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Domingo de Páscoa, domingo na mesma para falarmos na operação stop do mundo automóvel. É assim todos os domingos na Rádio Observador, bem cedo. Eu sou o Miguel Cordeiro, comigo está o Alfredo Lavrador. Alfredo, boa Páscoa!

Igualmente para ti, Miguel. E depois sou 24, sabes?

O que costumas almoçar na Páscoa? Cabrito?

Amêndoas.

O que costuma ser o teu almoço na Páscoa?

Sabes que eu não ligo muito a isso. Quando era miúdo e vivia com os meus pais, era cabrito com fartura. Agora é qualquer coisa que eu goste. Gosto de cabrito, mas não é dos meus pratos favoritos. Mas eu basicamente gosto de comer e de beber.

Mas gostas das amêndoas, é isso, não é?

Amêndoas sim, são um gosto. A minha mulher zanga-se comigo.

Bem, temos que saber travar e é disso que vamos falar hoje, precisamente, de travagem.

Esta ligação foi muito boa.

Foi boa. Vamos a isto. Antes de avançarmos, explica-nos o que é que tem em comum o sistema de travagem de emergência automático dos automóveis modernos e os fantasmas, que são mais frequentes em filmes de terror. Porque é disto que queres falar hoje.

Há um sistema que, na minha humilde opinião, é aquele que contribui de forma mais evidente para a redução de acidentes, a redução de atropelamentos e portabela de morte. É um dos sistemas que surge implantado nos carros melhores, mais caros, de série, outros é um opcional, estou a me referir ao sistema automático de travagem, ou sistema autónomo de travagem. O nome varia consoante a língua, mas basicamente é um sistema que trava quando o condutor não trava. Ou seja, é extremamente útil e evita uma série de situações muito aborrecidas. E esses fantasmas não foi uma invenção minha, nem tua, estamos completamente afastados de qualquer tipo de responsabilidade, mas é a denominação que a indústria automóvel e sobretudo as empresas de eletrónica que produzem este sistema atribuem a uma situação em que o sistema, por achar que viu um objeto, um veículo, um peão, um ciclista, trava a fundo para evitar o embate, mas esse ciclista, ou peão, ou carro, ou o que for, nunca esteve lá. Foi um erro de perceção. Então eles denominam isso uma travagem fantasma. E é disso que vamos falar hoje, juntamente com os benefícios do sistema de travagem de emergência, que já são feitas para estes casos. Existem salvavidas.

Mas vamos por partes. O que é o sistema automático de travagem de emergência e como é que isto funciona?

Só para quem nos ouve perceber o conceito. Todos nós, deixemos de fitas, nos distraímos ao volante. Porque estamos a sintonizar o rádio e normalmente o rádio não está à frente da vista dos olhos, não está entre nós e a estrada. Quando vais com o teu amigo ou com a tua mulher e comentas qualquer coisa, olhas para ela. Quando olhas à volta para ver se vem algum carro no cruzamento, podes estar distraído. Se o veículo da frente travar, se tu fores relativamente próximo, tu bates no veículo da frente. E isso é aborrecido. Se, por acaso, na mesma situação, de repente sair um peão entre uns carros estacionados, se estiver na segunda fila, mais difícil ainda de ver, tu tens grandes hipóteses de atropelar esse peão. Então, para evitar isso, os veículos começaram a ser equipados com um sistema que faz parte daqueles ADAS, que são basicamente sistemas de ajuda à condução, que graças a uma câmara, a um radar ou a ambos, na maior parte dos casos, lê o que está à frente, vê o que está à frente dele, e se detetar uma situação desses género, um embate iminente, se não for iminente, se tiveres ainda uma certa distância, ele é capaz de lançar um aviso sonoro, como quem diz: "Olha para a frente, que estás a esticar". Se for muito próximo, então ele não te diz nada, trava a fundo e é uma travagem extremamente violenta. Tanta quanto aquela que tu fazes quando és tu a travar. E se já fizeste isso alguma vez, quando alguém vai ao teu lado distraído, eu garanto que aquilo é um susto da vida dele, mas é preferível do que bater em alguém. E isso é o funcionamento do sistema de travagem de emergência.

Ok, mas falta-me perceber onde é que aparecem os fantasmas, não é?

Os fantasmas, como te disse há bocadinho, é uma designação inventada pelo próprio sistema. Visivelmente, viu muitos filmes do Hitchcock ou qualquer coisa do género, e ele acha que viu o que na realidade não existe. E por quê? Porque, como qualquer sistema eletrónico, eu, por exemplo, uso óculos desde miúdo. E desde miúdo percebi que para ver alguma coisa de jeito, tenho de limpar as lentes. E muitas vezes o radar, que não é muito limitado pela sujidade, mas a câmara é. Então, se ao existir Porcaria, pó, lama, o que seja acumulado em cima da lente, que normalmente está protegida pelo para-brisas, mas pode não estar. Ou se tiver à frente do radar determinado poeiro ou qualquer matéria com uma consistência determinada que possa limitar o que o radar vê, entre aspas, o que acontece é que o sistema não funciona bem. Isto é o que acontece na maior parte dos casos, mas há outras situações. O sistema recebe atualizações volta e meia e algumas podem ser destinadas ao sistema de travagem automática de emergência. Para evitar isso, esses sistemas têm que ser recalibrados e às vezes é preciso ir ao concessionário para se certificar que aquilo está a funcionar bem e não está a ver um veículo parado quando não está lá nada. De maneira que é basicamente aí que aparecem os fantasmas.

Mas estas travagens fantasmas podem envolver alguma gravidade?

Posso contar uma história. Eu nunca passei por isso, quer dizer, eu tenho um carro com essa história.

Sim.

E já me aconteceu. Deixa-me descrever-te a situação para os nossos leitores e ouvintes perceberem. Imagina-te a fazer uma curva numa rua de uma cidade com carros estacionados de um lado e do outro.

Sim.

O teu carro está a passar, estás a curvar, não vais bater em ninguém, porque tu estás a curvar e vais tu ao volante, etc. Mas estás a passar relativamente próximo de carros parados. E se o teu carro, a câmara que olha em frente, vê um carro parado ali, não há forma de não perceber isso. Então o sistema tem que calcular o raio da curva e aperceber-se que, apesar do carro estar ali à frente, o caminho do teu veículo não vai ser por ali, logo não lhe vais bater. Mas isto implica uns cálculos e uma avaliação da velocidade e da distância. Basta que qualquer coisa corra mal, a tal calibração não estar correcta, para que o sistema considere a possibilidade de ires bater naquele carro que está parado.

E, portanto, trava constantemente.

E então trava. E só para te contar uma história rápida. No início, no arranque da secção auto no Observador, não me lembro especificamente dos dados, mas sei que fomos contactados por um leitor que nos contou uma história, tinha um carro, na altura creio que era um Volvo, e então a esposa teve uma situação dessas travagens de emergência, sem nada à frente, ou seja, uma travagem fantasma, e o carro travou de tal forma violenta que ela partiu a clavícula. Eles contactaram o concessionário, etc., aquilo nunca mais avançava e nós acabámos, o Observador acabou por dar uma ajuda contactando a Volvo, o importador, que acabou por resolver a situação rapidamente e sem más consequências. Ou seja, isso existe e os danos são grandes, são graves. Num jovem como tu, que estás aí para as curvas, ficas com o susto e um vergão no peito ou no pescoço. Mas uma pessoa de idade, uma senhora com osteoporose, facilmente pode ter danos nas clavículas, nas costelas, no esterno e quem sabe na própria coluna, na anca. Ou seja, é delicado, convém evitar. É um facto que nos sistemas mais modernos e, sobretudo, nos sistemas que têm atualizações periódicas, os construtores detetam isto e fazem evoluir o sistema e isto desaparece. Mas convém saber que existe e já agora interessar-se para saber se aquilo é a última atualização, para que as vantagens do sistema sejam muitas e as desvantagens nenhumas.

Já estás aqui a responder um pouco àquilo que eu te ia perguntar agora, o que se pode fazer para evitar esse mau funcionamento, essas surpresas desagradáveis, é mesmo manter sempre o sistema muito atualizado, não é?

É saber que existem, para já. Não há nada que possas fazer, não podes estar preparado para uma travagem de emergência. Agora, há uma diferença entre um toque no travão para te chamar a atenção, que é a forma de o carro comunicar contigo, a dizer: "Põe-te a pau porque tu há muitos carros à frente e isto pode correr mal". Mas, sobretudo, quando vais à revisão, vais ao concessionário, interessar-se para lhe dizer: "Olha, eu acho que notei uma coisa ou duas meio parvas no meu sistema de travagem automática, importa-se de ver se isso está atualizado e limpo os radares e as câmaras?" E resolves o problema assim. Agora, há outra coisa que convém lembrar. Se por acaso isto é uma chatice, a verdade é que a quantidade de acidentes e atropelamentos que se evitam é, como se costuma dizer lá naquela história, priceless. Não há nada que pague isso.

Sim, é verdade. Alfredo, está feito por hoje. Olha, uma boa Páscoa, um abraço.

Igualmente para ti e para todos os ouvintes.