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Bem-vindos a um novo episódio de Filhos da Nação. Estamos a conhecer o percurso das famílias dos vários candidatos às eleições presidenciais de 18 de janeiro. E já se sabe, nestes 15 minutos vamos fazer autênticas viagens no tempo. Se na maioria dos casos isso significa recuar dois, três, até quatro séculos, no caso de João Cotrim de Figueiredo, essa viagem leva-nos até 1387. São mais de 600 anos só para chegar à origem desse nome particular, Cotrim. Mas também há cruzamentos com dois adversários nesta corrida a Belém e, talvez a grande novidade, uma relação familiar com um ex-ministro da Economia. Como sempre, Rui Pereira vai fazer-nos companhia, vai até guiar-nos nessa longa viagem de muitos séculos. Ele é secretário-geral da Associação Portuguesa de Genealogia e foi quem andou a percorrer os arquivos e os registos da família de Cotrim Figueiredo. Rui, mais uma vez, muito bem-vindo.
Obrigado.
Vamos já começar por aí. Na maior parte dos casos, não é possível ir além do século XVII, talvez século XVI, quando se está a investigar as raízes de uma família. Por que se costuma deparar com essa limitação?
Ora, o que acontece é, nós já falamos disso num programa anterior, para fazermos uma pesquisa sistemática da família, a forma mais simples, quando os registos existem, é ir geração a geração, tentar encontrar ou um nascimento ou um casamento, e assim conseguir descobrir quem são os pais de uma determinada pessoa e depois da geração seguinte, etc. Ora, a realização sistemática desses registos foi decretada pela Igreja Católica, que era quem tinha o domínio em termos dos registos em Portugal ao nível das pessoas comuns, no Concílio de Trento, que ocorreu na segunda metade do século XVI. É um concílio muito famoso por ter sido contra-reforma, etc. E uma das medidas que na altura foram tomadas foi exatamente a sistematização dos registos paroquiais. Isso faz com que, a partir do final do século XVI, seja possível seguir, ou pelo menos tentar seguir, o percurso das pessoas comuns. Já havia alguns registos antes, mas de outros tipos. Depois disso, os registos não começaram a ser imediatamente tão completos, nem tão bons como os atuais. Houve muitos registos que se perderam pelo caminho. Portanto, há muitos casos em que nós não conseguimos ir tão atrás, mas pelo menos em teoria, já há ali um ponto de partida. Para trás disso, o que havia era muito menos coisas e quase sempre só sobre as pessoas mais importantes, os fidalgos ou eventualmente algumas pessoas que tivessem algumas questões especiais de compra ou venda de terras, mas que passassem por determinados registos. E é preciso não esquecer, nós estamos a falar de documentação que era escrita em papel e que o papel não se pode ter estragado desde há 500, 600, 700 anos. E nós sabemos que qualquer um de nós que tenha papéis em casa, o que é que acontece? E não são precisos tantos anos assim.
Bastam cinco ou seis. Neste caso, a história acaba por ser muito diferente. Eu falava no século XIV e muito em concreto no ano de 1387, porque é no mês de fevereiro que chega a Portugal dona Filipa de Lencastre para casar com dom João I, o rei de Portugal. O que isto tem a ver com Cotrim de Figueiredo?
Ora, tem a ver porque parece que terá sido nessa altura que a família Cotrim chegou a Portugal. A família Cotrim já é estudada por muita gente há muitos séculos. É daquelas famílias que têm uma longa história de pesquisa. A obra mais recente que faz um ponto da situação de todo o conhecimento chama-se "A Família Cotrim", foi coordenada por Paulo Alcuíneves, e segundo os melhores elementos que é possível apurar, o primeiro elemento da família Cotrim é um senhor chamado Jaime Cotrim Canas, e terá sido possivelmente um elemento da comitiva de dona Filipa de Lencastre, que veio de Inglaterra para Portugal.
Portanto, alguém que se pôs num barco de Inglaterra a caminho de Portugal há 600 e qualquer coisa anos.
Exatamente.
Rui, há aqui uma pergunta que se impõe. Estamos a falar de 1390, arredondando, um inglês que chega a Portugal e o nome dele é Jaime Cotrim Canas?
Pois, não seria Jaime Cotrim Canas, pelo menos não se pronunciaria assim. Aliás, mesmo o nome português da altura, se nós o pronunciássemos agora, seria provavelmente bastante diferente. Os nomes estrangeiros sempre foram alterados nas fronteiras.
Aportuguesados, não é?
Aportuguesados, neste caso, uma vez que estamos em Portugal. E aqui terá acontecido algo semelhante. Uma hipótese que é afirmada há séculos por alguns autores, mas que continua a não ter confirmação, é que o apelido original poderia ser um apelido inglês, que ainda existe, chamado Catterall, mas nós não sabemos se é de fato assim, mas é uma hipótese que conhecemos.
Portanto, uma transposição de Catterall, mais britânico, naturalmente, para Cotrim. Pode ter sido esse o caminho que o apelido fez. Nós quando olhámos para a genealogia de Gouveia e Melo, um dos destaques que encontrámos e de que falámos foi o facto de uma parte da família ter recebido um brasão de armas. No caso da família Cotrim, isso acontece em 1504 com Lopo Martins Canas Cotrim e volta a acontecer novamente em 1572, cerca de 70 anos mais tarde, com Rui Lopes Cotrim. Que significado é que este brasão de armas tem? Nós já falámos um pouco sobre isto noutras conversas.
Tem um significado importante. Estas pessoas eram claramente pessoas importantes do seu tempo e eram, portanto, das tais pessoas para quem há outros registos, além dos básicos dos batismos e casamentos.
Porque tinham ascendência, eu vou chamar-lhe real, nobre, distinta.
Sim.
E isso fez com que o registo desta família fosse mais cuidado e mais rico do que outras.
Sim, é por esse motivo que nós sabemos que estas pessoas existiram, porque se nós pensarmos, por exemplo, no caso da primeira carta de brasão concedida nos primeiros anos do século XVI.
1504.
Estamos a falar de uma pessoa que nasceu ainda no século XV e que seria completamente impossível encontrar o registo de batismo ou registo de casamento desta pessoa, uma vez que nesse tempo ainda não se faziam esses registos.
E depois acaba por haver quase uma renovação, eu não sei se é uma renovação, se é um reforço desse fator distintivo, quando é atribuído o novo brasão de armas em 1572. Dois brasões na mesma família já tinha encontrado, não?
Sim, acontece. É normal. Até por exatamente esse desejo de renovar e reafirmar a importância, que a família continua a ter importância, até porque as armas, em particular uma carta de brasão, não era concedida a uma família, era concedida a uma pessoa.
A um indivíduo. Depois era extensível à família essa distinção ou ficava muito centralizado na figura a quem era atribuída?
A família poderia, em geral, usar armas, mas em princípio, cada membro da família teria que usar armas com pequenas diferenças e, portanto, para que uma pessoa pudesse dizer sem ter, digamos, outro tipo de problemas, que sim, que era, por exemplo, da linhagem, que já costumava usar as armas, etc. Porque, por exemplo, podia ser um primo e virem outras pessoas dizer: "Ah, não, mas este tem o mesmo apelido, mas é coincidência."
Não lhe foi atribuído a ele.
Exatamente. As armas nem sequer eram da família dele, ele está a usurpar. Portanto, era importante esta situação.
E que fosse centrada no indivíduo. Estamos a falar, obviamente, de João Cotrim de Figueiredo. Curiosamente, a grande figura na vida deste candidato nem sequer vem da linha dos Cotrim e também não vem do ramo dos Figueiredo. No livro "Professor Liberal", o candidato fala longamente sobre como a sua avó materna, Maria dos Prazeres Gonçalves, o marcou profundamente. É uma referência que pode ser lida no artigo que o Observador tem publicado sobre Cotrim. Ora, de volta à nossa árvore genealógica. Cotrim tem dois primos na corrida. Quem são eles, Rui? E por curiosidade, quão antigos são esses cruzamentos familiares?
O primo mais próximo, penso que o mais próximo, é André Ventura. E curiosamente, é um parentesco muito próximo da linha Cotrim, porque existem uns antepassados, que são antepassados comuns a André Ventura e João Cotrim de Figueiredo, chamados Miguel Antunes de Sousa e Luzia Maria da Conceição, que casaram em 1760 em Dornes, no Conselho Ferreira do Zêzere. São sextos avós de João Cotrim de Figueiredo e sétimos avós de André Ventura. Eles tiveram uma filha, Maria Luzia, também aparece às vezes como Maria Luísa, que casou com António Cotrim, e este António Cotrim é de onde vem o apelido de João Cotrim de Figueiredo. A partir deste ponto, é uma linha por varonia, sempre até à mãe de João Cotrim de Figueiredo. Mas além desta Maria Luzia ou Maria Luísa, também tiveram um filho chamado António Antunes, que vem a ser antepassado de André Ventura, naturalmente, já por uma linha que perde estes apelidos.
E ainda há a relação de parentesco com Henrique Gouveia e Melo.
É verdade. O parentesco com Henrique Gouveia e Melo, que já falámos no episódio sobre Henrique Gouveia e Melo.
Já não será propriamente uma surpresa.
É em Silgueiros, no Conselho de Viseu, e é por Manuel Fernandes e Maria Lourença Branca, que casaram lá em 1705 e são sétimos avós de Henrique Gouveia e Melo e oitavos avós de João Cotrim de Figueiredo. E depois, há uma, penso que é uma surpresa, que é o segundo parentesco com André Ventura, que até acaba por ser um parentesco duplo e que é um parentesco um bocadinho inesperado. É que André Ventura é Cotrim. Não só é Cotrim, como é Cotrim várias vezes. Coisa que João Cotrim de Figueiredo, tanto quanto sei, não é.
O que significa isso, ser Cotrim várias vezes?
Estou apenas a dizer porque André Ventura descende duas vezes de Jaime Cotrim Canas, por duas linhas, sendo que o último antepassado Cotrim comum a João Cotrim de Figueiredo e André Ventura é António Rodrigues Cotrim, que é um trineto de Jaime Cotrim Canas. Ele é 11º avô de João Cotrim de Figueiredo e duas vezes 14º avô de André Ventura. Para além disso, André Ventura ainda tem mais uma linha de ascendência Cotrim, mas essa não se sabe onde vai dar em termos de Jaime Cotrim Canas, se é que descende de Jaime Cotrim Canas, é provável que sim. Aliás, curiosamente, vem de um casal em que o primeiro elemento desse casal a falecer foi o marido, que era Cotrim, e a senhora voltou a casar com um descendente comprovado de Jaime Cotrim Canas, também de apelido Cotrim.
O que está a dizer é que André Ventura é mais Cotrim que o próprio Cotrim?
Em termos de número de linhas de ascendência, é mais Cotrim. Em termos de ADN, se nós formos a ver, embora a esta distância se calhar já nenhum deles tenha ADN nenhum do antepassado comum, na realidade, André Ventura é menos Cotrim do que João Cotrim de Figueiredo. Porque é, e se nos cingirmos apenas aos ramos comprovados, ele é duas vezes, mas é duas vezes 14º avô. André Ventura, se nós agora os colocássemos na mesma geração, André Ventura é como se fosse bisneto de João Cotrim de Figueiredo, porque tem umas gerações mais apertadas. Naturalmente, ele não tem idade para ser bisneto, tem eventualmente idade para ser filho, no máximo. Ou seja, ser duas vezes bisneto é o equivalente a ser uma vez neto e, portanto, João Cotrim de Figueiredo ainda será mesmo assim quatro vezes mais Cotrim do que André Ventura.
Está reposta a legitimidade do nome. Ora, no cruzamento com Gouveia e Melo, estamos a falar de familiares que desde finais do século XVII andavam ali pela região de Viseu Se subirmos um pouco no mapa, mais ou menos pela mesma altura, e formos até Viana do Castelo, temos outro cruzamento, o que resulta do casamento entre Manuel Afonso Pequito, oitavo avô de Cotrim, e Maria Afonso?
Exatamente, que são antepassados de João Cotrim de Figueiredo. Eles viveram na freguesia de Ariosa, no concelho de Viana do Castelo, como já disse, nos finais do século XVII. Há uma linha que vai dar a João Cotrim de Figueiredo, que se mantém naquela zona e depois acaba por ir para o Porto e depois acaba por chegar a Lisboa. Mas há uma outra descendente deste casal, que é uma Maria Afonso Pequito, que em 1823 casa com Joaquim Pires de Lima, filho de Francisco Gonçalves de Lima e Maria Pires. Deste casamento de Francisco Gonçalves de Lima e Maria Pires, e em particular do seu filho Joaquim Pires de Lima, descende toda a bem conhecida família Pires de Lima, que já há várias gerações tem destaque na sociedade portuguesa, nomeadamente o antigo ministro da Economia, António Pires de Lima, e já o seu pai, que também se chamava António Pires de Lima e foi bastonário da Ordem dos Advogados.
Portanto, só para resumir aqui as coisas, João Cotrim de Figueiredo, primo de Gouveia e Melo, primo de André Ventura, primo de António Pires de Lima.
Exatamente.
Rui, nos últimos minutos estivemos a falar sobre os chamados notáveis na família de Cotrim de Figueiredo, mas em alguns casos a família direta dos candidatos também traz algumas informações curiosas, vou chamar-lhe assim. Por exemplo, Navarro da Silva, que nem sequer é caso único no que diz respeito a nomes mais relevantes na família do candidato. Eu gostava de perguntar-lhe especificamente sobre um elemento, João Pedro da Costa e Távora, mas que também aparece com o apelido Veiga. Há aqui alguma relação com o processo dos Távora e a família dos duques de Aveiro?
Acaba por haver. Este doutor João Pedro da Costa e Távora tem uma vida bastante accidentada desde até antes do seu nascimento. Este senhor nasceu em Vouzela em 1712, é antepassado da avó materna de João Cotrim de Figueiredo, que há pouco foi referida, que aliás ainda nasceu em Vouzela. Toda a linha que liga estas duas personalidades nascidas com cerca de 200 anos de intervalo está em Vouzela. Este doutor João Pedro da Costa e Távora tinha o curso de leis, como nós hoje diríamos curso de direito, e ele era filho ilegítimo do doutor Manuel Nunes da Veiga e de Maria da Costa. Esta senhora Maria da Costa era solteira quando engravidou, mas durante a gravidez casou com outro homem chamado Manuel Fernandes e foi testemunha do casamento o próprio doutor Manuel Nunes da Veiga, de quem ela estava grávida. No registo do batismo, inicialmente foi indicado que o padrinho era o marido da senhora com quem ela casou já com a gravidez adiantada, mas o registo foi emendado, pode ser visto por qualquer pessoa que saiba o link para o registo. Ele está lá emendado a explicar que não é, o pai é outro. E depois este senhor, como se não tivesse já tido estas peripécias logo antes do seu nascimento, lá fez a sua vida. E depois, em 1758, acontece o atentado contra o rei Dom José, que é atribuído a uma família de apelido Távora, que era uma das famílias mais importantes de Portugal, que era a dos duques de Aveiro, e por esse motivo foi decidido que todas as pessoas que se chamavam Távora em Portugal, mesmo que não tivessem qualquer relação conhecida com os Távora.
E em muitos casos não tinham.
E em muitos casos não tinham. Neste caso também não sabemos que tivesse, possivelmente teria, mas não sabemos que tivesse. Todas as pessoas foram obrigadas a mudar de nome. E foi o que este doutor João Pedro da Costa e Távora fez, que já com 40 e tal anos passou a usar João Pedro da Costa e Veiga. Seria a mesma coisa que de repente todos os Cotrims serem obrigados a mudar de nome e João Cotrim de Figueiredo tinha que passar a chamar-se, se calhar, João Távora de Figueiredo, dizer qualquer coisa. É estranho, mas foi uma má coisa que aconteceu na altura.
Eu normalmente deixo para o fim uma pergunta, quase desafio, sobre uma curiosidade. Com esta eu acho que o assunto fica arrumado, porque de facto aqui este cruzamento com os Távora é no mínimo curioso. Rui, agradeço-lhe imenso mais uma vez a sua companhia e esta viagem que fez connosco. Nós voltamos muito em breve para olhar para as raízes familiares de um novo candidato às presidenciais de 18 de janeiro. Voltamos portanto em breve. Muito obrigado.