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Operação Stop na Rádio Observador. Todas as semanas, as novidades do mundo automóvel, sempre com a ajuda do Alfredo Lavrador. Alfredo, seja muito bem-vindo. Como é que estás? Como é que foi essa semana?
Lindamente, Ravel. E tu?
Também estou bem, obrigado.
Pronto para mais uma dose de automóveis?
Ora bem, sendo que esta semana é uma dose reforçada, até porque vamos revisitar, Alfredo, um tema que já falámos na semana passada aqui na Operação Stop. Isto porque a Comissão Europeia anunciou esta semana os carros que vão poder ser comprados a partir de 2035. É um tema sobre o qual já falaste na semana passada, mas agora há essa mudança. Já são conhecidas as alterações que a Comissão Europeia vai propor às emissões de dióxido de carbono dos veículos que vão ser vendidos, e agora já são conhecidos esses detalhes. O que é que muda, afinal, Alfredo Lavrador?
Como dizias muito bem, na semana passada fizemos uma antevisão com base nas informações que estavam disponíveis. E esta semana, na terça-feira, a Comissão Europeia foi uma querida e efetivamente realizou o anúncio, como se esperava, estava agendado, e podemos avançar que a partir de 2035 já não é a morte anunciada dos motores a combustão, sejam eles a gasolina ou a gasóleo, ou a GPL. Portanto, tudo o que se queimava e derivava de petróleo iria acabar, mas já não acaba. A partir de 2035, vão poder ser comercializados veículos equipados com motores puramente a gasolina ou a gasóleo. A gasóleo duvido que vá acontecer, mas a gasolina é bem provável. Veículos híbridos e híbridos plug-in. Esta é a novidade, sendo que, em vez da redução anunciada do CO₂, do dióxido de carbono, ser de 100%, ou seja, acabava-se o dióxido de carbono, logo os carros só podiam ser elétricos, o novo anúncio baixa de 100% de redução de CO₂ para 90%, o que permite estes motores a combustão que eu acabei de enunciar. Curiosamente, a parte boa para quem vende elétricos, ou a Tesla, por exemplo, é que os créditos de carbono mantêm-se para as marcas que não vão conseguir cumprir os limites. Em vez de pagar multas multimilionárias, vão poder comprar créditos de carbono às marcas que vendem mais elétricos, logo emitem menos CO₂.
E como é que é feita essa redução de 100% para 90%?
Isso aí não é evidente. Digamos que as explicações avançadas pela Comissão Europeia não foram de modo a satisfazer a curiosidade de todos. Sabe-se que a redução das emissões de CO₂ baixa de 100% para 90%, mas a Comissão Europeia exige que os construtores compensem os outros 10%. Ou seja, na cabeça dos senhores que mandam em Bruxelas, acham possível que os construtores passem a poder vender motores a combustão, híbridos, híbridos plug-in, etc., e ainda assim compensar esse excesso de CO₂ utilizando uns artifícios, utilizando materiais e tecnologia atual, disponível, digamos assim, para cortar na dose de CO₂. E em que é que consiste essa tecnologia? Consiste em utilizar aço verde, ou seja, a produção de aço, que é uma mistura de ferro e carbono, é uma coisa energeticamente muito intensiva, consome quantidades brutais de energia, porque processa-se a temperaturas elevadíssimas, mas há formas de gerar esse calor através de fontes renováveis. Isto não é uma novidade, já existe, só existe há menos de cinco anos, mas eles querem que as marcas se dediquem a essa solução. Também querem que as marcas se empenhem nos combustíveis sintéticos. Ok, tudo bem, os carrinhos vão poder consumir e queimar gasolina, mas essa gasolina vai ter que ser produzida sinteticamente, ou seja, capturando carbono da atmosfera para depois de o queimar, o devolver à atmosfera. Não é mais carbono, é o mesmo carbono, não aumenta a quantidade de carbono na atmosfera.
Uma espécie de reciclagem.
Exatamente, é o ida e volta. É como tu dizeres a um bêbado que para curar a cirrose, retiravam-lhe um bocadinho de álcool no sangue, se isto fosse possível, acho, não é? E ele depois podia beber mais. Na prática, o homem continuava até a morrer de cirrose, não faz muito sentido. E os biocombustíveis. Biocombustíveis também é uma solução. Só que a Europa não possui excedente agrícola para produzir muitos biocombustíveis, a quantidade de biocombustíveis que seria necessária. Ou seja, teríamos que importar restos agrícolas de outros países fora da União para produzir aqui os biocombustíveis. Não me parece que em grandes quantidades isso seja viável.
E tendo em conta todas estas condicionantes, todas estas indicações, Alfredo, a partir de 2035, que automóveis e que motorizações é que estão em cima da mesa para a compra?
A parte boa, e há sempre uma parte positiva em tudo na vida, é que vamos poder continuar a comprar veículos puramente a combustão, a gasolina ou gasóleo, e veículos híbridos, full hybrid, híbridos normais. Sem baterias recarregáveis, digamos. Só para não haver confusão. E é bom, porquê? Porque estes carros são os mais baratos do mercado. Se vires em qualquer tabela de venda de qualquer construtor, as versões mais baratas são puramente a combustão ou híbridas. A combustão. Só tem um pequeno motor elétrico que ajuda muito pouco, mas ganhas um litro, um pouco mais, um litro e meio, no limite, depende da sofisticação do motor híbrido, garante uma economia palpável, mas ainda assim bastante reduzida. O facto de essas unidades motrizes continuarem disponíveis é bom para quem procura um carro mais em conta. Os híbridos plug-in vão continuar a poder ser construídos, mas resta saber se a União Europeia vai permitir que os motores híbridos plug-in continuem a receber incentivos do Estado. Porque sem esses incentivos, os híbridos plug-in, por terem basicamente um motor elétrico, uma grande bateria e um motor a combustão, tornam-se tão caros que sai mais barato comprar, digamos, um carro elétrico e um carro pequenino a gasolina, destes novos, agora, que se podem continuar a vender. É uma opção estranha. Entretanto, vão surgir cada vez mais os carros elétricos baratos. Já apareceram alguns, os construtores, a Volkswagen, por exemplo, já anunciou um que vai lançar em 2026. Resta saber se perante esta oferta de carros elétricos mais baratos, continuará a existir interesse em carros a combustão nestas fasquias de preço. O mercado vai decifrar, faz parte da lei da oferta e da procura.
Alfredo, falta então falarmos sobre duas questões, que é a questão dos construtores e também dos consumidores. Vamos começar pelos consumidores. Estas alterações todas são boas para os consumidores europeus?
Sinceramente, são. Porque nota que até aqui, esta guerra contra o CO₂ tem todo o mérito, mas no fundo, perde interesse relativamente a partir do momento em que a Europa está a fazer um esforço brutal e a obrigar a sua economia a perder competitividade, porque é isso que, na realidade, acontece, enquanto adquire produtos vindos da Índia e da China, sem desprimor pelas respetivas populações, na prática, vão buscar energias, vão gerar a sua energia a partir da queima do carvão, que é só a forma mais poluente que existe de produzir energia. Isto não faz qualquer sentido. Logo, o CO₂ a mim não me preocupa grandemente e acho que não deve preocupar ninguém, porque o planeta é só um, e se tu emitir CO₂ na China é exatamente a mesma coisa, produz o mesmo malefício que se o emitisse daqui à porta de casa. Estou a falar em termos de alterações ambientais. Qual é a desvantagem para o consumidor? Eu e tu e todos os nossos ouvintes. É que quem vive nas grandes cidades é quem verdadeiramente sofre, e aqui não é discutível, e aqui não dá para fazer transferências, não será um problema de CO₂, mas sim de partículas e NOx, que os motores a combustão emitem. Quem vive nos centros das grandes cidades, cada vez mais sofre de problemas respiratórios e problemas cardiovasculares, que esses sim, tendem a matar as pessoas que estão expostas a grandes concentrações, que é exatamente o que acontece nos centros das grandes cidades. Logo, para os consumidores, é delicado, não pela componente CO₂, mas pelas componentes dos verdadeiros poluentes dos motores a combustão.
Vamos então falar sobre os construtores europeus, se isto é bom para as marcas e os construtores europeus, e há pouco já falavas da questão da China, a China vai continuar a ser uma ameaça?
Olha, essa é a parte mais preocupante dessas alterações. Porque estas alterações acontecem, é bom ter presente este dado, pela pressão das marcas alemãs, que pressionaram, por sua vez, o governo alemão, que ao ter a Alemanha como o maior contribuidor para o orçamento da União Europeia, na prática, o money rules, de maneira que eles, grosso modo, quando pedem, a Europa tem que dizer que sim. Agora, o que acontece é: uma vez que vão poder apoiar-se nos motores de combustão e híbridos, e híbridos plug-in, que têm todos eles motores de combustão, vão reduzir os investimentos, que já de si eram curtos, porque exceto a Volkswagen, que investiu alguma coisa, os construtores alemães não investiram muito na eletrificação. Nenhum deles tem uma fábrica de baterias, só o grupo Volkswagen é que tem plataformas específicas para veículos elétricos, a BMW e a Mercedes não têm, por exemplo. E tudo isto torna os modelos menos eficientes. Ou seja, se fores analisar a capacidade da bateria que transportam vezes a autonomia que garantem, o rácio não é brilhante. E o que vai acontecer é que eles vão reduzir ainda mais os investimentos, enquanto os chineses vão continuar a fazer elétricos cada vez melhores, porque não vão reduzir os investimentos. Vão tentar sempre fazer baterias melhores, motores mais eficientes, plataformas mais leves pra poupar energia, tudo isso. E vão se instalar na Europa. O meu receio, e não estou sozinho nessas minhas preocupações, é que daqui a 10 anos, em 2035, os chineses estejam tão mais à frente do que os construtores europeus, que é bem possível que os construtores europeus, muitos deles, passem por grandes dificuldades ou deixem mesmo de existir.
Muito obrigado, Alfredo Labrador. Essa é, sem dúvida, uma situação sobre a qual temos de ter uma especial atenção. Alfredo, este é o último programa, o último "Operation Stop Antes do Natal", por isso um feliz Natal, mas não te escapas, até porque pra semana temos ainda um último programa antes de fecharmos 2025, mas até lá, um feliz Natal, Alfredo.
Está combinado e feliz Natal também pra vocês.