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"Operação Stop" na Rádio Observador. Cá estamos, mais um domingo para falar do mundo automóvel, do mundo auto. Hoje até vamos falar de motas, mas contamos sempre com o nosso Alfredo Lavrador. Alfredo, bem-vindo!
Obrigado, Miguel.
Estava a dizer, vamos falar de motas. Depois de mais de uma década à espera do arranque das inspeções periódicas para motas, os motociclos estão finalmente livres desta restrição. Isto é bom ou é mau para a segurança de quem anda de mota e também para os outros utilizadores da via pública? Em que ponto é que estamos?
Na realidade, a ausência das inspeções não vai alterar nada em matéria de segurança, uma vez que a forma como estavam concebidas, como foram imaginadas, consistia essencialmente em mais uma caça à multa. Os inspetores iriam, sobretudo, fiscalizar a presença do retrovisor, da dimensão do retrovisor, a dimensão da chapa de matrícula e se estava ou não iluminada corretamente, bem como o ruído do escape. Isto nada tem a ver com segurança, ainda por cima é algo que os donos das motas poderiam alterar para ir à substituição e depois voltar a alterar de novo para aquilo que eles mais gostam, que é ter um escape que faça mais barulho e uns retrovisores mais pequeninos para se imaginar no papel do campeão do mundo de MotoGP, mas, na prática, não iria mudar nada. Sempre achei que um dos poucos aspetos positivos que as inspeções poderiam ter era retirar da circulação as motas roubadas, uma vez que são roubadas não só para circular, como são roubadas para desmontar e vender em peças para o mercado de substituição, aquelas de vão de escada que não têm que prestar grandes contas ao fisco. Mas a verdade é que ainda há pouco falei com um responsável de uma das maiores marcas em Portugal e ele confirmou-me que o roubo dos veículos das duas rodas não é um problema em Portugal. É claro que há roubos. Há roubos de tudo, há roubos de bancos também, mas nós estamos muito abaixo da média europeia, pelo menos dos principais países. Logo, também aqui poderia haver alguma vantagem, mas não seria determinante. De qualquer forma, deixe-me dar-te um elemento giro, é que para as marcas não haveria qualquer problema com as inspeções, ou seja, eles não são contra as inspeções, contanto que sejam feitas de forma racional, ou seja, especificamente para atestar o estado de conservação e de segurança do veículo.
Mas o que levou ao abandono definitivo das inspeções?
O processo era muito complexo. E depois, o que efetivamente acabou com esta ideia de avançar com as inspeções, foi a conclusão de que as vantagens que elas poderiam trazer para a segurança seriam mínimas. Nota uma coisa, há muita gente que, por falta de disponibilidade financeira, circula com carros com 20 anos, 30 anos, 40 anos. Não estou a falar dos clássicos, ou seja, nós dois gostaríamos de ter um veículo, um Ferrari, de preferência, de 1940, que valem uma fortuna. Não estamos a falar de carros clássicos, que esses, sim, são normalmente muito bem mantidos e estão melhores do que novos. Estamos a falar de carros que, por manifesta falta de dinheiro, as pessoas não assistem, não mantêm. Os carros são empenados. Tu já circulaste com certeza atrás de veículos em que as rodas de trás não andam atrás das da frente, ou seja, o carro está torto, está empenado. E nas motas não é assim, porque se travares, não estou a falar daquelas 50 aí na província, que aquilo quase que funciona como se fosse um cavalo ou um burro. É apenas um meio de transporte para as pessoas que as têm. E à falta de outra coisa melhor, de uma alternativa melhor. Estamos a falar das motas que provocam acidentes. Elas não estão empenadas, elas não travam mal, porque ninguém anda numa mota dessas, porque as pessoas sabem que quando caem, eles são o para-choques.
Exatamente.
Ou seja, o perigo acaba ali. Logo, ninguém anda com uma mota defeituosa. E logo as inspeções não iriam melhorar especificamente este ponto.
Sim, mas as motas são ou não são um problema de segurança?
Olha, também há essa ideia. Efetivamente, todos nós vemos. Eu moro aqui relativamente próximo de Alcoitão, de maneira que vejo ali muitos clientes, uma vez que quem sai de acidentes graves frequenta aquele estabelecimento hospitalar. Mas há essa ideia enraizada de que as motas provocam muitos acidentes. Mas a realidade é que eles até têm vindo a baixar, ou seja, se considerados o número de acidentes por veículos em circulação. E isto aconteceu quando a legislação permitiu que os condutores como eu e tu, com carta para conduzir automóveis, a B1, foi-nos permitido conduzir motas até 125 centímetros cúbicos com potência limitada.
Passado cinco anos de se tirar a carta, não é?
Exatamente. Logo no primeiro ano, eles nem sabem guiar carros, quanto mais agora motas. Estou a brincar, há alguns que guiam lindamente. É só uma generalização. Mas dizia eu que Isto trouxe para as motas uma classe de motards, para já habituados ao trânsito, ou seja, habituados a circular de automóvel e a ler o trânsito, a saber que aquele fulano tem um carro à frente, ele vai tentar mudar de faixa, e prever esse tipo de coisas. Simultaneamente, trouxe também motards com mais maturidade, com mais idade e logo menos dados a fazer cavalinhos em via pública e habilidades do género. E isso acabou por reduzir o número de acidentes por número de veículos em circulação.
Ok, mas os acidentes que acontecem poderiam de facto ser minimizados com a introdução de inspeções?
Não, Miguel, ninguém acredita nisso. Todas as pessoas com quem falei dizem que não faz sentido.
Ou seria um número reduzido, talvez seja mais por aí. Seria um número muito reduzido o que cairia nessa possibilidade de redução.
Na prática, o que acontece é o seguinte: o acidente acontece, excetuando aqueles que têm a manifesta falta de sorte, os acidentes acontecem ou por um problema técnico, de repente saiu-lhe a roda e ele caiu, ou então por problema de condução. Ele decidiu passar a 100 km/h numa zona de 30 km/h, num cruzamento em que não via se vinha alguém. E o que acontece nas motas é que as motas são envolvidas em acidentes por excesso de velocidade ou então por distração dos outros veículos. Todos nós já vimos acidentes, sobretudo na cidade, em que há quem faça a inversão de marcha sem ver se vem alguém atrás e sobretudo se for uma moto. E aí não é a inspeção que te safa. E já agora, em relação a isto, a nova lei, para além de premiar a mobilidade, ou seja, a moto efetivamente, para além de ser mais barata que um automóvel, o que é importante para muitas pessoas que se têm que deslocar, é também mais ágil. E nesse sentido, a possibilidade de circular nas faixas do bus, coisa que eles sempre fizeram, mas era ilegal, vai ajudar a valorizar a moto como veículo para a mobilidade urbana, mas sobretudo, a lei prevê também que exista mais formação para os jovens encartados, o que acaba por melhorar. Agora, de resto, é à polícia que cabe agir contra as motas que fazem cavalos e circulam muito acima do limite de velocidade, um pouco à semelhança do que fazem com os automóveis. Se têm que mandar parar, eles mandam parar os automóveis que andam depressa e que andam aí a fazer slides e traçadelas nas rotundas, etc. Logo, é proceder da mesma forma.
Quem é que sai prejudicado? Se é que alguém sai prejudicado com este recuo na decisão de avançar com as inspeções.
Eu acho que aqui ninguém sai propriamente prejudicado, exceto uma entidade, um tipo de entidade. Os condutores não saem prejudicados, os construtores também não, porque continuam a vender veículos de duas rodas, mas quem fica com a batata quente na mão, se me permites o termo, são as empresas que geram as inspeções periódicas. Ou seja, não foram eles que um belo dia, há mais de uma década, decidiram equipar-se para proceder às inspeções de motas. Foi o governo na altura que pediu que se equipassem para passar a inspecionar motas, o que eles fizeram. Agora estão ali a olhar para um equipamento há 12 anos, nem consigo dizer bem, mas há mais de uma década, que não usam, nunca usaram e agora aparentemente não vão usar. Como isto foi um serviço encomendado pelo Estado, uma vez que eles trabalham para o Estado, alguém vai ter que pagar. Desluzeu, quer dizer, não estou a ver ninguém a ficar ali com uns milhares de euros largos para que isso aconteça. Já agora, curiosamente, o mesmo Estado não paga, não investe, e nem impede que estes centros se equipem para proceder a outro tipo de análise de gases de escape, que seriam muito úteis e bem mais interessantes do ponto de vista de saúde. Tirando as empresas de inspeção, eu acho que ninguém vai perder com isto.
Muito bem. Está feita a "Operação Stop" desta semana, hoje sobre motas. Voltamos na próxima semana com um novo tema. Um abraço, Alfredo.
Miguel, para a semana vamos falar sobre aqueles monociclos. Aqueles do circo.
Veremos.
Estamos a reduzir o número de rodas, logo.
Claro.
Abraço, Miguel.
Um abraço.