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Olá, seja bem-vindo a mais um episódio do podcast Ponto História da Rádio Observador. Eu sou a Maria João Simões e ao longo de 10 episódios, em parceria com o Pingo Doce e com a ajuda de vários convidados, falamos de temas essenciais para o desenvolvimento dos mais novos. Temas, todos eles, com um ponto de partida comum: a leitura. Esta é, por isso, mais uma forma do Pingo Doce promover e fomentar a leitura junto dos mais novos e também assinalar os 10 anos do Prêmio de Literatura Infantil, que na nona edição teve como vencedor o livro "O Avô Minguante", de que destacamos agora um excerto. "Mas antes de saber que tinha sido carteiro ou marinheiro, só sabia que era Mário, o meu avô, e que tinha sempre as respostas para todas as minhas perguntas. Eram respostas muito curtas, porque o meu avô Mário gostava muito de palavras e, por isso, usava-as pouco e devagar para não lhe estragar a poesia." Este é um excerto do vencedor da nona edição do concurso, o livro "O Avô Minguante", que é hoje o nosso ponto de partida para falarmos sobre o papel fundamental dos avós no desenvolvimento dos mais pequenos. E para isso contamos com a ajuda preciosa da nossa convidada, a Bibá Tita. Olá, Bibá Tita, bem-vinda. É um gosto enorme rever-te, estar contigo ao fim destes anos todos.

Não nos víamos há mais de 20 anos.

É verdade. Todos te conhecem muito bem, mas hoje estás aqui no papel de avó, super-avó, com um papel muito ativo nas redes sociais no que diz respeito à relação com os teus netos, com os teus filhos e com a família em geral. Mas vamos focar-nos nos netos, que é o que nos traz aqui. Gostas de lhes contar histórias? É também uma forma de criar laços entre vocês. O que é que fica desses momentos, Bibá?

Gosto de lhes contar histórias, não tanto de livro, até porque eu tenho alguma dificuldade. Sou muito hiperativa, então as minhas conversas com eles e as histórias com eles é sempre em brincadeira, que é as que ficam na memória. Ainda por cima, eu tenho um neto muito parecido comigo, também é hiperativo e também um pouquinho desfocado. Portanto, é tudo mais fácil ser emocional, verbal, físico e na hora.

E também ajuda a puxar pela imaginação, tanto a tua como a dele, e a criatividade.

Exatamente. E a criatividade.

Isso também é uma forma de criarem laços entre vocês, não é?

É tão importante. Eu acho que para começar esta conversa tão íntima e tão boa, que é o afeto dos netos, é preciso que eu diga que para mim os netos são a continuação do maior amor da minha vida, neste caso, de um dos maiores amores da minha vida, que é minha filha Maria, ou seja, os filhos. Não há amor igual, tão intrínseco, tão amoroso e tão sério como o amor dos filhos. Portanto, o neto é continuação desse amor. Agora, eu acho que temos que construir. O avô, a avó também constrói a relação com seu neto. Não é uma relação que se constrói quando se é mais velho.

É desde pequeninos, não é?

Acho que é desde pequeninos.

E que papel é que tu encontras na literatura infantil, na vossa relação, no vosso dia a dia? É fundamental para o desenvolvimento deles? Notas diferenças desde que eles leram o seu primeiro livro?

Eu acho que noto diferença, ainda para mais quando são histórias que nós nos podemos identificar e que nos identificamos.

Como é o caso deste avô minguante.

Como é o caso deste avô minguante.

Diz que foste assim que estiveste, que te identificaste.

Que me identifiquei logo, que emocionei-me tanto, emociono-me muito, porque eu tive uma relação com os meus avós. Tive tanta sorte nos avós que eu tive. Tudo que me ensinaram, tudo que passei com eles, não só a parte emocional de amor, mas também o meu avô, Antônio Pinto, pai do meu pai, era poeta, escrevia. Passávamos tardes, ele num cadeirão sentado e eu enrolada. Eu era muito magrinha, enrolada à volta dele, da cabeça dele, no cadeirão.

No cadeirão.

E ele a contar-me histórias, levava-me a almoçar. Isto desde muito pequenina, a contar as histórias, a ler livros, a mostrar-nos livros, ouvir música, enfim, nasci nesse ambiente. Com um avô com o coração deste. Este era o avô Mário, o meu avô era o avô Antônio.

Mas também toda essa relação, todo esse amor do que tu falas é o que tu transmites agora, é aquilo que tu passes agora para os teus netos.

Eu acho que sim, porque nós somos também um poço de memórias, nós somos um poço de mimo, nós somos um poço de recordações que vamos trazendo conosco e vai crescendo conosco.

E o que se aprende quando existe uma geração de intervalo?

Uma geração de intervalo.

Ou seja, eles também te ensinam muita coisa, provavelmente.

Os meus netos? Ai, com certeza que sim. Eu costumo dizer até pelos filhos e netos, eu estou sempre a aprender. Aliás, eu sou muito mais, e serei toda a vida, muito mais aluna que alguma vez professora. Eu absorvo muito, eu sou muito emocional, absorvo muito. E vou te dizer uma coisa, as crianças, até agora, só fugindo dois minutos a isto, com a diferença, são tão sérias, tão queridas, porque elas perguntam as coisas. Eu gosto tanto dessa sensibilidade e dessa verdade. Às vezes pode ser uma verdade dura, porque eles também dizem a verdade.

Porque te obriga também a determinadas respostas que talvez tu não estavas preparada.

Exatamente. E que eu não estava preparada, mas é tão bom. Mas fica ali resolvido. O assunto ali fica resolvido e muitas vezes com as crianças, é só preciso dizer-lhes uma vez que eles entendem, e às vezes até pouco, curto. E as crianças são muito fáceis.

São uma esponja.

Muito fáceis, porque elas são esponjas, elas estão despidas de qualquer conceito. É isso mesmo que eu queria dizer. Elas estão despidas. Portanto, é muito importante também como nós as ajudamos a construir tudo o que elas vão ser futuramente. E realmente este avô minguante Que levava a sua neta pela mão. Eu já me vejo neste papel, de mão dada com o meu neto. Vocês reparem que eu fui avó com 50 anos, já na metade da minha vida. E eu percebo tão bem esta palavra minguante, por isso é que eu aproveito cada segundo. Beber este amor, não perco um segundo dos meus netos. Eu sei que vou envelhecer e estou a envelhecer, e sei que esta relação que se vai construir é uma relação que com o tempo eles vão crescer, vão ter a vida deles, e portanto eu quero é ter laços fortes para que eles sempre gostem de mim. E que se eu um dia tiver que me ir embora para o céu, que eles fiquem com as melhores recordações e com este mimo e toda esta água que lhes vou passando. Quando os vou buscar à escola, quando os levo à escola, à despedida, parece que é uma despedida. Aquelas horas que são 17h, quando eu volto, parece que não me vêem há anos.

É tão bom.

Aquele abraço apertado, aquele choro que nós conseguimos fazê-los parar com um abraço sentido. Nós temos tanta história para contar aos netos. Deixamos um legado tão grande de uma vida tão boa.

Recordas-te do livro infantil que mais gostaste de ler quando eras pequena? Ou também com o teu avô e com os teus pais era mais histórias contadas, histórias soltas da imaginação deles?

Houve dois que eu bebi. Andava sempre a ler a Anita. Eu tinha imensa curiosidade na Anita, porque a Anita fazia imensas coisas.

A Anita fazia imensa coisa. Também a escola.

Como a Biba vai à escola, a Biba vai. E eu adorava, uma coisa mais quase do que a leitura, a ilustração. Por isso é que também no livro das Tuas Asas, o meu, a ilustração para mim é fundamental. Com o sussurrar da história, faz-me voar, fazia-me sonhar.

Até porque para muitas crianças, aquelas que não sabem ler, as ilustrações são tudo e contam a história.

As que têm dificuldade, como eu, que sempre tive em concentração. Portanto, a ilustração, a imaginação, para mim, foi sempre mais fácil, foi o meu caminho, muito mais fácil do que propriamente o livro em si. Porque rapidamente com qualquer mosca, qualquer batida de porta, qualquer som, eu distraía-me. E a verdade é esta. Quem diz a verdade não merece castigo. Ainda continuo assim, com 58 anos. Tenho uma dificuldade enorme em ler e em me concentrar. Não tenho vergonha, não tenho medo do julgamento que o façam.

Nem tens que ter.

E é a grande verdade. Tenho imensa dificuldade em me concentrar.

Aproveitamos agora para ouvir mais um excerto do livro "O Avô Minguante", vencedor da nona edição do Prêmio de Literatura Infantil do Pingo Doce, que é hoje a base da nossa conversa. À medida que vamos crescendo, vamos encontrando as respostas que procurávamos, vamos guardando todas dentro de nós. Quando começamos a envelhecer, percebemos que afinal não sabemos tudo, mas o que sabemos queremos partilhar com quem não sabe ainda nada. Este é mais um excerto do livro "O Avô Minguante", vencedor da nona edição do Prêmio de Literatura Infantil do Pingo Doce, que hoje é a base da nossa conversa com a Biba Pitta. Biba, como avó, como é que incentivas os teus netos a ganharem hábitos de leitura, em vez de estarem agarrados aos ecrãs?

É verdade, os ecrãs hoje em dia estão acima de tudo. E eu tenho duas maneiras de conseguir. Ou eu ler-lhes histórias e contos fáceis, ou então fazer-lhes estas histórias faladas, quase ler-lhes os livros em andamento. Então é tirá-los de casa e levá-los para todas as experiências. E nessas experiências que eu vou tendo, vou contando. E também o que eu conto muito.

Eles vão vivendo e vão experienciando.

Eles vão vendo e vão experienciando. E também o que eu lhes conto muito é as minhas histórias, as histórias com os meus avós, as histórias com o meu avô, que não chegou a ser minguante, porque o meu avô era muito alto e o meu avô morreu com 69 anos, que era novíssimo para mim, porque era o meu avô, e o meu avô nunca envelheceu. Ou seja, eu achei que nunca, mas nunca iria perder aquele avô. Foi talvez o primeiro desgosto da minha vida, o saber o que é o desgosto, o sabor do desgosto, que é a morte, que leva-nos tudo. E levaram-me aquele avô.

Achas que a literatura infantil pode ter um papel importante nisso, a tratar sentimentos, emoções, como a perda ou o desgosto?

Pode, porque eu já falei, por exemplo, na perda. Eu falo da perda também da minha mãe, que eles não chegaram a conhecer. Seria avó, a bisavó.

A bisavó, sim.

Exatamente. E é muito importante. E sabes que eu acho que as crianças, torno a dizer, absorvem tudo. E, portanto, as histórias experienciadas e contadas, eles ficam com elas no coração. E é engraçado que muitas vezes eles vêm para trás e de repente perguntam, dizem: "Avó, mas a avó Nani era como tu? Era alta?" "Não, a avó Nani era mais baixinha." "Avó, e o avô, que é o meu pai, contava as histórias?" É verdade. O avô contava as histórias, o meu pai contava todos os dias a história aos meus filhos e a adormecê-los. Uma vez que eu me defendia e trocava e perguntava: "Querem ficar mais 10 minutos acordados ou querem irem..." Dizia qualquer coisa. E eles preferiam os 10 minutos. Aí eu ter que contar-lhes uma história, que eu já estava tão cansada que chegava a adormecer primeiro que eles. Então o meu pai contava. Isto foi um privilégio que eu tive na vida, que pouca gente tem, que é ter um pai que todos os dias vai adormecer os seus netos com uma história. Conte-lhes a história. O que o meu pai contava? Era dos estudos, o que eles estavam a estudar naquela altura, por exemplo, a história. E contava-lhes. Ajudou-os a estudar desta maneira também. Falante. Que também é muito importante. Agora, os livros, é sempre bom incentivar a leitura. É fundamental, até para a cultura e para o nosso desenvolvimento intelectual.

Sim.

Para tudo.

Para a oralidade, para a escrita, tudo.

Exatamente. Agora nós temos também que-

Há aí muitas distrações, não é?

Exatamente. Temos que conseguir orientar-nos e com as nossas capacidades conseguirmos fazer da melhor maneira aquilo que podemos. Não é?

E há pouco, Bibá, falavas do papel da avó e da mãe, dos avós e dos pais. Como é que se estabelece um equilíbrio em relação à educação dos mais pequeninos? Como é que se encontra esse equilíbrio?

Nunca se esquecendo que a mãe e que o pai, às vezes erradamente, ou outras vezes quem está errado é a avó, acatar as decisões deles. Ter respeito, saber que há uma linha, agora, que separa entre a avó e entre a mãe. Quer dizer, não há dúvida nenhuma que mãe é mãe e avó é avó. E não pode haver misturas. Não pode, porque o meu papel já não é esse. E muitas vezes eu digo isso. Eu criei de cinco filhos. Embora o neto tenha vindo, eu ainda tinha um filho de nove anos. Portanto, eu não tive aquela sensação de avó, que é quando os filhos são grandes, todos casam.

Tem uma grande diferença. O ninho vazio.

Não. Quer dizer, o ninho vazio eu também tive.

Tiveste?

Tive. Também tive. Porque de repente saíram três filhos dos cinco. De repente. Portanto, ficaram três camas feitas todos os dias, que eram desfeitas. De manhã, os pequenos almoços, os barulhos das portas a bater, os cheiros, tudo isso. Mas pronto.

Faz parte.

Mas eles voltam sempre.

É verdade.

E sabes uma coisa engraçada que eu digo? É que a porta da mãe está sempre aberta. A porta dos filhos, nós temos que pedir autorização para entrar. É uma realidade diferente. E nós temos que nos ir adaptando e vamos adaptando. Agora os netos é um conforto tão bom quando eles nascem. Fizeram-me renascer novamente, porque ainda por cima o Duarte veio numa fase muito difícil. Foi a perda da minha mãe, e não só, foi uma altura muito complicada, foram três filhos que saíram de casa, a perda da minha mãe, a menopausa, imaginem tudo isto, um turbilhão difícil, muito difícil. E nasceu o Duarte. E quando o Duarte nasceu, parece que foi renascer. E começar a ter que cuidar e ajudar daquele bebê. E depois vieram mais dois, portanto, já tenho três netos. Mas falando deste "Avô Minguante", que adorei ler esta história, que li só uma vez e percebia tão bem, lia tão rapidamente, também tem a ver com o interesse, não é?

Sim.

Tem muito a ver. Quando se é desfocado e se tem desconcentração, isto já é um apelo que eu estou a dizer aos pais e aos avós.

Para te agarrar.

Para me agarrar, tem que se identificar comigo. E eu devorei "O Avô Minguante". Estava no Sri Lanka e tinha este livro em digital. Portanto, eu tive que o ler. Li-o rapidamente, porque me comecei a identificar com este avô, que a princípio era alto e tinha mãos enormes. O meu avô também era alto, magro. E depois os passeios que ele fazia com a neta, o que ele lhe mostrava, o que ele lhe passava. E depois, de repente, começar a perceber que o avô começa a ter algumas características, mais velho, está mais cansado, e depois acabamos por ser nós que o levamos pela mão. Não aconteceu com o meu avô, mas aconteceu com a minha avó, que morreu com 100 anos.

Há aqui muita mensagem neste livro, não é?

Há muita mensagem. E há uma mensagem que é fundamental, que é nós respeitarmos e amarmos os nossos avós e nunca nos desligarmos deles, que acontece muito quando chegamos à terceira idade. Bem, quando chegamos à segunda, muitas vezes já parece, a partir dos 50, parece que já não vale a pena, parece que as pessoas já são velhas. Isso é outra coisa que a sociedade tem que mudar. Agora, quando se chega à terceira idade, aos menos novos, para muita gente é muito difícil. Parece que há um abandono. Parece que não vale a pena. E não é verdade. E esse é o apelo maior que eu faço, é que todos os netos saiam com os vossos avós, vão ter, vão à procura deles.

Nem sabem a alegria que lhes dá.

Ouçam as histórias, contem histórias, porque vocês não imaginam o que é esse amor para nós. Porque eu sou avó e posso passar, já não estou a falar de outra avó, estou a falar de mim, o conforto e o amor que é. E há uma coisa que é muito importante, queridos netos e netas que me estão a ouvir. O tempo passa muito rápido. Não deixem para amanhã a visita para o avô ou para a avó. Não deixem. Não digam assim: "Olha, vou amanhã, porque hoje não tenho tempo". Não, amanhã não dá. Vão hoje, porque amanhã podem não ter tempo. E o avô pode não estar lá já, ou a avó.

Bibá, obrigada por teres aceitado o convite.

Nada, obrigada.

E obrigada pela tua partilha.

Um grande beijinho.

Um beijinho também. No próximo episódio, vamos continuar a falar sobre a importância da literatura infantil no desenvolvimento dos mais novos. Com o apoio do Ping Doce, incentivamos a leitura e realçamos a importância que deve ter desde cedo, porque ler leva-nos mais longe. Eu sou a Maria João Simões, obrigada pela companhia. Até ao próximo episódio. O livro que serviu como mote para a nossa conversa é da autoria de Daniela Leitão e ilustração de Catarina Silva