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Sejam bem-vindos. Começamos agora mais um episódio de "Filhos da Nação". Quem nos tem acompanhado já sabe que a cada novo episódio nós olhamos para as raízes familiares de cada um dos principais candidatos às eleições presidenciais de 18 de janeiro. Essa investigação foi feita pela Associação Portuguesa de Genealogia, em particular, a consulta dos arquivos, uns com algumas décadas, outros com vários séculos, foi feita por Rui Pereira, secretário-geral da associação. O nosso combinado é em cada episódio aventurar-nos por um candidato novo. Ora, a vítima desta vez é Luís Marques Mendes. Ele é natural de Azurém, Conselho de Guimarães, tem 68 anos, é advogado, foi líder do PSD e concorre a estas eleições em nome próprio, naturalmente, mas conta com o apoio do PSD e do CDS. Mas isso, enfim, já quase todos devem saber. Rui, seja muito bem-vindo.
Obrigado.
Há muito mais que se pode dizer sobre a família, sobre as origens de Luís Marques Mendes. Já falei aqui sobre o que se sabe. Mas o que muitos não imaginam é que o social-democrata tem relações de parentesco com dois nomes extremamente relevantes da política nacional. Um deles, vou já abrir o jogo, é Jorge Sampaio. E para encontrarmos a origem desse parentesco, temos de voltar a Guimarães.
Exatamente. Luís Marques Mendes está, portanto, na corrida para tentar repetir o feito do seu primo Jorge Sampaio e ser presidente da República.
Exatamente.
Eles têm ascendência comum na freguesia das Infantas, no Conselho de Guimarães. Os antepassados comuns mais próximos que encontrámos chamavam-se João Ribeiro e Josefa Francisca. Viviam lá na primeira metade do século XVIII. Eram sétimos avós de Luís Marques Mendes e sextos avós de Jorge Sampaio.
Eu há pouco já falava de dois nomes sonantes da política nacional. Já vimos como é que Luís Marques Mendes cruza com Jorge Sampaio. O outro nome é de alguém que também tentou chegar a Belém, verdade seja dita, mas acabou por ser batido por Mário Soares em 86, naquelas que até hoje foram as únicas presidenciais que só ficaram resolvidas à segunda volta. Vamos ver o que acontece depois de 18 de janeiro. Nós estamos, naturalmente, a falar de Diogo Freitas do Amaral. Rui, há situações em que o apelido da família lá para trás nos dá algumas pistas sobre o que aí vem, mas aqui isso está longe de acontecer. Aliás, até ao contrário.
Pois, até ao contrário. E neste caso, realmente, Luís Marques Mendes preferirá imitar o primo Jorge Sampaio e não o primo Freitas do Amaral em relação ao desfecho.
Imagino que sim.
Mas curiosamente, os antepassados comuns a Luís Marques Mendes e Freitas do Amaral são de apelido Sampaio. Sem ligação conhecida com Jorge Sampaio, embora a família Sampaio até fosse mais ou menos da mesma zona. E esta zona em que há pouco referimos o parentesco com Jorge Sampaio, isto é tudo relativamente próximo. Os antepassados que encontrámos em comum com Freitas do Amaral, os mais próximos, chamavam-se António de Sampaio, exatamente, e Maria Durães. Eles eram da freguesia dos Jogueiros, no Conselho de Felgueiras, e nasceram em meados do século XVIII. Eles eram sextos avós de Luís Marques Mendes e quintos avós de Diogo Freitas do Amaral.
Sim, de facto, é muito curioso, porque a família acaba por ser mais marcada pelo apelido Sampaio, estou aqui a percorrer os nomes, do que propriamente por Amaral ou Mendes. Portanto, há essa curiosidade, por isso é que dizíamos há pouco que é, na verdade, ao contrário do que se esperaria. Já aqui temos explicado que para chegar a estes cruzamentos familiares, o que se faz é ir subindo passo a passo, geração a geração, pelos ramos familiares de cada candidato. Isso significa que se vai investigando a origem dos apelidos dos pais, depois dos avós, dos bisavós e por aí adiante. Já percebemos como é que funciona. No caso de Marques Mendes, há um dado que me pareceu curioso, é que nenhum dos apelidos vem daquilo que nós chamamos a linha pura masculina e a linha pura feminina. Antes de mais, pedia se nos ajudasse a explicar exatamente o que é que é isto das linhas puras.
Sim, quando eu digo linha masculina pura ou linha feminina pura, estou a referir-me às linhas que têm só homens ou só mulheres, ou seja, pai do pai do pai ou mãe da mãe da mãe, algo assim.
Independentemente do apelido que tenha vingado.
Independentemente do apelido. Há muitas culturas que valorizam especialmente estas linhas, como é sabido. Por exemplo, na tradição de muitos países europeus e também em Portugal, muitas vezes dá-se mais valor à linha masculina pura. E muitas vezes é aí que se transmite o apelido, embora historicamente em Portugal essa tradição não seja tão forte como é noutros pontos da Europa, onde já acontece há muitos séculos a transmissão muito rigorosa por linha masculina.
De facto, peço desculpa, mas há aqui períodos no século XX, creio que alguns até no século XVIII, em que era o nome da mãe que passava pro filho e pra filha em último lugar, portanto, vingava o nome feminino da família e não o masculino.
Sim, acontecia muito. Há outras culturas, naturalmente, que valorizam mais a linha feminina, mas aquelas que nós aqui na Europa estamos mais familiarizados, normalmente valorizam mais a linha masculina. O que é curioso é que em data comparativamente muito mais recente, se percebeu que isto não é apenas cultural, porque é algo que também existe na própria forma como a hereditariedade funciona. Há uma pequena parte do nosso ADN que vem sempre por estas linhas sem mistura e que até fornece informação muito interessante sobre a história da humanidade. É o caso do cromossomo Y na linha masculina e do ADN mitocondrial na linha feminina.
E isso também ajuda a explicar estas linhas femininas puras e linhas masculinas puras. Como eu referia, se fizermos esse exercício e formos subindo a linha feminina de Marques Mendes, onde é que nós vamos ter?
Vamos conseguir chegar a uma décima avó, portanto, bastante longe. Ela chamava-se Antônia Leite, vivia em meados do século XVII na freguesia dos Jogueiros, a tal freguesia onde foi encontrado o parentesco com Freitas do Amaral. E é curioso que durante sete gerações o apelido Leite foi sempre passado por via materna. A trisavó de Marques Mendes, nesta linha, ainda se chamava Maria Teresa Leite e nasceu em 1794. E eu não quero estar agora aqui a enganar-me, mas salvo erro, é no casamento desta senhora
Com António José Teixeira da Cunha?
Com António José Teixeira da Cunha, que é testemunha, salvo erro, um trisavô de Jorge Sampaio, de apelido Sampaio, que à partida, que se saiba, não tem nada a ver com eles, mas é uma curiosidade, até porque a família de Jorge Sampaio, como eu digo, era desta região, mesmo os de apelido Sampaio.
Portanto, testemunha o casamento destas duas pessoas que acabam por estar na ascendência do Luís Marques Mendes. Fizemos o exercício pela linha feminina, já agora por uma questão de igualdade, podíamos também percorrer a linha masculina. Ajude-nos a perceber, por favor, onde é que essa pesquisa nos levaria ou nos levará.
Esta linha, por acaso, surpreendeu-me um pouco, porque nós normalmente associamos Luís Marques Mendes ao Norte, mas o seu avô paterno, Joaquim Marques Mendes, nasceu em Figueiró da Granja, no conceito de Fornos de Algodres, e na realidade, três quartos da ascendência de Luís Marques Mendes são realmente do Norte, mas um quarto é da Beira Alta. Portanto, esta parte de onde vêm os nomes Marques Mendes é da Beira Alta e continuando para trás, o mais longe que se chega é, na linha masculina, a Manuel de Almeida Braz, que casou em 1698, já em Figueiró da Granja, com Maria Mendes. A partir deste ponto, eles tiveram um filho de apelido Mendes e a partir daí o apelido Mendes vem sempre por linha masculina. Maria Mendes é, na linha Mendes, que vai dar a Luís Marques Mendes, a última senhora antes de uma sucessão de muitos homens em que ainda se inclui o candidato.
E que ficam com este apelido. Portanto, a conjugação dos apelidos Marques Mendes aparece já no final do século XIX, pelo avô paterno do candidato. Eu pedia-lhe que nos concentrássemos por um momento neste Marques e já agora que fizéssemos, como costumamos fazer, uma viagem, vamos até 1760. Foi nesse ano que nasceu numa localidade de que já falámos aqui, Fornos de Algodres, José da Fonseca Marques. Ou Rui seria Marcos?
Estas viagens realmente, aqui neste caso, são viagens mais no tempo do que no espaço, porque os portugueses não viajavam muito, realmente nesta época em geral. Os apelidos Marques e Marcos têm uma pronúncia muito parecida e significam basicamente o mesmo, porque Marques é filho de Marcos, assim como Domingues é filho de Domingos. Aquilo que é aqui um pouco estranho é que para trás não se encontrou mais nenhum Marcos nem nenhum Marques. Este senhor, não sei exatamente se teria algum motivo para ter adotado este nome. Depois a ligação com o Mendes acaba por acontecer quando uma neta dele, Joaquina Marques Tepina, casa com João de Almeida Mendes. Estes são os trisavós do candidato.
Sim. Há outra curiosidade no relatório que o Rui preparou sobre Luís Marques Mendes e que está relacionado com o apelido Gonçalves, que chega ao candidato através da mãe, Maria Isabel Gonçalves. Nós já tínhamos visto que acontecia até com uma relativa frequência as pessoas serem registradas sem qualquer apelido, mas aqui encontramos uma situação distinta. Eu refiro-me especificamente ao caso, vou referir-me assim a ele, de Senhorinha Gonçalves, que nasceu ali por volta de 1660 em Celorico de Basto. Isto é efetivamente o nome de batismo da pessoa?
É efetivamente o nome de batismo da pessoa. Era um nome relativamente comum naquela região, embora quase ausente no resto do país. Naquela região existe uma devoção importante a uma santa que viveu naquela zona na Idade Média, que é exatamente conhecida por Santa Senhorinha de Basto. E é assim que o nome aparece realmente naquela região, mas que é sempre um nome inesperado para quem não pesquisa aquela região habitualmente.
Sim, precisamente. De facto, fiquei surpreendido com esta referência, porque nunca a tinha encontrado noutro lado. Deixe-me aproveitar. Estamos a falar deste ramo e eu fazia-lhe outra pergunta. É que eu tenho a ideia de que esta linha de investigação o levou mesmo muito perto de um outro cruzamento que seria de destacar. Enfim, não foi possível chegar a um resultado claro, mas eu estou a falar de um eventual cruzamento com a família de Marcelo Rebelo de Sousa. Consegue explicar-nos por onde andou a pesquisar e a conclusões a que efetivamente foi possível chegar sobre este ponto concreto?
Sim. Se dissermos que estamos a falar da zona de Celorico de Basto, aqui, ao contrário do que sucedeu quando mencionámos a Covilhã, aqui ninguém se surpreende à associação a Marcelo Rebelo de Sousa. O que se passa é que nos antepassados Gonçalves de Luís Marques Mendes, aparece um casal do século XVII, Domingos Gonçalves e Catarina Gonçalves. Repare-se que ambos eram Gonçalves, provavelmente por terem ambos já essa ascendência, porque nesta época as mulheres não tomavam os apelidos dos maridos. Eles viviam no lugar da Cerdeira, na freguesia de Ribas, conceito de Celorico de Basto. Por outro lado, Marcelo Rebelo de Sousa, na mesma época, tem a viver na mesma freguesia e no mesmo lugar da Cerdeira, Pedro Gonçalves e Domingas Gonçalves, também um casal de dois antepassados de apelido Gonçalves, neste mesmo local. Infelizmente, foi exatamente aqui que conseguimos chegar e não conseguimos saber mais. Agora, se no lugar, que provavelmente não teria mais do que algumas dezenas de habitantes, se nós dissermos que havia um casal de antepassados de Marques Mendes que tinham ambos o apelido Gonçalves e um casal de antepassados de Marcelo Rebelo de Sousa que tinham ambos o apelido Gonçalves, é difícil não supor que com elevadíssimo grau de probabilidade, haveria realmente alguma ligação entre estas pessoas. Quanto mais, será que o Domingos Gonçalves, antepassado de Marques Mendes, conseguia não ser nada a Domingas Gonçalves, antepassada de Marcelo Rebelo de Sousa, que vivia exatamente no mesmo lugarzinho? Realmente é quase impossível que não houvesse ligação.
Vou lhe fazer esta pergunta porque já tem bastante experiência na pesquisa de arquivos, de informação genealógica. Há momentos em que é possível aprofundar mais, isso exige mais recursos e, sobretudo, imagino que exija mais tempo. Às vezes a dificuldade está aí para conseguirmos fazer cruzamentos?
Às vezes a dificuldade está aí, outras vezes está por pura falta de registros. Aqui neste caso, eu agora já não me recordo bem de todos os detalhes, mas talvez ainda haja alguma possibilidade, até porque estamos ainda a falar do século XVII, às vezes há documentos censuros, registos paroquiais que permitem saber mais qualquer coisa. Por exemplo, aqui não estaria à espera de haver registos da Inquisição, mas pode haver outros. Ou seja, por vezes há situações destas em que, até de uma forma inesperada, acaba por aparecer alguma pista interessante.
Permita-me esta pergunta: já lhe aconteceu não estar minimamente à espera de um determinado cruzamento e de repente aparece?
Muitas vezes.
Alguma de que se recorde particularmente?
Sim, posso referir.
Por exemplo, nestes trabalhos que temos vindo a fazer.
Nalguns casos, sim. Por exemplo, um caso que me surpreendeu bastante foi o caso de André Ventura, mas ficará para outro programa.
Boa, bela técnica para deixar o suspense no ar. Rui, eu volto a lançar-lhe o desafio habitual antes de fecharmos este episódio. Nestas linhas que compõem a história da família de Luís Marques Mendes, encontrou algum dado ou deparou-se eventualmente com alguma dificuldade na investigação que seja diferente do habitual?
Dificuldade não diria. Foi uma investigação, desse ponto de vista, não tão complicada como outras. Houve uma surpresa que eu tive. Já tenho visto coisas parecidas, mas não é realmente muito vulgar esta linha feminina com sete mulheres seguidas com o mesmo apelido. Não é muito comum.
São de facto várias gerações em que o nome da mãe vinga e passa para a criança em último lugar. Rui, fechamos aqui esta viagem. Nós concluímos, portanto, mais um episódio de "Filhos da Nação" e em breve, como tem sido habitual, vamos conhecer as raízes familiares de mais um candidato às eleições de 18 de janeiro. Muito obrigado.