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Bem-vindos a mais um "Pop Up", o programa que transforma a cultura pop numa conversa de café aqui na Rádio Observador. Se ao menos estivéssemos todos na mesma mesa e com café, nem uma coisa nem outra. Como sempre, Maria Ramos e Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchinho Mendes, gente de boa conversa que esta semana vai refletir sobre uma das mais populares famílias da internet e da televisão. Mas antes, vamos falar de livros e bibliotecas na Bódica. No passado fim de semana, o escritor argentino Alberto Manguel, peço desculpa, já me estou a engasgar, oficializou a doação da sua biblioteca, que é uma das mais cobiçadas do mundo, diria, à cidade de Lisboa, uma doação à cidade de Lisboa, onde também vai ser instalada, seguindo a sua orientação, o Centro de Estudos da História da Leitura. Tudo isto ainda está numa fase preliminar, ainda estamos à espera de saber mais detalhes e como tudo isso vai funcionar. Nesta cerimónia que aconteceu na Feira do Livro, Manguel disse: "Hoje digo a mim mesmo: não vais perder uma biblioteca, vais ganhar uma cidade mágica." A notícia foi muito comentada, foi muito partilhada. Bruno, vamos começar por ti. Dirias que este barulho à volta desta notícia aconteceu porque se trata, de facto, de uma doação de uma biblioteca importante e da criação de um centro que se espera relevante, ou porque se trata de Manguel em particular?

Diria que é um pouco das duas. A biblioteca é impressionante, de facto, e é importante. Uma biblioteca privada com cerca de 40 mil volumes, tem importância. O Manguel é um intelectual reconhecido, um bibliófilo e bibliômano também, como define. Os livros dele têm sido publicados em Portugal já há alguns anos. Eu creio que uma história da leitura terá sido publicada pela primeira vez há mais de 20 anos em Portugal, ou à volta disso, e nos últimos tempos tem sido publicado pela Tinta da China, portanto, tem esse reconhecimento e acaba por ter alguma importância. A notícia foi divulgada não só no seu país natal, na Argentina, com alguma polêmica à mistura.

Em Espanha também.

Também. Portanto, acaba por cumprir essa função, que creio que também será um dos objetivos da Câmara Municipal, de pôr Lisboa no mapa cultural. Eu fiquei, à primeira, radiante com tudo isso, porque é daquelas coisas que se entranha logo. Mas depois estranha-se um bocado. Não tanto a decisão de se instalar aqui a biblioteca, mas todo o processo. E quem falou do processo foi o próprio Manguel, que isto o ano passado, quando veio apresentar um livro a Lisboa, falou com a editora, a Bárbara Pelosa, da Tinta da China, contou-lhe que tinha muita pena que os livros continuassem em caixotes e que tinha muita pena de não poder ter a sua biblioteca num único sítio. E a Bárbara Pelosa ter-lhe-á dito que iria falar com o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o Fernando Medina. Isso aconteceu e de um momento para o outro apareceu dinheiro, apareceu espaço. Ainda não se sabe quanto é o dinheiro, ainda não se sabe qual será o investimento da Câmara Municipal de Lisboa, mas isto é tudo um bocadinho à portuguesa. Numa altura em que cultura e também o setor do livro atravessam uma crise sem precedentes, quando Lisboa praticamente ficou sem livrarias independentes, grandes, dignas desse nome, em que também há dificuldades noutros setores, em que, por exemplo, desapareceram praticamente também as salas de cinema independentes da cidade, de repente, parece que afinal é fácil. Quando há a vontade política, as coisas acontecem. Eu não sei, para além da recuperação do espaço em que vai ser instalada a biblioteca, estamos a falar de um investimento, não só em recursos humanos, mas também na aquisição, porque vai haver um orçamento, segundo o próprio Alberto Manguel, para aquisição anual de livros para a biblioteca. E eu gostaria que isso fosse mais claro, de que valores é que estamos a falar, qual é o investimento feito em aquisições para a rede de bibliotecas públicas em Lisboa. É que o processo todo parece com aquela facilidade à portuguesa, que temos aqui um déspota iluminado, que é o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, que alguém lhe falou de um projeto, ele disse: "Sim, senhor, vamos avançar." E em poucos meses, coisas que por vezes são tão complicadas, como por exemplo, arranjar um espaço para uma companhia de teatro, aqui não há complicação nenhuma, não. Não deixa de causar alguma estranheza, ainda que queira sublinhar a importância da biblioteca, mas isto não é um investimento privado, trata-se de um investimento público. Acho que também devemos fazer esse escrutínio, porque não deixa de parecer um pouco estranho todo o processo.

Pedro, já falámos disso aqui várias vezes e tu já falaste disso várias vezes. Temos muitas vezes o hábito de nos empolgarmos com aquilo que envolve um certo autoelogio português. Aqui parece-te legítimo que tenhamos esse tipo de contentamento, fomos escolhidos para receber isto e sobretudo tendo em conta aquilo que falávamos na semana passada e que tu próprio lembravas, de como somos fracos leitores.

Eu acho que há muitas coisas a dizer. A primeira das quais é que não sei que livros é que serão. Espero que não seja uma espécie de coleção vampiro argentina, ou o que for. À partida, não sei se tem um valor museológico ou se é suposto ser uma biblioteca onde alguém vai lá ler um livro qualquer do Graham Greene ou do Thomas Mann, uma coisa assim. O certo é que esses livros existem disponíveis nas livrarias portuguesas, nas bibliotecas portuguesas. Este parece-me ser um daqueles assuntos em que nós vamos ouvir nos próximos anos, teremos novela, vamos ouvir muito falar deste tema e vamos ver se o Alberto Manguel, que como exemplo de outros intelectuais, tem acesso direto à comunicação social portuguesa. É um daqueles casos, não digo que o tipo não mereça, obviamente, mas é um daqueles casos em que a postura é quase sempre acrítica. Eu fico um bocado com a ideia, lendo só as gordas, que ele é uma espécie de sucessor do Borges. Ou seja, terá todo o talento dele. O Borges deve ter lhe passado todo o seu talento. Eu li a história de leitura, é assim que se diz, há uns anos, e é um ótimo livro. Não tenho a menor dúvida que a coleção será importante, mas num país ou numa cidade que nem sequer consegue fazer um museu das descobertas, se calhar conseguimos fazer uma biblioteca com uma coleção que parece que outros países recusaram, não quiseram ou não aceitaram, a começar pela própria Argentina. É tudo um bocado bizarro, mas Portugal, como sabemos, é um país cheio de originalidade.

Maria, o Bruno já falou aqui um pouco nesta questão. Esta notícia, obviamente, deixa algumas dúvidas, porque há perguntas que ficam por responder, precisamente quem vai fazer o quê, quanto vai custar o quê, etc. E o facto é que ainda não sabemos bem quando é que essas dúvidas ficarão esclarecidas.

Pois, é aquele enredo bem popular português, da falta de transparência, que parece tocar todas as áreas. Nós já falámos aqui de outras situações, desde DGS, já antes Feiras do Livro, os protocolos, aquelas coisas que nunca se sabem muito bem. Fica sempre aquela ideia do fica por divulgar, como se andássemos a coitadas destas pessoas a perseguir alguma coisa, com uma segunda intenção. E muitas vezes é simplesmente uma ideia, um desejo, de facto, de transparência, que aqui mais uma vez continuamos à espera de uma série de detalhes. Há um protocolo que foi assinado, nós não conhecemos em pormenor o que foi assinado. Vendo esta ideia de uma oferta ou de uma doação, eu não sei se não é uma palavra que deva levar aqui as devidas aspas, porque fala-se eventualmente de uma contrapartida, nem que seja o facto desta pessoa ir dirigir um centro e, portanto, provavelmente ter um retorno ou vir a auferir um certo estipêndio por essa função. O "El País" falava da contratação de quatro bibliotecários, portanto, essas pessoas também vão ter que receber o seu dinheiro. Estamos a falar, como lembrava o Bruno e o Pedro, de um investimento público e de um processo também despachado aqui com uma rapidez que também nos deixa alguma perplexidade, porque para certas coisas, e sobretudo atendendo este contexto, é muito complicado agilizar uma série de decisões e aqui de repente parece tudo altamente instantâneo. Ficamos, para além disso, com uma série de outras questões por resolver no próprio percurso do Manguel, que é uma figura, como o Bruno também lembrava, com uma passagem controversa pela Argentina, neste caso, quando dirigiu a própria Biblioteca Nacional do seu país. Aquilo não foi nada consensual. Aliás, os funcionários, agora perante esta decisão ou anúncio desta decisão de que a biblioteca do Manguel vinha para Lisboa, por um lado estranharam, porque não ficou no seu país de origem, não foi para o seu país de origem. Acusam de ser uma pessoa que se faz pagar bem, no sentido em que ele próprio, quando dirigiu a biblioteca, exigiu para si supostamente uma recompensa ao nível de uma Secretaria de Estado. Não sei se confere ou não, mas parece que estamos sempre a falar aqui de dinheiro ou de alguma forma de um certo retorno. Não é simplesmente a doação abnegada de um espólio. Estaremos no limite a falar talvez aqui de um usufruto que nós eventualmente teremos de uma coleção. É mais um daqueles detalhes que nós ficamos sem saber o que se passa, o que vai ser em concreto. Sabemos que trocaram muitos elogios Manguel e o presidente da Câmara de Lisboa nesta cerimónia de apresentação, assim muito com aura de Web Summit. Medina sorria, Manguel chamava-o de unicórnio, dada a sua sensibilidade rara para estas questões. Eu continuo a achar que faltam aqui algumas respostas. Acho que nos dava um jeito saber algumas coisas.

Muito bem, a ver vamos. Antes do final da primeira parte, vamos às sugestões da semana com o PostIt. E Bruno, vamos começar por ti. Viste um documentário que está no top dos mais vistos da Netflix nos últimos dias.

Sim, é o dilema das redes sociais, tem sido muito visto e muito comentado. Eu vi e não encontrei ali nenhuma grande novidade sobre a forma como as redes sociais, as grandes plataformas, trabalham para viciar os seus utilizadores, os seus consumidores. Portanto, não há nenhuma revelação extraordinária, coisas que não tenham sido faladas nos últimos anos, eu próprio já tinha conhecimento, mas é sempre bom relembrar como é que funciona a coisa, porque a nossa tendência é esquecermo-nos. É utilizarmos, dizermos que aquilo é apenas uma ferramenta, como é referido no documentário, e esquecermos que mais do que uma ferramenta, somos nós a ferramenta, ou somos nós quase as cobaias destas grandes empresas, com todos os perigos que isso envolve, não só na questão da proteção de dados, mas também da saúde mental para adultos e muito particularmente para os jovens. A dada altura, no documentário, alguém diz que nós, enquanto seres humanos, precisamos do reconhecimento social, do reconhecimento afetivo das pessoas que nos são mais próximas, mas será que estamos preparados para lidar com a opinião de 500, 600, 1000, 10 mil pessoas, com as quais não temos nenhuma ligação para além da ligação das redes sociais? Todas essas questões são levantadas no documentário e depois, no final, são feitas uma série de sugestões, de forma a gerirmos melhor a nossa relação com as redes sociais, para evitar que sejamos engolidos por elas e nos tornemos completamente viciados, com todas as consequências que isso tem.

Pedro, tens uma sugestão que também vem das redes sociais, mas tem outro âmbito. Chama-se Idade Média Pop, é isto?

Sim, é uma conta de Instagram portuguesa, de uma estudante de mestrado de História. E é interessantíssimo, porque ela faz os posts, tira fotografias e depois tem texto, às vezes os textos até são bastante compridos, mas permite-nos ir viajando pelo património português. Por exemplo, um dos últimos posts é sobre a Custódia de Belém. E está escrito num registo não árido, um registo bastante fluido e narrativo, se quiseres, como se a história fosse, e é, claramente, qualquer coisa na qual nós podemos mergulhar da mesma forma que mergulhamos numa história, numa ficção qualquer. Não tem nenhum critério, ou seja, ela não começa pelo rei não sei quantas e atravessa, ou não começa pelo norte até ao sul. Tem mais a ver com aquilo que ela suponho, lhe suscita, ou viaja, ou se surpreende e naquilo que ela tropeça, mas é uma daquelas contas que nós podemos seguir no Instagram, e eu sigo e recomendo vivamente, e onde podemos aprender qualquer coisa ao mesmo tempo que viajamos no tempo. Isto parece um pouco um lugar comum e um pouco uma ideia não muito sofisticada, mas às vezes é o que apetece no meio de tanta parvoíce que há nas redes sociais. Chama-se Idade Média Pop.

Maria, rapidamente para terminar, o que se passa com o Jeff Goldblum?

Anda a mostrar-nos o mundo, como ele o vê. É uma série que estreou na semana passada no National Geographic, mas vão poder vê-la também no Disney Plus, que já chegou até nós.

Já está a funcionar.

Já está a funcionar. Para quem gosta da personagem, vai gostar de ser conduzido pela sua inquietação permanente. Se calhar quem não simpatiza tanto com o registo, não vai aderir tanto, mas eu recomendo. É uma figura com quase 70 anos. Esquecemos às vezes da longevidade do Jeff Goldblum. E a verdade é que nos guia por alguns dos seus interesses que vêm desde o tempo de miúdo, seja a falar de gelados, de ténis, de tatuagens, de videojogos. Vai mostrar-nos aqui um bocadinho do mundo com a sua lente e com a sua curiosidade.

Muito bem. Fazemos agora um curto intervalo e voltamos já a seguir. Segunda parte do PopUp, sejam bem-vindos de volta. Na primeira parte falámos de como se ganha uma biblioteca, mesmo que seja por doação. Nesta segunda, vamos ver como se perde um dos programas de televisão mais populares dos últimos anos, a nível mundial. E, quem sabe, uma família, pelo menos como a conhecíamos até aqui. Temos Kardashians hoje no Pop de Hoje. Keeping Up with the Kardashians é o título do programa que vai acabar. O fim chega no próximo ano após 20 temporadas e 13, a caminho de 14 anos de programa no ar. O anúncio foi feito na semana passada. Maria, vou precisar aqui da tua ajuda. Primeiro vamos contextualizar o que é este Keeping Up with the Kardashians. Certamente haverá quem nunca o tenha visto, ainda que possa ter visto os mopis na rua ou algo parecido. E o que este programa deu ao mundo? O que aprendemos com esta família?

Sim, no fundo, estamos a falar do mais longo formato em termos de reality show, que segue o quotidiano de uma família. Com o que isso tem de real e de ficcional, como é óbvio. Como em qualquer situação destas. Mas a verdade é que é muito curioso, porque boa parte dos elementos desta família, estamos a falar aqui de uma família relativamente numerosa, passou boa parte da sua vida à frente das câmaras.

Para quem ainda estiver um bocadinho perdido, Kim Kardashian será provavelmente o nome mais popular.

Sim, mais popular. Elas são uma série de irmãs, quase todas, senão mesmo todas, começando o seu nome com K. Parece quase uma espécie de grupo K, mas do celebritismo norte-americano. E a verdade é que configurando talvez aquele tipo de conteúdos chamado trash TV, que nós às vezes classificamos de uma forma um bocadinho depreciativa, de uma forma bastante ligeira. A verdade é que neste segmento é provavelmente o conteúdo mais popular, de facto. E é difícil imaginar alguém, mesmo que viva afastado das redes sociais, que hoje não saiba quem é, pelo menos, Kim Kardashian ou Kanye West, por tabela, e também por se juntar a esta família e por todas as suas ramificações.

Ou talvez a Caitlyn Jenner, que outrora foi Bruce Jenner.

Sim, depois já todos esses condimentos, a própria matriarca da família que se assume como manager desta empresa, porque no fundo é disso também que estamos a falar, de uma família/empresa, que gere a sua vida como um negócio. Porque, na realidade, estamos a falar de muitos milhões. Estas pessoas deram-nos um conteúdo televisivo seguido por milhões, também faturaram muitos outros milhões à conta desta participação. A Kim Kardashian é alguém que no começo, estamos a falar ainda nos primórdios dos anos 2000, é pouco mais conhecida do que uma amiga de Paris Hilton, que se torna famosa graças a uma sex tape. Há até quem diga que foi a própria mãe que fez com que a sex tape viesse.

Que terá libertado as imagens, não é?

Precisamente. Portanto, já ali dando um pontapé de saída para essa cultura da celebridade, esse lançamento da filha.

Circunstância que, afinal, nunca foi totalmente esclarecida.

Nunca, e é um daqueles mitos urbanos ótimos e que provavelmente vai continuar a persistir. A verdade é que elas transformaram, cada uma à sua maneira, no rosto de impérios que são absolutamente quase inavaliáveis. Porque uma delas tornou-se a mais jovem bilionária do mundo. De repente a Kim Kardashian está na Casa Branca a levar questões do direito e a discutir temas importantíssimos. O marido quer ser presidente dos Estados Unidos e tudo de alguma forma parece uma espécie de brincadeira e de movimentação cartunesca. A verdade é que estas personagens ganharam uma vida própria e ganharam, de facto, um peso monumental, que dá um belíssimo caso de estudo. Elas acho que são fascinantes para quem der alguma tolerância a esse tipo de cultura mais trash. São fascinantes nesse sentido. Com toda a sua vacuidade e com toda a sua futilidade, a verdade é que depois vai ser difícil ignorá-las numa cronologia quando olharmos para trás e pensarmos onde é que estavam quando as redes, de facto, explodiram, quando falarmos do apogeu das selfies, da obsessão com o corpo. A obsessão com o corpo está intimamente ligada à questão das Kardashians. E portanto, acho que há muito para lá desta visão imediata e ligeira com que nós podemos falar, e muito depreciativa, como é óbvio. Porque nós estamos a falar aqui de uma série de conteúdos que depois são absolutamente risíveis. A Kim Kardashian tem detalhes ao longo do programa, coisas como imagina aqueles dramas de primeiro mundo ou de 1% quando perde um anel que custa 75 milhões. E alguém diz: "Atenção, que há gente a morrer no mundo, portanto, isso não é a coisa mais grave que pode acontecer." A vida das Kardashians é isto, é uma telenovela, que vai começar agora a última temporada. Elas próprias decidem terminar com a série, portanto, não é o E!, o canal, que põe termo à série. Elas decidem. Isto é outra questão, não se sabe exatamente quem é que tomou a decisão, se foi a mãe, se foram elas, mas vão continuar a sua vida, certamente não à frente destas câmaras, mas de outras. E vão continuar nas redes à nossa volta.

Naturalmente. Pedro, a Maria estava aqui a lembrar, não se sabe exatamente de onde vem e como foi tomada a decisão de terminar com o programa, mas pergunto por que um programa como este acaba? Um programa com tanto sucesso e que resulta tão bem em todo o mundo. O que é que pode motivar uma decisão destas?

Quase sempre um programa de televisão acaba porque as condições exigidas pelos seus participantes intervenientes se tornam incomportáveis para a produção.

Ou seja, isso quer dizer dinheiro.

Sim, quer dizer dinheiro e quer dizer também, imagina que tu és o protagonista de uma série importante, o "Dr. House", por exemplo. Tem a ver com o facto de quereres ir fazer outra coisa, por exemplo. Outra coisa artisticamente, outra série, outro filme, outra coisa qualquer, e estás preso àquela. E o que os produtores vão fazendo é vão duplicando o salário e tu vais aceitando fazer mais uma temporada e outra e outra. Portanto, normalmente é esse o motivo. Claro que também há o desgaste das audiências. E o desgaste da própria razão de ser do conteúdo, seja ele qual for. Mas aqui as Kardashians são muito mais importantes, acho eu. A autora desta novela Kardashians, não as miúdas em si, mas tudo o que elas provocaram.

Exato.

São muito mais importantes, quero crer que serão estudadas daqui por 100 anos ou qualquer coisa, como um fator de disseminação de uma certa ideologia e de uma certa estética junto do seu público, e que depois elas trouxeram a outros, que pode ter muito bem influenciado a situação política, por exemplo. Quem diga que Esta completa ascensão da trash TV, porque isto é televisão trash TV, ou seja, televisão sem valor. Que é como quem diz, vês aquilo e não aprendes nada. Obviamente divertes-te, dás umas gargalhadas, isso também é importante na vida, mas não ficas a saber que o Ramsés foi um faraó do Egito ou alguma coisa do gênero. Elas disseminaram um tipo de moda, que é aquela coisa de andar de fato treino, no fundo, usar roupa de esporte ou roupa de ginásio, sem teres que ir ao ginásio, por exemplo. São mulheres, que são quase tudo mulheres, as protagonistas profundamente sexualizadas, ambiciosas, ricas, não têm nenhum talento especial, nem fazem nada de especial, limitam-se a ser elas próprias. Mas a verdade é que as pessoas viam. E havia muitas pessoas a ver, quase sempre mulheres, é um público maioritariamente feminino. E há uma questão interessante, também na ascensão do feminismo e na luta pela igualdade, nunca se fala ou raramente se fala deste lado, de guilty pleasure e de um tipo de propaganda que era veiculada por este tipo de conteúdos. E há imensos sucedâneos das Kardashians, imensos tipos de trash TV. Aliás, há vários canais de televisão que são tipicamente orientados para mulheres e com este tipo de programas. E se fala, por exemplo, em Portugal, muito dos programas de futebol e dos canais de notícias, que têm programas de futebol, e os programas de futebol são muito agressivos, mas não ouçamos ninguém a falar deste tipo de programas, que terão outros efeitos, obviamente. Apesar de poder parecer, a minha intenção não é ter aqui um tom moralista, mas é apenas chamar a atenção que este tipo de televisão tem muito público em todo o mundo e é muito popular. E há muitas adolescentes que veem estes programas e que querem ser como as Kardashians, querem ter aqueles cabelos, aquelas roupas e aquelas coisas.

Eu não sei se estou a exagerar, mas eu lembro-me de várias notícias de que houve determinadas cirurgias estéticas.

Ainda hoje fazem.

Muito baseadas na fisionomia Kardashian.

E o próprio impacto na cosmética é uma coisa brutal.

Sim, são detalhes, são à parte.

Sim, é bem visto. Fala-se muito da violência das séries ou dos filmes, enfim, voltando ao exemplo dos debates do futebol, e não se ouve muito falar deste tipo de programas e na eventual influência que possam ter em certos públicos. Será o fim de uma era, mas acredito que as Kardashians vão fazer outra coisa qualquer, não tenho nenhuma dúvida. Ou cada uma delas ou deles, daquele universo que gerou imensos personagens, vão fazer mais coisas, não tenho nenhuma dúvida.

Naturalmente. Bruno, é possível olhar para um programa deste e ver mais do que, já falamos aqui um pouco disto, mas já agora acrescentemos, mais do que puro e simples entretenimento? Numa rápida pesquisa que se fez agora, sobretudo por estes dias, porque há muita coisa a ser escrita sobre o programa, há quem o descreva, de facto, como um exemplo da realidade, sobretudo americana, mas não só, e um retrato de um certo mundo atual, de uma certa forma de viver e encarar o mundo. Isto faz sentido ou achas que é atribuir demasiada relevância ao programa?

Temos que separar o que é o programa, o conteúdo do programa, os valores que eventualmente lá serão veiculados ou não. E depois a análise que se pode fazer sobre um programa e o que ele reflete da sociedade. Tu dizes que será mais da sociedade e da realidade norte-americana, o que é verdade, mas é só parcialmente verdade. De facto, numa realidade global em que as Kardashians e o império que têm deve muito também às redes sociais, para as quais elas também contribuíram. Portanto, é sempre possível fazer uma análise da futilidade deste tipo de programas e uma análise profunda dessa futilidade. São duas coisas diferentes. Eu passei um bocadinho ao lado, as Kardashians passaram um bocadinho ao lado, e o programa nunca acompanhei.

Ainda vais a tempo.

Sim, mas isso aconteceu com muitas outras séries. Portanto, daqui a 10, 15 anos, se calhar vou olhar para isto de um ponto de vista arqueológico. Mas fui acompanhando, assim vagamente, as histórias de vida destas autênticas personagens de ficção. E uma das coisas que talvez seja mais revelador destes tempos, é que isto vem na sequência da ascensão dos reality shows, em que pessoas que não fizeram nada de especial se tornam famosas. E aqui temos pessoas que são famosas por serem famosas e não têm nenhuma vergonha disso, não há nenhum complexo de culpa, não há nenhuma reflexão ou interiorização disso. Elas são famosas por serem famosas, por serem celebridades e alimentam constantemente este jogo, mas sem complexo de culpa, e eu acho que isso é fascinante.

Diria até com algum orgulho, por que não?

Até com algum desdém aristocrático. Dentro desta hierarquia muito própria da cultura da celebridade, algum desdém aristocrático vem por quem as acusa disso mesmo. E é um fenômeno interessantíssimo. Enquanto fenômeno é interessantíssimo, porque provavelmente Seja um pouco vazio. Mas a cultura pop sempre foi acusada também disso, de promover o vazio, desde que pensamos na televisão e na música. O que eu penso é que, e pegando naquilo que o Pedro falava, de haver público para este tipo de programas e de não termos um programa equivalente em Portugal, eu imagino. Não sei se esta proposta alguma vez foi feita, mas eu imagino que haveria público, haveria muito interesse em acompanhar uma série parecida em relação à família do Cristiano Ronaldo. A dona Lolo, a irmã. Não sei se algum produtor de televisão fez essa proposta, acredito que sim, acredito que tenham feito, porque também é uma família que alimenta muito estas telenovelas da vida real, com comentários sobre o desempenho do irmão, e sobre os negócios e sobre a vida amorosa. Estranho que ninguém tenha, até agora, pegado nesse caso ou noutros que eventualmente poderiam resultar em programas de conteúdo idêntico. Ainda que, claro, com um alcance muito diferente.

Pedro, só para terminar, uma pergunta rápida. Se o programa, de alguma forma, de facto, deixa uma marca na televisão, na forma de fazer televisão, ou se mudou alguma coisa, ou se não. É um formato que já existia, certo? Não estou errado.

Aquilo que se chamou tecnicamente é um constructed reality, ou seja, no fundo é um reality construído. Significa que quando se vai filmar, se sabe o que vai acontecer. Imagina, ela vai almoçar com uma amiga em Beverly Hills, nesse sentido.

É uma realidade, mas tem um guião.

Isso, é constructed, construído. Um pouco como as nossas vidas, nós se calhar sabemos onde é que vamos jantar este sábado. Mas aqui a questão não é tanto aquilo que eles fazem, que elas fazem, ou que pudesse fazer uma família portuguesa, mas é um pouco aquela lógica de nós estarmos a ouvir a conversa da pessoa quando estamos na fila das compras. E uma coisa que em Portugal fazem muito, que é estarem a olhar para o que é que tu estás a comprar, o que é que tu pões na caixa para pagar. Tem mais a ver com esse lado de intromissão na vida do outro. Onde os portugueses poderiam fazer este tipo de séries, somos se calhar mais inteligentes que as Kardashians, que é não autorizariam fazer muitas coisas que as Kardashians autorizam. E outras personalidades. A reality TV sempre existiu, mesmo antes dos chamados Big Brother, sempre existiu, e passou até muito mais depressa do que se pensa, do jornalismo para o entretenimento. Mas agora, este tipo de raparigas que, de facto, não têm talento nenhum e não se importam com isso, e estão se borrifando e no fundo querem nos filmar e querem fazer séries conosco, façam à vontade, desde que nos paguem e nós beneficiamos com isso. Isso, de facto, é uma coisa que é fruto já desta era. Porque isto é também muito alimentado pelas redes sociais. Uma das razões porque a televisão irá sobreviver, deixa-me só acrescentar esta ideia, é porque é um dos maiores fornecedores de conteúdo para as redes sociais. Nós conhecemos as maiores figuras das redes sociais, ou identificamos, ou lemos o que elas fazem e publicam, porque as conhecemos através da televisão e porque essas pessoas aparecem na televisão.

Muito bem. E rapidamente, antes de irmos embora, vamos a uma data redonda fundamental no Isso é que era bom. A 18 de setembro de 1970, há precisamente 50 anos, morria em Londres, aos 27, Jimi Hendrix, vítima de um acidente ou incidente, podemos escolher a palavra, com barbitúricos. Hendrix mudou a guitarra elétrica para sempre, mudou o rock and roll para sempre e é ainda hoje uma das maiores referências da história da cultura pop. Perguntas rápidas e eficazes. Maria, eu preciso saber se tens alguma relação com o Jimi Hendrix e se tens alguma relação com a guitarra.

O mais possível.

É, o mais possível.

Com tudo, com a guitarra.

Não, eu estava a dizer tu com a guitarra, tu própria.

Ah, não.

Guitarrista.

O quê? Se eu toco?

Sim.

Não, gosto de ouvir quem sabe tocar medemente o Hendrix. Eu não, eu sou uma nulidade para instrumentos musicais. Mas felizmente temos pessoas como ele e temos gravações de pessoas como ele que morrem precocemente e que nos deixam simplesmente, entre enormíssimas aspas, com aquilo que produziram durante um curto período de tempo, mas suficiente para continuarmos a achar que são cometas. É que gostaram muito.

Bruno, tens Hendrix entre os teus deuses ou sempre se passou muito ao lado?

Não, não tenho o Hendrix entre os meus deuses, mas acho que ele está vivo. Não sei se essa notícia é fidedigna, da morte dele. Acho que ele está vivo. Dizem que estará em Marrocos. Portanto, eu não seria tão rápido a noticiar a morte de Jimi Hendrix.

Pedro, para terminar, tu que és um senhor do rock, como todos nós sabemos. Tu e Hendrix, conta-nos tudo.

É impossível falar da história do rock and roll e da guitarra, que é o grande alfa e ômega, ou é o alfa e ômega do rock. Sem falar de Jimi Hendrix, foi um furacão, não sei bem, não me ocorre uma palavra mais interessante, que apareceu e desapareceu, aquela maldição dos 27. Muitos dos heróis da música morreram com 27 anos, como o Jim Morrison também. Se calhar, em seu desfavor, o facto de não ter deixado duas ou três canções mais açucaradas para que as novas gerações possam entrar logo na música que ele deixou. Mas todos aqueles que tocam guitarra ou que desejam tocar guitarra, ou que se sentem atraídos e apaixonados pela ideia de guitarra e do som que se pode extrair do instrumento, vão inevitavelmente ter a Jimi Hendrix e acredito que isso vai continuar a acontecer nos próximos 20, 30, 40, 50 anos. Não tenho nenhuma dúvida. Ele morreu há 50 anos e estamos a falar dele, e não é por acaso.

É o final de mais um "PopUp". Voltamos na próxima semana. Até lá.