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Abrimos aqui mais um capítulo do "Onde Para o Caso", o programa em que recuperamos temas que tenham ficado esquecidos. Esta semana é com a jornalista Diana Rosa. Boa tarde, Diana.
Boa tarde, Vanessa.
Hoje o programa vai tremer.
Esperemos que não. Mas há quase um ano, muitos acordaram um pouco depois das 05h com um grande abanão, principalmente em Lisboa e no sul do país. Lembram-se deste sismo, então, não?
Sim, lembramo-nos.
Acordaram?
Do relato.
Não acordaste, Miguel Vilela, mas a Vanessa acordou.
Eu acordei.
Eu também não.
Acordei com uma porta a deslizar.
Uma porta a deslizar?
A porta de um armário.
Ok. Pois bem, só para recordar, foi um sismo de magnitude de 5.3 na escala de Richter. Não se falou de outra coisa nesse dia 26 de agosto e como é habitual, as notícias encheram-se de especialistas e várias entidades com as mais variadas intenções de resolver problemas como reforço de estruturas de edificado, planos de resposta, rotas de fuga. Foram vários os cenários traçados, por forma a que da próxima vez, se o sismo for mais forte, possamos estar mais preparados para enfrentar uma eventual catástrofe. Conhecemos bem os avisos relativamente à probabilidade de um dia termos um novo terremoto, como foi o de 1755 ou até o de 1969, que na altura também provocou grandes estragos, com abalo de magnitude 7.8. Pois, serve este "Onde Para o Caso" para percebermos se neste último ano, depois de um pequeno susto, alguma coisa foi feita para podermos dizer que sim, agora estamos preparados para um grande sismo.
Falaste com várias entidades, Diana, para fazer um ponto de situação. Começaste pelo IPMA, o Instituto Português do Mar e da Atmosfera. É importante perceber se a ocorrência de sismos já com alguma magnitude e contrariando o senso comum, pode ser positivo para prevenir grandes catástrofes, dada a libertação de energia. Houve um aumento da atividade sísmica no último ano?
Não houve aumento da sismicidade em Portugal, Miguel, comparando com anos anteriores, é o que nos garante o IPMA, que aproveita para sublinhar que houve uma melhoria significativa do dispositivo de monitorização, ou seja, aumentou o número de sismos detetados, porque a tecnologia é mais avançada, mas isso não significa um aumento de ocorrências.
E quais são as zonas de maior risco sísmico em Portugal?
Zona litoral, Lisboa, Alentejo e Algarve. A perigosidade sísmica na zona Norte de Portugal continental é substancialmente menor. Mas sabem onde está concentrada a maior atividade sísmica atualmente, de acordo com o IPMA?
Não faço a mínima ideia.
Em Monchique, na zona interior do Algarve, e Arraiolos, distrito de Évora. Só que apesar de haver muitas ocorrências, são, no entanto, de baixa magnitude.
E o facto de haver sismos com intensidade moderada pode prevenir o tremor de terra mais violento?
Fiz precisamente essa pergunta ao IPMA. Responde que a convicção de que a existência de pequenos sismos poderá evitar um grande terremoto por causa da libertação de energia não é consensual na comunidade científica. Explica ainda o instituto que, na realidade, são necessários muitos pequenos sismos para libertar a energia equivalente a um sismo de maior magnitude. Por exemplo, um sismo de magnitude 6 liberta um milhão de vezes mais energia do que um de magnitude 2.
E foram tomadas medidas no sentido de aumentar a capacidade de antecipação e alerta para sismos com magnitude significativa depois deste remoto que foi registado em agosto do ano passado?
O IPMA diz que sim, foram tomadas várias medidas para serem concretizadas até junho de 2026. Exemplo: o reforço e atualização das redes sísmica e dispositivos de controle de vibração. Também o reforço da infraestrutura de suporte à disponibilização da informação sísmica para o exterior. Relativamente à antecipação de sismos maiores, com os meios atuais, por exemplo, para a zona de Lisboa, é possível antecipar em 40 segundos um tremor de terra com maior envergadura, o que nos parece muito pouco. As aplicações deste serviço são várias, desde a tomada antecipada de medidas de autoproteção, evacuação atempada de alguns edifícios, redução automática da velocidade dos comboios de alta velocidade, mas também a interrupção de cirurgias em blocos operatórios e outros processos que possam ser parados de forma automática. Contudo, existem ainda constrangimentos neste tipo de serviço, que têm a ver com o facto de a monitorização ser feita com base em redes de sensores situados em terra. Perguntei ao IPMA se emite algum tipo de pareceres relacionados com construção ou reforço antissísmico. É-me dito que não. No entanto, revela que houve um aumento de pedidos de informação relativamente a ocorrências sísmicas no último ano, muito por força dos dois sismos de maior impacto ocorridos tanto em agosto do ano passado como em fevereiro deste ano.
Falaste também com a Ordem dos Engenheiros para perceber se houve um aumento nos pedidos de avaliações relacionadas com o reforço antissísmico em estruturas novas ou em edifícios que sejam sujeitos a obras de remodelação.
E para isso, Judite, contei com as explicações de Humberto Varum, presidente do Colégio da Especialidade de Engenharia Civil da Ordem dos Engenheiros, que começou precisamente por responder essa questão.
Não temos dúvidas que o número de projetos, quando se fala de reabilitação de edifícios, quer os mais antigos, quer eventualmente edifícios um pouco mais recentes, onde sempre tem havido intervenções, reforço, a atenção que se tem dado à avaliação da vulnerabilidade sísmica e eventual reforço tem vindo a crescer e, portanto, não tenho dúvidas que tem havido mais processos em que esta abordagem tem sido mais rigorosa.
O aumento destes pedidos tem chegado, principalmente de Lisboa e da zona Sul, as regiões mais expostas a estes fenómenos. Perguntei também a Francisco Varum se é fácil transformar estruturas mais vulneráveis em estruturas resistentes a sismos. Depende do tipo de edifício, se a obra é maior ou menor, claro, mas que é possível, é.
É possível, quer para os edifícios mais antigos, de alvenaria, pedra ou tijolo, quer para os edifícios mais recentes, em betão armado, mas que tenham deficiências em termos de capacidade sísmica, é possível trazer estes edifícios para níveis de segurança sísmica que se aproximam das nossas exigências atuais.
O presidente do Colégio da Especialidade de Engenharia Civil quis ainda lembrar que fazer uma intervenção profunda no edifício e não contemplar um reforço antissísmico.
Seria um disparate, um erro tremendo, não se fazer uma abordagem ao nível da avaliação da segurança estrutural e sísmica e um reforço, se necessário.
Até porque, em último caso, o cenário pode ser este.
Não há dúvidas que se um edifício mais antigo não estiver preparado ou se um edifício moderno não tiver sido bem projetado e bem construído, perante um sismo moderado, com determinadas características, poderá colapsar. Pondo, obviamente, em risco todos os seus ocupantes.
Portanto, aqueles edifícios antigos que estão sujeitos a obras de renovação, principalmente estética, atenção, a segurança é valiosa.
E é obrigatória uma intervenção desse caráter em todas as obras de requalificação do edificado, Diana?
Depende da dimensão, do custo da obra no geral e das condições do edifício. O estudo de vulnerabilidade sísmica, esse sim, tem de ser feito na maioria dos casos. Desde 2019 que todas as obras de ampliação, alteração ou reconstrução, em situações em que haja sinais evidentes de degradação da estrutura do edifício, também em renovações que se traduzam numa alteração do comportamento estrutural, por exemplo, quando se mandam certas paredes abaixo para ganhar espaços mais abertos. É obrigatória esta avaliação também em obras cuja área intervencionada exceda 25% da área bruta de construção do edifício, assim como pelo menos um quarto do custo da construção nova de um edifício equivalente. É a partir desta análise que é decidida a necessidade de realizar um reforço sísmico. De acordo com a Câmara Municipal de Lisboa Observador, parte dos projetos de licenciamento urbanístico que dão entrada, dizem respeito a operações de reabilitação, parte delas sujeitas a esta análise, resultando na maioria das situações, na necessidade de reforço sísmico.
E já que falas de Lisboa, que é uma das zonas do país com maior risco, há também outro problema associado, que é a eventualidade de um maremoto. A zona ribeirinha está muito exposta a um fenômeno deste tipo. Há sinalética no espaço público para que as pessoas reconheçam facilmente as rotas de fuga e os locais onde se devem abrigar nestas duas circunstâncias?
Começando pelos alertas e pelos percursos de fuga. A Câmara Municipal de Lisboa diz que foram instaladas duas sirenes de aviso à população em caso de perigo de tsunami, situadas na Praça do Império e na Ribeira das Naus. Há mais oito que a Câmara pretende colocar, mas ainda só abriu concurso para a instalação de mais duas, em Alcântara e na Estrela, na zona ocidental da capital. Quanto às vias de evacuação, a Câmara diz que há atualmente sinalética nas freguesias de Belém, Misericórdia e Santa Maria Maior, freguesia junto ao rio. As próximas a receber sinalética vão ser Estrela e Alcântara. A zona oriental de Lisboa, para já, está excluída dos planos. A Câmara afirma que há sinalética vertical ao longo da frente ribeirinha, com a indicação desses tais pontos de encontro em praças como o Rossio ou da Figueira, na Baixa Lisboeta, sítios que apesar de tudo, estão muito próximos do rio. No caso da zona de Belém, foram designados pontos de encontro, como, por exemplo, junto ao Estádio do Restelo, aí sim, uma zona mais elevada, e outro exemplo, na Calçada da Ajuda, no topo norte do Jardim Tropical. Isto são pontos de encontro relativamente a abrigos propriamente ditos. A Câmara diz que, tendo em conta as condicionantes físicas da cidade, designadamente a linha ferroviária, passagens superiores e subterrâneas, estão a ser avaliados os edifícios aptos para uma utilização como abrigo vertical. E depois há documentos que estão disponíveis no site da Câmara Municipal de Lisboa e que vão também ser mencionados no artigo sobre este tema que vamos publicar no site do Observador. São de fácil leitura. No entanto, é bom que sejam lidos antes de um momento de aflição.
E no "Onde Para o Caso" desta semana, é nosso convidado o geólogo João Duarte, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, especialista nesta área, também presidente da Divisão de Tectônica e Geologia Estrutural da União Europeia de Geociências. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. O facto de haver pequenos abalos pode prevenir um sismo de maior magnitude pela libertação de energia que já ocorreu ou não há aqui uma relação direta entre estes dois fatores?
Olá, muito obrigado pelo convite. Pois, de facto, é uma boa pergunta, mas muitas vezes prende-se com uma ideia ou nós não temos a noção do quão grande são os sismos, porque um sismo de grande magnitude, como foi referido, um sismo de magnitude sete ou oito, é milhões de vezes mais forte do que os pequenos sismos. Nós precisávamos de muitos, de dezenas de milhões de pequenos sismos para conseguir libertar a energia equivalente a um grande. Na realidade, é como se um pequeno sismo fosse um copo d'água e um sismo grande fosse um oceano. Ou seja, é incomparável.
Sobre o ponto de vista dos estragos e das consequências provocadas pelos sismos, há diferenças entre o sismo de magnitude moderada, mas que tenha uma maior duração e um sismo de magnitude elevada com menor duração? Há um que seja causador de mais estragos do que outro?
Sim e não. Os sismos são processos complexos. Por exemplo, uma das coisas que é mais importante é a distância do sismo ao local onde nós estamos. Tem a ver com a profundidade. Se o sismo for pouco profundo, tem um estrago muito grande, se for muito profundo, pode ter um estrago menor.
O tempo da vibração, sim, porque muitas vezes até vêm pequenas ondas. Da chegada das ondas P, depois das ondas S e depois, como o sismo de 1755 terá demorado vários minutos, o que acontece é que as primeiras vibrações podem causar danos nos edifícios e as segundas vibrações e a continuidade das vibrações podem levar a que o edifício colapse. Claro que sim, se for um sismo muito de curta duração, pode causar alguns danos, mas os edifícios podem se aguentar melhor.
E é possível que uma zona que já foi em tempos de maior risco sísmico deixe de o ser, para perceber se estamos, de alguma forma, condenados a um sismo igual ao de 1755.
Em termos da perigosidade, que é a probabilidade do sismo ocorrer, não, porque estes são processos que ocorrem, são naturais no nosso planeta, resultam, de facto, do planeta ter tectónica de placas e das placas estarem sempre a mover. Portanto, nisso não há variações à escala de tempo humana. Agora, em relação ao risco, que não só tem em conta o evento, mas o nosso nível de preparação, sim. Ou seja, se nós estivermos mais preparados, se os edifícios forem menos vulneráveis, se tiverem reforço sísmico, nós podemos reduzir o risco sísmico a níveis muito baixos. Portanto, o risco depende de como nós construímos as casas.
E é muito complexo preparar um edifício habitacional, por exemplo, um edifício que já exista, para que não colapse numa situação de um sismo de maior magnitude ou é uma intervenção até relativamente simples?
Eu não sou engenheiro, mas das conversas que eu tenho com os engenheiros, é que pode ser uma intervenção relativamente simples. Muitas vezes o reforço pode ser feito por dentro, incluindo vigas metálicas. Às vezes pode ficar feio, às vezes o ficar esteticamente bonito pode ser um desafio, mas não é algo que seja desmesuradamente um preço muito grande. É completamente comportável.
Relativamente aos sistemas de alerta, que desenvolvimentos ocorreram nos últimos anos do ponto de vista tecnológico e científico, para que seja possível prever com uma maior antecedência um sismo? É que o IPMA diz que na melhor das hipóteses são 40 segundos, isso dará pouco tempo para prevenir as consequências mais catastróficas de um terremoto.
Pois, neste momento é impossível prever um sismo. Nós conseguimos ter alguma ideia de onde é que eles vão ocorrer e que magnitude é que podem ter, mas exatamente quando é que vão ocorrer, nós não conseguimos. Talvez um dia, com a inteligência artificial, com uma grande monitorização, se consiga dizer alguma coisa. Portanto, neste momento nós podemos fazer duas coisas e Portugal vai fazer isso. Uma é instalar nos cabos submarinos de telecomunicações, sensores sísmicos. A outra é que quando ocorre um sismo, se for um sismo como o de 1755, irá ocorrer a umas centenas de quilómetros ao largo do Algarve e a onda sísmica vai demorar alguns minutos a chegar ao continente e a chegar a Lisboa. E esses minutos podem ser suficientes para uma população bem treinada, por exemplo, evacuar edifícios, desligar a rede elétrica nacional, que irá evitar que hajam incêndios. Portanto, isso é chamado a sismologia em tempo real, que é: há um sismo grande, é dado um alerta e é comunicado às autoridades. E depois temos que discutir se vamos passar a informação à população ou não.
E tem havido uma maior atenção por parte das entidades públicas no sentido de alcançar mais meios de resposta a sismos num território que é tão vulnerável como o nosso?
Eu diria que se tem feito progresso. É claro que quando há um sismo grande em qualquer lado, parece haver sempre um impulso maior. As câmaras, muitas vezes, como também foi referido, por si, acabam por criar algumas estratégias para lidar com este nível de risco, mas eu sinto, há muitos anos, a falta de uma concertação a nível nacional. Deveria haver uma estrutura de missão ou qualquer coisa que se dedicasse a isso, porque nós temos a informação, nós fazemos investigação de ponta e eu às vezes tenho a sensação que a investigação que nós fazemos na Faculdade de Ciências e no Instituto Dom Luís, que temos resultados novos com muita frequência e que não temos nenhum canal para fazer chegar essa informação a quem é responsável ao nível político. O IPMA faz um trabalho importante, mas é limitado. Eles têm uma missão, mas eu acho que há muito que se pode fazer.
E agora a pergunta que quem estiver a ouvir este "Onde Para o Caso" também quer se calhar ver respondida é: como é que nos devemos preparar para um sismo, se devemos ter uma mochila preparada, marcar um ponto de encontro. Em Lisboa, que ponto de encontro seria esse?
Eu diria que estes dois sismos acabaram por ser benéficos desse ponto de vista. Porque nos permitiram, a muitas pessoas, sentirem um sismo, perceber que poderia se gerar uma situação muito caótica e, portanto, num caso destes, em que vai ser sempre muito difícil evitar uma catástrofe. Estamos a falar de um sismo como o de 1755. Os mais baixos, talvez consigamos preparar. Em casa, termos preparado o kit de emergência. Nós tivemos o exemplo do apagão em Lisboa. Estivemos algumas horas sem luz. Quando for um sismo, vão ser semanas. Vão ser semanas sem luz. Portanto, é uma questão de imaginarmos o que é que vai acontecer. Eu diria que temos que ter um plano familiar e não há nada como termos um ponto de encontro. Em Lisboa fala-se muito no Jardim de Monsanto, que é uma zona aberta, mas uma pessoa que viva na margem sul tem que ter um sítio, porque mesmo que nós tenhamos que voltar pra casa a pé, pode demorar horas ou até se calhar um dia, nós temos que dizer aos nossos filhos ou até informarmos, por exemplo, na escola. Se houver um sismo, o que a escola faz? As crianças ficam lá até os pais voltarem e os professores também se calhar têm filhos. Portanto, esse nível de discussão é algo que eu vejo muito pouco, mas temos que ser nós a começar por casa e depois exigir às autoridades nacionais e locais, freguesias, câmaras municipais, para que também façam qualquer coisa.
Temos de estar preparados e o risco, como sabemos, existe, o risco de um sismo em Portugal, nas zonas sobretudo do litoral de Lisboa, Alentejo. Obrigada, João Duarte, professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Trouxe-nos aqui várias explicações, algumas dicas também. Agradecemos por isso. Obrigada por ter aceitado este nosso convite para participar neste "Onde Para o Caso", que está de regresso na próxima semana.