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Bem-vindos a um novo episódio de Filhos da Nação. A caminho das eleições presidenciais de janeiro, continuamos a olhar para a história de família de cada dos principais candidatos. Hoje vamos percorrer os ramos familiares de Catarina Martins, deputada ao Parlamento Europeu, ex-coordenadora do Bloco de Esquerda e que em meio de outubro formalizou a sua candidatura a Belém. Como já temos vindo a dizer, a investigação da árvore genealógica da família da candidata esteve a cargo da Associação Portuguesa de Genealogia. Muito concretamente, essa responsabilidade pesou sobre os ombros de Rui Pereira, secretário-geral da associação. Rui, seja muito bem-vindo.
Muito obrigado.
Antes de começarmos, eu vou só dar aqui uma nota de contexto, porque no relatório que preparou sobre cada dos candidatos, o Rui apresenta os ramos familiares primeiro e depois os cruzamentos que foi possível encontrar com figuras notáveis. Eu tenho que começar já por esta segunda parte. Catarina Martins, prima de Marcelo Rebelo de Sousa?
Tínhamos que começar por aqui, até por razões protocolares, uma vez que o presidente da República é a primeira figura do Estado. Até dia nove de março, ainda é o professor Marcelo Rebelo de Sousa. A genealogia de Marcelo Rebelo de Sousa já está bastante estudada, nomeadamente num artigo que saiu há uns anos na revista da Associação Portuguesa de Genealogia e cujos autores são Luís Cardoso Menezes e Nuno Barata Figueiro, curiosamente também autores do artigo sobre Gouveia e Melo, que já falamos aqui. E é verdade, Catarina Martins e Marcelo Rebelo de Sousa são ambos décimos netos de Manuel de Morais, sapateiro e escrivão, e de sua mulher, Isabel Rodrigues, que nasceram no início do século XVII em Vila Nova de Foz Côa.
Ambos de Vila Nova de Foz Côa.
Ambos de Vila Nova de Foz Côa. A linha que leva Marcelo Rebelo de Sousa vai de Foz Côa para a zona de Figueira de Castelo Rodrigo, Pinhel e depois para a Covilhã, onde nasceu a mãe de Marcelo Rebelo de Sousa, que é um facto pouco conhecido, porque ele é associado mais a Celorico de Bastos, mas isso é de onde veio a família do pai. A linha de Catarina Martins fica mais tempo em Foz Côa e mantém-se na zona raiana até à avó materna, Maria Raquel Batista, que ainda nasceu em Torre de Moncorvo, mas que foi viver para o Porto. Falta dizer o que nesta altura alguns ouvintes mais versados em genealogia já estarão a adivinhar, é que estes antepassados comuns são cristãos novos.
Essa linha, como o Rui explicava, começa com Manuel de Morais, por um lado. Sabemos que é batizado em Vila Nova de Foz Côa, 15 de junho de 1606, e os registos de batismo e de casamento da Igreja Católica são uma fonte de informação muito relevante para a investigação genealógica, mas também o são os registos da Inquisição. O Rui já estava a levantar um bocadinho a ponta do véu. Este ramo que leva a Marcelo Rebelo de Sousa tem muita informação a esse respeito, correto?
Tem. Tem muita informação, e isto é verdade para as famílias de cristãos novos em geral, porque a Inquisição esteve muito ativa ao longo de vários séculos e deixou-nos, salvo erro, cerca de 40 mil processos individuais, na sua grande maioria de cristãos novos acusados de judaísmo. Estes processos estão todos na Torre do Tombo. E entre esses 40 mil processos está um, que é exatamente o de Manuel de Morais, o antepassado comum de Catarina Martins e Marcelo Rebelo de Sousa que acabamos de referir. Ele nasceu, portanto, em 1606, foi preso em 1667 e saiu em auto de fé em 1669, mas não foi condenado à morte.
Ia perguntar se havia nessa linha mais figuras que tivessem isso.
Sim, também há. Um neto dele, de quem descende Catarina Martins, António da Silva, que era curtidor, nasceu por volta de 1687, também teve processo de inquisição, neste caso porque se apresentou voluntariamente para confessar culpas de judaísmo em 1725. E do lado de Marcelo Rebelo de Sousa, o filho do antepassado comum, que se chamava Diogo de Morais, que foi tendeiro e sapateiro, tendeiro é comerciante, essencialmente, também se apresentou à inquisição em 1667 e saiu no auto de fé em 1669, o mesmo em que saiu o pai.
Vários casos, de facto.
Toda a linha desde os antepassados que são comuns até Marcelo Rebelo de Sousa vem numa obra, que são dois volumes enormes, "Judeus de Vila Nova de Foz Côa", de João Manuel Braz e Nuno Borrego, e também encontramos alguns antepassados de Catarina Martins ligados a estes na obra "Judeus de Belmonte", de João Manuel Braz, que é um dos autores da outra obra.
Nós estamos a falar, em muitos casos, de cristãos novos, como o Rui já disse, eram judeus que estavam a viver em Portugal e que de alguma forma foram perseguidos pela Igreja, foram condenados, em muitos casos, forçados a converterem-se ao catolicismo. Nós estamos a falar, por exemplo, e já que estamos neste tema, da família Navarro. Só que aqui vamos abrir uma autêntica caixa de Pandora de cruzamentos familiares com Catarina Martins. Ora, começando, desde já, pelos Navarro. Que família é esta?
Estes Navarro são uma família que tem origem em Espanha, do lado de lá da fronteira, mas perto de Portugal, perto de Bargança, numa terra chamada Trabaços, de onde vieram para Portugal, inicialmente para o Mogadouro, António Nunes Navarro e a sua mulher Maria Nunes, que nasceram em meados do século XVI. Catarina Martins descende duas vezes deste casal, é simultaneamente décima neta e décima primeira neta. E em ambos os casos a descendência é por neto deles chamado João Rodrigues Navarro, que casou com Esperança Rodrigues. Agora, os Navarro têm, de facto, uma descendência enorme, e de tal forma enorme que há quatro volumes, que são mil e muitas páginas, "Judeus, os Navarros de Lagoaça", de Filipe Pinheiro de Campos e António Maria de Assis, que têm simplesmente esta obra é só a descendência destes Navarro antigos. E esta obra não está completa Catarina Martins não está lá. Na descendência que vai dar a ela, chega-se à trisavó dela, Maria José da Silva, e a partir daí para-se. Provavelmente, porque os trisavós dela mudaram de terra a partir de certo ponto.
E perde-se o rasto. Nós lá iremos. Vamos falar sobre a multiplicidade de relações familiares que nascem daqui. Eu devo dizer que quando olhei graficamente para esta árvore genealógica, nunca tinha visto uma coisa assim, com tantos cruzamentos. Tudo começa com a união de João Rodrigues Navarro e Esperança Rodrigues, a meio do século XVII. E há duas questões que me surgem neste momento. Uma é precisamente a multiplicidade de relacionamentos entre tios e sobrinhas. A outra, também a multiplicidade de figuras conhecidas que saem desta família. Indo ao primeiro ponto, há alguma explicação para estes relacionamentos entre familiares tão próximos?
Há algumas explicações. Eu talvez não seja a pessoa mais indicada para responder, mas historicamente há, de facto, uma grande endogamia nas famílias de cristãos novos. É bom não esquecer que historicamente os cristãos novos e os cristãos velhos eram populações diferentes, que não se cruzariam muito, quando uns eram judeus e os outros já eram cristãos. Os cristãos novos eram em menor número que os cristãos velhos, isso eventualmente limitaria a sua escolha no momento de casar. E também é bom não esquecer que ter ascendência cristã-nova era não só visto como algo mau pelos cristãos-velhos em geral, algo negativo, como era mau do ponto de vista legal. Havia leis para isto. Eu nem vou aqui dizer os termos que aparecem correntemente na documentação oficial dessa época, que hoje seriam considerados completamente insultuosos para essas pessoas, mas de facto havia uma discriminação que não ajudava muito que os cristãos-novos se pudessem ligar a outras pessoas.
Adorando esta aula de História que nos está a dar aqui e que é interessantíssima, tenho que saltar já para as figuras notáveis. Eu aproveitava para destacar já uma, que para mim foi uma surpresa, como outras, António Sousa Lara.
Exatamente. António Sousa Lara é não só descendente dos Navarros e, portanto, parente de Catarina Martins, como é talvez o maior responsável por estarmos aqui a falar desta família, porque Sousa Lara, a maior parte das pessoas eventualmente não saberá, mas é genealogista. Foi o grande promotor do Laboratório de Estudos Judaicos do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, que apoiou a publicação dos judeus de Vila Nova de Foz Côa, dos judeus de Belmonte e dos Navarros de Lagoaça. Aliás, foi ele que fez a apresentação da obra. Eu sou testemunha, eu estive lá no lançamento na Biblioteca Nacional em 2019. Portanto, nestes parentescos eu realmente vou ter que abreviar, porque estas árvores são complicadíssimas. Eu imagino o trabalho que não terão dado a quem trata da apresentação gráfica. Sousa Lara, no caso, descende duas vezes dos Navarros, porque ele descende exatamente do casamento de um tio com uma sobrinha, José António de Campos Henriques, com Ana Máxima de Campos Henriques em 1814.
E também será necessário dizer que Sousa Lara, além de ter tido funções como governante, foi subsecretário de Estado da Cultura, precisamente nessas funções, teve ali uma relação difícil, em particular, com uma determinada obra de José Saramago. Que outras figuras encontramos neste vastíssimo e muito produtivo ramo familiar?
Exatamente. Apenas para citar mais duas figuras, temos o caso do atual presidente do Automóvel Clube de Portugal, o empresário Carlos Barbosa, que descende três vezes dos Navarros. Curiosamente, as linhas dele separam-se exatamente no mesmo ponto que as duas linhas de Catarina Martins. Catarina Martins descende uma vez de um lado, uma vez do outro, Carlos Barbosa descende uma vez de um lado, duas vezes do outro.
Pelos tais cruzamentos familiares entre tios com sobrinhas.
Exatamente. Temos também, e isto é curioso, porque os pais de Catarina Martins são professores de Matemática, uma das fundadoras da Sociedade Portuguesa de Matemática, Guida Lami, que trabalhou com Bento de Jesus Caraça e foi a primeira mulher a formar-se em Engenharia Eletrotécnica em Portugal.
No caso de outros candidatos, nós encontrámos cruzamentos com figuras da política, do desporto, da cultura, se não me falha a memória. Por exemplo, os primos de António José Seguro, os graus de parentesco entre António José Seguro e Amália Rodrigues. Ora, no caso de Catarina Martins, que tem obviamente um passado ligado à cultura e ao teatro, em específico, também há uma relação familiar interessante.
Sim, e esta relação não é pelos cristãos-novos, é sim pelo lado paterno da família de Catarina Martins, originário de Vagos. E por esse lado, Catarina Martins é parente do escultor Charters de Almeida, até é um parentesco bastante próximo. Os antepassados comuns são Manuel João dos Santos e Isabel Domingues, que nasceram em finais do século XVIII e viveram no lugar de São Romão, próximo de Vagos. São quartos avós de Charters de Almeida e quintos avós de Catarina Martins. Quem quiser conhecer mais sobre a obra de Charters de Almeida pode ir a Abrantes, ao Museu de Arte Contemporânea, que tem o seu nome, ou então se estiver atento, e se calhar não precisa de tanta atenção, pode reparar no marco de 23 metros de altura em Condeixa, junto à A1, que celebra a conclusão da autoestrada Lisboa-Porto.
Que é da autoria de Charters de Almeida.
Que é da autoria de Charters de Almeida, ou muito mais perto daqui, pode ir ao fim da Avenida do Brasil, ao início da Alameda da Universidade, àquela escultura que está quase em frente à torre do tombo, onde estão todos os processos de inquisição que há pouco falámos, que é uma escultura de Charters de Almeida.
E que este ano celebrou 90 anos, se não estou em erro.
90 anos de idade.
Nós temos estado a falar sobre os notáveis, sobre os cruzamentos destes nossos candidatos às presidenciais com figuras conhecidas do grande público, mas há ainda a chamada família direta de Catarina Martins, neste caso. Eu queria só abordar o que me pareceram duas características mais diferenciadoras desta árvore. Uma é o fato de haver uma linha feminina pura, relativamente curta, tendo em conta outras experiências. Nós, neste caso, só conseguimos recuar a 1785, ali no final do século XVIII. Por que isto acontece?
Parece ter sido um caso de um certo azar, porque de facto não se conseguiram encontrar registros que permitissem perceber exatamente onde casaram ou de onde eram originários a quinta avó Antónia Escolástica e o seu marido José Pintor. Não conseguimos encontrar mais registros, apesar de aparentemente os livros paroquiais existem.
Neste caso não se trata propriamente de ser uma situação, como já falámos aqui, de filhos colocados na roda dos expostos ou sem referência aos pais. É mesmo uma falta de documentação, de acesso à documentação.
É uma questão mais de azar, se calhar. É o tipo de coisa que com uma pesquisa um bocado mais aprofundada, algum dia talvez se consiga descobrir.
Aqueles mergulhos nos arquivos que também já aqui falámos. Rui, a outra questão que lhe colocava é precisamente sobre Vagos. Esta localidade de Vagos, 250 anos e nove gerações na linha masculina pura de Catarina Martins, que nunca saem desta localidade, que fica a uns poucos quilómetros a sul de Aveiro. Quem eram estas pessoas e o que é que sabemos sobre o que faziam por lá?
O pai de Catarina Martins, que ainda nasceu na freguesia que era antigamente a freguesia de Vagos, que incluía a atual também de Santo André de Vagos, é professor de Matemática e até ganhou o Prémio Nacional de Professor do Ano. Para trás disso temos principalmente lavradores, ou seja, pessoas que eram donas das suas terras, com o caso de um trabalhador, ou seja, uma pessoa que trabalhava para outros. Curiosamente, apesar de ser uma zona próxima do mar, eu não encontrei profissões ligadas ao mar. E esta concentração em Vagos, devo dizer que não é apenas na linha da avonia. A família paterna de Catarina Martins está muitíssimo concentrada em Vagos, até datas muito distantes.
Muito bem. Rui, mais uma viagem que acabamos de completar. Eu agradeço imenso a sua presença em mais este episódio de "Filhos da Nação". Nós voltamos muito em breve para pesquisar e conhecer mais em detalhe as raízes familiares de um novo candidato às eleições de 18 de janeiro. Voltamos portanto em breve. Muito obrigado.