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"Operação Stop", Rádio Observador. Mais um domingo para falar do mundo automóvel. Eu sou o Miguel Cordeiro, comigo já está o Alfredo Lavrador. Alfredo, bem-vindo.

Olá, Miguel, é sempre um prazer.

Hoje vamos falar de marcha atrás. É disso que vamos falar, basicamente.

Outra coisa assim, está bem.

Sim, é exatamente isto. A União Europeia tomou uma decisão, tomou um caminho, decidiu vamos por aqui, vamos fazer assim, e afinal, já não é bem assim, vai ser para trás. É cada vez mais difícil perceber o que é que vai acontecer aos motores de combustão em 2035. Era a meta para o fim deste tipo de motores nos veículos. Será que sempre vão ser banidos no mercado europeu, como foi negociado em 2015, ou agora os construtores europeus vão poder continuar a adquirir motores a combustão?

Isso promete, essa pergunta tem água no bico. Deixa-me dizer que ainda ninguém sabe. Ainda está tudo no segredo de Deus, uma vez que a decisão da Comissão Europeia apenas vai ser anunciada na próxima terça-feira. Estamos aqui em cima da jogada, digamos. Mas é bom que as pessoas percebam, quem nos ouve, que há uma série de países que pretendem um certo relaxar das regras que anteriormente foram acordadas, alegando que pretendem proteger os postos de trabalho dos países da União Europeia. Curiosamente, calcula tu, são exatamente os mesmos países que impediram uma maior penalização das marcas chinesas às exportações para a Europa de veículos elétricos.

Pois.

E aqueles veículos que a Organização do Comércio Mundial, que é quem manda nisso tudo, digamos assim, em termos de comércio, acusou de receberem contribuições ilegais do Estado chinês. E é essa abertura aos carros elétricos chineses que vai permitir que a percentagem no mercado europeu dos elétricos chineses duplique de 2024 para 2025, devendo atingir no final deste ano, que já não falta muito, os 15%.

Portanto, temos uma marcha atrás engatada. Não está em andamento ainda, mas está engatada. Se a decisão de banir os combustíveis fósseis em 2035 foi anunciada em 2022, com o acordo de todos os construtores e países europeus, por que a Comissão Europeia está agora com esta intenção de marcha atrás?

Basicamente porque os construtores alemães, que dominam a indústria automóvel europeia, sendo bom recordar que os germânicos são igualmente os maiores contribuintes do orçamento da União, estão com uma visão de curto prazo e preocupados exclusivamente com a distribuição de lucros imediatos pelos acionistas no final de cada ano.

Estão a tomar-

Exatamente, querem o dinheiro. Investiram lá o seu dinheiro e querem rendimento. O que é lícito. Só que isto é uma visão de muito curto prazo, em vez de ser como deveria ser estrategicamente de médio e longo prazo. Nota que as vendas não estão a subir, as vendas gerais, ainda que na Alemanha o único segmento que cresceu 50% em outubro foi o dos veículos elétricos. Mas as marcas germânicas preferem não investir nesta nova tecnologia, construindo novas fábricas, novas plataformas e novas fábricas de bateria, que não têm, reduzindo os investimentos para maximizar os lucros e a distribuição, como falámos há pouco. E já agora, é curioso que a Alemanha pressionou Bruxelas para que esta alteração fosse implementada, apoiada por outros seis países europeus. Curiosamente, calcula tu outra vez, quase todos eles, à exceção de um, dos seis, cinco são países em que as marcas alemãs têm fábricas implementadas, com grande peso na economia local. Logo, eles pedem e esses países obtêm.

Pois, certo é que houve algumas marcas e alguns países a investir no setor elétrico e que agora vão ter que lidar com esta possibilidade de marcha atrás. Mas como é que, a acontecer, se vai processar essa marcha atrás em relação aos motores a combustão?

O que tu disseste, tem toda a razão e eu não me espantaria que as marcas que investiram, e houve muitas marcas que investiram seriamente nos veículos elétricos, foi porque a União Europeia decidiu há uns anos. Nota que isto foi uma coisa que foi começada a negociar em 2009, depois em 2013, depois em 2015. Não faz sentido agora estarem a decidir que afinal não gostamos da forma como isto está a correr, trava tudo. Mas efetivamente, respondendo à tua pergunta, mais uma vez, terça-feira vai-se saber o que é que a Comissão Europeia decide, sendo de esperar ali uma no cravo e outra na ferradura, seguindo a velha moda tão lusitana. Agora, o que os países que estão a pressionar, com as marcas alemãs a empurrar por trás, é que continue a ser possível vender carros com combustão, bem como os motores híbridos plugin, cujo motor principal continua a ser o motor a combustão, seja ele a gasolina ou o gasóleo.

Sim.

Provavelmente com combustíveis menos poluentes, mas nota que esta menor poluição é exclusivamente em dióxido de carbono, para minimizar o impacto na saúde das pessoas, sobretudo aquelas que vivem nas grandes cidades.

Mas fala-se de combustíveis sintéticos e de biocombustíveis como forma de minimizar as emissões. Essa possibilidade é de facto real?

É um facto. Os combustíveis sintéticos, como são produzidos com carbono capturado na atmosfera, quando são queimados, libertam para a atmosfera o carbono utilizado na sua construção, na sua produção. Ou seja, é um vai e vem do carbono, não emites mais carbono Capturas de uma vez e depois libertas a mesma quantidade, essencialmente, passados uns tempos. Os biocombustíveis também têm o mesmo problema, ou seja, basicamente são produzidos à base de vegetais, restos de floresta, restos de produção agrícola, etc., que já sorveram carbono no passado, por isso é que cresceram. As plantas alimentam-se de dióxido de carbono, não de carbono só. Não gostam muito de monóxido de carbono, por exemplo, mas dióxido de carbono sim, é o alimento delas. Sucede que a União Europeia importa material para produzir biocombustíveis. Logo, não faz assim muito sentido tu estares a montar uma indústria às costas das importações. Ou seja, a mudança para os carros elétricos, entre outras vantagens, pressupunha libertar-se do petróleo que a Europa não tem. Mas se te libertas do petróleo e ficas cavar com os países produtores que têm excesso de resíduos agrícolas, não faz sentido nenhum.

De facto, há aqui uma estratégia que tem que ser definida ao certo, mas com esta proteção aos motores a combustão, a indústria europeia vai ficar mais forte face à concorrência chinesa, que é a grande questão?

Esse é que é o problema. E tu agora acertaste na cabeça do prego a toda a força. Se me permites a imagem.

Sim.

Eu sei que não é bonito. E por quê? Porque hoje em dia, basta ler qualquer publicação que se refira a veículos elétricos chineses, para ver que eles atingiram um nível que nunca tiveram nos tempos dos motores a combustão, mas já atingiram o nível dos veículos elétricos, que é superior à generalidade dos construtores europeus e americanos. Logo, são um potencial risco em termos tecnológicos. Isto é a situação agora, em 2025. Se tu atrasares o esforço e os investimentos que as marcas deveriam estar a fazer para desenvolver melhores carros elétricos e carros elétricos mais baratos e mais eficientes, o que tu vais ter é daqui a 10 anos, cinco anos, 10 anos, quando alguém te disser que este não é o caminho, estares tão atrás da indústria chinesa, que ou bem que rompes as negociações com eles e barras a entrada dos produtos deles, inclusivamente aí prejudicando o consumidor europeu, ou então não tens a mínima hipótese. A indústria europeia corre o risco de morrer por má gestão. E isso é uma pena, porque são muitos postos de trabalho. Só para te dar uma ideia, há 13,8 milhões de pessoas a trabalhar na Europa, na indústria automóvel, tanto na produção de carros como na produção de componentes. 13,8 milhões é muita gente.

Disseste sexta-feira, é isso?

Quinta-feira, desculpe.

Vamos ter uma decisão então.

Quem trabalhar em marcas de automóveis ou em marcas de fornecedores de peças para automóveis, talvez seja bom ver o noticiário ao fim do dia, porque é capaz de haver novidades e não necessariamente boas. Vamos ver.

Vamos perceber, de facto, o que decide a União Europeia quanto a esta questão, mas pode efetivamente concretizar-se essa marcha atrás de banir os motores a combustão em 2035. Voltamos na próxima semana com mais "Operação Stop", com um novo tema. Um abraço, Alfredo.

Abraço, Miguel.