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"Operação Stop" na Rádio Observador. Todas as semanas, as novidades do mundo automóvel, como sempre, com o Alfredo Lavrador. Alfredo, seja muito bem-vindo. Como é que estás? Como é que foi essa semana?

Lindamente, Rafael. Já sei que tu também estás, que falamos um bocadinho antes de arrancar com isto. Estamos aqui capazes de avançar com este tema, o tema da semana.

Exatamente. Sendo que o tema que trazes, sobre o qual queres falar, envolve veículos com motor a combustão e a transformação em motores elétricos. Isto por quê? Porque o governo aprovou, em Conselho de Ministros, a legislação que facilita a transformação de veículos com motor a combustão em veículos com motor elétrico, como já acontece noutros países. Isto é bom para quem? São perguntas que ficam no ar para serem respondidas de seguida pelo Alfredo Lavrador, sendo que vamos começar pela alteração em si. Que alteração é esta, Alfredo, de que se fala, que agiliza a transformação de veículos de motor a combustão para motor elétrico?

Essencialmente, tratou-se de resolver um problema que se arrastava durante anos. Podes não acreditar, mas havia oficinas, empresas e clientes que queriam transformar os seus carros, à semelhança do que se faz lá fora, e estavam anos. Eu sei de um indivíduo que transformou o M&M e nunca conseguiu homologar aquilo porque o IMT se recusa a homologar. É completamente estapafúrdio. E o Conselho de Ministros decidiu avançar com esta medida, aprovando esta regulamentação. Nota que isto não é uma coisa de um governo deste ou daquele, uma vez que foi transversal. A necessidade e a vontade de alterar a situação surgiu num governo do PS, que depois não avançou, porque entretanto o governo mudou, e acabou por ser resolvido depois. Não tem nada a ver com política, é uma questão até de justiça, sendo que os problemas, as dificuldades colocadas à homologação da alteração de veículos, ou de veículos alterados, se quiseres, é um tema recorrente em Portugal, porque devido à falta de flexibilidade, ou de competência ou daquilo que tu quiseres, do IMT, que prejudica toda a gente, empresas, particulares, condutores, tudo.

Dizias que esta é uma transformação comum noutros pontos, neste caso da Europa, países como França ou Reino Unido, acredito que existam ainda mais. Se isto é tão normal e tão comum, por que existe esta dificuldade em realizar a mesma alteração em Portugal, Alfredo?

Não te consigo responder. Falei com duas empresas para tentar perceber os contornos da coisa, uma especializada mais em carros clássicos e outra mais aberta em qualquer tipo de veículo, e a verdade é que não consegui perceber. Basicamente, o que eles acreditam é que é falta de técnicos competentes em veículos elétricos, habituados durante anos a trabalhar com carros com motores a combustão, mas a verdade é que são eles que têm a faca e o queijo na mão e pura e simplesmente recusam-se a homologar os veículos. E então a coisa arrasta-se. Agora imagina tu comprares, investires o teu dinheiro, recorreres a uma empresa que faz a transformação e depois ficares a olhar para um carro que não pode circular na via pública porque não está homologado. E nota que não é só o particular, a oficina e a empresa portuguesa, que já de si são prejudicados. Também é o caso de marcas como, por exemplo, as francesas, cujo mercado tem algum dinamismo, os ingleses também têm, mas aí as marcas não interessam, uma vez que as transformações são transversais à indústria. Mas, por exemplo, as marcas francesas, no caso a Renault, por um lado, e as marcas francesas do grupo Stellantis, a Peugeot e a Citroën, comercializam estes kits em França e noutros países. E são kits vendidos quase chave na mão, é instalar, é retirar uma mecânica, pôr a outra e circular. Tudo legal, tudo testado, ou seja, não estamos a falar da loucura de eu e tu juntávamos aí entre duas cervejas e transformávamos o carro. Sem conhecimentos, fatal. Não é isso, são empresas certificadas. Existem e têm uma homologação europeia. Ainda assim, o IMT não quer saber e recusa-se a certificar, e isso é lamentável.

Um dia queres fazer um convite desses, Alfredo, estou completamente aberto para tal. O das cervejas, entenda-se. Entretanto, sendo mais sério, exatamente, a minha qualidade de mecânico não é muito boa, digamos assim.

Nem a minha.

Alfredo, estas questões do IMT, estes entraves todos, acontecem por quê? Esta alteração é perigosa ou é complexa ao ponto de serem necessários tantos entraves?

Na prática, as duas coisas. É perigosa e é complexa. É perigosa, deixando de o ser, se for realizada por quem sabe. Lá está, nós os dois estamos fora desse capítulo.

Sim.

E é complexa porque mexe em muitas coisas. Só para te dar um exemplo. Em que é que consiste a transformação? Abres o capô, tiras o motor, tiras a caixa, que também não vai ser precisa. Ainda que há alguns carros que são transformados, como por exemplo, os SUVs, há quem prefira deixar a transmissão, o que inclui a caixa, porque aí garantes que não beliscas a capacidade de todo o terreno do carro, ou seja, aquilo continua a subir pedregulhos, se for caso disso. Mas dizia eu, tens que retirar o motor e a caixa O que é que sucede? Quando tiras o motor, ficas sem conseguir funcionar corretamente com os travões e com a direção. E por quê? Porque os travões precisam do vácuo gerado, produzido no sistema de admissão, nos coletores de admissão, para diminuir a pressão necessária para acionar os travões. Ou seja, nós colocamos o pé de leve sobre o pedal do travão e aquilo trava, não só pela pressão do óleo, mas porque o vácuo a retirar do motor acaba por suavizar, por diminuir o esforço sobre o pedal. Também a direção precisa da ajuda do motor para fazer circular uma bomba de óleo, que acaba por gerar pressão para fazer girar o volante com menos esforço. Essas duas coisas precisam de ser alteradas e substituídas por sistemas de travagem e sistemas de direção elétricos. Ou seja, não é só tirar o motor e a bateria, há outras coisas a fazer, mas tudo isto é simples e elementar, meu caro, como dizia o outro.

Para quem sabe.

Para quem sabe. Mais uma vez, não é o nosso caso, mas o que faltam aí é empresas especializadas e essas empresas têm empregados, etc., e são impedidas de funcionar porque o IMT acha que aquilo é uma perda de tempo e não está interessado nisso.

E quem é que são os clientes, Alfredo? Quem é que são os interessados em realizar esta transformação de passar um motor de combustão para um motor elétrico?

Olha, essencialmente há dois tipos de clientes. Há aquele que quer um carro elétrico mais barato, não está nadado em dinheiro. E então, do que é que se lembrou? Imagina tu, isto são casos, eu tenho aqui um Renault 4 de 1970, caído de podre, repara a chapa, repara o chassi, faz aquilo tudo e depois levo-o a uma empresa certificada, retiro a mecânica e a Renault já vende estes kits que custam cerca de € 12 mil. A Stellantis tem valores iguais e realiza o mesmo processo. Há outras marcas que também fazem isso. E tu por cerca de € 10 mil, € 12 mil, € 14 mil, ficas com o teu carro, que era a gasolina e que tinha um motor a babar óleo por tudo quanto é sítio, a caixa que já só entrava as mudanças que elas queriam, etc., ficas com um carro funcional, elétrico. Está claro que não tens muita autonomia, porque o carro não tem sítio para várias baterias, as baterias são de menor capacidade, estão ali um bocado limitadas, mas a verdade é que tens um carro elétrico por puta meia, ou por um valor inferior àquele que custa um carro elétrico, mesmo os mais baratos, e é o teu carro e tu podes achar piada. Outro tipo de cliente é o cliente que herdou do pai, do avô, da tia, imagina tu, um clássico, seja lá um Jaguar, Ferrari. Ferrari não, é sacrilégio, tirares aquele motor devias ser castigado. Mas um carro clássico com valor sentimental ou até um valor histórico, seja porque é fã da eletrificação, seja porque não está na disposição de gastar uma fortuna para recuperar aquele motor, normalmente são V8, já não há peças, etc., decide convertê-lo num elétrico. E ambos os clientes, seja o que tem pouco dinheiro, seja o que adorava ter o clássico funcional, estão impedidos de circular porque, lá está, o IMT não quer.

Alfredo, podemos então prever que vai existir uma grande procura para este tipo de alterações, ou seja, há tanta gente à procura de passar de um motor de combustão para um motor elétrico?

Não te vou dizer. Isto não é como aqueles dias de saldos nas lojas de roupa ou do que quer que seja. Não é uma coisa de grande volume. Mas imagina que nós os dois tínhamos uma empresa, e há muita gente nessa situação. Tínhamos uma empresa de transformação, tínhamos três empregados, 10 empregados, o que for. Porque aquilo mede tudo, mede pintura, mede chapa, mede não sei quê, não é só propriamente a parte da mecânica que tem que ser alterada. E de repente ficamos ali a olhar para aquilo. De maneira que não há assim muita gente. Mas sabes que estas graças do IMT, há muita gente que diz que é por maldade ou incompetência, eu não acredito que seja isso. Era interessante saber por que é que o IMT arrasta os pés durante anos para homologar um carro. Não afeta só estas transformações de combustão para elétrico. Por exemplo, uma marca francesa, não vale a pena dizer qual é, porque não interessa. Tu e eu sabemos, e os nossos ouvintes também sabem, que existem carros híbridos em Portugal. No mundo, carros com mecânicas híbridas. E também sabemos que existem outros carros que montam motores bifuel, que é aqueles motores que gastam simultaneamente ou gasolina ou GPL. E a vantagem do GPL é que é muito mais barato que a gasolina e é muito menos poluente, logo, tem vantagens. O IMT sempre homologou motores híbridos e sempre homologou em Portugal motores GPL, que é uma homologação europeia. E também tem homologação europeia, um motor que chegou agora, que é um motor híbrido e GPL, em simultâneo. O que é que o IMT fez? Não gostou do casamento, não sei por quê, e eles também não explicaram, e atrasou todo o processo de homologação. A marca esteve ali meses a fio à espera que eles se dignassem a homologar uma coisa tão simples quanto casar duas tecnologias que já existiam. Não se compreende. Se não é má vontade e incompetência, eu adorava saber o que era.

Ora, tu não sabes, Alfredo. Eu confesso, também não te consigo ajudar nisso. Consigo é ajudar com a agenda da "Operação Stop", que é muito simples, está de regresso para a semana, como sempre, com o Alfredo Lavrador. Até lá, Alfredo, um grande abraço.

Abraço, José.