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Cá estamos nós de tema. Lembrem-se que todas as segundas-feiras estamos aqui em podcast com sugestões para que tudo na vida em geral seja ainda melhor. Maria Ramos Silva, vamos começar por ti. Mais uma vez, culpa minha, péssimo profissional, não faço ideia do que tens para as pessoas.
É para ser uma surpresa, fazer suspense.
É isso. Mas sei que tens várias coisas. É um pijaminha. Vamos embora.
Sim, uma tu até já falaste aqui, mas eu vou só voltar a ela muito brevemente. Mas vou começar por um livro: "O Barman do Ritz", de Philip Collins, da Editorial Presença.
Todas estas chiquezas.
Não, por acaso, acho que o livro sinceramente fica aquém da história do protagonista. Acho que podia ser bastante melhor, porque a história deste tipo que está aqui no centro da trama é verídica e é uma história fascinante. É um senhor chamado Frank Mayer, que foi barman, uma figura lendária do Hotel Ritz em Paris. Ele era judeu, mas tinha passaporte suíço, que foi o que felizmente lhe permitiu ir cruzando aquela era de uma forma mais ou menos incômoda durante a ocupação de Paris a partir de 1940. Ele ia fazendo uns coquetéis, mas no meio disso ia privando, obviamente, com as figuras da época, nomes mais variados e mais sonantes que possam imaginar e que passaram por aquele círculo, e também auxiliando a resistência francesa, facultando e permitindo que muitas destas pessoas conseguissem raspar-se de França, nomeadamente através de Portugal, que sabemos. Sobretudo numa altura em que o próprio Ritz, que era e que ainda é uma instituição ali na Place Vendôme, mas estava ocupado, serviu uma espécie de casa de férias.
Viste isso?
Do terceiro-
Place Vendôme.
Não, eu não. Ele está à espera que isto-
Do terceiro arranjos.
Da toponímia.
No meu tempo era uma marca de cigarros, o Ritz.
Ritz para mim.
Pois, pronto. Mas enfim. Também se fumava muito nessa altura.
Fumar ainda fazia bem nessa altura, não é?
Não matar, exatamente.
Havia cigarros Sporting.
Benfica, Porto.
Sintra.
Kentucky.
Provisórios.
Já vos disse que comprei um maço de cigarros Kentucky recentemente, numa coisa de velharias.
De velharias, ok. Mas não fumaste nenhum, espero.
Não, eu comprei porque era o que o meu avô fumava.
Mas tinha os cigarros lá dentro?
Tem lá, está intacto. Se tu fores a essas feiras de antiguidades, na rua, há pessoal que tem lá coisas deste tempo, refrigerantes.
Mas a minha pergunta é: os cigarros ainda cheiram a tabaco?
Eu não abri. Não vou estragar aquilo.
Em português dizia-se Kentucky.
Kentucky.
Maria.
Mata-ratos.
Estávamos na parte das suspenses.
Desculpa, Maria.
Foi uma pausa para cigarro.
Uma pausa para cigarro, que eu sou uma desculpada. Acho muito bem.
Mas então, já fomos ao Ritz, onde é que vamos agora?
Pronto, é um romance que se lê bem, não é extraordinário, mas acho que pela história. Às vezes só queremos uma história que se leia bem, rapidamente, não é preciso. Ainda por cima, o conteúdo é de fato relevante. Depois, segui o teu conselho, Tiago Pereira, e comecei a ver uma série na HBO chamada "Task".
E estás a apreciar?
Estou a apreciar, de fato. Apesar de o Mark Ruffalo é aquela pessoa que mesmo que lhe digam: "Ganhou o Euromilhões", ele vai continuar com aquela cara de quem acabou de enterrar a família inteira.
É verdade, mas aqui faz sentido. Pelo menos aqui faz sentido.
Mas ele está sempre assim. Mas em todo caso, acho que sim.
Mas isso suscita o interesse por partes interessantes românticos. Uma certa complexidade.
A fragilidade, aquela do: "Anda cá que eu ajudo-te."
Não, aquilo é muito padre, desculpem.
É o direito.
É o direito.
É o direito. Anda cá miúdo, que eu é direito.
Bom.
Muito bem. Mas olha, continua.
Isto está correndo muito bem.
Aquilo são sete episódios.
São só sete? E resolve-se logo ou vai ter outra temporada?
Não, aquilo fica resolvidíssimo.
Pronto.
Não há catangas.
Muito bem, para fechar.
Pode haver uma segunda temporada. Desculpa, Maria. Pode haver uma segunda temporada.
Pode. Certo, está bem.
Mas aí já me perderam. Não vou voltar, não tenho tempo para tudo. Depois, para fechar, ainda na HBO, uma minissérie, neste caso acho que são seis episódios, chama-se "Little Disasters". Eu ainda só comecei a ver, portanto, não sei para onde vai.
Isso mete ricos? Ou não?
Não é bem. Isso mete a Diane Kruger, que é muito bom, que é sempre muito bom. Eu já não a via há muito tempo. E é a Diane Kruger.
A sua irmã, não?
O Bruno também não.
Helena. A melhor coisa do filme "Troia".
É muito mau isso.
Pois é.
Tens toda a razão.
Vamos fazer mais uma pausa para cigarros.
É que o Brad Pitt é filho não sei de quem.
É o Aquiles.
É o Aquiles. É o do calcanhar.
É verdade.
Não, é o Eric Bana.
É o Eric Bana que é o Heitor.
Que é um grandaço.
E o Peter O'Toole.
Quem é que é filho do Colin Farrell e da Angelina Jolie?
Não, isso é o Alessandro Graciano.
Já estás a misturar.
Isso é mitologias a mais e coisas de antiguidades a mais.
Não, mas olha, isto mete crianças, lá está. Tem aqui a devida dose de dramatismo. É um thriller psicológico e que segue o quê? Diferentes mães ao longo de diferentes fases da sua vida.
Isso pode ser muito complicado.
Pois é.
A maternidade é um desafio.
Sim, mas isto é sério. Atenção, esta frase.
Sim, também tem pais e também tem ali problemas com os pais, ó Pedro.
Estás a arriscar.
Pronto, eu não vou spoilar mais, mas isto só para dizer, como te lembraste bem que é capaz de dar aqui alguns trilhos.
Estrilho é a palavra certa.
Não, para já porque as pessoas começam a questionar quão boas mães são. E depois porque entram ali num terreno altamente competitivo e tenso.
Normalmente a questão não é essa, é quão más, não quão boas.
Não, mas depois há aqui as mães perfeitas e aquelas coisas.
Aquela coisa que não existe.
Não, mas falando sério, há aqui um caso muito complicado com uma criança que pode ter passado por coisas que não devia ter passado. E portanto é interessante, estou curiosa para ver os próximos episódios.
A série é britânica.
Creio que sim.
Muito bem, Pedro Boucherie Mendes. Vamos embora. Tens aqui
Tem dois documentários.
Dois documentários, não é?
Sim, dois documentários. Apesar de serem sobre figuras do passado que já morreram, nenhum deles é nostálgico. O primeiro é na Filmin, Elis & Tom. Elis, como nós dizemos em Portugal, e Tom Jobim. Elis e Tom. Elis Regina, Tom Jobim. "Só Tinha de Ser Com Você". Eu nunca tinha visto este documentário. É sobre a gravação de um disco entre os dois. São duas figuras.
Dois monstros.
Da música chamada world music. Música brasileira, obviamente.
Sim, mas tem uma abrangência global.
Isso. A Elis era então a cantora mais popular no Brasil, tem uma voz que eu acho que se percebe no documentário, uma voz inqualificável, cristalina, muito nítida, muito forte.
Plástica. Não, eu estou a falar sério.
Sim.
E tinha aquela atitude. Aquilo aliado à atitude que ela tinha.
Uma espécie de coisa sobrenatural, para fazer um callback ao programa da semana passada. E então ela e o Tom Jobim, que também é um compositor, um monstro, um músico e, sobretudo, uma figura da música popular brasileira, da bossa nova, inigualável. E os dois juntam-se para fazer um disco que gravam em Los Angeles, em 1974. O filme é um pouco longo. É realizado por alguém que esteve presente nas gravações e tem testemunhos contemporâneos, e tem testemunhos de pessoas que estiveram a gravar. Obviamente, é muito laudatório em relação às duas figuras, como diria, tem que ser, embora aluda a problemas que houve, a tensões que houve durante a gravação. Mas estes filmes têm a vantagem, pelo menos para mim, de nós vermos como Portugal mudou, porque a Los Angeles de 1974, que aparece bastante no documentário, é muito mais evoluída até do que o Portugal de 2025, correndo o risco de um certo exagero. Mas as imagens apresentam-se-nos como se fosse no presente. E, portanto, não há aqui um efeito nostálgico, porque nós em Portugal nunca tivemos aquele tipo de riqueza e de afluência, os carros a passar, as ruas largas, as pessoas bem vestidas, com ar feliz, com muita claridade. Portanto, o filme tem esse lado extra, acho eu. E depois tem muita música e é sempre uma oportunidade de ver a Elis cantar. É uma coisa que eu acho que é uma oportunidade a não perder. Portanto, na Filmin, Elis & Tom, ou Elis e Tom. "Só Tinha de Ser Com Você", ou como diriam os brasileiros, "Só Tinha de Ser Com Você".
Muito bem.
Não falhaste.
Artista.
Muito bem.
Estava eu a procurar.
O que eu vou ver agora?
Vamos gravar o "PopUp", o que é que há aqui?
Seca.
E tropecei em "John Candy: I Like Me", que eu acho um título não muito bom, mas é um documentário sobre a vida do ator John Candy. Não tem uma única piada sobre o facto de ele se chamar João Guloseima.
João Doce.
Sim, mas é. Realizado por Colm Breatnach.
Há um músico português, João Doce. Força.
Peço desculpa, também é um João só. E há um João Pesta. E há um João Grande. Verdade, não é?
É tudo verdade.
E havia um João Aguardela também, que eu conhecia.
E há um João Cabeleira.
Sim, o João Cabeleira.
E por aí fora.
"John Candy: I Like Me". O John Candy, para quem não se lembra ou para quem não está a ver, é aquele ator muito grande e muito gordo que dá boleia à mãe do Kevin, no "Sozinho em Casa".
Isso é a melhor descrição.
Polka, polka, polka.
Quem não estava a ver, quem é. Morreu também cedo.
É uma banda, não é? A carrinha que tem uma banda.
Essa cena está bem descrita no filme. Ele só tinha um dia para gravar. Eles estão: "Tudo bem." Então a gravação durou 23 horas. Um dia tem 24.
Não falharam.
E muito daquilo é improviso. Ele, John Candy, é que criou o personagem ali on the go, inventou todas aquelas coisas da polka isto, a polka aquilo, e a Catherine O'Hara, é assim que se chama a mãe do Kevin, que trabalhou com o John Candy no passado de ambos, no Canadá. Ela, no fundo, quase não abre a boca e ele vai blá, blá, blá. É um dos personagens mais icônicos, para usar uma palavra original erradamente usada, do "Sozinho em Casa". O John Candy acabou por morrer, excesso de peso, excesso de bebida, excesso de álcool. Embora ele não conseguia controlar aquilo, excesso de comida, mas deixou uma marca e acaba por ser enternecedor ver a quantidade de testemunhos que nós vemos. O Tom Hanks, o Steve Martin, o Conan O'Brien, o Eugene Levy, o Bill Murray, o Mel Brooks e o próprio Macaulay Culkin, que fala imenso, ele não costuma falar. Só tem coisas a dizer, coisas boas do John Candy, que estreou no cinema americano, e eu não sabia, no filme "1941", que é considerado um dos maiores fracassos do Spielberg. A Maria há bocado dizia que o livro se lê bem, este documentário vê-se bem. É um daqueles documentários, vou ver um bocado. E acabamos por ver até ao fim, na Amazon Prime Video, "John Candy: I Like Me". Confesso que não percebo a lógica do título.
Muito bem. Eu vou dar três dicas aqui rapidamente. Uma, eu não sei se as pessoas, ou quando é que as pessoas vão ter a oportunidade de ver. Calhou em ver o documentário que esteve no Doc Lisboa sobre o Jeff Buckley, que se chama "It's Never Over".
Olha, já vi entretanto.
Gostei muito.
Eu não sei.
Calma, deixa-me. Gostei muito do filme, mas admito que A reação possa ser diferente consoante a ligação emocional que as pessoas tenham ou não.
Eram comentários de jornalistas.
Eu achei que tinha coisas mal feitas. É um bocado absurdo estares no cinema e esperares que ela te identifique quem é a pessoa que está a falar, por exemplo.
Não me apercebi.
Estavas a chorar?
Não estava, mas vi muita gente a chorar na sala.
Não conseguiam ver. Os jornalistas também choram.
Não, mas não eram jornalistas.
Mas estavam agarrados.
Não, porque não tinha medo.
Não eram porque entretanto mudaram de profissão.
Não, vi várias pessoas a choramingar.
A fungar.
A fungar gravemente.
A soluçar.
Só para dizer que se derem por vocês com a oportunidade de ver o filme, vejam o filme. Era só isso que eu queria aqui dizer.
Eu achei que era tristíssima a história do pai.
Tudo miserável.
Eu acho que fazia mais sentido um diálogo mais coiso com o pai.
Mais coiso? Mas também era aquilo que ele não queria. E outra coisa, aquilo é tudo supervisionado pela mãe.
Isso é interessante. Eu acho que isso é a coisa mais interessante.
Teria sempre essa influência. Outra coisa que não tem nada a ver, quer dizer, tem, porque é música, mas está vivo. Dia 9 de novembro, no Fórum Luísa Todi em Setúbal, atua Steve Gunn, que é um moço que eu aprecio muito e que é um rapaz que faz magia com uma guitarra acústica.
É verdade.
Se vocês gostam daquela música que é meio indie, mas meio cowboy.
Ya, Nebraska.
Pronto, mas século XXI. Meia folk. Steve Gunn é extraordinário.
Aquele com dois N no fim.
Exatamente, dois N. Agora fiquei no chão. Agora fiquei arrumado. E depois um livro que não li, mas isto é uma canção. Os livros que eu não li. Fiquei curioso. Chama-se "Uma Breve História do Japão", é de um senhor chamado Christopher Harding, que é historiador e professor universitário e que tem muitos livros escritos sobre o Japão.
Uma breve história de qualquer coisa.
Não, livros que não são breves, mas tem outros livros escritos sobre o Japão. É um senhor bastante entendido nestas coisas da história, histórias asiáticas e de países da Ásia. Só que este livro é mais curto, lá está, tem o lado de ser breve e o Japão, um sítio onde eu nunca fui, desperta-me alguma curiosidade. Começa logo no início, tem um detalhe que eu acho muito interessante, que é ele a falar de como os japoneses são muito avessos a saírem do seu país. Não são propriamente fãs de andar a viajar.
Quem?
Os japoneses.
Os japoneses?
Sim.
Não, é essa a ideia.
Pronto, está bem. É o que ele escreve, não fui eu que escrevi o livro.
Não, claro.
E fala de como-
Mas vens aqui, estás a defendê-lo. Estás a subscrever
...o país é bastante grande, apesar de não ser um dos maiores países do mundo, mas que de norte a sul do arquipélago do Japão, a paisagem e a geografia é tão vasta e tão diferente que se os japoneses quiserem ver boa parte do mundo, entre aspas, conseguem fazê-lo sem sair do país.
Tem uma Fonte da Telha?
Talvez. Deve ter. Só que deve escrever-se só numa palavra. Não sei se têm sushi tão bom como uns certos restaurantes que eu conheço aqui. Muito bem. O livro chama-se "Uma Breve História do Japão", de Christopher Harding e é publicado pela Casa das Letras. Bruno Vera Manal, afinal, por que se enganam os intelectuais?
Por que se enganam os intelectuais? Deixa-me antes disso só dizer que comprei, sou muito influenciável. Comprei o vinil do Nebraska.
E é bom, não é?
É bom, mas ainda estou a tentar perceber se é mesmo muito bom ou se é bom porque o gajo fez aquilo que lhe apeteceu e só por isso é bom. Estás a perceber?
"State Trooper", grande canção.
Mas puseste mesmo a tocar, tipo com agulha?
Com agulha.
Não vou entrar nessa descrição explícita, quase erótica da coisa. "Por que os Intelectuais se Enganam?" é um livro de um francês. Os intelectuais, isso é de uma francesa.
É direitolas, este.
É, Samuel Fitoussi.
Acho que há aí três pessoas direitolas em França.
A direita francesa tem uma vasta tradição.
Olhe que não.
Se calhar até nos aproveitava.
Elá!
Pronto, calma. Já me perderam.
O programa é este.
Não me consigo explicar.
Pausa para o cigarro.
Não é Vichy, essas coisas.
Bruno, podes dizer o que tu quiseres, isto é democrático. Era o que faltava.
Está a baixar o pé tão.
Oxalá tivéssemos nós a qualidade intelectual.
Soube esperto.
Pronto, não vou adiantar muito.
Fico por aqui.
"Por que os Intelectuais se Enganam?"
Entendedores entenderão.
O Samuel Fitoussi, para meia entendedor, é até jovem, tem 28 anos.
É um ótimo nome, Fitoussi.
Fitoussi. Por que se enganam? Porque têm muitas ideias, porque essas ideias geralmente circulam em circuito fechado e em que os custos, por exemplo, em universidades, e os custos de se pensar de forma diferente são elevados. Ou seja, tu tens muita tendência a manter as ideias com que arrancaste, que às vezes te granjearam fama e uma grande reputação. E ao contrário do que acontece na ciência a sério, em que isso é estimulado procurar o erro, não. Quando estás a falar deste tipo de pensamento é defender até ao fim, meu amigo. Ele até tem uma frase que ele diz: "Para além dos intelectuais, todos aqueles que vivem das suas ideias, como escritores, políticos, jornalistas, têm muito a perder quando mudam de opinião". Ou seja, o incentivo é para manter a opinião, por muito errada que ela esteja. E o contraponto com a ciência é mais óbvio. Depois, as ideias raramente são aplicadas ou nem sempre são aplicadas. Quando, por vezes, são aplicadas, são aplicadas longe do habitat desses intelectuais. E quando são aplicadas no território desses intelectuais, eles ou não sofrem as consequências, porque fazem parte da vanguarda que está a aplicar aos que estão embaixo, ou então podem se dar ao luxo de sofrer as consequências dessas ideias. Como, por exemplo, imagina, um intelectual defende o aumento de impostos sobre qualquer coisa. Aquilo não muda o seu estatuto e a sua qualidade de vida. Ele pode se dar ao luxo.
Exato.
Fala-se mesmo em crenças de luxo, precisamente por isso, porque podes comprar a adesão a essas crenças que não sofres as consequências. E em muitas das sociedades em que foram aplicadas certas ideias, os intelectuais, até um certo momento ou até caírem em desgraça, fazem parte da classe que coordena a aplicação dessas ideias e não sofre as consequências. Eu aqui há uns dias vi um vídeo de um casamento de um militar iraniano, de um almirante, da filha dele, em que ela aparece com um vestido de noiva decotado, uma cerimônia ocidentalizada, completamente. E é um tipo que faz parte de um regime, é um dos tipos de topo de um regime que defende que as mulheres, por exemplo, podem ser apedrejadas se saírem à rua sem ter os cabelos cobertos. Isto é pra dar um exemplo. Quando tu podes defender ideias que não se aplicam a ti, então, muitas vezes, defendes ideias erradas. E este livro de Samuel Fitoussi explora isso tudo, bate muito em Sartre. O Sartre é quase aqui o saco de pancada. Mas é um bom livro para perceber as dinâmicas que levam a que os intelectuais se agarrem às ideias, mesmo quando percebem que elas estão erradas.
E para terminar, tem também um documentário.
Um documentário do Ben Stiller, em que entra também a irmã, e é sobre os pais. A dupla humorística da Anne Meara, que é menos conhecida do que o Jerry Stiller. O Jerry Stiller teve uma ressurreição com o "Seinfeld". Ele faz o pai do George Costanza e tornou-se famoso por causa disso, e tornaram-se também mais famosos, a certa altura, quando o Ben Stiller se tornou muito famoso. Mas eles têm uma carreira como humoristas e o documentário é uma espécie de revisitação dos vídeos caseiros. O Jerry Stiller gravava muita coisa e em áudio também, e isso está neste documentário. E o pretexto é que os filhos vão à casa onde eles cresceram, que era a casa dos pais, para retirar as coisas para vender a casa. E, entretanto, encontram todos estes documentos e fazem o documentário a partir daí.
Metade é do próprio Ben.
Ben Stiller. E que mostra como é crescer numa família que pertence ao mundo do espetáculo, ao show business, como é que eles foram equilibrando a vida profissional, porque era uma dupla humorística, com a vida pessoal, como é criar os filhos, como é que se sobrevive a isso tudo e como é que se consegue levar uma vida minimamente equilibrada com tanta pressão, e uma vida criativa. E está na Apple, que eu agora só vejo Apple.
Fechamos com o capitalismo. Acho ótimo. Sugestões entregues, rapaziada. Estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos para não perderem nenhum episódio. Nós voltamos na quinta-feira. Até lá.
E pronto.