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Está no ar o Gabinete de Guerra das manhãs 360, como tem sido habitual nas últimas semanas a esta hora. Vamos ao encontro dos enviados especiais do Observador à Ucrânia. É lá que estão o Pedro Jorge Castro e o João Porfírio. Pedro, bom dia.
Bom dia, Maria João.
Bom dia, Pedro. Estamos a ouvir o som das sirenes que soaram por volta das duas da manhã em Mykolayiv. Como é que foi esta noite, Pedro?
A noite foi um bocadinho inquieta, não por algo que tenha acontecido, mas pelo receio do que pudesse acontecer. Ontem à noite nós vimos aqui um drone sobrevoar o bairro onde estamos a ficar aqui em Mykolayiv. Não era uma estrela cadente, era mesmo um drone a sobrevoar esta zona. Obviamente, não é possível saber se era um drone russo ou ucraniano, mas há a possibilidade de ser russo. E sabemos que é através destes drones que são identificadas as zonas ou os possíveis alvos dos bombardeamentos que se seguem nas horas posteriores. Durante a madrugada, de facto, ouviram-se os trovões ao longe, todos estes ruídos da guerra, dos combates que continuam na frente aqui bem perto, a cerca de 20 km de Mykolayiv, na fronteira com Kherson, que é a zona ocupada pelos russos. E soaram, de facto, essas sirenes de forma bastante prolongada às duas da manhã. Não tenho notícias de ter havido algum bombardeamento na cidade que tenha feito estragos significativos. Esta informação também nem sempre fica disponível como deveria, por razões militares. Se não é visível para a maior parte das pessoas, para a população, muitas vezes os próprios militares também não divulgam locais de ataques nas horas seguintes, deixam passar umas horas precisamente para não dar informação ao inimigo sobre a eficácia desses ataques. Mas estamos numa zona muito conturbada deste ponto de vista militar, estamos muito próximos desta linha da frente contra os russos. Ontem, numa deslocação aqui para fora da cidade, vimos uma nuvem de fumo gigantesca na estrada para Kherson. Não conseguimos informação logo de que é que se teria tratado. Depois soubemos que as forças militares ucranianas anunciaram que tinham bombardeado um depósito de munições russo. Não te consigo dizer sequer se foi isso, mas pela dimensão daquelas nuvens de fumo negras, que quase tocavam nas nuvens do céu, é uma forte possibilidade que se tenha tratado deste ataque. Estamos numa zona de muitos confrontos, de muitos ataques de artilharia de parte a parte. Há muitos bombardeamentos ucranianos para tentar atingir alvos russos na zona de Kherson e obviamente os russos ripostam e bombardeiam aqui posições ucranianas e também a cidade de Mykolayiv. Deixa-me dizer também que praticamente estes bombardeamentos já atingiram quase todo o tipo de alvos aqui na cidade, incluindo hospitais. Estivemos num hospital onde nos descreveram um bombardeamento que ocorreu enquanto estava a ser feito um parto de uma criança. E como já sabem que há esta tendência dos russos para bombardear duas vezes, assim que caíram as primeiras bombas, transferiram a mãe do quinto andar para um abrigo subterrâneo e depois caiu a segunda bomba passados 10 minutos, precisamente às portas deste hospital. A única justificação que o pessoal do hospital encontra para isto é o facto de também tratarem ali militares ucranianos.
Estão numa zona muito delicada, Pedro. Ontem estiveram em reportagem numa base militar ucraniana e encontraram algo aparentemente inusitado, uma lotaria feita com troféus de guerra. Vais ter de explicar como é que isto funciona.
Sim, isto é um artigo que estamos a preparar. Ainda estamos a completar essa reportagem e a fazer mais entrevistas e que iremos publicar em breve aqui no Observador e também falaremos aqui noutros espaços na Rádio Observador. Mas de facto deparamo-nos com essa situação inusitada. Para já, o cinzeiro usado pelos militares na base é um capacete de militares russos, o que é feito de propósito como símbolo da acrimónia que têm em relação ao inimigo, e é mostrado dessa maneira. Mas depois têm uma série de troféus de guerra que foram encontrando no fim das batalhas e que foram recolhendo, e decidiram fazer esta espécie de sorteio para arranjar dinheiro, neste caso, para comprar um carro. Precisam de um carro para fazer algumas deslocações, não um carro militar, um carro civil para algumas deslocações. Querem juntar 150 mil ucranianos, isto dá cerca de cinco mil euros, um bocadinho menos, será um carro usado. E a forma que encontraram foi esta. Eles têm estes vários troféus de guerra e apelam às pessoas através das redes sociais. Quem quiser entrar num sorteio para se habilitar a receber alguns destes troféus, tem que pagar 200 ucranianos, isto são cerca de seis euros. Obviamente, quanto mais as pessoas pagarem, mais hipóteses têm de ganhar estes troféus. Uma das pessoas que contribuiu ontem mesmo, tinha dado 50 mil ucranianos, o que é uma fortuna, são cerca de 1600 euros Ia ter muitas hipóteses de ganhar todos estes troféus. Entre os troféus está, por exemplo, um casaco de um militar russo, uma máscara de proteção química, uma ração, capacetes, cantis, todo o tipo de objetos que eles vão encontrando no fim das batalhas e que recolhem precisamente para, neste momento, angariar dinheiro para comprar um carro. Deixa-me dizer também que tenho notado aqui algo crescente que não era habitual, pelo menos nas semanas anteriores, que é começar a haver alguma divisão social entre as pessoas, alguma revolta social por situações específicas. Por um lado, a questão dos combustíveis, a dificuldade extrema que as pessoas têm de encontrar combustível, de abastecer o carro, o tempo que perdem para isso e a dificuldade que há em encontrar postos abertos. Mas depois também questões de saúde. Há muita dificuldade de acesso a uma série de medicamentos que simplesmente são muito difíceis de encontrar. O Estado comparticipava alguns desses medicamentos e agora não o tem feito, nomeadamente no caso dos diabéticos e da insulina. E depois também há outro tipo de protesto que também ainda não tinha assistido, que tem a ver com os profissionais de saúde e com os socorristas que se queixam de que, ao contrário daquilo que acontece com os militares e com os polícias, eles não estão a ser compensados pelo trabalho adicional que estão a ter com esta guerra. Com o tempo a passar, com uma guerra que ameaça tornar-se tão longa, começam a aparecer estas brechas, este descontentamento social de classes profissionais que estão envolvidas no esforço de guerra e que sentem que há aqui uma certa injustiça relativa por não estarem a ser compensadas por todo o tempo que estão a dedicar a combater esta guerra e a tratar os feridos, a socorrê-los e a tratá-los.
Pedro Jorge Castro, um dos enviados especiais do Observador à Ucrânia, está em Mykolayiv com o fotojornalista João Porfírio. Pedro, bom trabalho, em segurança. Amanhã voltamos a falar a esta hora. Um bom dia para os dois.
Bom dia. Obrigado.