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Sejam bem-vindos. Começamos mais um episódio de "Filhos da Nação". Eu hoje vou seguir uma lógica completamente diferente e faço desde já este aviso à navegação para que me acompanhem. O Rui Pereira está mais uma vez conosco. Ele é secretário-geral da Associação Portuguesa de Genealogia e é o grande responsável pela investigação da árvore genealógica deste candidato. Rui, seja muito bem-vindo.
Obrigado.
Eu disse que ia começar ao contrário. Vou cumprir já o que prometi. O Rui vai fazer-me o favor de não responder, até porque tem ali informação privilegiada, mas eu arriscaria este desafio aos ouvintes. Se eu disser que o candidato de que vamos falar hoje tem os apelidos Rodrigues e Gaião, quantos é que conseguem adivinhar de quem se trata? Eu suspeito que não serão muitos. Talvez mesmo no PCP, no Partido Comunista Português, esse seja um dado menos conhecido, pelo simples fato de que nos habituamos há muitos anos a falar e a ouvir falar de António Filipe. Rui, este Gaião, como apelido, como é que chega a António Filipe Gaião Rodrigues?
Este apelido, chegamos ao oitavo avô de António Filipe, que se chamava João Duarte Gaião. Ele nasceu num lugar chamado Vale do Galego, na freguesia de Colmeias, concelho de Leiria. E ele era filho de João Dias e Luísa João. Este João Dias e Luísa João, nós já não conhecemos a sua ascendência e, portanto, não sabemos se o nome já vem mais de trás. Este João Duarte Gaião foi viver para a freguesia de Bogalhos, no concelho de Alcanena, e a descendência Gaião por aí ficou até à mãe de António Filipe, que se chamava Maria da Nazaré Oliveira Gaião. Pelo meio, houve ali uma anomalia que é um salto direto do apelido de bisavô para bisneto, do sexto avô Manuel Duarte Gaião para o trisavô Manuel Jorge Gaião.
Então, há ali umas gerações em que o apelido desaparece.
Exatamente. Isto era raro, mas acontecia. De avós para netos era muitíssimo comum, acontece a toda hora. De bisavós para bisnetos não era tão comum, mas às vezes também acontecia.
Talvez por uma referência familiar mais viva, mais presente e que se tenha querido transformar em homenagem. Falávamos de Gaião e o Rodrigues, que é um apelido que chega pela linha da varonia, correto? O pai, do pai, do pai.
Exatamente.
Curiosamente, e ao contrário do que é mais habitual, nós chegamos ao século XIX e a linha de ascendência para. Por quê?
Para mesmo, neste caso, por azar com os registros. Aparentemente, não existem livros paroquiais que nos permitam continuar. Por quê? O antepassado mais antigo a que conseguimos chegar foi apenas o trisavô de António Filipe. Curiosamente, também se chamava António, chamava-se António Trindade Rodrigues, e ele nasceu na freguesia de Samil, no concelho de Bragança, e casou com Maria dos Santos Martins. Tiveram um filho chamado Domingos António Rodrigues, que nasceu em 1844.
Mais uma vez o António ali pelo meio.
Exatamente. E depois deles foi filho António Filipe Rodrigues, que nasceu em 1873, ainda em Samil, mas passou Lisboa. E ele é o primeiro de três Antónios Filipes, sendo que o candidato é o terceiro. Portanto, se António Filipe usa o segundo nome como usa habitualmente, não deve ser para se distinguir do pai, outra razão haverá.
Que também era António Filipe, precisamente. Ainda assim, nós sabemos algumas coisas sobre quem eram estes antecedentes de António Filipe. Quem eram? Pergunto-lhe. E já agora, o que é que faziam? Que atividade profissional é que tinham?
Do lado materno, sabemos um pouco mais. Eles tinham algumas das atividades habituais da população rural. Alguns eram lavradores e proprietários, um ou outro criado ou criada. Na família paterna, temos um caso curioso, que é o do bisavô Firmino Marques Ferreira, que em finais do século XIX aparece referido como criado de servir, mas também aparece como criado da Casa Real. Como este bisavô vivia na freguesia da Ajuda, é possível que o seu emprego estivesse ligado ao Palácio da Ajuda ou a algo em seu redor. Naturalmente, na manutenção de um palácio real existe todo o tipo de mão de obra, portanto, não sabemos exatamente qual era a atividade desempenhada.
Falava em criado de servir e criado da família real ou da Casa Real. São coisas diferentes ou pode ser exatamente a mesma função, mas mais especificada?
Pode ser a mesma função mais específica, embora criado da Casa Real podia ser desde um criado naquele sentido em que nós estamos habituados, até pessoas que até já teriam funções bastante importantes na Casa Real. É uma daquelas designações. Imaginemos, se nós dissermos que determinada pessoa é funcionário público.
Pode ser uma multiplicidade de coisas, claro.
Há funcionários públicos de todos os tipos.
Claro, percebo. Rui, avanço já então para a questão dos notáveis, mas antes de falar especificamente sobre cada um deles, eu tenho que lhe pedir que me dê aqui algum contexto. Na árvore de costados de António Filipe, nós encontramos um nome, Aurélia da Conceição, que foi exposta em Abrantes e que terá nascido a 28 de novembro de 1847. Nós já falamos aqui sobre esta realidade, mas o que significa isto, ser exposto?
Ser exposto significa que alguém terá deixado, neste caso, a bebê Aurélia, recém-nascida, de forma anônima, na chamada roda dos expostos, neste caso daquela que na altura ainda era vila, hoje cidade, Abrantes. A roda chamava-se assim porque era mesmo um sistema rotativo. Era um pouco parecido com o que se vê em alguns guichês de pagamentos ou, por exemplo, naquelas máquinas de venda de bebidas em que é preciso rodar qualquer coisa para a garrafa sair. Neste caso, não é uma garrafa, é um bebê, naturalmente.
E não sai, é colocado para entrar na instituição.
E a partir daí, a criança abandonada era acolhida ali naquele momento e depois entregue a famílias de acolhimento que a iriam criar, pelo menos nos primeiros anos de infância, em que ela não teria qualquer possibilidade de se desembaraçar sozinha.
Esta bisavó de António Filipe, pelo lado do pai, era então filha de pai e mãe incógnitos.
Exatamente.
Mas nem sequer é um caso único, e por aqui já vamos entrando nas linhas que cruzam António Filipe com dois notáveis, ambos da política e ambos, eu diria que de um posicionamento ideológico bastante distante do antigo deputado comunista. Como é que o candidato Também candidato comunista às presidenciais, acaba a ser primo de Manuela Ferreira Leite.
Ele acaba, no caso desta investigação, porque é um trabalho publicado já há mais de 15 anos na revista da Associação Portuguesa de Genealogia, de um autor já falecido, José Caldeira, com o premonitório título "Quando a política refuta e a genealogia comprova." Esse artigo desenvolve a muita descendência de uma família Brandão, originária da freguesia de São Martinho da Cortiça, no concelho de Arganil, e cujo elemento mais famoso a usar o apelido foi o guerrilheiro do século XIX, João Brandão, o Terror das Beiras, que ainda há pouco tempo foi o tema de um dos vossos programas, "E o Resto é História".
Precisamente.
Acontece que o conselheiro José Dias Ferreira, que era bisavô por varonia de Manuela Ferreira Leite, cujos apelidos de solteiro, aliás, são Dias Ferreira. José Dias Ferreira foi primeiro-ministro e ministro das Finanças em finais do século XIX. Ele era descendente da família Brandão. Havia quem dissesse que tal era uma calúnia, mas não era. Era verdade. Ser parente de uma figura um bocado controversa não dava muito jeito, mas era verdade. A avó materna do conselheiro Dias Ferreira, dona Pulquéria Gomes da Silva, foi mãe solteira e era filha de uma senhora chamada dona Áurea Maria de São Bernardo Correia, que era, por sua vez, filha de António Brandão e Maria Correia. Cá está o Brandão. Só que António Filipe, não descendente dos Brandões, pelo menos até aquilo que foi possível apurar, só que descendente dos Correias. Esta Maria Correia era neta de Custódio Gomes Correia, que era natural de Coimbra, e de Maria de São Bernardo, de Pombeira da Beira. Portanto, esta Maria de São Bernardo é daqui que vem o São Bernardo, que depois é usado pelas descendentes. E este Custódio Gomes Correia e Maria de São Bernardo são sétimos avós de António Filipe por uma linha que do concelho de Arganil passa aos arredores de Coimbra e de onde acaba por sair o bisavô de António Filipe, José António de Oliveira, que vai viver para Bugalhos.
Rui, para quem for mais conhecedor da árvore genealógica de Manuela Ferreira Leite, para essas pessoas, isto não será propriamente uma surpresa. Mas a verdade é que nestes cruzamentos e interseções familiares, nós acabamos por perceber que António Filipe também é primo de um primo de Ferreira Leite, que na verdade é Pedro Santana Lopes.
Pois, se eu disser que Santana Lopes era bisneto de uma dona Áurea Maria de São Bernardo, que era filha ilegítima de uma dona Pulquéria Gomes da Silva, já vimos estes nomes em qualquer lado. O que se passa é que esta Áurea é bisneta da outra Áurea que eu referi há pouco e, portanto, a Áurea mais antiga é quinta avó de Santana Lopes, mas também é quinta avó de Manuela Ferreira Leite, da maneira que eu antes referi. E daí para trás, o parentesco é o que eu já disse, acaba por ir dar à família Correia. E por outro lado, Manuela Ferreira Leite e Pedro Santana Lopes acabam por ser parentes relativamente próximos, o que chegou a sair na imprensa da altura, nomeadamente quando eles concorreram um contra o outro e também contra Pedro Passos Coelho nas diretas do PSD, na altura ganhas por Manuela Ferreira Leite. Portanto, foi assim que se encontrou este parentesco.
E que acabamos por ter António Filipe, primo de Santana Lopes e primo de Ferreira Leite. Pelo menos inesperado, seria justo dizer. Rui, tenho aqui uma enorme dúvida, ou posso chamar até de uma enorme perplexidade. Nós estávamos a falar das linhas familiares de Santana Lopes e de Ferreira Leite. Em ambas as linhas nós encontramos uma dona Pulquéria Gomes da Silva. Minha primeira reação foi: "Erro. Está aqui alguma coisa mal. Este nome tão específico e duplicado em duas linhas familiares distintas, alguma coisa aqui está de errada." Mas as datas de nascimento não coincidem. São mesmo duas pessoas diferentes? O que é que sabemos de cada uma delas?
São mesmo duas pessoas diferentes. Elas foram ambas mães solteiras, de filhos de pai incógnito. Elas são tia e sobrinha. Uma foi mãe solteira em finais do século XVIII e a outra no início do século XIX. Elas eram de uma família bastante abastada, como já se percebeu. No caso da Pulquéria mais antiga, há indícios de quem pudesse ser o pai da criança que ela teve, porque a filha se chamava dona Bernarda Pereira de Vasconcelos, que é a antepassada de Manuela Ferreira Leite, e pensa-se que estes apelidos vinham do lado do pai. No artigo eu já referi, até depois há alguma discussão sobre quem poderia ser o pai. No outro caso, penso que não há pista quanto ao eventual pai.
Sim, porque no caso da trisavó de Manuela Ferreira Leite, é filha de pai incógnito, portanto, não temos essa referência. E depois, dona Pulquéria, já da linha de Pedro Santana Lopes, também tem uma filha de pai incógnito, dona Áurea. Portanto, há aqui uma série de cruzamentos muito interessantes e que para mim foram absolutamente inesperados. Nessa linha dos notáveis, nós ainda encontramos uma relação de parentesco com José Rodrigues Miguéis e com o Visconde de Sanches de Frias. Quem são estes dois notáveis e como é que eles se cruzam com António Filipe?
Ora bem, José Rodrigues Miguéis e o Visconde de Sanches de Frias são duas personalidades que têm, por acaso, cada uma ligação a uma localidade específica. José Rodrigues Miguéis é o mais recente dos dois. Ele nasceu em 1901 em Lisboa, foi escritor, e ele escreveu muito sobre Lisboa, sua cidade natal. Embora só tenha vivido em Portugal cerca de 30 anos, depois foi para o estrangeiro, nomeadamente porque ele não era de maneira nenhuma simpatizante do Estado Novo, antes pelo contrário. José Rodrigues Miguéis, cujo pai era galego, tinha o apelido Rodrigues vindo do seu avô materno, portanto vinha da mãe e depois do avô materno, e o seu avô materno chamava-se António Rodrigues Sail. O avô Sail, que ele refere assíduas vezes na sua correspondência, e há, por exemplo, uma carta dele para José Saramago, que chegou a ser o seu editor, em que ele refere o avô Sail. Além disso, José Rodrigues Miguéis tem obras que são muito autobiográficas, em que ele descreve a família próxima. Inclusivamente, ele menciona o avô Sail, só que coloca-o com outro apelido, e ele faz isso em relação à generalidade da família. Agora, ao contrário, há pouco estávamos a falar do apelido Gaião, as pessoas podem não saber de onde é que veio o apelido Gaião, eu não sei. Mas o apelido Sail é tão invulgar como Gaião, é muito fácil de identificar. O que se passa é que este avô de José Rodrigues Miguéis era de uma família Rodrigues Que é perfeitamente natural. Nasceu em 1821, num lugar chamado Sail, na freguesia de São Martinho da Cortiça. E foi viver para Góis, para a vila de Góis, e adotou, com certeza por causa disso, possivelmente para se distinguir de outros Antónios Rodrigues, ao contrário do nosso candidato António Rodrigues, que prefere ser chamado António Filipe, se calhar porque já havia outro António Filipe no PCP, quem sabe? Este aqui adotou Sail. E o que é espantoso é que se nós recuarmos na linha de ascendência deste avô de José Rodrigues Miguéis, António Rodrigues Sail, sem nunca sair de Sail, vamos chegar a Domingos Dias e Francisca Fernandes, que são sextos avós de José Rodrigues Miguéis, mas também são nonos avós de António Filipe, porque o seu bisneto, seu destes avós mais antigos, Manuel Rodrigues, casou com Josefa Maria Correia, que era filha de Custódio Gomes Correia e Maria de São Bernardo, de quem já falamos. E prosseguindo depois exatamente nesta linha, vamos encontrar na geração seguinte o casamento de Caetana Maria de São Bernardo Correia. Temos aqui, portanto, uma antepassada de António Filipe que usa os tais São Bernardo e Correia dos ascendentes comuns. Vai casar com Joaquim José Lopes de Frias. Este casal teve vários filhos, incluindo Bernardo Correia de Frias, que é o avô paterno de David Correia Sanches de Frias, Visconde Sanches de Frias, que nasceu em 1845, foi empresário no Brasil, escreveu várias obras, sendo uma muito significativa a monografia de Pombeira da Beira, obra de referência sobre a sua terra natal, que fica mesmo ao lado de São Martinho da Cortiça. Ora, o avô do visconde, Bernardo, tinha uma irmã com o nome, enfim, não vão acreditar, mas era Sinfrósia Correia de Frias. E esta senhora Sinfrósia é a avó materna de José António de Oliveira, o tal bisavô de António Filipe que foi de Coimbra para Bugalhos.
Nós ficamos a conhecer muito melhor a geografia de Portugal e também a multiplicidade de nomes com que as pessoas por cá vão sendo batizadas. Rui, só para finalizar, nós ainda não falámos aqui da questão geográfica. Há um contraste muito grande entre o lado materno e o lado paterno da família do candidato. Consegue dar-nos uma ideia de onde vem cada um destes lados, de forma sucinta, até chegarmos a António Filipe Rodrigues e a Maria da Nazaré Oliveira Gaião?
Sim. António Filipe, sendo uma pessoa de Lisboa, é natural que tenha ascendência de vários pontos do país. Do lado paterno temos Trás-os-Montes, já referimos. Temos o tal criado da Casa Real, que era da Beira Alta, da freguesia de Mioma, no concelho de Sátão, outra freguesia onde infelizmente não há registos que nos permitam recuar mais. Tivemos aqui algum azar. Temos a bisavó, que já referimos, exposta em Abrantes, portanto, presumivelmente família da zona, só que não sabemos qual era. Do lado materno, apesar de a mãe já ter nascido numa terra pequena do Ribatejo, a ascendência não está assim tão concentrada, porque rapidamente se chega a antepassados dos distritos de Leiria e Coimbra. Estes de Coimbra acabamos ainda agora de referir.
Rui, alguma nota final para fecharmos sobre o que encontrou na sua pesquisa das raízes familiares de António Filipe?
Em primeiro lugar, eu também não sabia que ele se chamava Gaião Rodrigues.
Certo.
E também fiquei um bocadinho surpreendido com o nome Sinfrósia, embora eu creio que já o tivesse lido, porque eu já tinha lido este artigo que mencionea Santo António Lopes e Manuel Ferreira Leite.
Eu tenho que juntar a isso o Dona Pulquéria. Também me surpreende bastante.
Pulquéria é mesmo assim, comparativamente, bastante menos incomum. E aliás, devo dizer que eu não sei. Existe uma obra de referência muito conhecida de todos os genealogistas, que é a "Resenha das Famílias Titulares e Grandes de Portugal", que foi publicada por volta de 1900, que basicamente, como o próprio nome indica, fala das famílias de todos os titulares, etc. E fala lá do Visconde Sanches de Frias, do seu avô Bernardo, e depois dá uma lista muito resumida dos irmãos, dos nomes, e está lá o Eeufrásia, e eu presumo que seja até um erro e era Sinfrósia.
Como era pouco comum, ainda lhe deram ali um twist. Rui, vamos encerrar por aqui esta viagem. Agradeço-lhe mais uma vez. Agradeço-lhe este apoio, esta companhia na viagem por alguns séculos de história na família de António Filipe. Nós voltamos em breve com mais um candidato às eleições de 18 de janeiro. Muito obrigado também por ter estado desse lado.