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"Operação Stop" está na Rádio Observador, no programa em que falamos do mundo automóvel. Eu sou o Miguel Cordeiro e comigo está o nosso editor, o editor da seção auto, Alfredo Lavrador. Alfredo, bem-vindo.
Bem-vindo, Miguel. Obrigado.
Vamos hoje falar de uma tecnologia que já existe há muito para facilitar a vida aos condutores, mas que de algum tempo a esta parte passou a ser utilizada pelos larápios. Está a ser utilizada para roubar carros à porta de casa dos proprietários. De que estamos a falar?
Miguel, não é novidade. Digamos que é um problema frequente há menos de uma década, sobretudo. E o princípio da história, se quiseres, para que os nossos ouvintes percebam, começou em 1998, quando a Siemens, calcula-se, inventou as primeiras chaves inteligentes para automóveis, que denominaram Passive Keyless Entry, o que em português dá sistema de chave de presença. Este tipo de chave comunica com o veículo assim que se aproxima. E estas chaves são muito práticas e cómodas, uma vez que tu podes te aproximar com a chave no bolso ou se for uma senhora com a chave na carteira, na mala, e nem necessitas de pegar nela. Basta chegares ao pé do carro, agarres no puxador, acionas o puxador e como a porta entretanto destranca automaticamente, abres, entras no carro, carregas no botão e sais a conduzir. São extremamente práticas e cómodas e por isso é que começaram a ser aplicadas primeiro nos carros topo de gama. O primeiro veículo foi um Mercedes Class S, que foi o que estreou o dispositivo da Siemens em 1998 e desde então baixou do topo de gama pra média gama e hoje em dia tens isso até nos carros do segmento dos utilitários, os mais baratos. A partir do momento em que os custos baixaram, digamos que a tecnologia democratizou-se e é aplicada em todo lado.
Mas como é que funcionam essas chaves que destrancam as portas quando o condutor se aproxima? O meu carro, por exemplo, não tem isto.
Não tem.
Já estou satisfeito por não ter.
Efetivamente, é extremamente cómodo, mas parte de um princípio, só aqui um à parte, que só funciona entre um metro a dois metros de distância, o que pressupõe que o condutor esteja ali. O problema é que entretanto apareceram outras tecnologias que tornearam esta defesa, contornaram esta defesa e ficou exposta. Mas respondendo à tua pergunta, este tipo de chaves, essencialmente, é uma chave que possui um emissor de radiofrequência. Os tais RF, que muito se fala, também existem nos cartões bancários, e que está sempre a emitir um sinal em forma de código. Assim que o condutor se aproxima, os tais um metro e meio, em média, do veículo, o sinal é captado pela antena instalada a bordo do automóvel e, se o código for correto, as portas destrancam e o condutor pode entrar assim que tocar no manípulo. O problema é que não só as portas se abrem quando toca no manípulo, como também permite-lhe carregar no botão, uma vez que esse tipo de carros depois já não precisas de introduzir a chave na ignição, a celeba de ignição, que nos serviu tão bem durante não sei quantos anos, e permite pôr o motor a trabalhar, e afasta-se para conduzir.
As chaves inteligentes funcionaram sem problemas durante quase duas décadas então. Por que só agora que se estão a tornar uma fragilidade que os ladrões estão a tentar explorar?
Miguel, porque digamos que há aqui uma certa graça associada a isto. Se foi a evolução tecnológica que permitiu que as chaves inteligentes servissem os condutores e tornassem o seu dia a dia mais confortável, foi também a mesma evolução tecnológica que permitiu aos ladrões aproveitarem esta mesma tecnologia para os abrir e arrancarem com eles roubando. Até porque há um pormenor que muita gente esquece é que até agora no teu carro, podes não ter estas chaves inteligentes, mas o teu carro, se eu tentar ir lá com uma chave e forçar a fechadura, o mais natural é que o teu carro já seja equipado com um sistema em que a chave emite um código também, quando tentas por o motor a trabalhar, "conversando" com a centralina, que gere toda a mecânica, e permite que o motor arranque. Este sistema, a partir do momento em que passou a ser controlado diretamente pelo botão no tablier que tu carregas pra arrancar com o motor, desaparece, logo expõe ainda mais. Mas voltando ainda à tua pergunta, o que os ladrões fazem é essencialmente adquirir um sinal, um booster de sinal, um amplificador de sinal dos RF, da radiofrequência. Ou seja, tu entraste em casa, colocaste as chaves, como a maior parte das pessoas fazem, ali no hall de entrada, num pratinho ou numa coisinha que lá temos pra pôr as chaves todas e mais algumas. Aquilo à estanda fica cheio de tralha e volta e meia temos que proceder à limpeza, mas temos lá as chaves e está relativamente próximo da porta. O que os ladrões fazem é: aproximam-se da tua porta, pegam numa antena ligada a um amplificador de sinal e detectando o sinal emitido pela chave, porque a chave está sempre a emitir essa radiofrequência, o que fazem é detectar o sinal, amplificá-lo a ponto de ele chegar ao veículo, que pode estar a cinco metros, 10 metros, 20 metros, depende da capacidade do amplificador de sinal. A partir do momento em que o carro detecta a radiofrequência do carro, o código está correto, ele abre-se É tão simples quanto isso. Nota que o amplificador de sinal não é propriamente uma coisa que custe uma fortuna. Inicialmente começaram a chegar ao mercado por €200 ou €300. Hoje em dia já vai nos €50. E nem sequer precisas de ir à loja comprar para não ficares desastrado. Podes mandar vir pelas plataformas.
Há soluções? Há maneiras de evitar isto?
Há soluções. Basicamente, deixa-me falar-te de duas, que são também as únicas que me ocorrem, de maneira que não te podia fornecer uma terceira. A primeira é, como já vimos, já percebemos como é que aquilo funciona. A chave emite um sinal, é amplificado através de uma antena. Quando estou a falar de uma antena, estou a falar de um cabo qualquer de cobre pendurado que o ladrão aproxima da porta. A primeira solução, e de longe a mais barata, é afastar a chave da porta da rua ou da janela da cozinha ou do que quer que seja. Não colocar a chave junto ao exterior da casa. É uma coisa relativamente simples, não custa rigorosamente dinheiro nenhum e impede o ladrão de aceder ao sinal da chave. Outra solução, que também é muito prática e é extremamente barata, podemos estimar aí num custo de €5, pouco mais ou menos, é pegar numa caixinha. Há umas caixas muito giras. Aliás, alguma até metal, só por si resolve o problema. Mas se for uma caixa que tu gostas particularmente, porque é um souvenir que trouxeste de uma viagem ou alguma coisa do gênero, a única coisa que tens que fazer é revesti-la no interior com papel de alumínio. Se for daqueles da cozinha, tens que pôr várias camadas, porque só uma não chega, e depois podes forrá-lo a seguir com um tecido qualquer, até para não fazer barulho, e metes lá as chaves. Fechas a tampa e o sinal de rádio não sai. Se tiveres dúvidas, deslocas a caixinha já protegida, aproximas do carro e se destrancar, é porque ainda não é suficiente. Mete mais uma camada de foil de alumínio. Se chegar, ótimo, tens o problema resolvido. Mas são as únicas formas de impedir que o sinal que a chave está sempre a emitir possa ser captado por uma antena e um amplificador e chegue ao carro.
E existe alguma outra solução nos automóveis modernos que possa ser explorada pelos criminosos?
Nos automóveis modernos não, mas existe na tua carteira. Só para as pessoas perceberem que isto está um bocadinho tudo relacionado. Os cartões de crédito, lamentavelmente, na minha modesta opinião, é um facto que facilitou a vida, porque tu chegas, fazes umas compras no supermercado, esfregas lá o cartão na maquineta e aquilo, pura e simplesmente, não precisas de introduzir o cartão, nem coisa nenhuma. Porém, esse mesmo emissor que o cartão tem, que conversa com a máquina de pagamento, acaba por permitir que alguém no metro, no comboio, numa entrada para um jogo de futebol, em que está tudo ali ao monte, qualquer pessoa, enfim, o tal ladrão que rouba carros, se estiver ali a fazer um pescado, acaba por se aproximar de ti com o leitor de cartões e pura e simplesmente o cartão partilha com ele todas as informações que tu não gostavas que ele partilhasse e ele consegue duplicar o cartão e aceder à tua conta.
Mas Alfredo, dizes que na minha carteira há esse problema, na minha não há, porque eu tenho uma carteira antirroubo, portanto, com um sistema já que não tem essa possibilidade.
Isso é extremamente inteligente da tua parte, porque há bocadinho perguntaste-me que formas é que havia de contornar esta fragilidade das chaves inteligentes, que é construir basicamente uma gaiola de Faraday, que é uma coisinha inventada em 1800 e tal, já existe há uns anos, mas é aplicar essa solução, que é exatamente aquilo que existe agora nos cartões. E está à venda, são cada vez mais baratos e acho que as pessoas, sobretudo as pessoas que se deslocam de transportes públicos, etc, deviam seriamente pensar em comprar uma coisa dessas, porque pode-lhe poupar uns dissabores se tiver azar de se cruzar com um larápio mais tecnológico.
Muito bem, está aqui o conselho para tentar, de certa forma, impedir que possa ter o carro assaltado à porta de casa. Para os automóveis que têm este sistema, €5 pode chegar para impedir que roubem o carro à porta de casa. É a recomendação do nosso Alfredo Lavrador, que está de regresso na próxima semana com mais uma "Operação Stop". Um abraço.
Abraço, Miguel.