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Bem-vindos a mais um "PopUp", o programa de cultura popular da Rádio Observador, que esta semana se apresenta em formato cinéfilo. Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Buchinho Mendes juntos mais uma vez, finalmente, imensas saudades, para lançar palpites num episódio inteiramente dedicado aos Oscars. Temos Hollywood na boa dica. Há quem diga, alguns entre nós, que no domingo, dia 10 de março, acontecem as eleições legislativas, e isso está bastante acertado, mas a verdade é que também são entregues os Oscars. Imaginem como é que isso vai acontecer. O filme "Oppenheimer" é o favorito a ganhar mais categorias e as mais importantes, sobretudo após uma temporada de prêmios bastante generosa para o filme de Christopher Nolan. Mas isto nos Oscars nem sempre bate certo com as probabilidades, que é mais ou menos o que acontece com as sondagens, e por isso vamos fazer a nossa análise, filme a filme, entre os nomeados para a categoria máxima, entre virtudes, defeitos, prêmios prováveis ou nem por isso. Adoramos dar palpites. Provavelmente vamos dizer bastante mal. Vamos a isso. Maria Ramos Silva, vamos começar por ti. Vamos fazer isso por ordem alfabética, de acordo com a lista da academia. E portanto, o primeiro filme na lista da academia é o "American Fiction", que, para quem não sabe, fica aqui a dica, ficou disponível na Prime Video da Amazon na semana passada.

Acho que nem a plataforma sabe.

Nem a Amazon se apercebeu de tal coisa.

Não destaca.

O filme não chegou às salas de cinema.

Eu não sabia disso.

Cá está.

É um dos problemas dos Oscars.

E era o filme que faltava para quem quiser ver os filmes todos. Não sei se chegaste a espreitar alguma coisa do filme ou não, ainda não tiveste tempo.

Sim, um pouco. Acho que é um filme ok.

Pronto.

Acho que é um filme ok. Não sei se qualificaria completamente para uma lista de nomeados para melhor filme, mas também não sei exatamente quais seriam as alternativas. Acho que é uma lista muito diversa, começando por ali.

Isso é verdade.

Neste nosso trabalho de oscarologia, não é?

Oscarologia.

É, de facto, uma lista muito diversa. Já vamos às Barbies e às Oppenheimers desta vida. Mas não sei, acho que está muito alinhado com os ares do tempo. Apesar de se basear numa obra que é um pouco mais antiga, do começo de 2000 e muito pouco.

Exatamente. Não estou certo do ano.

Eu penso que sim, já tem algum tempo, mas não deixa de ter muita atualidade. Agora, não estou à espera que ganhe. Penso que este é um daqueles casos em que não haverá muita surpresa. Aliás, há quem escrevia, um meio norte-americano esta semana, que já sabemos para quem é que isto vai. Provavelmente, a grande excitação em relação a quem, em termos de surpresa nesta cerimônia, é uma coisa que nunca percebemos bem qual é o critério, que é aquele in memoriam. Os realizadores e os mortos, quem são os esquecidos e os lembrados. Quando as atenções se viram para isso, acho que também diz muito sobre o eventual fator surpresa ou falta dele nesta categoria. Enfim, acho que está aqui, não está mal, mas também não vai aquecer nervos.

Mas vamos com calma, é isso que queres dizer?

Acho que não vai aquecer nervos assim muito.

Pedro Buchinho Mendes, espreitaste American Fiction?

Deixa-me só deixar uma palavra para a família do António Pedro Vasconcelos.

Muito bem.

Trabalhei com ele no Independente. Era um tipo muito interessante, muito culto, muito interessado, muito otimista. Tratava-nos normalmente como se fôssemos iguais. E parece-me que essa é a melhor forma de elogiar alguém. Ele foi um protagonista da nossa história contemporânea. Não sei se lhe foi feita essa justiça nos obituários que foram sendo escritos. Por exemplo, o "Lugar de Morto" foi o primeiro filme a ser vendido em venda direta em VHS em Portugal. Pronto, fica a nota. Um abraço à família do António Pedro Vasconcelos. Foi alguém com quem trabalhei, com quem gostei de trabalhar. Se eu vi algum filme, é isso?

Não, aqui estávamos a falar especificamente do American Fiction.

Vi.

Se eu vi algum filme. Sacaninha.

Vi e estava à espera de gostar muito mais, porque eu acho a ideia ótima. Como sabemos, é um escritor frustrado, porque não vende.

Exato.

Que lá por incidências do argumento, acaba por publicar um livro com pseudônimo e obter muito sucesso.

E que vende imenso.

Um livro que ele próprio acha uma porcaria e que vende imenso. É com um ator ótimo, mas que faz um papel ou tem um look, não sei como é que se diz bem, muito parecido com o da série "Westworld".

Sim.

E ele é muito presente no ecrã, como em determinadas temporadas do "Westworld", também era muito presente no ecrã. Portanto, eu acho tantas, pensava que estava a haver um...

Foi-te difícil separar.

Sim. É um daqueles filmes que eu acho que beneficiam ser visto em sala. Ser visto em televisor, por melhor que seja, é quase só mais um filme, porque eu acho que alguns personagens, nomeadamente o irmão, e acho um problema muito interessante nos atores de raça negra. Porque a raça negra não é homogênea, mas para os diretores de casting, pelos vistos, é. Portanto, o ator que faz irmão dele é racialmente diferente dele, apesar de os dois serem negros. Só viste o filme, isto não é um comentário de raça, é apenas um comentário de casting. E fica um bocadinho esquisito. E acho que alguns atores não estão à altura de outros e/ou os papéis escritos não estão à altura dos outros. Esperava que fosse mais sobre a intriganhada da literatura, isso é um assunto que me teria interessado mais, do que propriamente sobre a dinâmica familiar

Mas eu acho que não vai ganhar.

Bruno, deduzo que não tenhas passado por este filme.

E deduzes muito bem, caro Sherlock.

Mas está tudo bem.

A tua argúcia surpreende-nos continuamente. Não vi.

Ainda? Não viste ainda?

Não fiz o trabalho de casa, não vi ainda. Esta coisa de ver os filmes todos.

Mas não há problema nenhum, estás num espaço seguro.

Antes dos Óscares. Claro, estamos aqui entre amigos. Vou recorrer à minha vasta gama de preconceitos.

Tu vais dizer: "Eu não vi, mas o filme não vai ganhar."

Não vai, isso não vai ganhar. E nem ele vai ganhar. Ele está nomeado para melhor ator, o Jeffrey Wright.

Está.

Eu gosto muito do Jeffrey Wright, e é isto que eu tenho a dizer sobre este filme que eu não vi.

Muito bem.

Acho que é daqueles atores, um pouco o exemplo do Paul Giamatti, embora o Paul Giamatti tenha mais reconhecimento mesmo nesta categoria de atores com ar de secundário, mas que vão tendo papéis de protagonista. E o Jeffrey Wright quando aparece está sempre bem, é quase sempre ele um dos pontos fortes de qualquer filme. Portanto, não tendo visto o filme, estou a favor do Jeffrey Wright, sei que ele não vai ganhar, sei que o filme não vai ganhar. E claro, a história do escritor frustrado que não vende nada, é muito familiar.

Maria Ramos Silva, "Anatomia de uma Queda".

Eu gostei muito.

E fica-te bem esse sentimento.

Tu também gostaste.

Eu gostei bastante.

Acho que partilhaste. Sim, ainda por cima dá-se este caso extraordinário da Sandra Hüller, a protagonista, ou uma das protagonistas, surgir aqui também num outro filme, que é um belíssimo filme, o "Zona de Interesse". Agora, é um filme estrangeiro que provavelmente tem a capacidade de levar a melhor nesta categoria particular. Não sei se conseguirá unir forças.

Há aqui alguma possibilidade.

Sim, atenção, não me chocaría, ficaria bem entregue.

Eu imagino um mundo em que o Nolan ganha o Oscar de melhor realizador e este ganha o Oscar de melhor filme.

Melhor filme, por exemplo. Sim, acho que seria pacífico. Ainda por cima conseguiríamos ir àquela parte que é sempre tão discutível, e que se falava na Barbie, da Greta Gerwig não ter a nomeação para a realização, e tudo mais. Bom, mas neste caso temos até aqui uma senhora que é a Justine Triet, que na verdade também é realizadora, também é mulher e tem aqui um filme que, quanto a mim, é bastante melhor do que a Barbie, e portanto está aqui justamente nesta posição. Portanto, vamos ver. Estou com muita expectativa. Pena os buracos no argumento da "Anatomia de uma Queda".

Sentiste alguns buracos?

Senti. É um whodunit. Ou seja, alguém morre e nós, espetador, e os investigadores do filme e o tribunal têm que decidir quem foi, se é que foi alguém. A realizadora conta bem a história até determinada altura, é muito bem sustentada pela atriz principal e pelo miúdo, que é descendente de portugueses, e que demoraram imenso tempo a conseguir aquele ator. Eu estava à espera que os jornalistas portugueses se apassionassem pelo caso e contactassem a mãe. Normalmente, nessas coisas quando há um português.

É verdade.

Os jornalistas portugueses dedicam-se a isso. Enfim, desta vez falharam. Mas depois a forma como nos são reveladas algumas incidências parece-me bastante frágil. Só resulta porque a cinematografia é excelente. A casa onde tudo se passa é também numa montanha, com neve.

Sim, o ambiente é tudo muito propício àquela história.

A neve ajuda sempre.

É verdade. E o cão também vai muito bem.

Sim, o cão. A Hüller, é assim que se diz? É capaz. É mesmo ela.

Homoforo.

É uma atriz extraordinária. É sempre uma vantagem, acho eu, vou dizer isto também, espero que não me prendam, não ser demasiado bonita ou demasiado atraente do ponto de vista canónico.

Sim.

Não nos distrai do apetrecho técnico que ela tem, que ela revela, é uma atriz extraordinária, fala várias línguas. Eu vi-a também no "Zona de Interesse" a falar em alemão e aqui fala em francês.

E em inglês.

E inglês, exatamente. Mas se for para escolher o filme realizado por mulheres, acho que Barbie é um melhor filme, enfim, não sou crítico, do que este "Anatomia de uma Queda", que acho que lá está que tem alguns plot holes.

Bruno Vera Amaral, "Anatomia de uma Queda". E este, chegaste lá?

"Anatomia de uma Queda", não vi.

Pronto.

Portanto, concordo em absoluto com o Pedro e com a Maria. E também concordo contigo. Tenho alguma curiosidade.

Mas eu acho que vais gostar.

Não sei o que é que eu estou aqui a fazer hoje. Eu acho que devia ter ficado de dispensa.

Não, tu és o contrapeso. Mas acho que vais gostar, acho que devias ver.

Aliás, há aqui uma série de filmes este ano, ao contrário do que aconteceu noutros anos, a lista, para além daqueles que vi, tenho muita curiosidade em ver outros.

Há muitos filmes interessantes por aqui.

Nem sempre isso acontece. Eu sei que há sempre um certo hype à volta dos filmes que depois se esvazia um pouco à medida que nos aproximamos dos Óscares, mas pelas reações que tenho lido, pelo que tenho lido alguns dos filmes, daqueles que não vi, parece-me ser uma colheita muito interessante, aquilo que vocês diziam no início, muito variada, e com o que me parece ser, corrijam-me se estiver enganado em relação aos que não vi, com aquele tipo de cinema para adultos.

Sim.

Que já não é assim feito com tanta regularidade, parece ter sempre que ter ali um piscar de olho quase mais juvenil. E aqui parece-me ser uma colheita para o pessoal dos anos 60 e 70, que nasceu nessa altura. Não sei qual é que é a designação, já não são os baby boomers, depois não são os outros.

Essa não é a minha especialidade.

Esses conflitos. O que quero dizer é que olhando para esta lista, parece-me que há muitos filmes que agradam a esse público, têm saudades dos tempos Desse cinema adulto e que o "Anatomia de uma Queda" é um dos que se insere nesse grupo.

Se calhar, de acordo com a lista por ordem alfabética da Academia, a seguir vem a "Barbie", mas nós já falámos muito sobre a "Barbie". Não sei até que ponto alguém precisa ou quer aqui acrescentar alguma coisa, mas se calhar até quem nos ouve já não nos pode ouvir a falar da "Barbie" e portanto seguimos em frente para "The Holdovers", que em Portugal sairia como "Os Excluídos". Maria Ramos Silva.

O filme de Natal que aqui nos chegou um pouco depois.

Sim, é verdade.

Mas já há muito tempo que não é uma coisa muito comum. Eu já não sei há quantos anos, mas nesse pequeno trivia que se faz lá fora por esta altura, já há muito tempo que um filme de Natal não surgia aqui nestas contendas. Eu gostei. É mais um daqueles filmes.

Olha, eu esperava mais.

Eu também esperava mais, sim. Até porque tem o Giamatti, que é sempre um favorito, ele é ótimo.

Não, e é do Alexander Payne, que já fez umas coisas melhores. Digo eu, atenção.

Sim, também. Mas enfim, não sei se nos vamos lembrar deste "Excluídos" aqui por algum tempo.

Acho que o teu som inicial é uma boa descrição sobre este filme.

Agora, a melhor atriz é provável que vá para a Alexander Payne.

Atriz secundária?

Secundária.

É a secundária?

É secundária. É provável que seja entregue.

Parece-me bem que sim, é alta probabilidade. Pedro Boucher de Mendes, viste os "Excluídos"?

Não vi, mas quero ver.

Pronto.

Eu gosto muito do Paul Giamatti, sou um fã da série "Billions". Talvez seja a única pessoa em Portugal que acompanha a série, não sei.

Não, acho que não.

Pronto, mas eu vi todos os episódios de todas as temporadas.

Há um jornalista ou outro que acompanha a série.

Pronto.

Aí está.

Eu gosto imenso dele, gostava imenso dele no "Sideways". A personagem dele, abrindo um parêntese, em "Billions" é um ótimo personagem, portanto podem ver. Não vi, mas parece-me ser um filme, agora vou ser muito arrogante, quase displicente.

Não digas isso.

Parece-me ser um filme que conseguimos prever. Que conseguimos dizer como é que começa, como é que é o meio, como é que acaba.

Não parece que seja a roupa da tua parte, é muito isso.

É isso.

E acho que esse é um dos problemas do filme.

Das fragilidades.

Passas muitas cenas à espera de ser surpreendido e eu acho que esse momento nunca acontece.

Mesmo a atriz, é uma gordinha, negra, que deve ter um papel meio iconoclasta. É nomeada para o Oscar e se calhar ganha. Parece também tudo um bocadinho previsível.

Bruno Vieira Amaral, viste os "Excluídos"?

Não vi.

Boa!

Não vi. Olha que surpresa.

Três em linha até agora.

Não, três em linha, porque tu saltaste a "Barbie". Eu vi a "Barbie", mas já falámos tanto da "Barbie" que já não tenho nada a dizer sobre a "Barbie".

Exato, é um bocado isso.

Portanto, o que eu vou fazer aqui, neste caso?

Qual é a tua gig a seguir?

O que eu vou inventar? Eu não sou um grande fã dos filmes do Alexander Payne. Para ser honesto. Gosto do Paul Giamatti, já tinha falado porquê. É daqueles secundários, daqueles atores sólidos, que quando fazem um papel secundário dão corpo aos filmes, mas que quando são os protagonistas conseguem transportar aquela aura meio indie, meio inesperada para esse papel de protagonista. Agora, os filmes do Alexander Payne.

Não são os teus filmes, Bruno, está tudo bem, não há problema.

Ficam ali no meio caminho, estás a perceber? São meio mornos. A história bem contada, bem doseada, sem excesso de drama e sem excesso de comédia. Parece que está sempre ali naquele meio termo, que é agradável, mas que, pelo menos comigo, não dá o salto para outra coisa. Portanto, desses filmes, e eu acho que este também faz parte desses filmes para adultos. Aliás, o cinema do Alexander Payne é um pouco isso. Mas deste lote de filmes, mesmo assim será daqueles que não me despertam tanta atenção.

Mas ainda assim, por exemplo, o "Nebraska", não é os "Excluídos", é "Os Descendentes", gostei bastante mais. Eu sei que ninguém pediu a minha opinião.

Esse é o do George Clooney no Havaí.

Eu sei do "Os Descendentes", mas está nesse.

É baseado num livro.

É. E eu ia um pouco com essa expectativa. Lembrava-me muito dos "Descendentes" e não resultou assim tão bem. Mas enfim, não há problema nenhum. O que também não é problema é que tínhamos chegado ao final da primeira parte do "Pop Up". Voltamos depois de um curto intervalo. Até já. Estamos de regresso ao "Pop Up" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucher de Mendes, na Rádio Observador e em podcast. Siga-nos na sua plataforma favorita. Está na hora de lançarmos as sugestões da semana. No meio dos filmes, temos livros. Toda a gente escolheu livros esta semana. Maria Ramos Silva, queres falar-nos de Zadie Smith?

Sim, da "Fraude", a Dom Quixote. A Zadie Smith aqui leva-nos até um caso verídico que encantou a Inglaterra vitoriana. Isto é situado mais ou menos em 1860, depois estende-se imensos anos, porque é um caso judicial, um dos mais longos da época, que se arrasta assim indefinidamente. Mas é uma história verdadeira, que ela depois aqui reconta, mas com umas notas de grande modernidade e também com uma série de toques na política contemporânea. Portanto, há aqui uma série de personagens em que nós podíamos pensar quando lemos Ela aqui dá soprattutto destaque a um tipo que é o Roger Tichborne, que existiu de facto à época e que se dizia herdeiro de uma grande fortuna, um aristocrata que teria morrido no mar, mas que em bom rigor poderia não passar de um talhante inglês autoexilado na Austrália por causa de uma série de dívidas. Depois tem uma série de personagens também à volta muito interessantes e portanto "A Fraude" da Zadie Smith, que já saiu eu penso que em novembro do ano passado a edição original e que chega agora entre nós.

Pedro Boucher de Mendes, queres falar de Francisco Lucas Pires, não necessariamente por ser autor.

Saiu esta semana, creio eu, ou está a ver esta semana, "O Príncipe da Democracia", uma biografia de Francisco Lucas Pires, pela Dom Quixote, autoria do Nuno Gonçalo Poças. É um livro precioso para a compreensão do país que somos hoje. O Lucas Pires morreu cedo, antes dos 60 anos, e era o político que nós mais ouvíamos, digo nós porque eu era já vivo nessa altura, falar da Europa. Estava sempre a falar da Europa, Europa para aqui, Europa para ali. Até às vezes era um pouco repetitivo, pelo menos aos ouvidos de um jovem, e tinha razão.

E foi deputado europeu.

Foi. E tinha razão. Portugal não seria, nem de perto nem de longe, aquilo que é hoje se não fosse a integração europeia. Acho que devemos muitíssimo aos nossos colegas da União Europeia. Este livro é sobre o percurso e sobre a vida de Lucas Pires, obviamente, a sua vida política, e é também sobre a vida política portuguesa logo a seguir ao 25 de Abril e merece bem a nossa leitura para compreender o estado em que chegamos hoje. "Uma Biografia de Francisco Lucas Pires", de Nuno Gonçalo Poças.

E Bruno Vieira Amaral, fechamos aqui o capítulo literário com a tua sugestão, que é Manuela Brandes.

Manuela Brandes é um novo autor, romancista, publica agora o seu primeiro romance, que se chama "Na Terra dos Outros", pela Companhia das Letras. Tive a honra de o apresentar ontem em Lisboa.

Uma estrela o Bruno.

Desculpa?

Nada, és uma estrela.

Eu sei. Voltando agora à verdadeira estrela. O livro é invulgarmente e até escandalosamente seguro na narrativa para alguém que escreve e publica um primeiro romance. Imagino que antes disto o autor já tenha escrito bastante, mas este é o primeiro publicado e é um livro que nesse aspeto é bastante seguro, é bastante controlado pelo autor. E é a história de uma mulher que, como muitas da sua geração, vieram para a cidade nos anos 60, 70, vieram da aldeia, fugiram da pobreza do interior e vieram trabalhar como criadas para a cidade e para as famílias mais abastadas da cidade. E o que eu destaco do livro é de facto a força desta protagonista, Maria do Carmo, que segura o livro todo, claro, porque o autor lhe soube dar essa importância. É um primeiro romance bastante bom e é a minha sugestão da semana, "Na Terra dos Outros".

Muito bem, esta semana estamos aqui em modo Oscars, damos palpites, que é das coisas que mais gostamos de fazer. Vamos correndo os títulos nomeados para melhor filme. Os Oscars são entregues no domingo, dia 10, e vamos dizendo da nossa justiça. Saltamos para "Killers of the Flower Moon", em português, "Assassinos da Lua das Flores". Maria Ramos Silva, viste o filme do Scorsese?

Vi e gostei bastante.

Ora aí está. Apesar das três horas e meia, não é?

Sim.

Foi o que eu senti também.

Não achei que fosse um filme entediante. Para já, está na plataforma, portanto as pessoas podem sempre pausar e regressar um pouco mais tarde se estiverem aborrecidos. Mas não foi o caso. O Scorsese, que aqui já chegou a um ponto em que ultrapassou o Spielberg, salvo erro em número de nomeações, já chegou à décima. Não sei se vai conseguir bater aquele furor todo em torno do "Oppenheimer", mas é um daqueles casos em que não me deixaria surpreendida.

E não ficavas desiludida?

Não, pelo contrário, acho que seria uma bela surpresa, um bocadinho fugindo à tendência. Até porque depois temos aqui uma estreante, que está nomeada para melhor atriz, a Lily Gladstone, que eu acho que é capaz.

E que tem alta probabilidade de ganhar. Já ganhou vários prêmios.

E justamente, eu acho que é um daqueles casos em que não estamos só a fazer aquele favor muito à boleia das tendências, e dos nichos e das cotas e tudo mais. Ela é uma atriz nativo-americana, e portanto seria uma estreia nesse campeonato, mas acho que tem uma prestação, de facto, muito luminosa e portanto também acho que pode ficar bem entregue.

Pedro Boucher de Mendes, viste o filme do Scorsese?

Vi, e é o filme de que mais gostei, apesar de também ter alguns-

Plot holes.

Tem bastante. Algumas resoluções são discutíveis. Gostei imenso da forma como o final é resolvido.

Eu gostei muito do filme também.

Gostei imenso da forma como o final é resolvido. Adoro o DiCaprio. Por isso é que ele tem a minha admiração. Notamos como ele se entrega aos personagens. Não tem medo do ridículo, não tem medo de ser um meme. Ele é um ótimo meme.

Sim.

Aquele filme do Tarantino. E é de longe o filme que eu gostei mais deste lote, mas acho que não vai ganhar.

Pronto.

É um pouco isso.

É uma boa análise. Bruno Vieira Amaral, tu viste?

Não vi. Não tenho Apple TV. Acho que só está na Apple. Ainda não me converti à pirataria. Não vi, com muita pena, porque é um filme do Scorsese.

Mas isto não está na Apple TV.

Não está?

Está.

O filme é da Apple?

É.

Está na Apple TV+.

Sim. Peço desculpa, não tenho.

Mas em breve eu acho que deve aparecer aí nos clubes de vídeo. Ficas atento.

Pois, este era um dos que eu estava à espera. Por exemplo, o "Perfect Days", do Wim Wenders. Também não vi, mas está. E alguns destes não estão e eu estou à espera.

Devíamos ter perguntado: "Bruno, que filme é que viste?" Não, mas nós vamos lá chegar.

Mas deixa-me dizer uma coisa em relação ao DiCaprio.

Mas diz rápido.

Muito rápido. O DiCaprio é a razão pela qual o Martin Scorsese continua a fazer filmes. Neste século, os filmes são por causa dele. É o seu muso, é o seu financiador. É o tipo que lhe permitiu fazer os filmes que ele fez. Mas, e apesar de simpatizar com o DiCaprio e achar que ele vai muito bem em alguns papéis, acho que geralmente nos filmes do Scorsese é ele o ponto fraco. Não sei como é neste, mas desde o primeiro que fizeram juntos, o "Gangs of Nova York", ele é o ponto fraco dos filmes do Scorsese. Acho que o melhor filme do Scorsese dos últimos anos é precisamente um em que ele não está lá, que é o "Silêncio" e que passou completamente ao lado. E merecia mais.

O que joga bem com o título. Avançamos. Maria Ramos Silva, "Maestro".

Estamos para a música.

"Maestro", eu esqueci-me completamente deste filme. Eu vi o filme.

Mas sabes que eu acho que esse é um filme que sofre muito disso, que fica ali em terra de ninguém, quando depois fazes as contas.

Apezar da Carey Mulligan, que vai ótima.

Pronto, lá está, temos uma bela atriz, o Bradley Cooper também não acho que vá mal.

Não.

Acho que é um grande desafio, é uma personagem super interessante, super complexa, mas depois tudo aquilo somado, há pouco falávamos ali de uma série de eventuais buracos no plot. E também há aqui qualquer coisa que eu senti que falta ali para unir aquilo tudo. Não sei, acho que o rumo também não me deixou propriamente convencida. É o que tu dizes, é um filme que se vê, é um filme agradável.

Mas não fica memorável.

Não, é mais um daqueles casos em que provavelmente para o ano já não nos lembraremos propriamente disto.

Pedro Boucherie Mendes.

Este filme teve uma enorme polémica sobre a prótese do nariz.

Exatamente.

O que é estúpido. A Nicole Kidman ganhou um Oscar com uma prótese no nariz, para fazer o papel de Virginia Woolf.

Eu vi quase todo o filme.

Já disseste tudo. E depois desististe.

Mas não consigo propriamente dizer porque é que não gosto do filme. Mas não gostei muito do filme.

Percebo bem. Deixa-me só tentar isto. Bruno Vieira Amaral, viste o "Maestro"?

Vi o "Maestro". Gostei muito do "Maestro", gostei muito do Bradley Cooper. Acho que a Carey Mulligan noutro ano ia ganhar. Quer dizer, não é completamente impossível, mas é muito improvável ganhar o Oscar, mas tem o melhor papel do filme e acho que é um filme muito bom. E eu gosto muito de atores realizadores, que depois passam por trás das câmaras e o Bradley Cooper...

Ele está a fazer um bom caminho.

Eu acho que sim.

Mas ainda tem caminho para andar.

Ele tem sido muito acusado, ultimamente, e em quase todas as críticas e perfis que surgiram depois do filme, de querer muito o Oscar, de estar a fazer filmes muito para os Oscars. Eu acho que isso já é uma sobre interpretação, porque sim, ele investiu muito, percebe-se que ele investiu muito, até no tempo que esteve a preparar o papel, não só o filme, mas como o papel do Bernstein. E isso nota-se, mas quer dizer, esse investimento, esse empenho, faz parte quando levas as coisas a sério. Não acho que ele possa ser acusado de estar a apontar muito aos Oscars porque se empenhou muito no filme. Mas pronto, eu percebo o que é que estão a dizer, que é um filme feito mais ou menos a pensar nesse reconhecimento do ator que se torna realizador, do ator que se dirige a si próprio. Mas eu gostei muito do filme.

Muito bem.

Não ajuda que tenha nome de personagem de cómics, o Bradley Cooper. Personagem de banda desenhada, de cómics.

O nome próprio dele?

Sim, o nome dele, Bradley Cooper. Havia um chamado Dan Cooper. Isso é uma personagem de ficção. Nunca tinhas pensado sobre isso?

Não. E apanhaste-me na curva.

Também podia ser um ponta de lança do Charlton Athletic.

Pronto. Essa até ficou interessante. Muito bem. Aqui na lista segue-se "Oppenheimer", do qual também já falámos imenso e que tem mais nomeações. Se tivermos tempo, já cá voltamos, mas ainda temos três filmes e gostava de vos ouvir sobre estes três filmes. "Past Lives, Vidas Passadas". Maria Ramos Silva.

É um filme morninho, que aquece o coração, mas também não é isso tudo. Pronto, resumindo, é isso.

É como a brasa, a bebida que aquece o coração.

É, mas depois aquilo vai esfriando. E depois passam os anos e é mais um filme simpático, interessante.

São corações desconfiados que temos neste painel.

Não, não são. Eu acho que é uma boa história.

O filme, para quem não conhece a história Tem um arco narrativo que vai desde a infância de dois, de um homem e uma mulher, até uma espécie de 30 e muito, 40 e pouco.

Sim, por aí, talvez.

Em vários contextos, são sweethearts. Não sei como é que se diz em Portugal, mas aquelas paixonetas de criança.

Pombinhos, são pombinhos.

Começa aí.

Desencontrados.

São os namoradinhos.

É um filme delicado, muito melancólico. É inspirado numa história verdadeira da realizadora, é o primeiro filme da realizadora.

Sim, tem um lado autobiográfico.

Um lado autobiográfico, em que ela é casada e depois recebe um antigo namorado. Independentemente dessas nuances, que cada um de nós saberá se teve uma história semelhante ou não, vendo o filme percebe-se onde eu quero chegar com esta frase. Mas eu gostei imenso da parte cultural do filme.

Isso é verdade.

De o coreano estar na América e dela, que também é coreana, expatriada na América, mas acho que isso está muitíssimo bem explorado.

É, sobretudo isso.

Dou os parabéns à realizadora, se a virem por aí, deem um abraço de parabéns.

Sim.

Isso é muito difícil de fazer sem cair no clichê da questão das raças e na questão das culturas diferentes e pós diferentes. Acho que as nuances são muito bem feitas. Não me lembro de ter visto nos últimos tempos uma coisa tão bem feita desse ponto de vista. Depois a história, a trama, o amor, cada um saberá o que achar sobre isso.

Sim, mas percebem-se ali as vicissitudes, as mudanças.

Bruno Vieira Amaral, viste o "Vidas Passadas"?

Eu concordo com o Pedro quando ele diz essas nuances, a forma como são introduzidas e também com a Maria, dizer que é um filme simpático. E concordo, porque também não vi este.

Isso era o que eu ia perguntar, mas não respondeste à minha pergunta.

Não respondi, porque eu queria fazer isto.

Tu és um malandrão.

Muito bem.

Mas quero ver, este é daqueles que quero ver.

E fazes muito bem.

Este é um daqueles raros filmes que nós desejamos que houvesse um livro.

Certo, percebo.

Para depois irmos ler o livro. Não há.

Está bom. Maria Ramos Silva, "Poor Things", Pobres Criaturas. Isto não vai acabar bem, esta relação.

Não, eu achei uma pobreza, para ser muito honesta.

Uma pobreza?

É verdade. O Pedro diz que acha que a Barbie é de facto extraordinário. Perdoem, mas de facto não é.

É o segundo filme mais nomeado, se não estou em erro.

Mas sabes que esta coisa das nomeações, e por acaso não falamos da Barbie, mas se calhar aqui poderá ser um pouco o caso, ou não, ou poderá ter imenso sucesso. Mas eu lembro-me sempre daquele fenómeno Nasceu uma Estrela, com a Lady Gaga e o Bradley Cooper, que também tinha uma série de nomeações e depois acabou por vencer, eu penso que só na música, na canção original.

Ou como aconteceu, por exemplo, acho que foi com o Irishman, do Scorsese, que tinha 10 ou 11 e não ganhou nada.

Sim. E portanto, eu não sei se será esse o filme, já para esticar imenso o swipe à volta disto, mas não me tocou particularmente, para ser muito sincera.

Pedro Boucherie Mendes, viste?

Vou usar aqui um argumento complexo.

Opa!

Enfim, os ouvintes que me perdoem, mas este Poor Things não é para mim. É este o argumento complexo.

Muito bem.

Eu podia estar aqui a tarde inteira a vomitar bilis para cima do filme.

Mas não vale a pena.

Mas viste o filme?

Vi. Nem sequer compreendo.

Então não vomites bilis.

O Bruno vai vomitar sem ter visto, reparem. Já a seguir.

Falando ligeiramente a sério, nem sequer compreendo como é que há alguém que financia, como é que há uma empresa que acha que este filme... não consigo entender, ultrapassa-me totalmente.

Pronto.

É isto.

Bruno Vieira Amaral, sobre o Poor Things, mas de forma rápida, porque ainda temos que falar do Zona de Interesse. Desculpa.

Eu só vou falar da Emma Stone, porque eu não vi o filme.

Melhor programa de apostas.

Não, a Emma Stone, o que é que vocês combinam?

Não, continua.

Pronto, a Emma Stone é fantástica. Eu sou apaixonado pela Emma Stone desde o La La Land. Antes disso, não me tinha convencido completamente, mas a partir daí, a Emma Stone pode fazer qualquer coisa.

Eu acho que ela vai muito bem no filme.

Que desperte o desejo do Pedro vomitar bilis eternamente sobre o filme, que eu acho que a Emma Stone merece tudo. Nesta vida, neste mundo.

Tens que a ver na série The Curse.

Mas também está muito bem. E chegamos à Zona de Interesse. Maria Ramos Silva, isto é sprint até à meta. O que é que tens a dizer?

Eu gostei muito. Não preciso acrescentar.

Para sprint não vai nada mal.

Eu diria que é um filme que poderia ter sido feito por inteligência artificial. Agora está na moda falar em inteligência artificial. Achei cênico, cerebral, frio, extraordinariamente bem feito, e não é por causa do tema. Como sabemos, decorre na casa doméstica, na habitação do chefe de um campo de concentração e sua mulher.

Do patrão de Auschwitz.

Não é por causa disso, que eu vou dizer o que vou dizer a seguir, mas é um filme cuja emoção não passou para mim.

Olha, concordo 200% contigo. Eu não sei se foi de ver o filme com todas as expectativas deste mundo e do outro. E fiquei assim: "epa, eu percebi isso tudo."

Mas eu acho que o próprio espírito do filme é esse. Ou seja, é desconcertante nesse ponto.

Eu achei desconcertante.

Mas não me desconcertou. Eu não sei.

É feito por inteligência artificial, não tem humanidade.

Mas olha, esta é a beleza do cinema, Pedro. É que nós estamos todos do mesmo lado. E para fechar aqui capítulo Zona de Interesse. Bruno Vieira Amaral, viste?

Eu ontem fui a um restaurante ali em Lisboa. Comi uns belos panados.

Sim, senhor. Olha, é uma coisa que eu aprecio bastante.

Iscas não.

Iscas também não.

Umas couves cozidas que estavam au poign. Sobre o filme "The Zone of Interest", eu tenho muito interest em ver a zone, mas ainda não vi. O que eu posso dizer sobre o filme? Eu estou um pouco na situação dos protagonistas do filme. Estão ali, mas não viram nada.

Muito bem. Só para terminar, uma ronda muito rápida. Maria Ramos Silva, tu que tinhas uma coisa ou outra a dizer de categorias mais pequenas ou filmes ou curtas que se calhar nos passam ao lado e que devíamos ter atenção. Não sei se tomaste aí nota.

Não, é um pouco buscar aquela ideia do Bruno, que ainda não viu nada, mas de facto diz que há muita coisa para ver e também sente isso. Eu não sei se estava mais distraída nas edições anteriores recentes dos Oscars, mas sente-se que há aqui muito material para explorar para lá dos Oscars e para lá também destas categorias principais. Nomeadamente os documentários, como o "Four Daughters". Todos eles me tiveram algum interesse. Os filmes estrangeiros também, obviamente. "A Sala de Professores" também quero muito ver. E depois os pequenos short documentary film, também há aqui uma série de coisas. Eu recomendo, por exemplo, o "Island in Between", que já vi, aliás, está no YouTube, é muito fácil de ver, é uma coisa relativamente curtinha, e que explora o conflito China-Taiwan. E apesar de ser curto, é bastante ilustrativo daquilo que está em jogo ali há muitos anos. Portanto, há aqui uma série de motivos de interesse que provavelmente vão ficar pelo caminho, no emaranhado todo dos prémios.

É dar atenção.

Só outra coisa. Estou muito curiosa para ver se depois no caso do Oppenheimer, não sei se ainda vamos passar por aí.

Já não vamos ter tempo.

Pronto, mas ver o que acontece ao Downey Jr. Que perdeu para o Heath Ledger na altura do Joker.

Acho que não lhe vai escapar.

Mas eu gostava que levasse de melhor actor secundário.

Acho que desta vez não vai escapar. Nós infelizmente não temos mais tempo. Queria só deixar dois avisos. Primeiro, próxima semana, obviamente, havemos de falar sobre o que aconteceu nos Oscars, que são entregues no domingo, dia 10. A cerimónia começa à meia-noite e aqui no Observador vamos estar em direto em observador.pt a acompanhar a cerimónia e a fazer contas à vida. Chegamos ao final de mais um "PopUp", voltamos na próxima semana. Até lá.