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Partindo desta premissa riquíssima, que é uma premissa cheia de todo tipo de conflitos, internos, externos, históricos, biográficos, até do cenário histórico, é um filme que, a meu ver, é completamente plano.
Sejam muito bem-vindos a mais um "PopUp", o vosso circo rock and roll na telefonia, com estas estrelas dos microfones, Bruno Vieira Amaral, Pedro Bucher Mendes e, na ausência da Maria Ramos Silva, mais uma vez contamos com a ilustre presença da Joana Stickine Vilela. Obrigado, Joana, por teres vindo aqui mais uma vez beira bica. Esta semana reunimos aqui o gangue para falarmos de Bruce Springsteen. Trazemos o Boss para a conversa porque está finalmente nas salas de cinema portuguesas o filme "Deliver Me From Nowhere", de Scott Cooper, que conta uma história particular de Bruce Springsteen, a história que rodeou o álbum "Nebraska", editado em 1982, que na altura foi uma mudança radical no som que vinha dando sucesso a Springsteen, som que depois haveria de retomar em 84 com o disco "Born in the USA", talvez algumas pessoas conheçam. Ora, nós fomos ver o filme, não fomos quase todos, mas fomos muitos.
75%.
75% é uma boa porcentagem, nada mal. Vamos começar pela Joana Stickine Vilela, que estava sentada ali numa fila central da sala de cinema. Joana, vou começar por uma pergunta complexa, elaborada, profunda, filosófica, que é: o que achaste do filme?
Achei que é uma pena.
Citação.
Pronto, está despachado.
Joana: "É uma pena". Vamos em frente.
Vamos.
Vamos.
Estamos a falar The Boss. Estamos a falar do homem que dá tudo em palco. Estamos a falar da estrela americana que, mesmo para quem não acompanha ou acompanhou de perto a carreira, tem pelo menos dois super exits que mexem com qualquer pessoa.
Mexem literalmente.
Mexem a todos os níveis.
Já agora, quais são esses sucessos?
O "Born to Run" e o "Born in the USA", que são muito importantes também para esta narrativa. E mesmo não sabendo nada sobre o filme, eu faço esse exercício, imagino que vocês também façam. Nós estamos a falar dos filmes e temos, se calhar, um bocadinho mais de conhecimento das coisas, porque estudamos, mas pomos-nos no lugar das pessoas.
Estudamos? Pouco. Força.
Fala por ti.
Claro.
Pomos-nos no lugar da pessoa que vai ao cinema sem saber nada. E, portanto, eu, sem saber nada, partiria com estas premissas. E chegando lá, eu não devia dizer isto, mas eu faço isto muitas vezes, que é dizer coisas que não devia.
Claro.
E o filme tem duas horas e eu estou a frisar isto, não só porque é importante, mas porque eu vou me arrepender de dizer isto, mas a quatro quintos do filme eu passei pelas brasas. E eram 11 da manhã.
Mais culpa do filme ou culpa tua?
Pois, isso tem a ver com a tua vida?
É isso. Eu sou uma pessoa que adormece nos filmes, mas à noite, normalmente.
Não antes de almoço.
Não antes de almoço. Mas também intrigada com isso, será que estou com algum problema?
Mas não foi o adormecer.
É aquele, estás ali.
Começaste a andar mais cabeçada.
Os olhos começam a fechar. Mas depois pensei assim: "Espera aí". Para começar, pensei: mas por que razão se faz um filme sobre este filme? Sobre este momento, aliás, que não é nítido no filme. Na minha opinião, e isso é, lá está, um ponto contra o filme. Quem é este Bruce Springsteen que eu não estou bem a reconhecer aqui? Também podia ser interessante, e é interessante. E por que razão é que eu adormeci?
São tudo perguntas muito válidas.
Eu vou poupar-vos aos detalhes do WebMD, que é uma página sobre medicina, e sem falar muito dos aspetos biográficos ou do disco, que se calhar vamos falar um bocadinho mais à frente. Mas isto parte de uma premissa que é, como tu disseste, o Springsteen tem, e eu falei também destes dois grandes êxitos, que são dois álbuns que o lançam completamente para a estrelato e no meio faz um álbum completamente fora. E é sobre esse álbum, e por que razão é que ele faz aquilo, e aquilo está intimamente relacionado com a vida dele, com os dramas dele, com os conflitos dele. E o filme, partindo desta premissa riquíssima, e é uma premissa cheia de todo tipo de conflitos, internos, externos, históricos, biográficos, até do cenário histórico. É um filme que, a meu ver, é completamente plano. É um filme em que há uma sucessão de acontecimentos, alguns nem se percebe bem que lá estão, outros são completamente explicados. Há uma premissa da narrativa que é: não digas, mostra. E ali eles não mostram, mas dizem.
Fazem o contrário.
"Olha, sabes que ele era", como é que se diz, "bullied", maltratado no liceu. Pronto. Olha, obrigada.
Fica pouco espaço para a interpretação de quem vê.
E, por outro lado, falta muito. Tu ficas a achar que ele é filho único. Há ali aquele universo riquíssimo familiar, que são umas fotos que passam. Não são fotos, mas parecem umas imagens. É muito plano. Se nós quisermos, ele que é um homem tão analógico e um símbolo a todos os níveis, que transpira por todos os poros. E aquele filme é completamente plano e digital.
Devia haver mais transpiração.
Eu acho que sim.
Mais transpiração. Diz.
E só dizer, se quisermos, é um bocadinho esta ideia. Hoje em dia nós ouvimos a música e até um contraponto ao disco, e podemos voltar lá. Profundamente analógico, mas nós ouvimos num formato digital em que está tudo comprimido. E este é o fim, profundamente, é que temos uma sucessão de acontecimentos sem tensão, sem conflito. Não sentes nada. E devias sentir imenso. Eu só senti mesmo no momento em que começas a ouvir os primeiros acordes do "Born to Run", logo no início, não estou a estragar nada. E ali foi: "Uau!" E depois, de repente, pronto, é isto. E há personagens que não se percebe bem por que estão lá. É assim, desculpem.
Bruno Vieira Amaral, também estavas na mesma fila central da sala de cinema. Que expectativas é que levavas quando entraste e o que é que trouxeste quando o filme acabou?
Deixa-me dizer o que eu deixei lá na sala de cinema. Deixei duas horas da minha vida. Deixei a minha alma.
Nossa!
Aquilo foi uma experiência extracorpórea, porque a certa altura fui-me embora.
Foste como cinéfilo.
Deixei lá o meu corpo.
Foste como fã de Springsteen, que também és.
Sou fã também. Acho que somos todos um pouquinho fãs do Springsteen.
O Pedro é mais ou menos, a gente lá vai.
Sim, já vamos aí. Mas há coisa de nove anos, quando saiu a autobiografia dele.
Sim.
Escrevi um texto para "O Observador". Deve estar recordado disso, não está?
Extraordinariamente bem editado.
Muito bom. O trabalho de edição é notável.
Claro.
E a autobiografia é muito mais interessante do que este filme dá a entender. Ainda que fale apenas deste período da vida do Springsteen, da vida artística e pessoal, mas centrado naquele período artístico.
Aquela cena inicial em flashback é tirada diretamente do livro, aquela coisa do bar e do pai no bar.
Sim.
Lembro-me perfeitamente disso.
Este filme é inspirado num outro livro.
Num outro livro.
Num outro livro que se centra mais neste período e na produção e na composição do Nebraska. Enquanto naquele filme do Bob Dylan, que falámos aqui, com o Timothée Chalamet.
Do ano passado.
Havia uma tensão, e a Joana falava da ausência de tensão neste filme, uma tensão quase intrínseca àquilo que se estava a contar, que é aquela transformação do Dylan, do estilo do Dylan e das repercussões culturais.
Sim, quando ele vai de acústico pra elétrico.
Exatamente.
Aqui é o contrário.
Pois, aqui ele vai de elétrico pra acústico, mas também há uma mudança. Só que, pra já não percebes muito bem de onde é que ele vem. Apesar do filme começar.
Mas eu senti isso também.
Quem era o Bruce Springsteen naquela altura e por que esta mudança é tão importante? Porque, claro, depois tu tens ali o conflito com os executivos. Mas também contado a despachar muito, até ali um pouquinho caricatural. Claro que os executivos das discográficas queriam sempre sucessos.
Claro.
Os êxitos.
São empresários.
E queriam mais do mesmo, porque aquilo estava a funcionar bem, mas não há uma verdadeira tensão, um antagonista. Mesmo que o antagonista, como no caso do Dylan, pudesse ser a sociedade que exigia uma determinada coisa e ele não queria dar mais disso. E isso não se sente muito.
Eu fiquei a pensar se o antagonista não é ele próprio, mas até que ponto isso está conseguido?
Pois, é que esses dilemas interiores são, se calhar, mais fáceis de explicar num livro do que propriamente depois mostrar em imagem, porque um filme tem que contar uma história visualmente. E aquilo que se sente aqui é uma falta de ideias pra contar esta história visualmente. E também da dificuldade que é transpor pra cinema o que são essencialmente dilemas interiores. E depois já podemos falar disso, também a questão da inspiração, da composição, de como é que um artista faz o seu trabalho, de captar esses momentos. Isso é muito difícil de captar visualmente sem cair em clichês já muito batidos, de uma certa angústia quase física, de estar ali sozinho e angustiado e até deprimido. E o filme pega nesses clichês e serve-os. Uma pessoa pergunta: "Mas qual foi a verdadeira motivação para fazer o filme?" E me parece que estes filmes apontam muito. A Joana falava da questão de quem não sabe quem era o Bruce Springsteen. Pois, mas estes filmes, se calhar, são feitos pra quem? Pra quem sabe. E a pensar precisamente nesse tipo de público, já conhece, e na esperança de que os fãs do Bruce Springsteen vão todos ver o filme. Eu não sei se vão ter bons resultados nisso.
Mas o filme é autorizado, não é? Certo?
Não só autorizado, como ele colaborou.
Não sei até que ponto ele foi uma espécie de consultor.
Sim.
E foi fotografado na rodagem do filme.
Ele tinha uma cadeira com o nome dele.
Exato.
É de supor, enfim, não vi o filme, mas é de supor que faça parte de um plano pós-vida. Ou seja, deixar a sua legacy ou construir a sua legacy. E agora também: "Olha, Bruce, queremos fazer um filme a teu respeito." "Ah, OK, então vou pensar nisso."
Um plano, se calhar, ainda até mais próximo, que vai sair agora, as tais gravações de Nebraska que nunca foram editadas com a banda e que depois foram deitadas fora.
Mas independente disso, porque o Springsteen já tem dinheiro mais do que suficiente.
Sim, claro.
Para não ter que ter-
Não precisa deste
...deste tipo de lógicas comerciais.
Claro.
Pronto, ou seja, eu acho que ele quer, e tem toda a legitimidade e até o direito de tentar construir o seu futuro a seguir a desaparecer, porque ele, apesar de tudo, tem 76 anos, é pouco mais, não fica minha mãe. Não consigo imaginar a minha mãe no palco.
Olha, cá está. A imagem que faltava.
Com o Steve Van Zandt, mas pronto. Mas a carreira do Springsteen
É uma carreira de ocupar, creio eu, espaços que estão vazios. Ele começa naquela América do Vietnã, ali o Vietnã ainda está a decorrer. Acho que começa em 71, uma coisa assim. E depois vai por uma América em que havia enormes filas para abastecer o carro, porque então se dá a crise do petróleo. Nova York, no final dos anos 70, era uma cidade criminosa, parecia Gotham.
Estava na falência.
Isso, e crimes por todo lado. E o Springsteen, no fundo, constrói uma carreira numa espécie de América destroçada, sendo que ele beneficia com isso. Ele é um tipo que está no ferro-velho e vai apanhando os destroços. É tudo bastante bem construído. Basta ver que toda a gente fala hoje de fake news, de inteligência artificial e tudo, muito assustado. Mas eu nunca vi ninguém assustado pelo facto dele, naquele teledisco do "Born in the U.S.A.", aquela miúda gira, morena, que salta para o palco a dançar.
No "Dancing in the Dark"?
Sim. Que é-
Courtney Cox.
Courtney Cox. Isso é fake. Mas não vemos ninguém assustado com essas fake news de 1984. Pronto, essa só fica aqui a nota. Mas eu durante anos pensava que aquilo era verdadeiro. Não sei se vocês achavam ou não.
Foste enganado.
Tinha 14 anos quando vi o teledisco.
Enganou-te.
Eu pensava que estavam a filmar. Este tipo está com sorte, estavam a filmar um teledisco.
E aos 14 anos ficaste fã?
E saiu uma miúda gira do público para dançar. Não, deixa-me só reforçar isso, já te respondo. Ou seja, na carreira de Springsteen, e de muitos outros, obviamente, há um nível de pensamento e de preparação que nós às vezes quando os vemos a transpirar e com camisa sem mangas. Por acaso nunca usei, nunca tirei mangas a uma camisa para usar assim.
Mas ele tem bons braços.
Mas não parece razão.
Se bem que o ator tem mais músculo ainda.
Ou seja, o Springsteen é sempre-
Espera, Tiago
...é o rocker relutante. "Que chatice ter que fazer discos e gravar".
Como se aquilo acontecesse tudo-
"Que chatice ter que ganhar milhões e milhões de dólares".
E ao mesmo tempo manter a aura meio operária, working class.
Mas eu gosto dessa voz.
Não queria.
É a voz do Springsteen. Se tivéssemos dobragens em Portugal, o Pedro ia fazer.
Eu nunca fui muito fã do Bruce Springsteen, deste Heartland Rock nunca fui, eu gostava mais de outras coisas.
Outras coisas.
Achei graça quando o vi no Tunnel of Love, com aquelas gravatas.
Sim.
O gajo afinal não veste só ganga.
Espera aí, deixa-me dar uma hipótese.
Mas vi-o ao vivo e, de facto, é extraordinário performe.
É impressionante.
Os concertos têm seis horas.
Seis não, mas às vezes chegam perto das 16h.
A tua pergunta no alinhamento era sobre o Jeremy Allen White, isto parece propósito, porque eu estou a ver a série "Shameless", que revelou este ator.
Antes de "The Bear", sim.
E depois, graças à natureza com a qual eu fui abençoado, eu tenho mesmo que ver todas as temporadas, que eu acho que são 11.
Sim, eu estava a par dessa cantiga.
O meu pai enoitava.
E estás a gostar?
Sim, estou. Podemos falar disso com calma, eu posso ser mais detalhado.
Certo.
Este Jeremy Allen White na série "Shameless" é loiro. Mas ele tem a fisicalidade que eu vejo também em Bruce Springsteen, que o Bruce Springsteen é muito físico. Tanto que ele, antes do "Born in the U.S.A.", foi fazer treino de ginásio para ficar fisicamente apto.
Pensei que ele tivesse ido para uma fábrica. Desilusão.
Tu e os fãs. Eu também pensei que a miúda era verdadeira. Parece-me um ótimo casting, parece-me excelente. Não vi o filme, mas vi o trailer. Parece-me excelente.
Será que ainda vais ver o filme depois destes camaradas terem feito estes comentários?
Há dois, três personagens na série "Shameless" com as quais eu me envolvi, digamos assim, e sem dúvida nenhuma que a personagem que ele faz, que é o Lip, é uma dessas.
Joana, vamos provavelmente continuar este tópico na segunda parte, mas queria começar já a perguntar-te, ainda sobre Jeremy Allen White, se reconheceste nele o Bruce Springsteen, se te pareceu uma boa escolha, porque há a questão de antes de ver o filme. Sim, senhor, parece uma boa escolha, mas e depois de ver o filme, foi uma boa escolha?
Eu vou aproveitar esta pergunta para discordar do Pedro.
Para sair.
Para discordar do Pedro, que é sempre bom e não tinha tido a oportunidade ainda. Eu não sei se é uma questão de Pantone.
E para onde é que isto vai?
Mas tu falaste da fisicalidade. Ainda assim, mesmo sendo o Jeremy Allen White um tipo muito bombado, eu não senti aquela rudeza mais natural do Springsteen.
Aquela que não é sequer tão natural.
Mas que reconhecemos como natural.
Eu tenho sentido um grande preconceito de classe ao longo desta intervenção do Pedro. Em relação ao fato de uma pessoa da classe trabalhadora poder ganhar dinheiro e continuar a falar da classe trabalhadora. Acho curioso e podia ser outro tema.
O sonho americano.
De repente, tu tornas-te uma grande estrela e a partir daí vais começar a falar dos teus milhões, como se pudesses apagar todo o teu passado.
Temos que ir num destes sábados para os Restadores falar sobre isso.
Para os Restauradores?
Sim, com umas bandeiras.
Pensava que era para aqueles frangos muito bons.
Eu só nos de sequa, não vou aos frangos.
Aí tens de ser tu a convidar. Mas vou só dizer muito rapidamente.
Muito rapidamente.
Eu depois estudei um pouco e percebi que o Bruce Springsteen não só apoiou este filme, ou seja, ele esteve presente, ele abençoou, como o Jeremy Allen White teve aulas de canto, aulas de guitarra e tudo aquilo que nós ouvimos no filme é de facto cantado por ele. Isso surpreendeu-me muito, porque logo no início eu estou a ouvir o "Born to Run" e eu estava à espera de ver o Bruce Springsteen aparecer e de repente aparece o Jeremy Allen White. Eu disse: "Espera aí, não é este, está errado."
Vamos fazer uma coisa. Espera. Não interrompas o teu raciocínio, fica só com a parte musical. Nós temos que fazer um curto intervalo e voltamos já. Estamos de regresso ao "PopUp" com Bruno Viera Amaral, Pedro Boucherie Mendes e esta semana também com a Joana Sicchini Villela, já que a Maria Ramos Silva está ausente por razões de descanso e merecido. Estamos aqui à volta de Bruce Springsteen, e não só, a propósito da estreia do filme "Deliver Me from Nowhere". Esta semana chega às salas portuguesas. Joana, só para terminar o raciocínio, falávamos do Jeremy Allen White como protagonista no papel de Bruce Springsteen. Estavas a falar da parte mais musical. Aliás, sairá um álbum ou algo parecido com as canções que ele gravou.
Portanto, vai ser o primeiro registo.
Aliás, eu acho que aconteceu isso com o Chalamet também. A banda sonora tinha as gravações dele. As gravações dele, sim. Não sei se ficou alguma coisa por acrescentar da primeira parte em relação ao desempenho dele.
Ia só dizer que fiquei muito impressionada com essa parte, ou seja, com a entrega técnica de um ator que diz: "Eu vou encarnar esta personagem que tem um timbre único", nem sei se aquilo se pode chamar timbre, aquela forma de cantar único, ou únicos. Isto é comum, eles estudam guitarra, nem que seja para porem os dedos como deve ser.
Para saberem fazer acordes.
Mas é de facto ele a cantar, a interpretar as canções. E isso surpreendeu muito. É notável, o próprio Springsteen ficou surpreendido e comentou. Agora, eu não o senti agarrado. Eu já não me lembro dele no "Shameless", quer dizer, não vi as 11 temporadas.
Também não vi, só vi nove.
Pronto, vi uma, gostei, mas na altura também não vi mais.
Talvez mude opinião ao ver só a primeira. Pode acontecer. Mas viste o "The Bear", não é?
E vi o "The Bear". Ia dizer: não sinto que estou a ver o protagonista do "The Bear". Não senti isso, mas também não senti o Springsteen. Senti alguém, se calhar, um tipo perturbado, que é o que ele deverá representar ali, mas para mim ele não era o Springsteen.
Eu, tirando alguns momentos, o que vi foi exatamente o mesmo tipo do "The Bear" a sofrer horrores com imensos problemas com a própria imagem. Desculpa, eu não vi o filme, mas esse é muito provavelmente o ângulo, para usar uma palavra irritante, que a produção e o próprio Springsteen. Sim, não duvido. Insisto, o Bruce Springsteen, que é um artista de enormíssimo valor artístico, mas cultiva um lado torturado. Luta contra a injustiça. Não, ele sabota a si mesmo. No filme é na relação amorosa. É isso. "Eu não posso dar o que tu queres." Ele tem muitas canções sobre fugir, seja do que for. Exato. Seja de carro ou seja a cavalo. Mas depois é uma utopia lendária. Sim. Bruno Viera Amaral, estamos oficialmente, e já há algum tempo, na moda dos biopics. A verdade é que eu depois fiquei a pensar nisto. É uma tradição antiga. Sim, não é novo. Mas, porém, eu também acho que há uma série de estrelas. Eu estou agora a lembrar: Bob Dylan, Elton John, Bruce Springsteen. Freddie Mercury, até do Elvis, que é diferente. Alguns deles já morreram, outros ainda não, mas há aquela questão de que há uma certa geração que quando terminar, há um tipo de estrela que já não vai existir mais, porque o mundo pop funciona de outra maneira. Sim, mas ainda há muitos por explorar. Ainda faltam muitos. Daqui a 40 anos, desculpa, vai haver um da Taylor Swift, de certeza. Ao menos. Mas parece que da mesma forma que eles venderam todos os direitos à Apple. Foram vendendo os direitos por 300 e tal milhões. Parece que fazer um filme sobre a vida deles agora faz parte do catálogo. Ou seja, não tens os action men, não tens o merchandising. Tens um filme. Tens um filme. Do Elton John, no caso que tu falaste.
Eu não vou dizer que é uma nova tendência, porque lá está, estava me lembrar do "La Bamba", por exemplo, nos anos 80. Do filme, eu não sei como é que é o título em português, mas é a história do Buddy Holly, de 1977, 78, que até valeu uma nomeação de melhor ator a um ator normalmente secundário, o Gary Busey, um daqueles mauzões com aquela cara de mau de cinema norte-americano. Exatamente, entra no Point Break.
Fala como o Springsteen.
Como o Springsteen.
Exatamente.
E isso é outra coisa. Normalmente são papéis que dão muito reconhecimento ao ator que os faz e merece.
O Val Kilmer ficou para sempre como Jim Morrison.
Como Jim Morrison. Portanto, é algo que não é novo, que agora se tem intensificado, mas tem se intensificado, eu creio que nesta vertente um pouco de juntar ao catálogo de apresentação do músico ou da banda, um filme biográfico. E muitas vezes não se percebe, exato, é aquilo que eu dizia na primeira parte, não se percebe exatamente qual é a motivação dos artistas que estão a fazer aquilo. Tu percebes a motivação, talvez até melhor no caso do filme do Elvis, como é que ela se chama?
Baz Luhrmann.
Do Baz Luhrmann. Por exemplo, o Gus Van Sant, quando realizou aquele filme, que é vagamente inspirado nos últimos dias do Kurt Cobain. Há ali uma ideia.
"Last Days", não é?
O "Last Days". Há ali uma ideia cinematográfica, pessoal, artística, e o resto parece muitas vezes ser um bocadinho a adaptação.
Muito cronológico, não é só.
É quadradinhos, é a história ilustrada de Bruce Springsteen ou a história ilustrada do Bob Dylan, mesmo que não seja sobre a vida toda dele e a carreira toda, mas sobre um momento. E artisticamente parecem-me filmes muito insuficientes. Daí eu dizer que faz mais sentido como mais uma peça do catálogo de apresentação dos músicos do que propriamente como objetos artísticos autônomos que partiram de uma motivação pessoal dos realizadores. E parecem-me ser mais coisas que vêm muito a calhar para os artistas representados. Daí que, não seja também de estranhar, que o Springsteen e outros estejam envolvidos na produção e acompanhem o processo, como os Queen também estiveram no processo, acompanharam todo o processo de produção do filme do "Bohemian Rhapsody", que é um péssimo filme.
Péssimo.
Aliás, como quase todos os filmes são péssimos, e eu no outro dia estava a rever o filme, e até a atuação do Rami Malek ganhou o Oscar. Meu Deus, aquilo às vezes é doloroso, é painful to watch.
Mas por curiosidade, se achas tão mau, por que é que reviste?
Revi, porque eu gosto dos Queen.
Aquilo é fã.
Eu também gosto.
Estava a dar na televisão e disse: "Deixa cá ver outra vez".
Vou me castigar. Não, ou então foi: "Deixa ver se foi problema meu na altura e isto afinal ainda é bom".
Não, ainda era pior. Eu na altura não tinha desgostado tanto.
Deixa-me pegar nisto, o "Bohemian Rhapsody". Ouvir músicas com as quais estamos familiarizados numa sala de cinema é uma experiência incrível.
Claro. Deixa-me só dizer isto. Não viste este filme, mas pra mim os melhores momentos em que o filme ganha vida, de facto, são os momentos musicais.
Mas não são tantos assim, não é?
Por isso é que o filme está morto. É que leva ali duas injeções.
Tu sentes falta da música.
Logo do início e depois aquele momento.
O "Bohemian Rhapsody" no estúdio. É extraordinário, esse é muito bem conseguido.
Só mesmo pra concluir. Eu vou falar depois no próximo programa das sugestões do documentário sobre o Scorsese, e no documentário aparecem vários excertos dos documentários musicais que ele fez, incluindo aquele com The Band.
"The Last Waltz".
"The Last Waltz". E tu vês como um filme pode ser altamente pessoal, artístico e fazer jus à música. Também que aquilo era um documentário.
Tanto que ele depois foi viver com o Robbie Robertson e consumiram tudo o que havia pra consumir.
Isso, também há essa parte.
Pedro Boucherie Mendes.
Deixa-me só pegar aqui no "Bohemian Rhapsody". "Bohemian Rhapsody" e "Mamma Mia" são dois exemplos de filmes que não são grande coisa, mas dos quais nós extraímos muito. Eu vi o "Bohemian Rhapsody", fui ver.
No cinema, isto é?
Sim, primeira parte vais vendo, o Freddie Mercury sai mais ou menos do armário, mas depois não sai, depois há ali uma coisa um bocadinho esquisita. Mas depois a última parte do filme, que é uma recriação fiel e em tempo real da atuação dos Queen no Live Aid. Que foi quando os Queen, pouco tempo antes da morte de Freddie Mercury, passaram a ser definitivamente aceitos pelas outras bandas, pelo establishment da pop rock.
Pela autoridade pop rock.
Incluindo o Springsteen. E essa atuação ao vivo, que está no YouTube, a verdadeira, é um momento inacreditavelmente intenso de ver em cinema. Tanto assim é que eu, não é que eu seja bom pai, mas às vezes gostava de ser. Levei os meus filhos pra ver. Fui ver uma segunda vez um filme. Eu acho que foi a primeira vez na vida que eu fui ver um filme uma segunda vez na janela da exibição. "Vocês têm que ver, que isto é incrível, vão ver a segunda parte." Os putos não adormeceram.
Mas quase.
Mas quase. Portanto, aquilo não lhes diz nada, porque eles não têm o recall de ter crescido a ouvir Queen. Deixa-me dizer isto: essa recriação quase plano a plano acho que é o grande momento cinematográfico do filme, porque há ali uma ideia. Vamos recriar isto plano a plano, quase como aquele projeto do Gus Van Sant de recriar o "Psycho" plano a plano. Porque o realizador podia perfeitamente ter optado por fazer uma coisa completamente diferente. Ou só dar uns minutinhos. Mas não, ele faz essa recriação quase plano a plano e tu podes seguir as duas. Aliás, há no YouTube vídeos que comparam. E há aí pelo menos uma ideia visual da coisa.
Portanto, quem viu o "Live Aid" na altura certa e depois vê o filme, a experiência é muito mais intensa.
Satisfatória.
Recompensadora, satisfatória. A mesma coisa se passa com o "Mamma Mia". Mas os filmes sobre artistas, normalmente, nós quase que podemos escrever o guião, que é a parte do bater à porta, entregar uma cassete e ninguém ligar. E depois começam os primeiros êxitos, depois os namoricos, depois as drogas, e depois o sucesso. E depois a morte muito rápido.
E depois o momento de dúvida. E agora para onde é que eu vou? Quem vai me entregar?
Depois uma garrafa de Jack Daniel's ou de vodka por dia, ou uma por hora, não sei bem como é que é, não sou grande apreciador. E é difícil um pouco seguir este guião. Não estou a ver que venhamos a ter um filme sobre a vida de Michael Jackson com música e com as coisas que ele terá feito com as crianças. Quando ou se fizerem um filme sobre o Jackson, será ou sobre uma parte.
Sim, vai ser uma escolha complexa, de facto.
Em princípio, não vão combinar as duas.
Eu, por acaso, gostava muito de ver um filme sobre o Prince.
Olha, aí está uma ideia.
Eu não.
Tu vais estar no género sequar.
Exato.
Ruer ostras.
A atuar, a cadar.
Tu tinhas no guião filmes de biopics de músicas que eu gostaria que existissem, não é?
Sim.
O do Prince não é um deles.
Não.
Mas se quiseres eu ponho aqui.
Eles já têm o "Purple Rain".
Amália Rodrigues.
Já foi feito.
Esse já foi. Não fui eu.
Não é em bom nem mau.
Para onde já não há prémio.
Com o nível de dinheiro que existe no cinema americano.
A questão da produção, a eterna questão da produção. Sim, porque eu também te perguntava nomes portugueses.
O Rui Reininho, claramente. E depois o Bowie, o Hendrix e o Cobain são três nomes evidentes. Sobretudo o Kurt Cobain, que eu acho que daria um ótimo filme, até porque aquela época da história da humanidade, o final dos anos 80, princípio dos anos 90, é uma época que merece ser apanhada em filme. Não tenho a certeza que tenha sido. Há o filme "Singles", que é dessa altura. Mas com os olhos com óculos de 2025, não creio que essa altura tenha sido bem apanhada ainda.
E o "Last Days" é um filme que ainda que seja sobre Kurt Cobain, pode não ser bem sobre Kurt Cobain.
É como o "24 Hours Party People", sabes qual é?
Sei.
Que é sobre aquele tempo, cria um "24 Hours Party People" sobre o Cobain.
Ia dizer que esse é um belo filme, "24 Hours".
Estás a concordar comigo, então?
Sim. Joana, uma pergunta um pouco diferente. Saíste do cinema e ouviste o álbum Nebraska. E concluíste, naturalmente, que é um ótimo disco e que se calhar essa ideia não está bem no filme. Por acaso há uma coisa interessante que é: o filme passa muito tempo naquele dilema de fazer um disco. Ele quer fazer um disco, tem aqueles demónios interiores, é um disco muito diferente. Faz o disco, mas depois, não vou dizer o fim, mas falta ali qualquer coisa. Desculpa, Tiago, estou aqui a arruinar-te o programa.
Este programa não tem salvação.
Não vou voltar.
Não, nós já ganhámos, não vamos voltar a ganhar o prémio.
Só em relação ao que o Pedro disse. Ia só acrescentar duas ou três notas. Nota número um é que o primeiro disco que eu comprei na vida foi os Queen "Live at Wembley" e comprei com um cheque disco. E aqui há uma referência para o Pedro e para um grupo restrito de pessoas no Centro Comercial das Palmeiras.
Muito bem, na One Off?
Não me lembro do nome da loja. Não me lembro do nome da loja. Mas era um centro comercial em Nova Oeiras. Tinha também um cinema.
Isto está bonito. Nova Oeiras.
Segunda nota é que há uma belíssima biografia da Amália Rodrigues escrita pelo Miguel Carvalho.
É verdade.
E mostra como poderia ser extraordinário. Concordo absolutamente contigo, daria uma bela biografia. E finalmente, só a questão desta ideia da dificuldade ou facilidade, e eu encontro o que tu estás a dizer. Fazer um filme sobre um artista é o quê? Este exercício que tu fizeste. Tu às tantas podes fazer isso com qualquer tema. Tu tens que escolher um ângulo. E aqui o realizador e os argumentistas escolheram o ângulo, e é um ângulo muito fechado até. É aquele momento e é aquele disco O disco, que eu depois fui ouvir e é absolutamente extraordinário, eu não o conhecia, porque sou uma inculta.
Já agora, para quem não sabe, é um disco que o Bruce Springsteen grava sozinho num quarto, é acústico.
Exatamente.
Péssimo som, péssimo entre aspas, porque depois aquilo resulta muito bem. Tecnicamente falando.
Mas isso é que é interessante.
Isso faz parte da magia do disco.
E ainda é mais interessante hoje. Mas nada disso passa no filme. Aliás, eu pensei: "Espera aí, mas por que ele faz um filme sobre este disco e nós quase não ouvimos nada do disco no filme?"
Os dois melhores momentos musicais são de músicas que não estão nesse álbum.
Que não estão nesse álbum. E eu fui ouvir o álbum e pensei: "Espera aí, eu não preciso de ver o filme, basta ouvir este álbum". E depois ouvi um programa que recomendei da última vez que estive cá, um podcast que é o, disse mal o nome da outra vez e agora se calhar vou dizer, o "Star Tracker"? "Track Star".
"Track Star".
"Track Star", pronto. Em que ele fala com o argumentista, o anfitrião, o host, com o Jeremy Allen White, com uma série de pessoas que estiveram envolvidas no filme, e também fala da paixão dele por esse álbum. E eu recomendo, e se forem tão incultos como eu, que oiçam isto antes e se calhar querem mesmo ir ver o filme. Aí se calhar vão perceber melhor o filme, porque no fundo aquilo preenche os buracos todos que ficam em branco. Mas nós estamos a ouvir o álbum e tem uma honestidade, uma verdade e uma força que são raríssimas de ouvir hoje em dia ou na história. É um bom ponto de partida para questionarmos a questão da técnica. Qual é a importância da técnica? Hoje em dia tens filmes irrepreensíveis do ponto de vista técnico, com efeitos especiais extraordinários, com orçamentos bilionários. E diz: "Gostaste?" "Mais ou menos". E eu acho que isso pode acontecer também com os discos.
Claro.
Este disco é um disco que conta histórias, isso também não passa no filme. É irônico, porque é um disco que são uma série de curtas histórias de um universo que se pode, de uma forma muito genérica ou generalista, designar como americana.
Ele dá ali uns indícios quando ele está a escrever e da Flannery O'Connor e dos joelhos sangrentos.
Exatamente. Mas são uma série de histórias que ele está a contar ao microfone e tem a curiosidade de, eu agora vejo no quarto, porque vi no filme, vi-o no filme no quarto a escrever, mas ele está a contar aquelas histórias sozinho, sem intenção de alguma vez editar aquilo em álbum. Portanto, é uma coisa que não é feita a pensar naquilo como um resultado final, e o que sai dali é um momento de intimidade enorme e essa questão técnica. Tu podes dizer: "Ah, mas ali o som não é perfeito e ouve-se um som rufem ou uma coisa qualquer". E isso entra. Podemos dizer que isso é mais um instrumento, é mais um elemento da composição.
Deixa só, estamos quase a ir embora, mas o Pedro queira acrescentar aqui qualquer coisa.
É rápido, porque muita gente em Portugal gosta muito de Bruce Springsteen. Nada errado com isso. Mas se calhar o "Mingus e Samurais", por exemplo, do Rui Veloso e do Carlos T, também se calhar vai buscar uma portugalidade e uma portuencialidade, eu não sei qual seria a palavra, uma portuensisse do Porto, aquilo que é referente à cidade do Porto, que às vezes nós próprios, incluindo eu, claro, não notamos muito. A parelha Rui Veloso, Carlos T, cantam muito sobre um certo Portugal, sobretudo a cidade do Porto, mas também o Porto Coco.
É verdade.
E às vezes, a nós portugueses de Portugal, em Portugal, nos falta uma certa proximidade que parecemos ter mais com os Springsteens da vida. Nós parece que somos íntimos da América profunda. Vimos tantos filmes, tantas séries, lemos tantos livros, ouvimos tantos discos.
Que somos quase americanos.
E menos portugueses do que se calhar deveríamos ser, porque nós, de facto, se queremos uma terra melhor, temos de chamar a nossa terra.
Eu não disse. Agora fiquei...
Agora ficaste...
Para onde é que vais depois disto, Tiago?
Na verdade, é que nós temos que ir embora, porque chegamos ao fim do nosso tempo. Mas se calhar em breve vamos falar sobre...
É um good point.
Não, se calhar vamos falar sobre Mingus e Samurais em breve.
Os Mingus e Samurais é muito bom.
Migas com Samurais. Não sei se algum restaurante já inventou este prato. Muito bem.
É de sushi com comida tradicional portuguesa.
São peças de sushi, mas em vez de arroz, têm migas.
Peço imensa desculpa por este momento. Chegámos ao fim de mais um "Pop-Up". Vamos voltar, como sempre, na segunda-feira, em podcast, com as sugestões da semana e sigam-nos nas vossas plataformas favoritas para não perderem nenhum episódio. Até lá.