dado esses 150% de aumento, que se calhar já não estávamos aqui como estamos, porque a profissão médica no Serviço Nacional de Saúde não só é muito mal paga, como a diferença do médico que entra pra o médico do topo da carreira é ridiculamente baixa. Portanto, toda a diferenciação, todo o sacrifício, todos os concursos que os médicos fazem, não são pagos. Porque o que se vai ganhando é cada vez menos em termos diferenciais.

Doutor, há pouco falávamos de problemas crônicos e problemas muito também motivados por decisões políticas. Uma decisão já deste executivo foi criar o cargo de diretor-executivo para tentar ajudar a resolver alguns dos problemas, muitos deles sendo problemas de gestão. Acha que está a funcionar?

Eu tenho a maior consideração pessoal pelo professor Fernando Araújo, que é uma pessoa de diálogo, de ideias e de experiência própria no terreno, como se viu em São João. Simplesmente, o problema não está nem no cargo, nem na pessoa. E aí acho que alguns mídia também foram, não direi culpados, mas lançaram um pouquinho aquela ideia sebastiânica que vem aquela pessoa e vai finalmente resolver tudo. Não resolve, como é óbvio, porque não pode, isto é uma estrutura que está toda envenenada, não pode imitar, por exemplo, aquilo que se faz no Porto, aqui em Lisboa. Naquela área de Lisboa e do Vale do Tejo, há quase que um milhão de utentes sem médico de família, coisa que não há no Porto. Portanto, esta estrutura sanitária que se consegue arranjar no Porto não pode ser feita aqui em Lisboa. E isso tem que perguntar ao senhor primeiro-ministro. Ele prometeu em 2016 que no ano seguinte todos os utentes tinham médicos de família. Onde é que agora estão? Perguntem. Eu acho que andam a perguntar ao senhor ministro e ao senhor diretor-executivo, mas o senhor primeiro-ministro é que tem que dar a cara. Eu acho que isso tem que lhe perguntar.

Muito se tem falado também neste setor, e já falamos aqui dos médicos que agora estão a fazer pedidos de escusa, já falamos dos problemas de gestão, mas fala-se também, quase de forma crônica, mas mais nestes anos recentes, de falta de médicos. Isto acontece, de fato, o país tem poucos médicos?

O país não tem poucos médicos em absoluto. Se for ver as estatísticas europeias, por número de habitantes, o país é dos que tem mais médicos. Talvez o que tenha mais é a Grécia, acho que perante todos os outros. Tem poucos enfermeiros, pelo mesmo número de habitantes, por 100 mil habitantes, mas a Grécia, de longe, é o único que tem mais médicos que Portugal. Portanto, não temos falta de médicos. O que temos é os médicos muito mal distribuídos. No serviço público estão menos, porque foram muitos pra privada, por causa das Das condições não só financeiras, como também de alguma razoabilidade de descanso que não lhe oferecem no serviço público. E temos, claramente, médicos mais velhos, por causa também da famosa questão dos números clausus, como foi em 1986, quando se começou a praticar os números clausus nas faculdades de medicina, depois tentou reverter, mas isso leva 10 ou 12 anos a reverterem-se essas medidas e fomos sempre entrando em alguma carência. Mas há uma péssima distribuição dos médicos, pois estão centrados nas grandes cidades, há muito pouco nas áreas na parte do interior, quando devíamos ter mais médicos no interior, até para fixarem população. E temos grandes assimetrias. Essas grandes assimetrias, não me venham dizer que a culpa é dos médicos. E essas assimetrias foram desde sempre. Há quem tenha mesmo que meter a mão na consciência e dizer que aí não são os médicos.

Da sua experiência no terreno, estas preocupações com a saúde e estes problemas na saúde que vamos falando e que vai sendo noticiado, isto para o utente e do contacto que teve com os utentes, é algo que também preocupa quem vai aos hospitais e quem está a ser atendido por profissionais de saúde?

Com certeza, eu acho que uma pessoa que tem filhos, eu estou só a falar da pediatria, sente-se muito vulnerável, quando tem um filho doente e não sabe onde é que se há de dirigir. Claro que fica, como é óbvio, e sobretudo porque esteve anos e anos a martelarem a cabeça para que o sítio onde se iria, que tinha que resolver o problema, é ir à urgência, que até lhe faziam análise, radiografia, e lá é que estão os pediatras e não estão do outro lado. Aprendeu o caminho errado. E agora dizem que a urgência vai ficar fechada, o que as pessoas vão pensar? As pessoas também não fazem a mínima ideia que a maior parte da doença aguda pediátrica é uma doença relativamente benigna e com ou sem tratamento, passa ao fim de três dias. Mas não sabem. Nunca houve preocupação da educação para a saúde. Nunca houve. Houve sempre a preocupação de ter as urgências bem fornecidas e de abrirem hospitais. Isso aí também é culpa dos autarcas. Haver hospitais ali ao fundo da esquina e cada vez mais, à volta de Lisboa, unidades neonatais, Lisboa e à volta, é um escândalo, contando as privadas também, que contam com os médicos. É um escândalo! É óbvio que sim, não há gente para tanta coisa. Por isso, nós andávamos sempre a correr à beira do abismo, ao lado do abismo. Agora decidimos virar de rumo e ir diretos ao abismo. É a única diferença. E agora não é novembro, nem dezembro. Isso tem sido sempre desde há uns meses para cá.

Dr. Gonçalo Cordeiro Ferreira, tenho uma última pergunta para si. Já respondeu um pouco a isto, mas queria perguntar se tem alguma sugestão que possa deixar para ajudar a resolver os problemas no SNS, mesmo já dizendo que este mês de novembro não será o pior, pelo menos na sua opinião, o que faria ou que sugestão é que tem para ajudar efetivamente o SNS?

Olhe, eu acho que os problemas do SNS são de tal maneira graves, que temos que resolvê-los com uma única linha de atuação: é falar a verdade, custe o que custar. Os nossos políticos têm que falar a verdade. Eu sei que às vezes dói, é chato, a curto prazo perdem-se votos, mas se calhar a médio prazo as coisas melhoram. E tem que se começar a explicar que não é pelo fato de haver muitas urgências que se tratam melhor as pessoas. Tem que se dizer que nós temos, apesar de tudo, um serviço bem montado, com a ajuda também do INEM, que a doença grave, essa é vista, resolvida atempadamente. E temos que dizer que as outras, muitas delas não precisam sequer de ir ao hospital, muito menos à urgência e se calhar algumas vezes nem ao centro de saúde. E temos que começar a trabalhar para que os cuidados de proximidade, que não são cuidados hospitalares, não é isto ter um hospital em cada bairro, são cuidados de proximidade, que são cuidados ligados aos médicos de família e devia haver nessas unidades de saúde, um pediatra também, que seria um pediatra de família, a trabalhar com os médicos de família. Devia haver provavelmente também um psicólogo para a saúde mental, um dentista e quem sabe um oftalmologista, que são os problemas de proximidade que as pessoas têm. Era nisso que nós devíamos centralizar os nossos cuidados, da estrutura, falando verdade e dizendo que os médicos estão realmente a ganhar muito pouco, muito mal e a trabalhar muito. Têm que ser aumentados, têm que se reduzir as horas extraordinárias. Como é que se reduzem? Reduzindo o peso das urgências. Isto não se resolve de um dia para o outro. O que vai acontecer é que vão deitar dinheiro para cima da situação. Provavelmente vão se aceitar algumas dessas melhorias salariais, daqui a cinco anos, está tudo na mesma, as pessoas estão cansadas, fartas e vamos voltar outra vez à mesma cena. Começar a falar a verdade, começar a dizer que os doentes têm que ser vistos nos sítios certos, que é a doença aguda ligeira, nos cuidados de proximidade, a doença grave, nos serviços de urgência hospitalar. Estou a falar em pediatria, mas penso que isto é perfeitamente igual para as áreas da medicina do adulto. Enquanto não falarmos verdade, enquanto nos centralizarmos só nisto das urgências, não saímos dessa patota.

Gonçalo Cordeiro Ferreira, antigo diretor da área pediátrica do Hospital Dona Estefânia, muito obrigado pela sua disponibilidade.