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"Onde Para o Caso?", na Rádio Observador. Nesta edição, olhamos para a Covid-19, numa altura em que regressam os medos motivados por um surto de hantavírus.

A Organização Mundial de Saúde tranquiliza, diz que não estamos perante uma nova crise de saúde pública, mas o aparecimento destes vírus levanta receios que estavam até agora adormecidos.

E neste "Onde Para o Caso?" tentamos perceber como está a situação da Covid-19 em Portugal. Por exemplo, ainda há casos a serem registrados? Que tipo de atenção está ou não a ser dada pelas autoridades de saúde a estes casos?

São essas as perguntas que tentamos responder neste "Onde Para o Caso?" com o Miguel Pina Andrade.

O primeiro caso de Covid-19 em Portugal foi há mais de seis anos, dia 2 de março de 2020. A confirmação surgiu por parte da Ministra da Saúde à data, Marta Temido, em conferência de imprensa.

Temos neste momento um caso confirmado de Covid-19. Trata-se de um homem cujo estado de saúde é estável. Tem 60 anos, está num dos nossos hospitais, com o estado de saúde que consideramos estável.

A notícia da primeira morte em Portugal por Covid-19 viria a ser conhecida dia 16 de março.

E dois dias depois desse 16 de março, 18 de março, o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel, decretava o estado de emergência em Portugal.

E esse regime de exceção vigorou até o final de abril desse ano, 2020. Foi um mês e meio.

O não se justificar renovar o estado de emergência não quer dizer que a pandemia esteja ultrapassada, que o risco esteja vencido e que possamos retomar a normalidade da nossa vida anterior a 2 de março. Não podemos. Temos de manter um nível de contenção elevado e, por isso, o governo entendeu que era o momento de descer um degrau no nível da contenção, passando do estado de emergência para o estado de calamidade.

O então primeiro-ministro António Costa, depois do Conselho de Ministros que aprovou o plano de transição e que reduziu as medidas de confinamento pra conter a pandemia de Covid-19. Depois desta decisão, Portugal enfrentou mais um confinamento em 2021. Ao todo, em Portugal, houve cinco vagas da doença, mais de 5,5 milhões de casos, 29,5 mil mortes. São estes os dados oficiais da Organização Mundial da Saúde. O fim da pandemia foi decretado pela OMS em maio de 2023.

E Miguel, estamos a falar da Covid-19 porque nas últimas semanas assistimos ao surgimento de um surto de hantavírus e com isso surgiram receios de uma nova pandemia global.

Sim, falamos do surto de hantavírus que surgiu a bordo de um navio de cruzeiro. Há registro de três mortes e têm surgido suspeitas de casos em vários países. Ainda assim, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, reafirma que não estamos perante um novo surto pandêmico, não é uma nova pandemia.

A preocupação é legítima devido à experiência da Covid-19, especialmente em 2020. Esse trauma ainda está presente nas nossas mentes. Por isso é normal as pessoas terem dúvidas e preocupações. Mas esta doença não é Covid. Já o dissemos várias vezes enquanto OMS. E quando dizemos isto, não fazemos de ânimo leve.

Estes receios são alimentados pelas notícias relacionadas com o hantavírus e também por casos de norovírus, uma vez mais num navio cruzeiro. Pior poderá ser o surto de Ebola em África. Aí, segundo a OMS, há um risco elevado de epidemia na República Democrática do Congo e também naquela região.

Miguel, vamos então voltar à Covid-19 e passado todo este tempo, que ponto de situação é que podemos fazer? Ainda existem, por exemplo, casos a ser reportados, ainda há testes a ser feitos e, já agora, Miguel, a Direção Geral de Saúde ainda divulga aqueles boletins epidemiológicos a que nos habituamos durante a crise da Covid?

A Rádio Observador, a DGS afirma que a vigilância e monitorização da Covid continua a ser feita de forma contínua e integrada. Isto porque a infecção por SARS-CoV-2 é uma doença de notificação obrigatória desde 2021. A DGS atua em colaboração com outras entidades, como o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, e nesta resposta enviada à Rádio Observador, a Direção Geral da Saúde reforça que continua atenta à evolução da Covid-19 e também à circulação das variantes. Por isso, assegura a vigilância da situação epidemiológica. E sim, Ricardo, a DGS continua a publicar os relatórios semanais.

E o que nos dizem esses dados, Miguel?

Os números mostram que Portugal tem registrado uma atividade reduzida da Covid-19, com uma tendência estável do número de novos casos e também da mortalidade em níveis reduzidos. São estas as expressões utilizadas pela Direção Geral da Saúde. Os relatórios das últimas semanas mostram que não têm sido reportados quaisquer casos. Nestes relatórios conseguimos ver uma curva descendente da incidência da Covid desde dezembro de 2022, data do primeiro relatório da resposta sazonal de saúde a que tivemos acesso. Se olharmos para o último relatório do mês passado, os números são evidentes: zero casos de Covid-19 por 100 mil habitantes.

E as variantes, Miguel?

De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, entre maio de 2025 e março deste ano, foram identificadas oito variantes e linhagens. A mais comum nos últimos tempos é a Ômicron BA 3.2.

E quanto à vacinação, as metas da DGS foram atingidas?

Em relação à gripe, sim, Judite, e até antes do fim da campanha, a 30 de abril. No primeiro relatório da vacinação deste ano, em janeiro, a marca dos dois milhões e meio de vacinados pra gripe foi atingida. Quanto à Covid-19, durante a campanha de vacinação sazonal de outono, foram vacinadas cerca de 1,3 milhão de pessoas. A meta da Direção Geral da Saúde era de 1,5 milhão de vacinados contra a Covid-19. Na resposta enviada à Rádio Observadora, a DGS adianta que o balanço final da campanha vai ser apresentado publicamente em junho, à semelhança do que tem acontecido em anos anteriores. E aqui só por curiosidade e olhando para o mundo inteiro, no último mês morreram 517 pessoas por Covid-19. Houve registro de 12 mil casos, metade dos quais no Brasil. São estes os dados oficiais da OMS.

E avançamos para a conversa neste "Onde Para o Caso". E o nosso convidado, Manuel Carmo Gomes, epidemiologista, alguém com quem conversamos muitas vezes durante a crise da Covid-19. Bem-vindo, Manuel Carmo Gomes, ao "Onde Para o Caso". Temos aqui uma primeira pergunta: a Covid-19, que ainda circula por aí, é perigosa ou já se tornou num vírus completamente banal?

Olá, boa tarde a todos. Eu não lhe chamaria banal, porque o SARS-CoV-2, o vírus que causa a Covid, continua a ser um vírus perigoso. Agora, o que acontece é que todos nós já fomos infectados, provavelmente até mais que uma vez, e muitos de nós foram vacinados, portanto, nós temos alguma memória imunológica para nos proteger do vírus. Acontece, contudo, que, como se recordam, os anticorpos que são gerados depois de sermos infectados por este vírus, decaem à medida que o tempo passa. Portanto, ao fim de quatro, cinco meses, nós já não temos anticorpos que nos protejam da infecção, portanto, podemos voltar a ser reinfetados. O vírus é muito rápido a multiplicar-se no epitélio da nasofaringe, peço desculpa pelos termos técnicos, mas nas células aqui da zona da boca e do nariz. E causa sintomas e faz com que nós o transmitamos a outras pessoas, mas normalmente a doença é muito suave, que não requer qualquer tipo de suporte das unidades de saúde e nós conseguimos ultrapassar a situação. Infelizmente, para algumas pessoas, não é bem assim, porque há pessoas que têm comorbilidades, têm problemas de imunocomprometimento.

Continua a ser perigoso.

Continua a ser perigoso, porque este vírus, o SARS-CoV-2, ao contrário, por exemplo, de outros vírus que nos causam constipações, também vírus respiratórios, tem tendência a entrar na corrente sanguínea e a chegar a todo lado. Ele entra nos órgãos internos, se o nosso sistema imunitário não nos defender, e é nesse sentido que ele é perigoso. Ainda há pessoas que estão a ir para o hospital por causa deste vírus.

Mas o que é facto é que as pessoas deixaram de fazer testes e assim também não reportam a doença. Seria importante insistir na monitorização mais apertada ou nesta altura já não vale a pena?

Eu não daria muita importância àquilo que nós fazíamos, fazer os testes, reportar, etc. Nós sabemos que os casos continuam a ocorrer e até a formar cerca de duas ondas por ano. O que eu penso que seria importante é continuar a vigilância das características genéticas das variantes que estão continuamente a aparecer. O vírus é muito rápido a mutar. Ele muta em duas direções. Por um lado, ele procura evitar os nossos anticorpos, os anticorpos que todos nós já temos. E, por outro lado, procura aumentar a sua capacidade para entrar nas nossas células aqui da parte do trato respiratório superior. E pode vir a surgir uma variante, não aconteceu, mas pode vir a surgir uma variante que além de ter grande capacidade de entrar nas nossas células e de se transmitir a outros, seja mais patogênica. Felizmente, isso não aconteceu e eu não diria que é provável que aconteça, pelo contrário. Mas a vigilância genética deste vírus, com a colheita de amostras, o envio para o nosso Instituto Ricardo Jorge, no caso de Portugal, continua a ser importante para nós irmos sabendo o que está a passar com o vírus em si, com a sua biologia.

Se de facto surgir uma nova pandemia, estamos hoje mais preparados para a enfrentar do que estivemos?

Depende muito de várias coisas. Eu diria que sim, porque ainda temos a memória fresca daquilo que se passou. E este exemplo agora com o antivírus, mostrou que, de facto, houve uma rapidez de reação e houve medidas que foram tomadas que eu penso que já beneficiaram da nossa experiência com a Covid. Portanto, eu diria que sim, em geral. No entanto, infelizmente, também durante a Covid, houve em alguns setores da sociedade, um aumento das suspeitas relativamente às autoridades de saúde, mesmo até às medidas profiláticas, nomeadamente à vacinação. Uma série de desinformação que ocorre nas redes sociais, foi um aspecto que, infelizmente, foi negativo. Portanto, nesse aspecto, eu diria que certas franjas da sociedade poderiam reagir mal no sentido de não acatar as orientações que nos protegem a todos.

E uma dessas orientações, desculpe, senhor doutor, é a do confinamento. Acha que numa situação em que seja preciso voltar a entrar em confinamento, vai ser difícil que as populações voltem a aceitar este regime excepcional ou não? Falamos, por exemplo, e agora que está mais calor, das proibições de ir à praia.

Eu diria que instruções para confinamento serão improvavelmente não aconselhadas pelas autoridades de saúde, por várias razões. O confinamento não consegue travar a propagação de vírus com características semelhantes à da Covid. Portanto, só em certas circunstâncias é que eu penso que seriam tomadas medidas nessa direção. O exemplo que deu da praia foi um excesso, mas também há que ter em atenção que as decisões foram tomadas na altura, com a informação que estava disponível na altura. Eu não sei se se recordam que na altura nós preocupávamos com o facto do vírus permanecer em superfícies sólidas. Nós púnhamos ao sol as encomendas que recebíamos.

Exatamente.

Desinfetávamos muitíssimas mãos. Mais tarde, veio-se a perceber que a grande maioria da transmissão ocorria por aerossol. Aerossol em espaços confinados, com pouco arejamento, porque as partículas muito pequeninas de poeiras dissecadas ficam em suspensão no ar com o vírus, as pessoas entram numa sala, inalam e são infectadas. Ora, isto não tem nada a ver com condições ao ar livre e muito menos com a praia, onde há ultravioletas. Há que ter em atenção que as decisões tomam-se com a informação que existe na altura. É muito fácil olhar para o retrovisor.

Na altura não sabíamos muito, não é?

Não sabíamos muito. Agora sabemos muito mais sobre este vírus e uma aprendizagem grande sobre o que são as características de um vírus capaz de criar uma pandemia.

Muito obrigado, professor Manuel Carmo Gomes. Muito obrigado pela sua disponibilidade para estar aqui neste "Onde Para o Caso". A edição de hoje foi com o jornalista Miguel Pina Andrade. Voltamos para a semana com um novo caso.