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Podcast gravado ao vivo na cerimónia de entrega de prêmios do Altitude Film Fest da TAP. Muito bem, sejam muito bem-vindos a este episódio especial do PopUp, como a Inês disse bem, o programa da Rádio Observador dedicado à cultura popular. Estamos aqui neste Altitude Film Fest com estes três comandantes de bom gosto. Bruno Vieira Amaral, Maria Ramos Silva e Pedro Buchimense, que já se está a rir imenso por alguém o ter chamado de comandante. Nós vamos falar aqui um pouquinho sobre cinema em Portugal. E vamos começar por cinema a bordo. E para falar de cinema a bordo, vamos falar de viagens. Vamos falar primeiro com o Pedro Buchimense. Pedro, tu és um homem muito viajado. Sabemos disso e sabemos que te preocupas muito com os detalhes das tuas viagens. Não vamos dizer muito às pessoas. Este Altitude Film Fest, que acontece no ar, as pessoas veem os filmes e podem logo dizer o que é que gostaram mais, o que é que gostaram menos, podem fazer a votação. Qual é a tua relação com viajar e ver filmes a bordo? Dirias que é uma boa forma de ver filmes, é uma boa forma de viajar? O Bruno já se está a rir, tens memórias especiais sobre as duas coisas em conjunto?
Olá, boa tarde a todos. Olha, tenho. Se houver sistema de entretenimento, é assim que se diz, não é?
É.
Entertainment.
Tu aproveitas, claro.
Sim, e até me irrita um pouco.
O quê?
Espera. Porque eu quero começar a ver e aquilo não está logo ativado.
E tu ficas chateado.
E depois ainda vão dizer: "Aperta o cinto, a máscara", aquelas coisas que interrompem o sistema. Mas sim, quando viajo longo curso, sobretudo.
Claro, dá mais jeito.
Quando se vai a Londres ou Paris, quando eu viajo não há essas coisas. Mas levo no telefone, às vezes, alguma coisa. Mas sim, eu gosto de ver. Há qualquer coisa de, vou usar uma palavra inglesa, cozy.
Reconfortante.
Sim, é um momento só nosso. Porque uma das vantagens, até há pouco tempo, dos aviões era não haver internet.
Exato.
Agora há.
E tu achas que isso também estragou aquilo?
Não, mas era uma vantagem não haver, portanto, não eras tentado a ir para o telefone para mergulhar nas redes sociais. E tinhas ali o in-flight entertainment system, uns melhores que outros, e comecei por privilegiar o cinema, de facto, mas nas últimas viagens que tenho feito, vejo mais séries. Porque me ajuda a contar o tempo da viagem, que eu sou um tipo meio impaciente, em episódios. Imagina, se eu vir uma série de meia hora.
E fazes isso?
Claro.
Pronto.
Imagina, eu vejo dois episódios de uma série cômica, isto é mais ou menos 40, 45 minutos. Então, na minha cabeça, já só faltam cinco horas. Já fiz voos muito longos, não sei se já fizeste algum. Qual foi o voo mais longo que já fizeste?
11 horas seguidas.
Pois, já fiz 14. É muito.
Vê lá.
Mas foi em primeira classe. Custou menos.
Não, isso nunca me aconteceu. Realmente. Há uma coisa interessante que é: antigamente, vias um filme a bordo, se existisse esse sistema de entretenimento digital ou como queiras chamar.
In-flight.
Hoje em dia, podes levar um computador, um tablet ou um telefone com uma série de filmes ou outro tipo de conteúdo. Isso faz a coisa um pouquinho diferente, torna a experiência diferente ou nem por isso?
Todos os computadores que eu já tive na vida e tenho hoje, a bateria dura um quarto de hora ou 20 minutos.
Pedro, houve uma coisa.
Não sei se sou a única pessoa.
És, certamente.
"Tens que fazer, fechar as aplicações". Eu faço isso tudo e aquela porcaria dura só uma hora. Portanto, nunca me atrevo sequer a ver vídeo em computador. Mas vejo no telefone. Ultimamente tenho puxado fazer o download.
Sim.
De algumas, sobretudo na Apple, não sei por quê, e levo um power bank. E desenvolvi esse sistema. Mas, contudo, porém, eu sempre associei a viagem de avião à leitura, porque havia ali uma espécie de contexto natural que puxava a leitura, e às vezes sinto-me culpado, e a palavra é essa, por estar a ver um episódio de uma série, em vez de estar a ler.
Por quê? Um clássico.
Porque eu sou movido a culpa, como o Ocidente todo desde Jesus Cristo.
Mas isso é interessante, porque o cinema não te faz sentir menos culpado, se for um filme do que uma série?
Eu acho que a leitura é uma atividade mais nobre do que ver cinema. Não estou a dizer que tenho razão, estou só a dizer o que acho.
Podes ver um filme do Oliveira?
Não há, não costumam haver. Eu não estou a dizer que tenho razão, estou a dizer que é o que eu acho.
Claro.
É o que eu sinto, até mais do que achar.
Muito bem. Maria Ramos Silva, queria começar por perguntar-te o que é que tu achas da relação que os portugueses têm com o cinema? É uma boa relação? É uma relação de distância? Do teu olhar atento sobre a humanidade, em particular a portuguesa, o que é que te parece?
Eu acho que os números, sobretudo os números mais recentes deste ano, dizem-nos que sequer temos a percepção de que consumimos mais do que na verdade consumimos. Também acho que às vezes é difícil termos uma noção se estamos a consumir propriamente um filme ou mais um seriado. Digo isto porque nesse estudo que vi recentemente de uma operadora, vi pessoas que diziam: "Sim, consumi imenso cinema, nomeadamente português, este ano. Gostei muito do "Rabo de Peixe". "Rabo de Peixe" não é um filme.
Ora bem.
Esses marcadores têm-nos dito, de facto, que nós vamos estando um pouco distanciados das salas de cinema, essa experiência mais no local. Talvez vejamos mais em casa. Parece-me que o cinema hoje é mais reservado, de uma forma geral, para as famílias. Aliás, os números de bilheteira também nos dizem isso. Os grandes filmes como "Avatar", o "Harry Potter", são de facto vividos em família no cinema, não tanto em casa. Nós, com o cinema português em particular, ainda temos talvez um problema acrescido, historicamente crônico, de acharmos que esse divórcio não é sanável e que, portanto, já temos uma longa tradição de separação e acho que aos poucos nos temos vindo a aproximar, sobretudo muito através da comédia, mas acho que ainda falta ali um caminho, sobretudo no cinema de vanguarda, mais autoral. Acho que isso continua a ser visto, provavelmente, mais fora e mais reconhecido lá fora, certamente, do que cá. Acho que podemos fazer melhor, nem que seja começar pelas curtas-metragens. Mesmo que tenham um computador com pouca bateria, como o Pedro. É perfeito, 15 minutos resolvem a coisa.
Este Altitude Film Fest tem esse lado particular, e de muito maior destaque em relação às curtas-metragens, que também é um formato mais específico, seja de ficção, seja documental, e que na maior parte dos casos, pelo menos se estivermos a falar de cinema, talvez num formato destes tenha uma vantagem, porque se estivermos a falar de cinema, ou é um evento específico dedicado a curtas-metragens, ou também não temos muito a cultura de "vai haver uma longa-metragem, mas antes, toma lá uma curta-metragem". Nós não temos muito esse hábito.
Certo, talvez porque também historicamente a curta-metragem tem essa dimensão muito experimental. Aliás, o cinema de uma forma genérica, incluindo em Portugal, tem essa marca de estreia no final do século XIX com uma curta-metragem documental. No nosso caso, com Aurélio Reis, por exemplo, que filma os operários a saírem da Fábrica Confiança, no Porto, e tem essas duas marcas. Por um lado, o lado mais documental, mais ensaístico, mais reflexivo, e depois também esse lado mais curtinho, que te permite, de facto, ter uma espécie de piloto, quase de arranque. Agora, vemos ali uma marca muito interessante quando falamos de curtas-metragens hoje, e também falámos disso há pouco, nós hoje vamos ao cinema e é muito raro encontrarmos um filme que tenha menos de três horas, três horas e meia, e parece que de alguma forma se perdeu um pouco a capacidade de edição e de curadoria, e também perceber o que pode e deve ficar de fora. E as curtas obrigam essa disciplina. Portanto, eu acho que é um exercício muitíssimo interessante, sobretudo para quem está a começar, mas não só.
E seria muito bom para o Pedro também. Por causa do tempo dele e da disponibilidade.
Do seu computador, claro.
Quando eu era garoto, havia desenhos animados antes dos filmes.
Verdade. Até na televisão. Luta são escutada à quarta-feira.
Não, estou a falar no cinema.
No cinema. Pois, eras mesmo garoto, já foi há muito tempo. Desculpa. Bruno Vieira Amaral, mais uma vez, estamos aqui a propósito de um festival de cinema. Nós gostamos muito de festivais de cinema, não gostamos?
Nos últimos anos, parece que sim. Os números de frequência, de ida às salas de cinema, vão oscilando, mas houve períodos de quebra acentuada, ao contrário do que acontece nos festivais. Ou seja, as pessoas gostam de ir ao cinema, mas têm de ter uma razão complementar para ir ao cinema. E eu acho que esses números também têm muito que ver com esta relação que a Maria estava a falar dos portugueses com o cinema português. Nós somos um caso único ou muito raro na Europa, em que a percentagem de cinema nacional que é visto é residual. 2% dos filmes que os portugueses vão ver são portugueses. Ou seja, é inexistente. De vez em quando há um filme que ultrapassa os 40 mil, 50 mil, se calhar alguns ainda vão além disso, mas se tu olhares para a maior parte dos filmes, muitos não devem passar dos 500 espectadores, mil espectadores, o que é dramático. E isso, se calhar, diz-nos mais até sobre a nossa cultura audiovisual e da forma como nós nos relacionamos com a cultura portuguesa através do audiovisual, e que é uma coisa dramática.
E em relação especificamente aos festivais, o que é que os difere? Nós gostamos de festivais de qualquer ordem, não é?
Seja gastronômicos.
Adoramos.
Porque há uma ideia de acontecimento. Eu não sei se alguém dá este nome, mas eu vou dar, que é a festivalização de tudo. Que OK, as pessoas não consomem isto ou não leem muito, então vamos fazer festival.
Até é aplicado às vezes às cidades. Também acontece. De forma geográfica.
Existe esse conceito, desculpem, eventification.
Era isso que eu ia dizer, mas estava com medo de falhar. A identificação, porque é uma forma de atrair, de concentrar para já a oferta num determinado período e depois tens um gancho. "Se fizer aqui um festival, parece que é uma coisa especial, então eu vou ver". E os números dos festivais de cinema em Portugal são muito bons, mas a mim preocupa-me mais, de facto, desde sempre. Eu já disse que trabalhei em cinemas.
Hoje ainda não.
Hoje ainda não. Boa. Quando tínhamos filmes portugueses, era terrível.
Mas tens que dizer, tu trabalhaste-
À exceção de um.
Tu trabalhaste num cinema.
Trabalhei, à exceção de "O Crime do Padre Amaro". Na altura, foi um grande sucesso.
Ainda é até hoje um dos mais vistos em Portugal.
A adaptação de uma obra literária. Ainda que eu tenha as minhas suspeitas que não foi isso que levou as pessoas ao cinema.
Achas que não?
Não.
Tens muitas dúvidas, muito bem.
Sim, levou a Soraia Chaves a ser entrevistada pelo Expresso e tudo. E a Soraia Chaves, devias ver a Soraia Chaves, tudo por causa do filme.
Isto também tem a ver com a cultura do "star system", que é importantíssima. Aliás, eu lembro do António Pedro Vasconcelos falar disso, que é importante também teres essa cultura de estrelas para trazer gente para o cinema.
Claro, e mais tiveres.
E que ele tentou, aliás, que ele tentou também com a Soraia Chaves no filme que foi o "Call Girl". Mas, de facto, nós não temos. E a indústria, vá. O cinema europeu deixou de se pensar como uma indústria, embora as cinematografias nacionais, algumas funcionem como uma indústria, a francesa, a espanhola, e nós perdemos isso.
A espanhola, nos últimos anos, sobretudo, tem tido muito impacto.
A francesa também.
Muito bem. Eu, como sempre, desafiei vocês aqui para umas brincadeiras, mas sérias. E primeiro pedi que pensassem um bocadinho sobre um filme português ou mais, que fossem um bom retrato de uma certa portugalidade. Não da portugalidade, como se existisse esse conceito de forma absoluta, que não me parece que seja possível, mas de uma certa portugalidade. Pedro Boucherie Mendes, conta-nos. Eu sei que tu escolheste mais que um, e bem.
Tu é que pediste três.
Não, eu pedi o que tu quisesses, como eu faço sempre, aliás.
Uma boa maneira de viajar no passado, de ver como era o Portugal de antigamente, e algumas das pessoas que estão aqui não eram nascidas nessa altura, "O Lugar do Morto", do António Pedro Vasconcelos, que é de 1984.
Ora aí está um dos raros sucessos.
Certo. Durante muito tempo foi o filme português mais visto. E há ali uma cena que era perto de uma zona onde eu vivia, eu vivia ali na Linha, e há ali uma cena onde ainda se via uma passagem de nível que havia na Marginal, portanto, se quiséssemos ir para São Pedro de Estoril, enfim, para a Parede, havia um comboio que passava e havia uma senhora, havia uma casinha com uma senhora que saía com uma bandeira. E o cinema português, hoje em dia, muitos desses filmes têm esse valor documental de vermos como era o passado. Eu também sugeri o "Verdes Anos", do Paulo Rocha, que se passa ali na zona das Avenidas Novas, ali em Alvalade. E é impressionante como tudo o que está à volta é nada. Ou seja, aquilo é tão novo, as Avenidas Novas. Aquilo é tão novo, é um filme do final dos anos 60, que a Lisboa que temos hoje, passados 60 anos, é uma diferença abissal.
É como diz aquela expressão que se usa, que é "isto eram tudo quintas".
Sim, e era. Mas esse filme do Paulo Rocha, independentemente da história, eu acho que, até gostava de saber a opinião do Bruno, suponho que ele concorde comigo, mesmo os escritores portugueses e os cineastas portugueses não conseguem contar bem as histórias. História no sentido princípio, meio, fim. Os americanos ou os anglo-saxónicos fazem isso de uma forma mais eficiente, eficaz. Pronto, independentemente da história do "Verdes Anos" ou do "O Lugar do Morto", que até é uma história que nem se percebe muito bem, que é uma mulher misteriosa, que é a Anna Zanatti. "O Lugar do Morto", de 84, tem a vantagem de haver um carro que vai por uma ribanceira abaixo. Era um filme tão espetacular e tão diferente do cinema português, que até atirava um carro de uma ribanceira abaixo, mas a história não se percebe muito bem. E esse "Verdes Anos", a história também não é… pronto, é uma história de classe também, mas permite ver como era Lisboa e esse "O Lugar do Morto" também permite ver certas coisas da cidade. São ambos aqui em Lisboa. E eu acho que esse valor documental precioso, muito importante, porque é o sítio onde nós vivemos, é o nosso país, até mais do que o enredo, dos atores e da própria técnica do cinema. Isto é uma aprendizagem que eu também tenho feito. Pareço um daqueles, enfim, estou em modo confissão, mas ultimamente procuro mais no cinema ver como eram as coisas do que propriamente a história, porque as histórias já andam todas em volta do mesmo. E por isso é que sugeri esses dois filmes, que são dois filmes antigos. Alguns até estão no YouTube, acho eu.
Não tinhas um terceiro?
Tinha a trilogia "Mil e Uma Noites", do Miguel Gomes.
Exatamente.
Esse é bem mais recente e até aborda a crise que houve nos tempos da troika, não sei o quê. Eu também gosto muito, aquilo são três filmes, gosto sobretudo de um deles, que eu nunca me lembro o nome, aquele que tem uma baleia que rebenta na praia, um cachalote que dá à costa e depois rebenta. Mas que valem por serem frescos de um determinado tempo E é isso que eu vou ultimamente buscar ao cinema português. Porque o cinema português teve uma tentativa nos anos 90, com o "Adão e Eva", não sei se se lembram, feito com a SIC.
Lembro-me.
Feito com a Joaquim de Almeida e com a Maria de Medeiros. Durante um instante, acreditou-se, porque o Joaquim de Almeida vinha de um filme com o Harrison Ford, e a Maria de Medeiros vinha do "Pulp Fiction". Então juntaram-se os dois, um filme passado num canal de televisão não nomeado, que era a SIC, em Carnaxide. E houve uma tentativa com esse filme e depois com o "Zona J" também.
E o "Tentação" também.
E o "Tentação", exatamente, que era um padre. Era o Joaquim de Almeida também.
Sim.
E filmes do Tino Navarro. Houve essa tentativa, filmes que tinham uma canção. Por exemplo, o "Adão e Eva" tem uma coisa inédita no cinema português, que é: eles anunciavam logo quando é que ia estrear, que era naquele Natal, naquela altura do Natal. Porque o cinema português sempre teve essa coisa, vai estar pronto quando estiver, porque era uma coisa mais ou menos artesanal. E houve essa tentativa, repito, mas não se conseguiu. Depois a SIC apostou em telefilmes, chamada "Teresa", essa série de filmes.
Sim.
No início do século XXI, deste século. Mas fica a ideia que ainda não se conseguiu impor uma cinematografia portuguesa como se fosse uma coisa natural e normal, como nós vamos a restaurantes portugueses. Nós não vamos normalmente a filmes portugueses. Isso ainda não se conseguiu, seja qual for o motivo.
Maria Ramos Silva, as tuas sugestões.
As minhas sugestões.
Filmes que transmitam a ideia de uma certa portugalidade.
Portugalidades diferentes.
Exatamente.
Porque são cinemas muito diferentes.
Eu também não esperava outra coisa de vocês os dois.
Pronto.
Era o que faltava.
Há pouco falava no Manoel de Oliveira, por facto, acho que é daqueles que podes ver sem esse prejuízo da palavra, porque se há alguém que pôs a palavra à frente da ação, foi claramente o Manoel de Oliveira. E, portanto, acho que belíssima sugestão é o "Vale Abrão". O "Vale Abrão" é a nossa Bovary, só que é a Bovary do Douro, com um enquadramento absolutamente extraordinário de um Portugal.
Antes do Douro ser moda.
Muito antes do Douro estar na moda. Precisamente.
O Douro era lá longe.
Era lá longe, havia assim toda uma burguesia, alta burguesia, entediada, decadente, com essa dimensão rural, mas de facto há ali detalhes de uma portugalidade muito enraizada, que eu acho que não é assim tão distante, e ainda é muito prevalente em algumas coisas. Depois, queria trazer o Miguel Gomes, para ter alguém desta nova vaga. Podia ser o "Mil e Uma Noites", como o Pedro falava, mas também o "Tabu", porque eu acho que o "Tabu" nos fala aqui de outra coisa também que tem uma grande marca de portugalidade, ainda muito por resolver, em alguns momentos, tem a ver com a guerra colonial. Eu acho que ele retrata e apanha isso muito bem. É uma memória já mais distante, por razões naturais, temporais para as novas gerações, mas parece-me que ainda há aqui permanentemente essa nebulosa e ele trata esse tema muito bem. E depois trago, para mim, um daqueles gênios absolutamente incontestáveis, à margem, borderline absolutos, que é o César Monteiro, que eu acho que é impossível contar essa história dos últimos 30 anos em Portugal, 30, 40 anos, sem falar do César Monteiro, da sua audácia, do seu pisar do risco. E trouxe o "Recordações da Casa Amarela", porque acho que é também um exemplo de uma Lisboa das franjas, decadente, da vida na pensão, do desenrasque, que hoje se calhar tem outra feição, mas sem querer, porque isto acaba por estar tudo ligado, também se revela com outras formas, com outros protagonistas, mas também continua absolutamente intemporal, para o bem e para o mal.
Deixa eu só dizer uma coisa.
Diz.
O César Monteiro talvez seja o culpado desta coisa do cinema português, porque aquele filme, o "Branca de Neve", foi quase que uma grande polémica.
O problema já vinha de trás.
Sim, claro, eu sei.
Já devia estar superado.
Mas o "Branca de Neve" coincide temporalmente com o primeiro "Big Brother". Portanto, há esse contraste forte. O filme estreia e é polémico quando o Zé Maria anda na casa.
Manda alguém aos pontapés numa casa.
Exato.
Bruno Vieira Amaral, que portugalidades no cinema tens para sugerir?
Olha, eu trago aqui um tema, para tentar encontrar uma coerência. São três filmes de três realizadores diferentes, embora com alguma proximidade geracional, e são três adaptações de obras do Cardoso Pires. Eu escrevi a biografia do Cardoso Pires. Normalmente, diz-se que o Cardoso Pires tem uma escrita muito cinematográfica. Eu acho que se diz isso por razões erradas, mas não vou agora estar a discutir isso. A verdade é que as obras mais importantes dele, à exceção do Alexandre Alfa, foram adaptadas. O "Delfim", pelo Fernando Lopes, creio que no início dos anos 2000. "A Balada da Praia dos Cães", pelo Fonseca e Costa, nos anos 80. Foi, aliás, um dos grandes sucessos do cinema português.
Com o Raul Solnado.
Com o Raul Solnado, que foi uma escolha completamente improvável para protagonista, que o Cardoso Pires, que era amigo do Raul Solnado, achou muito estranha na altura, mas depois de ver o filme ficou rendido, porque é uma grande interpretação do Raul Solnado. E também o "Lavagante", que estreou no ano passado, que é uma belíssima adaptação de um livro que foi publicado postumamente e que o Cardoso Pires não chegou a completar, um dos projetos que ele tinha e que não chegou a completar. A adaptação estava a ser feita pelo António-Pedro Vasconcelos, que morreu antes de concluir o filme, e depois foi o Mário Barroso que pegou e levou até ao final. E é interessante ver que o Fernando Lopes, o Fonseca e Costa e o António-Pedro Vasconcelos são dos realizadores mais marcantes Dos últimos 50 anos, do cinema português moderno. Todos eles quiseram adaptar obras do Cardoso Pires. Aliás, o António-Pedro Vasconcelos quis adaptar "A Balada da Praia dos Cães", mas o Fonseca e Costa antecipou-se e avançou com essa adaptação. E eu acho que as obras do Cardoso Pires, que tem apenas um romance cuja ação decorre depois do 25 de Abril, e é só uma parte, que é o "Alexandra". Todos os outros, a ação decorre e os contos decorrem antes do 25 de Abril, eu acho que é o autor que melhor dá a entender o que era a vida naquele período. Não tanto por um registro documental ou político desse período, mas por uma questão de ambiente. Eu acho que como nenhum outro, ele conseguiu, através dos livros dele, dar a conhecer esse ambiente. E acho que todos os realizadores que pegaram na obra do Cardoso Pires, pegaram também por isso, porque tens acesso a uma determinada mentalidade e a um determinado ambiente, que é o ambiente, que é o viver sem liberdades amplas. E acho que todos procuraram isso, talvez menos do Mário Barroso, também por estarmos a falar já de um filme com alguma distância em relação a esse período. Acho que ele tentou ali outras coisas, mas acho muito interessante, porque são filmes e livros sobre Portugal, são filmes e livros com história, mais ou menos bem contada, mas com o plot. E eu acho que são excelentes exemplos daquilo que tu nos pediste, de filmes exemplares de uma certa portugalidade, como nós somos muito obedientes.
Eu quero que vocês façam aquilo que eu peço.
É isso que nós fazemos, caro Tiago.
Eu pedi-vos outra coisa, mais relacionada com a experiência de ver filmes enquanto viajam no avião. Episódios, grandes filmes que viram no avião, ou surpresas. Pedro, por exemplo, tu falavas, antes de iniciarmos este nosso episódio especial, da hipótese que era, e que ainda acontece, certamente, que é ver filmes antes de eles estrearem em sala em determinados países, por exemplo, no caso português.
Havia essa excitação, não sei se ainda há. Palavra honra que às vezes havia uma certa excitação de vermos filmes e acrescentávamos a frase: "E acho que esse ainda nem estreou cá". E podíamos ver os filmes antecipadamente, porque o windowing, é assim que se chama, as janelas de estreia, são diferentes no mercado do cinema e das séries, dos conteúdos que são vendidos para ver dentro dos aviões, é um mercado específico.
E o licenciamento também é diferente.
Eu trabalho em televisão e sei que é possível, a SIC já vendeu especificamente para a TAP, conteúdos. São preços diferentes, são valores diferentes, são condições técnicas diferentes. Por isso é que eu estou a reforçar isso. E portanto, havia essa excitação de se nós fôssemos fazer uma viagem, "epá, se calhar vamos apanhar um filme que ainda não estreou". E depois, havia também a dimensão de existem normas, cada companhia acho que tem a sua norma, e então certas cenas são extirpadas dos filmes, nomeadamente, obviamente, desastres de avião. Se fizerem parte do filme, essas partes são, imagino que aquele "Flight", como é que é, 93.
93, sim. United 93.
Não tenha passado nos aviões.
Ou "Panic on Board" também.
E são obviamente normas de segurança. Para que as pessoas que estão no avião não fiquem nervosas, no sentido de destabilizarem o voo, ou enfim, aquilo que a companhia achar que são as normas de segurança. É um pouco irritante, nós nos consideramos capazes de controlar as nossas emoções, ou pelo menos eu considero-me, apesar do meu feitio.
Mas tu não és exemplo.
Mas é compreensível que haja essa censura, que no fim, é isso.
Se todos fôssemos como tu, o mundo era um sítio bem melhor, como sabemos.
Próximo da perfeição.
Sim, muito próximo.
Eu sei que me vais perguntar, eu vou antecipar.
Ora bem.
Eu vi um filme que nunca mais esqueci, que é o "Manchester by the Sea", num avião.
Olha, curioso, eu também vi.
E depois fui ver ao cinema.
Se calhar foram no mesmo voo.
Foram juntos.
E cometi o erro, talvez, de levar o meu filho, que ainda era jovem. Eu pareço o doutor Eduardo Barroso a sempre falar do meu filho.
Um bocadinho.
Desculpem. O meu filho mais novo, a quem envio um abraço.
Ainda é jovem.
Se ele estiver a ouvir. Ainda.
Ainda é jovem.
Tem 23.
É jovem.
Sim, comparado connosco. Não, mas é um filme, é um ótimo filme e ele talvez fosse demasiado novo. Não é um filme feliz. Embora eu acho que há redenção no fim. O personagem é ótimo.
É um ótimo filme.
Mas vi, sobretudo, a que mais me impressionou nos últimos anos, foi ter visto o "Dallas" original. O "Dallas" era uma série que dava quando eu era miúdo, dava na televisão portuguesa em todo o mundo, princípio dos anos 80. E eu vi: "Epá, isto tem 'Dallas'". Eu acho que foi na British Airways.
Mas tinha os episódios todos?
Tinha os episódios antigos. Tinha "Dallas", a série original. E eu: "Epá, vou ver, olha que giro", e tal, não sei o quê.
Claro que viste.
E aquilo era péssimo.
Pois era.
Era uma cena com a Pamela e o Bobby, sabes quem são?
Sem dúvida.
A história principal.
Porque o "Dallas", depois, deu no "Agora Escolha".
Tu chegaste a ver? Vias?
Sim.
Tu fotografavas para o "Agora Escolha", telefonavas para o "Agora Escolha", tu?
Não, eu nunca telefonei. Não, juro.
Mandaste SMS?
Não, nunca mandei nada.
Mas o "Dallas" também estava no "Agora Escolha".
Mas eu gostava muito da parte em que a Vera Roquette abria as cartas e mostrava os bonecos, adorava aquilo.
Eu vi e era péssimo e achei inesperado que isso estivesse lá na oferta, nesse caso da British Airways. Fui ver e fiquei assim.
Mas nunca mais te esqueceste, não devias ter visto.
Tanto que foi útil agora para esta conversa.
Ainda bem! Maria Ramos Silva.
Eu sou péssima pessoa.
Não, mas tu disseste que gostarias de falar de outra abordagem, que é: tu gostas de tentar perceber o que as outras pessoas estão a ver.
De uma maneira geral.
Isso é fixe.
Eu acho que o ato de ver filmes, especialmente no avião, em termos de estudo social, é fascinante. Ver como é que as pessoas se comportam.
Quem está a ver aquela porcaria.
Há imensas coisas superirritantes. E vais acumulando e vais ficando ainda mais enervado.
Como ficar no lugar do meio, não é?
Como o quê?
Como ficar no lugar do meio.
Não, o lugar do meio esquece, a partir daí é sempre a descer. Mas há, de facto, imensos pormenores deliciosos.
Não digas que é sempre a descer, é um avião.
Ok, não foi a melhor.
Parecem as tuas piadas.
Foi de propósito, estamos a combinar.
Por falar nisso, estamos quase a aterrar. Já iniciámos a descida.
Mas o que é que acontece invariavelmente? Eu não sou a maior espectadora de filmes, é verdade. Hei de me ter cruzado, provavelmente, com "La La Land", algures. Tenho um vestígio disso na minha cabeça. Agora, eu dou por mim a espreitar o que a pessoa do lado está a ver. Sou capaz de estar a ver um filme inteiro, não o meu filme, o filme da outra pessoa. Aquilo é uma coisa absolutamente ridícula.
Então não é necessariamente aquela coisa voyeurista.
Não, não é. É porque às tantas é só preguiça. A pessoa está a ver, depois vais espreitando, vais seguindo, estás assim numa bolha.
Cada um com a sua, Maria.
Isso é interessante, de facto, eu também faço isso.
Estou naquele campeonato do mundo.
Eu não tenho o menor interesse no que os outros estão a ver.
Não tens.
Mas não é uma coisa que tu faças deliberadamente. Eu dou por mim a lutar contra isso.
Sim, às vezes parece um pouco instintivo, sobretudo no avião. Tu sabes que vais estar ali.
É a mosca.
Uma série de horas. Não tens a mínima curiosidade?
Não, faço uma coisa, vou aqui confessar publicamente.
Olha que isto está a gravar.
Ponho o cronómetro, neste caso do telefone, já não usamos relógio, para saber o número de minutos que a pessoa vai pedir para passar para ir à casa de banho.
Tu fazes isso?
As pessoas são obcecadas por ir à casa de banho nos aviões.
É verdade.
Faço isso. Tenho de desviar para alguma coisa.
Se essas pessoas têm essa obsessão, depois há outras que fazem sudoku. Reta final ou qualquer analogia de aviação que queiras fazer.
Tu é que fazes essas coisas.
Não.
Esses trocadilhos.
Eu é que sou a torre. Parem com isso. Diz-nos.
Tu és o nosso capitão.
Tu tens boas memórias de filmes?
Tenho ótimas memórias. Fantástico.
Conta-nos.
Dos melhores filmes que eu vi nos últimos anos foi em aviões. Será que tem a ver com a redução do oxigénio?
Não, tem a ver, se calhar, com a disponibilidade. Tu estás ali.
Não, é incrível a percentagem de bons filmes. Dos meus filmes preferidos nos últimos anos, uma percentagem muito significativa foram vistos em aviões. "La La Land", "Arrival", até um que é muito antigo e que eu nunca tinha visto, que é o "Picnic at Hanging Rock", do Peter Weir, que é maravilhoso. Eu não sei se é maravilhoso, mas no avião foi maravilhoso.
Tu viste mais filmes no avião do que no cinema. Provavelmente. Viste mais filmes no avião do que no cinema.
Se calhar, sim. Este ano, de certeza. Eu vi o "Sinners", o "Weapons", o "Valor Sentimental", vi tudo no avião.
Mas tu tens viajado muito.
E aproveito. É difícil às vezes encontrar babysitter quando estou em terra. Então no avião, vim.
Por isso é que eu estou a dizer, provavelmente no avião tens é mais disponibilidade mental, tens tempo.
Eu também vi o "Manchester by the Sea", mas gostei mais do "La La Land". E depois revi os filmes e o "Valor Sentimental" até fui ver ao cinema. E são de facto bons filmes.
E gostaste mais de ver no avião.
Mas gostei mais de ver no avião. Não sei, há ali qualquer coisa, eu acho que tem a ver com o oxigénio.
O contexto é como estar doente. Estás doente, tens de ficar em casa a ver qualquer coisa.
Muito bem. Mas também já vi séries.
Mas tu não vês nada nos aviões, é isso?
Eu não ando. Estou a brincar.
És aquelas pessoas: "Eu chego, encosto, não toco em mais nada."
Não, eu diria que das últimas vezes que viajei de avião foram sempre voos curtos.
Voos curtos.
E sem...
Até ao Porto.
Não, até ao Porto nunca fui de avião, curiosamente. Mas gostava. Sou contra aquelas pessoas que levam o tablet ou o computador.
És contra como?
Sou contra porque...
Mas bates-lhes?
Fico a detestá-las.
É batota.
É batota, porque tu deves ir na viagem de avião e aceitar aquilo que te oferecem. Ok, se o serviço in-flight é uma porcaria, então que seja. Não podes fazer batota, não podes levar e depois estás a ver Netflix. Não podes. Isso é errado. Moralmente errado.
Muito bem, portanto ficamos com esta informação.
Está mal visto.
Se por acaso alguém se insurgir contra vocês no avião porque estão com um tablet, já sabem que será por haver Amaral. Chegamos ao fim desta viagem especial, deste episódio especial do "PopUp". Espero que tenham gostado. Bons filmes, boas viagens e obrigado.
Obrigado.
Obrigada.