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Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o programa de cultura pop da Rádio Observador, que esta semana junta pela última vez, em 2021, estes três sonhos de Natal para todos os dias. São verdadeiros brindes do vosso bom rei: Maria Ramos Silva, Bruno Veira Amaral e Pedro Buchinho Mendes. Desta vez, para fechar o ano em beleza, cada um no seu canto, isoladinhos, que é para não haver problemas. Esta semana dizemos adeus a mais um ano. Lá mais para frente vamos tentar perceber o que os nossos comentadores levam deste 2021, médio menos, digo eu, a atirar para a negativa. Mas antes, falamos de cinema e das últimas grandes estreias do ano na Bódica. Estreou-se esta quarta-feira, dia 22 de dezembro, o novo capítulo da saga "Matrix". Não sei se tem alguma preferência por aí, mas já lá vamos.

Não, vamos definir já isso.

Queres resolver já o problema?

Não, vamos. Matrix, está bem? Para não haver aqui Matrix. Matrix, que é à tuga. Obrigado.

Isto é o que se chama atitude natalícia. Chama-se "Resurrections", este filme, e é o número quatro desta série, que deu os três filmes anteriores ao mundo entre 1999 e 2003. "Matrix", o original, foi revolucionário, acho que podemos dizer, nos temas e na forma como os abordou e talvez, sobretudo, nos efeitos especiais. Mais de 20 anos depois, queremos saber que contas fazemos a este regresso. Pedro Buchinho Mendes, vamos começar por ti. Tu és um homem dado à ficção científica e a estas coisas dos efeitos especiais, etc. Já viste o filme. Gostaste do filme, não gostaste? Ainda bem que regressou, nem por isso?

Olha, falava com a Maria antes, aí ao fim de sete a oito minutos do filme, desliguei. Desisti de tentar perceber. Porque como sabemos, esta série tens que estar atento.

Eu notei isso.

Esta série tens que estar atento, são muitas matrioskas, muitas bonecas russas, umas dentro de outras e depois, afinal, é tudo uma aparência, porque não são bonecas russas, se calhar são feitas em Taiwan. Depois, me diverti a ver o filme. O Keanu Reeves tem quase 60 anos, está com ótimo aspeto. Cabelo excelente, é um rapaz muito bem apessoado. Tomáramos nós, Tiago e tu.

Sim, comparem eu com a idade que tenho.

Pronto, achei os outros atores não muito capazes, pelo menos ao início do filme. Depois eles vão a uma espécie de café e bebem bicas, como nós dizemos. É um bocado esquisito. Ou seja, não bebem aqueles copos grandes, aqueles copões grandes de café.

Café americano, como estamos tão habituados.

Isso, bebem uma xavezinha pequena.

Não, porque aquilo chama-se o café, o estabelecimento chama-se Simulatte.

Pronto, café com leite. Enfim.

Simular, simulação, simulacro.

Sim, e depois o Keanu Reeves anda no psiquiatra, que é aquele ator do "How I Met Your Mother". Como é que se chama? Que ele fazia o Dougie Howser.

Sim, exato.

Neil Patrick Harris.

Que é muito parecido com o Pedro Granja.

Lindo doutor.

Isso, que é muito parecido com o Pedro Granja, mas tem uns óculos giros, tem uns óculos azuis. Enquanto o filme decorria, pus a hipótese de eu próprio comprar uns óculos azuis ou talvez verdes.

Eu estou a apreciar as notas mentais que tu tiraste do filme.

Pedro, mas tu não sentiste a qualquer momento que ele ia entrar na personagem do "How I Met Your Mother"? É que eu lidei um pouco com isso.

Sim, mas estava bem decorado o consultório. Até tirei algumas ideias de decoração, tenho aqui umas zonas na casa. Sério.

Vais comprar um gato preto.

Não iria tão longe, mas que se chamava Deja Vu. Achei o filme aquém do que eu pensava, eu gosto bastante dos três, não apenas do primeiro, curiosamente, porque acho que são do ponto de vista cinematográfico, da ação e mesmo a música e os efeitos sonoros, acho uma proeza, cada qual dos três filmes à sua maneira. O argumento não me interessa tanto. Porque lá saber-se que as pessoas vivam num casulo e haja ecrãs verdes e pretos. Isso não me interessa muito, mas acho que os filmes são muito bons do ponto de vista do entretenimento, ou eram. Este ficou bastante aquém, não há nenhuma cena que nos faça ficar de boca aberta, pelo menos a mim. Acho muito pueril o argumento e alguns atores francamente abaixo do que seria exigível. Estou curioso em saber, estávamos a discutir também antes, que ele deve ter tido pouco orçamento ou não tanto orçamento como eles desejariam. E no fundo é o Keanu Reeves e a Carrie-Anne Moss. Os dois personagens reencontram-se já mais velhos e dão uma nova oportunidade ao amor. Eu acho que no fundo é uma love story.

Ora cá está.

É isto. Dou duas estrelas.

Duas estrelas. Pronto, é assim, meus amigos. Estamos a falar em médio menos, isto ainda é pior. Além de "Matrix", este final de 2021 é marcado por outros regresso. Paul Thomas Anderson está de volta com "Licorice Pizza", primeiro filme desde a Linha Fantasma de 2017. Maria Ramos Silva, bem sei que viste o Matrix Não sei se concordas com o Pedro. Eu quero saber o que é que tens a dizer sobre isso, mas também viste o "Licorice Pizza" e, portanto, o que eu te quero perguntar é se o novo filme do Paul Thomas Anderson merece ou não entrar nas listas de melhores do ano, como já conseguiu fazer em vários casos, em diferentes países.

Acho que merece. Aliás, juntar os dois aqui na mesma balança é comparar a beira da estrada com a estrada da beira.

Mas é para isso que este programa serve.

É para isso que nós cá estamos, não é?

Exato.

Eu concordo com o Pedro. Aliás, há uma coisa que costumo dizer que há uma graça no cinema, quer dizer, menos graça para quem faz os filmes, como é evidente, mas que vai um bocadinho em linha com aquilo que o Pedro ia referindo, aqueles detalhes todos, que é quando nós nos apercebemos da mosca no canto do ecrã, é porque o filme está a ser uma porcaria. E portanto, ali também tivemos tempo para apreciar os óculos azuis, a decoração do consultório e uma série de outros detalhes.

O cabelo do Keanu Reeves.

O cabelo, sim, porque de facto, isso acaba por ser o mais interessante, se quiseres, que é perceber que aquelas personagens envelheceram como nós. Aquelas pessoas também, não só as personagens, mas as pessoas, os atores. O Keanu Reeves, nós de facto queremos saber, não sei se interessa muito a cor, mas qual é o comprimido que ele toma para chegar quase aos 60 anos naquele ótimo estado. A Carrie-Anne Moss também não vai nada mal, que entre nós, continuamos com um ótimo aspeto, frescos e fofos. E como o Pedro dizia também, no fundo, nós estamos a falar de uma história de amor, com mais ou menos efeitos especiais, mas o resumo é praticamente isso, que também vai muito aqui tocar depois no filme do P.T. Anderson, que é uma conversa completamente diferente. É um belíssimo filme, com uma ótima banda sonora, com atores desconhecidos, ou pelo menos triantes, em algum caso, sem qualquer experiência na representação e que saem muitíssimo bem, o Cooper Hoffman, o filho do Seymour Hoffman e a Alana Haim, da banda, das Haim. E que vão francamente bem, são uma surpresa. Aliás, eu acho que este filme tem aquelas virtudes, que me deixam francamente contente e o Paul Thomas Anderson fala disso numa entrevista recente, agora, e rara também, ele não é muito de falar essas coisas. Na "New Yorker", salvo erro, em que ele de facto sublinha aqui a importância do argumento nestas histórias. No fim de contas, uma boa história é de facto meio caminho andado para ter um grande filme. E eu acho que este é mais uma vez um filme em que isso se revela de forma verdadeiramente estridente e acaba por reforçar essa conclusão que é dele. E enfim, também é um bocadinho a minha. Portanto, diria que muito mais estrelas para o lado do "Licorice Pizza". O "Matrix" é um daqueles filmes que se vê bem no Natal, fica ali entre as duas estrelas, duas, três, vá, num dia mais simpático. Mas é daquelas ressurreições que não eram absolutamente necessárias, digamos assim.

Já agora, importa dizer que o "Licorice Pizza", o filme do Paul Thomas Anderson, estreia na próxima semana, no dia 30 de dezembro. Portanto, não é já esta semana. Esse é o filme de passagem de ano.

Mas nós somos privilegiados.

Nós temos acesso ao mundo em geral antes do que mundos mortais. Bruno Vieira Amaral, por falar em privilegiados, tu também viste os dois filmes e, portanto, nesse sentido, enquanto especialista cinéfilo, eu quero saber o que é que achaste de cada um deles.

E eu vou te dizer.

Ora bem.

Vou te fazer esse favor de dizer o que é que achei.

E que notas é que tiraste também.

E as notas que tirei e quantas estrelas dou a cada filme. Eu senti-me transportado ao ver estes dois filmes.

Atenção, sem estragar os filmes aos nossos ouvintes.

Não vou revelar nada, não vou revelar o spoiler, como se diz. Ora, o que eu estava a dizer é que me senti transportado para aquele maravilhoso ano de 1999, um ano que já falámos aqui, já toda a gente falou várias vezes, um ano glorioso do cinema. E a sensação, depois de ver estes dois filmes, é um pouco agridoce, porque nos lembra de tudo que fomos perdendo ao longo destas duas décadas. Se pensarmos no cinema de ação, o que temos hoje são aquelas sopas do Homem-Aranha da Marvel, com Hulks à mistura, aquelas coisas assim que os miúdos adoram e que se veem bem, mas falta-lhes ali um bocadinho, quanto a mim, de alma, como falta aos filmes do John Wick. Aliás, o Keanu Reeves, neste novo Matrix, está ali um bocadinho no modo John Wick. Ou se calhar já não se consegue distinguir do John Wick. E essa é uma das coisas boas do filme, de facto, é o Keanu Reeves, a Carrie-Anne Moss, há lá um novo Morpheus. Ou seja, aquilo tem os ingredientes básicos do filme original, mas depois falta-lhe o toque que transformou o "Matrix" num filme relevante, até de um ponto de vista sociológico. Com aquela combinação quanto a mim certa de cinema de ação, de kung fu, de ficção científica, com religião, filosofia, tecnologia, mas tudo em doses muito equilibradas. Aquilo funcionava muito bem, batia tudo certo.

Agora, ouvir-te falar isso, faz lembrar aquilo que fizeram agora, anos mais tarde, com o "Black Mirror". Tem assim lado um bocadinho meio distópico também. E para onde é que vai a humanidade no meio da tecnologia, essas coisas todas.

Não, mas essas questões...

Foi só um aparte.

E fizeste muito bem. Essas questões estavam presentes no primeiro, mas não estavam metidas à força, entendes? Aquilo parece que estava bem cozido no enredo, no argumento. Depois, com os outros dois filmes, e agora também com este, há aqui algumas fases, algumas cenas em que Tem que estar a explicar demasiado toda a engrenagem daquele mundo, para nós aderirmos àquilo, distrai-nos um pouco e torna-se um pouco cansativo. Portanto, eu acho que este filme parece-me um pouco melhor do que os outros dois, as sequelas, mas não vejo grande necessidade de terem feito um novo filme. A vantagem é que nos lembra da qualidade do primeiro. Talvez seja esse o ponto forte. Quanto ao filme do Paul Thomas Anderson, tem muitas coisas boas, a Maria já referiu, o desempenho dos protagonistas. Quanto a mim, o que é melhor é a recriação do ambiente dos anos 70, que é quase perfeita. Não é apenas ilustrativa ou decorativa, tu tens mesmo a sensação de uma outra época. Há também a participação especial do Bradley Cooper. É extraordinário, merecia só um Oscar por aqueles minutos em que aparece. Mas ao mesmo tempo, e aí não concordo com a Maria, acho que o argumento é o ponto fraco do filme. Acho que é muito autoindulgente, acho que é uma coisa entre amigos, que não quer ir assim muito para lado nenhum, ou se quer ir, não vai. E eu diria que se resume um pouco naquelas cenas em que as personagens estão a correr. Que são aquelas cenas que captam, se calhar, a ideia inicial do filme, um pouco de liberdade adolescente, do início da juventude, mas que depois também não vai muito além disso. Quanto a mim, fica muito aquém das melhores obras do Paul Thomas Anderson. Do Magnolia mesmo, o tal que estreou em 1999, e muito aquém dos filmes que para mim são os melhores dele, o Haverá Sangue ou o Mentor, e até aquém do último, do Linha Fantasma, que não estando para mim ao nível dos outros dois, é ainda assim muito bom e melhor do que este. Este aqui parece-me um objeto ligeiramente preguiçoso, portanto eu vou lhe dar três estrelas e dou duas estrelas, tal como o Pedro, ao Matrix.

Muito bem, com estrelinhas e tudo para ficarmos bem arrumados. Antes do final da primeira parte, agora que já tratamos do cinema, vamos às sugestões da semana com o Post-it. Voltamos ao início, voltamos ao Pedro Buenos Ferimentos. Pedro, queres falar-nos do livro "A Promessa"?

Sim, é o vencedor do Booker deste ano, o escritor sul-africano Damon Galgut. Acaba de sair pela Relógio d'Água em Portugal, a tradução, e é um ótimo livro, pelo menos já li bastante, quase até à página 100. E é aquele tipo de literatura que eu acho que muita gente também gosta. É o meu tipo de literatura favorito, que é pessoas comuns a fazerem coisas comuns, aparentemente. Porque não há nada de comum nas pessoas. E parece que não se passa nada, e passa-se tanta coisa, neste caso ao longo de quatro gerações de uma família sul-africana. Eu recomendo vivamente, de facto, "A Promessa", de Damon Galgut. Se não para cada um de nós, pelo menos para oferecer, acho que é um bom presente, sem dúvida.

Ora, cá está. Sugestões de última hora. Maria Ramos Silva, como os dias andam complicados, eu não tenho nota da tua sugestão da semana, portanto, preciso que ajudes.

Pronto, então eu vou dizer. É mais um livro, é uma biografia, o "King of the Blues: The Rise and Reign of B.B. King". Eu estou a ler isto na versão original, porque pelo menos pelo que sei, ainda não foi traduzido, nem se quer está cá à venda, de um senhor chamado Daniel de Vise. Eu nunca sei bem se é de Vise ou de Vis, mas eu acredito que é de Vise, dado o acento.

Vise é muito mais giro.

É muito mais giro, sim. É um jornalista premiadíssimo, ele para além do Pulitzer, não sei o que costuma colar com o Washington Post, e que percebeu, entre outras coisas, que apesar do B.B. King ser aquela estrela que nós bem conhecemos, não havia nenhuma biografia do senhor depois de 1980, depois daquele livro do Charlie Sawyer. Ele que viveu até 2015, que ainda por cima teve uns últimos anos não muito fáceis. E ele aqui consegue dar-nos, para além, obviamente, de fazer um monumento à volta de tudo isso, desde as origens até aos últimos dias, eu fui olhar ali alguns dados mais curiosos. Uma das coisas que eu achei mais interessantes é que, ao contrário do que nós hoje provavelmente consagramos, pelo menos nós, brancos, com zero ligação com os blues, é que ele era visto como grande vocalista durante várias décadas, e não tanto como o guitar hero, que para nós hoje, julgo que a maior parte de nós o vê assim. Até quase aos anos 70, ele aliás era apresentado em palco como o maior cantor de blues de sempre. E a verdade é que acabou por pôr a guitarra no centro de um gênero onde até então, pelos vistos, não era central. Bom, à parte o é que nós não temos que escolher entre guitarra e voz, nós ficamos com as duas e penso que ficamos também agora com uma belíssima biografia.

Bruno, a tua sugestão da semana chama-se "A Mão de Deus".

"A Mão de Deus", um filme do Paulo Sorrentino, que está na Netflix e que, quanto a mim, atenção, é francamente melhor do que os outros dois filmes de que falámos na primeira parte. Chama-se "A Mão de Deus", já disse ou não? Já não me lembro.

Já.

É já? Então pronto. É um filme de formação, é um Bildungsroman cinematográfico. É um filme de memórias. Bildungsroman, não sei em alemão qual é a pronúncia correta.

Que é só uma palavra, atenção.

Em alemão tudo é só uma palavra.

Tudo é só uma palavra.

É sempre só uma palavra. Bem, é um filme de memórias, claro que lembra o Amarcord do Fellini, e a presença do Fellini sente-se explicitamente, porque o realizador é evocado, mas também de forma indireta, no olhar que o Sorrentino lança sobre este conjunto, lá está, felliniano de personagens. Que são todas esquisitas, são todas bigger than life E nem sempre é fácil pegar nas memórias da juventude, da adolescência, sem cair por completo num sentimentalismo nostálgico. Porque todas as memórias, mesmo as mais dolorosas, depois vêm envolvidas por um halo dourado, que faz com que tudo pareça muito melhor do que foi. Mas acho que a grande virtude do filme é conseguir evitar essas armadilhas, seguindo a receita felliniana, com uma grande abundância de vida, um certo exagero. Até há uma cena fantástica de uma matriarca a comer uma mozzarela, a deliciar-se com aquilo, que é uma cena completamente felliniana, mas têm que ver para perceber. É a minha última recomendação deste ano: "A Mão de Deus", do Sorrentino.

Muito bem. Já falámos sobre os filmes mais aguardados para este final de ano. Agora fazemos contas aos 12 meses que passaram para perceber se levamos daqui boas memórias ou se queremos mais é que tudo vá para o inferno. Talvez esta última. Servimos o pop de arroz. Em princípio, toda a gente gosta de listas, toda a gente gosta de fazer as contas, nós também, mas vamos tentar seguir aqui um modelo um pouco diferente, que é vamos tentar não seguir modelo nenhum, em especial, que é para isto ser diferente. E, portanto, vamos fazer aqui perguntas e vamos ouvir as vossas respostas, que é o melhor que podemos fazer. Pedro Boucher Mendes, vamos só recontextualizar aqui, sempre dentro do universo da cultura pop. Qual foi para ti a maior surpresa do ano?

Provavelmente o Covid ter continuado e, portanto, ter sido quase um ano neutro. Um ano em que fiquei com a ideia que não se passou nada por causa do Covid. E perdi, ou pelo menos falo por mim, julgo que outras pessoas também poderão dizer a mesma coisa, perdi um pouco a noção de timeline, de fita do tempo, de a seguir ao inverno vem a primavera e a primavera equivale a ir almoçar fora não sei onde, e depois vem o verão, que significa férias, viagens, concertos e festivais, e depois vem o outono, que significa não sei o quê. Perdi completamente essa noção. É como se vivesse suspenso numa espécie de espera, de sala de espera, que acaba a pandemia, que pelos vistos, a avaliar pelos últimos dias, não parece que seja para breve. A minha maior surpresa, olhando retrospectivamente, é essa ausência de surpresas, de incidências extra pandemia. No fundo, foi um ano à espera.

Maria Ramos Silva, qual a maior surpresa para ti?

Olha, eu comecei com um exercício de autosurpresa, devo confessar, e é um bocadinho também dentro daquilo que o Pedro estava a dizer. Acho que é cada vez mais natural, já acontecia, mas com o Covid ainda mais, esquecermo-nos o que é que aconteceu durante o ano. A facilidade com que nós trituramos a informação é realmente impressionante.

Isso é da idade.

Também é da idade, é verdade.

É mais da idade.

É mais da idade, também. Pronto, levem lá a bicicleta. Eu já nem me lembrava que o ano começou, provavelmente vocês também não, com aquelas luvas virais do Bernie Sanders na tomada de posse do Joe Biden. Estão a ver? Afinal, não sou só eu.

Ah, exatamente.

Também ninguém se lembrava destas coisas. Sei lá.

Mas todos nós sofremos com a idade, não foi só tu.

Pronto, menos mal. Mas sei lá, acho que houve uma série de coisas a que nós, ao longo do ano, demos imensa importância. Nós que trabalhamos, estamos aqui mais versados sobre estes assuntos. Desde a entrevista dos duques de Sussex à Oprah, aquele formato muito blockbuster, que depois parece uma coisa que aconteceu há 10 anos. Ou a corrida ao espaço dos bilionários ali a meio do ano. O apagão do Facebook em outubro, já alguém se lembra disso? Já ninguém, não é? Isto nós numa altura falámos imenso.

Maria, estás-me a assustar, porque eu não me lembrava de nada. Tu estás a falar dessas coisas e eu não me lembrava de nada disso.

Eu dessa entrevista, sinceramente, não me lembrava. Ou tinha a ideia que já tinha sido há mais tempo, que não tinha sido este ano.

Pois, mas aconteceu de facto há imenso tempo. Ou melhor, não aconteceu assim há tanto tempo, mas parece de facto que é uma eternidade. Mas enfim, fenômenos como o "Squid Game" também tiveram o seu momento de glória e agora também já ninguém fala do "Squid Game". Parece que também foi há imenso tempo, e isto, na verdade, ainda está fresquíssimo. Mas olhem, depois pensei assim: "Bom, mas o que é que me deixou realmente surpreso em termos de ficção?" E para mim, eu acho que a esta altura do campeonato já não vou cometer aqui nenhum spoiler. Acho que foi a morte do James Bond, portanto, para mim, é capaz de ser o momento de maior surpresa dentro daquilo que são grandes referências pop e que nos fazem falar e pensar. E portanto, é assim um misto entre realidade e ficção que me deixou a ponderar se isto fazia grande sentido. Aliás, nós na altura falámos sobre a coisa. E portanto, do ponto de vista da ficção, diria que foi a coisa que me deixou assim mais boquiaberta.

Ainda bem que te lembraste disso.

Tu também já não te lembravas.

O quê? O James Bond morreu. O quê? Não vi o filme.

E não estava a contar com isso. Lembro-me de sair da sala de cinema, aliás, saímos todos juntos.

Estarrecidos.

Não estava à espera daquilo.

Pois, ninguém estava à espera, lá está.

Bruno Vieira Amaral, alguma coisa que te tenha surpreendido e que leves deste ano como grande surpresa?

Eu vou entrar no ritmo aqui dos meus colegas e vou dizer: "Bem, a grande surpresa do ano foi a ausência de surpresas." Não, não vou nada. Houve uma coisa que me surpreendeu. Houve uma coisa que me surpreendeu mesmo, acho que foi das melhores coisas que vi este ano. Espero eu que seja deste ano, agora pensando bem, se calhar já foi do ano passado. Que foi aquele especial de comédia e música do Bo Burnham O Inside, que eu falei aqui disso na altura e realmente foi uma surpresa. Eu quando estava aqui a fazer a retrospectiva do ano, houve coisas que eu gostei muito, mas já estava à espera de gostar ou já sabia o suficiente para ter uma ideia do que me esperava. E com este especial eu não fazia a mínima ideia do que era aquilo quando comecei a ver. E é talvez uma experiência rara hoje em dia, porque nós quando vamos ver ou ler ou ouvir alguma coisa, já levamos um excesso de informação, de bagagem, que ou cria expectativas muito elevadas ou faz-nos torcer logo o nariz à partida. E eu aqui não fazia ideia de quem era o autor, não sabia qual era o conceito daquilo, comecei só a ver. E foi uma experiência extraordinária. Acho que é a grande obra, pelo menos das que vi este ano, a primeira grande obra pós-pandémica ou durante a pandemia, sobre o que é estar confinado e sobre as possibilidades de criação artística neste mundo tão estranho em que estamos a viver. De facto, não vi nada que refletisse tão bem o tempo que estamos a viver como este Bo Burnham Inside, que acho que está na Netflix.

Sim, na Netflix. Muito bem, surpresas arrumadas. Vamos ao que importa, que são as desilusões. Pedro Boucher Mendes, a maior desilusão do ano.

A maior desilusão do ano, e correndo o risco de ser mal entendido, mas pronto, é a vida, foi a vacinação. No fundo, a esperança de 2021 era que depois de todos vacinados, isto passasse. E andámos meses, perguntasse: "Já tinhas ido? E já tinhas levado a segunda dose?" E a trocar marcas de vacinas. "Eu levei esta, a minha tia levou aquela, a minha mãe aquela outra" e não sei o quê, e seis meses, e três semanas, e sempre o vice-almirante ao comando das operações. Houve algum empolgamento, acho eu, e até individual, coletivo com certeza, mas até individual.

E criou essa figura pop do vice-almirante.

Certo. No fundo, foi uma grande festa, uma grande jantarada, um grande barbecue que organizamos, que planeamos, aliás, e depois choveu. Não estou a dizer que a vacinação é inútil, pelo contrário, acho que pelos vistos, há evidência científica que protege, de facto, sobretudo as pessoas de risco, e que ajuda a criar mais resistência ao vírus. Nesse sentido, é evidente que a vacinação é um sucesso, mas é mais o que nós estávamos à espera, a nossa expectativa de que depois de toda a gente vacinada, o vírus passaria a ser uma espécie de constipação irritante. Mas não, pelos vistos, ou pelo menos a avaliar do que andam a promover os governos, pelo menos na Europa e nos Estados Unidos, isto é para continuar a ser levado a sério, tanto que há restrições X, Y, Z e nos outros países há restrições mais assim e mais assado. É como se tivesse sido inútil estar vacinado ou usar máscara, ou lavar as mãos.

Pedro, deixa-me só fazer um comentário em relação a essa questão da vacinação, porque eu nunca tinha pensado dessa perspectiva, mas a verdade é que a não resolução do problema acaba por ser um desfavor para a vacinação, para a ideia de vacinação em geral. Nós, os portugueses, mas noutros países também, mas os portugueses em particular, confiam muito nas vacinas e pela história das vacinas, com a erradicação de algumas doenças através das vacinas, está aí a prová-lo e a justificar essa confiança. E esta coisa da terceira dose e da eventual quarta dose, que não protege completamente, acaba por minar um pouco a confiança das pessoas na vacinação. Ou seja, nós nos vacinamos em miúdos contra aquelas doenças todas de sarampo, e vacinamos os nossos filhos. Acreditamos que a vacina impede a doença. E esta vacina não impede, e acho que acaba por minar um pouco a confiança generalizada que havia nas vacinas.

Sim, e falando por mim, pelo menos o meu desejo para 2022 seria que os governos, incluindo o nosso, ou sobretudo o nosso, tratassem as pessoas como adultas. E que nos digam simplesmente: "Bom, temos essas vacinas, por favor, vacinem-se, mas nada garante que não venha uma variante assim ou assado, que possa implicar outro tipo de tratamentos ou de profilaxia." Eu acho que se houve fracasso na gestão desta pandemia, e um dia isso será certamente estudado e analisado, teve a ver com este excesso de receio de tratar as pessoas como adultas e responsáveis, que há risco na vida. E que as pessoas que dizem coisas como eu estou a dizer agora nos últimos minutos, estejam imediatamente a ser acusadas de serem negacionistas e que se eu for parar ao hospital, que não mereço tratamento e não sei o quê. Estamos a atingir uma polarização que me parece altamente discutível e que merece reflexão de todos, a começar pelos governantes e os especialistas, que obviamente nos governam nestes últimos dois anos. Eu sinto-me governado pelos especialistas e não propriamente por políticos, e a ideia é sermos governados por políticos.

Em frente nas desilusões. Maria Ramos Silva, qual é a tua?

Olha, eu trago duas. Para começar, ver como as pessoas não estão preparadas para o excesso de realidade na ficção. Há uma história engraçada, diz que quando o Papa Inocêncio X viu o seu retrato pintado por Velázquez, terá comentado: "Troppo vero", demasiado verdadeiro, assustou-se com aquilo. E eu acho que isto acontece-nos muitas vezes nesta conjugação entre realidade e ficção, e notou-se especialmente com o regresso do "Sex and the City", naquela versão "And Just Like That". Eu achei muito deprimente a forma como Aquelas protagonistas foram atacadas, sobretudo nas redes sociais, como é evidente, caixas de comentários, where else, por estarem mais velhas, com rugas, com cabelos brancos, quando, na verdade, se havia algum interesse no regresso, era precisamente para mostrar que aquelas mulheres também envelhecem como as outras. Elas depois até responderam à altura, mas fica sempre esta nota. E depois, o vírus continua, como o Pedro referia, é uma chatice. E também continua outra coisa não menos chata, que é a cultura de cancelamento ou a ameaça de cancelamento também, que pelo visto ainda não foi enterrada e está para durar. Temos uma série de casos. Eu recordo-me do caso do Dave Chappelle, e depois desse, também um muito curioso, com o ex Monty Python, o Terry Gilliam, agora mais recentemente, que foi cancelado no Old Vic, por recomendar precisamente ao seu público: "Vejam aquele tipo provocador chamado Dave Chappelle." Enfim, ele ia dirigir o musical do Stephen Sondheim, e chapéu. E parece que não vai mesmo acontecer. Portanto, um dos meus desejos para 2022 é que as pessoas ganhem um bocadinho mais de juízo, talvez.

Isto é uma maravilha, vocês expõem as desilusões e fazem os desejos. Assim vale a pena.

É assim.

Assim vale a pena. Bruno Vieira Amaral, a grande desilusão do ano. É uma pergunta, atenção, não foi o Bruno Vieira Amaral que ia garantir.

A grande desilusão. Também deve ter sido. Mal seria. É bom sermos os maiores em qualquer coisa, nem que seja em desilusões. A minha maior desilusão não foi assim uma grande desilusão, foi uma desilusãozinha, uma coisinha também sem grande importância. Havia um filme para o qual eu tinha grandes expectativas, que era o "Uma Miúda com Potencial" e que no final me deixou com um encolher de ombros. Ok, não era exatamente aquilo.

Gostei muito dessa onomatopeia.

É porque a história, de facto, tinha muito potencial, como a miúda do filme, tinha muito potencial, mas depois parece que não teve a expressão adequada. Pelo menos eu senti isso. Mas lá está, eu gostei do filme, até. Não foi uma grande desilusão, foi uma pequena desilusão para as expectativas que eu tinha, que eram elevadas para o filme, mas também não veem mal nenhum ao mundo por causa disso. E até é um filme que eu recomendo, porque é um filme que se vê bem. As minhas expectativas é que eram muito elevadas para este "Uma Miúda com Potencial".

Já sabemos que o segredo da felicidade é baixar as expectativas.

É claro, se isso não é o segredo.

Agora, próximo capítulo. Eu queria saber o que vos fez muito feliz. Pode ser um livro, ou mais, ou um disco, ou uma série, ou não sei, um prato, ou qualquer coisa. Pedro.

Sim, respondendo de uma forma criativa, grande surpresa do ano, o homem do ano e aquilo que me fez muito feliz foi o Sporting ter vencido o campeonato.

Já cá faltava.

Era de todo inesperado.

Figura do ano, Rúben Amorim. Filme do ano, Sporting.

Mas é uma estrela, o Rúben é uma estrela.

É, óbvio.

Não só é uma estrela, como para mim, o feito que ele conseguiu, ele e a sua equipa, os seus jogadores e a sua equipa técnica, é um feito-

É um dos grandes feitos da história da humanidade. Vamos pôr as coisas assim.

Não, mas o João ia dizer: "O Rúben para mim é como um filho." Pensava que ele ia dizer isto.

Quando eu puder falar, eu digo-te o que eu ia dizer. Enquanto que o vice-almirante Gouveia e Melo, na vacinação, teve todo o apoio, como deveria ser, obviamente, e todos os meios possíveis e imaginários por parte da administração central e do governo e de toda a gente e das autarquias, é importante sublinhar isto, voltando à vacinação e criando aqui um paralelo, a verdade é que o Sporting-

Rúben Amorim teve o Varandas.

O Sporting não teve, não tinha os recursos de outros clubes mais poderosos, certamente mais influentes e com adeptos mais dignos do futebol português, e conseguiu ainda assim ser campeão. E depois muita gente disse que talvez tivesse sido por causa da pandemia, não havia público nos estádios. A verdade é que o Sporting vai virar o ano em circunstância de poder revalidar o título. Portanto, o Sporting está à frente com o Porto. E bem, fica perto, mas a verdade é que o que Rúben Amorim conseguiu com o Sporting, eu acho que é talvez dos principais feitos de 2021. Certamente para mim foi muitíssimo importante e altamente satisfatório que o Sporting tivesse vencido o título. E atrevo-me até a dizer, aliás, já o escrevi, que Rúben Amorim talvez seja o treinador mais importante na história do futebol do Sporting. Vamos ver o que 2022 nos traz.

Ponto, mic drop. É assim que se fala. Agora até fiquei perdido. Maria Ramos Silva, o que te fez mais feliz?

Eu não vou falar nada daquilo, como devem calcular, de Sporting e filhos.

Mas também não vais falar do Benfica.

Também não, não.

Eu vou falar do Sporting.

Muito bem. Olha, eu fiquei muito contente por ver filas e gente em museus. Continua a ser um ano atípico, o que só por si também traz aqui uma nota extra interessante. Mas nós muitas vezes temos a sensação e somos muito duros com os nossos próprios hábitos ou com aquilo que achamos que são os hábitos de muitos portugueses, que é achar que as pessoas não vão a coisas nenhumas e que os museus estão sempre vazios e que ninguém quer ver nada, e isso é totalmente ao lado. Muitas vezes não é isso que acontece. Eu recordo-me, por exemplo, de tentar ir ver a exposição do RG na Gulbenkian e estar uma fila enormíssima. Recordo-me também de entrar em museus menos conhecidos, por exemplo, o Museu do Dinheiro, que é uma coisa que recomendo, grátis ainda por cima. Levem os miúdos, aquilo é ligeiríssimo e tem sempre gente, portugueses, portanto não é só uma coisa de atração para estrangeiros. É uma notícia que me deixa sempre muito feliz. Depois o facto também de ter sido um ano em que nasceram novas livrarias, continuar a apostar-se num mercado sempre tão difícil. Por exemplo, os livros de bolso da Penguin, também uma nota interessante. E depois coisas que me deixaram feliz em casa, produções que se calhar também podem ganhar alguns prémios. Nós falámos das nomeações na semana passada. Por exemplo, a Kate Winslet no "Mare of Easttown", uma belíssima série, se não viram, por favor, vejam. O facto de ter descoberto que o Nobel, apesar de tudo, ainda serve para alguma coisa. Eu comecei a ler a Louise Glück há pouquíssimo tempo, ando a ler o "Ararat" e de facto é uma bela surpresa e eu provavelmente não teria descoberto esta senhora se não fosse através do Prémio Nobel. Perceber também que há aqui um caminho interessante na música lusófona, que já não está apenas reservada a um nicho. Estar a conta de lançamentos como o do Julinho, Dino Santiago, os Fogo Fogo também têm um belo álbum deste ano e que conseguem pôr aqui toda a gente a dançar sem grandes restrições. E por fim, terminar o ano em beleza no sofá, até nos doerem as costas, com oito horas incríveis com os grandes Beatles. Portanto, não foi o pior dos anos.

Bruno Vieira Amaral, vamos acabar com isto. Não temos tempo para mais e vamos fechar o ano contigo e com aquilo que te fez mais feliz.

O que me fez mais feliz foi o concerto do Caetano Veloso no Coliseu e também o concerto do Gilberto Gil. Por ser o Caetano Veloso, por ser o Gilberto Gil e por ser um concerto ao vivo, com pessoas, com máscara, com certificado digital e essas coisas todas. Mas eu já tinha saudades, apesar de não ser o maior frequentador de concertos, a impossibilidade de ir fez com que tivesse muito mais vontade de assistir, de não querer perder a oportunidade. O primeiro, por acaso, tive sorte, porque alguém arranjou bilhetes à última hora. O segundo comprei com antecedência, mas foi um prazer enorme poder voltar a assistir a concertos ao vivo, ainda por cima destas duas lendas da música brasileira, música mundial, Caetano e Gilberto.

Muito bem, final do último "Pop Up" de 2021. Não fiquem tristes. Nós não ficamos, de certeza. Prometemos voltar na primeira semana de janeiro, precisamente naquela em que tudo continuará fechado. Uma maravilha. Tudo continua fechado, menos nós. É um privilégio. Até para o ano.