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Segunda-feira é dia de sugestões para dar sentido a mais uma semana. Para isso, os guias espirituais do PopUp já estão aqui preparadíssimos. Vamos começar pelo Bruno Vieira Amaral, que tem terrorismo para nós.
Tenho terrorismo. Eu vim para vos aterrorizar.
Conta lá, o que é que queres sugerir?
É o "Manhunt: Bin Laden", uma série documental de três episódios que está na Netflix e que conta a história da perseguição, da tentativa dos serviços americanos.
Já sabemos como é que acabou.
Já sabemos como é que acabou. Há histórias que nós sabemos como é que acabam e às quais regressamos sempre.
E vale a pena.
A de Bin Laden também é assim. Sabemos que ele foi morto pelas Forças Especiais dos Estados Unidos. Provavelmente muitas pessoas não sabem o quão difícil foi descobrir onde é que estava Bin Laden e que esse era um grande objetivo. E pode-se perguntar: mas seria assim mesmo tão importante ou era mais simbólico? Bem, a importância de apanhar e neutralizar Bin Laden está expressa na quantidade de atentados que aconteceram ou não depois de Bin Laden. De facto, a Al-Qaeda desmantelou-se, por assim dizer. Claro que depois houve o autoproclamado Estado Islâmico, mas a Al-Qaeda desapareceu. Acabou por perder a força. E temos de pensar que os atentados do 11 de setembro, em Madri em 2004, em Londres em 2005, em Bali, tudo isto nasce da Al-Qaeda. Claro que era uma organização também muito abrangente e muito flexível. No entanto, a inspiração de Bin Laden, com o objetivo claro de atacar interesses ocidentais, onde quer que fosse, essa figura não só era inspiradora, como também acabava, através dos seus braços direitos, por coordenar um pouco a estratégia. Não participava diretamente em tudo, como não participou diretamente no 11 de setembro, mas ele era a figura central. E para os Estados Unidos era, de facto, importante neutralizar Bin Laden, que tinha sido o ideólogo por trás dos atentados. Não foi ele o cérebro do 11 de setembro, não foi ele que planeou aquele ataque, mas foi ele que inspirou esta ideia de criar a necessidade de atacar o coração da América, o coração do poder ocidental. E nós vamos percebendo como é que isso foi minando também as dificuldades que os Estados Unidos sentiram para capturar Bin Laden, foi minando a própria confiança dos americanos. Afinal de contas, nós nem conseguimos apanhar o nosso maior inimigo. E foi curioso também ver que George Bush sai da presidência sem ter conseguido esse objetivo. E Barack Obama, e eu acho que aí é um dos pontos fortes do documentário, todo o momento da operação que levou à morte de Bin Laden, como é que Barack Obama gere essa situação com muitas incertezas pelo meio e depois encontra ali uma saída, toma uma opção que nós percebemos que não é fácil, não é nada fácil. Ele toma uma opção em que há muita coisa em jogo e há muita incerteza. E ao contrário do que às vezes também se pensa numas teorias um pouco conspiratórias, de que existe um poder à volta do presidente que condiciona todas as suas opções e decisões, ali percebemos claramente que aquela decisão-
Foi dele.
Dele, sozinho, mais ninguém. Ele é que manda. Ele é que mandou e ele é que tomou essa decisão. Eu acho que é um documentário muito interessante. Não sei por que foi adiada a estreia, que estava prevista para fevereiro ou março, e só estreou há duas semanas, mas também já está no top de visionamentos da Netflix e é bastante recomendável. E trago também um livrinho do Julian Barnes, um dos grandes escritores de língua inglesa, daquela geração do Ian McEwan, do Salman Rushdie, do Martin Amis. Um escritor que levou algum tempo até ser reconhecido. Em termos de público, já era reconhecido, mas os prêmios, sobretudo o Booker, insistiam em escapar. Depois lá conseguiu, com "O Sentido do Fim", esse prêmio. E este é um pequeno livro também de breves ensaios. Os romances de Julian Barnes já têm também incorporado muito este tom, este registro ensaístico, mas aqui são apenas ensaios breves e nota-se muito este estilo plácido de refletir como se não estivesse em esforço, não estando em esforço. Há aqueles escritores muito ruidosos, muito barulhentos, que vêm com fanfarra ou então vêm com explosivos, e Julian Barnes é o oposto disso. É, de facto, um escritor plácido, mas ao mesmo tempo muito profundo. Vai estar na Feira do Livro de Lisboa. Penso que não só para uma conferência, mas também para dar autógrafos.
Ide.
E recomendo este "Mudar de Ideias", um pequeno livro da Quetzal, de ensaios de Julian Barnes.
Pedro Ramos Fernandes, também tens um livro e tens um filme. Vamos começar pelo livro. Vou começar pelo filme. Pronto. Desculpa. Chegou à Prime
Sem que ninguém tenha reparado, ou pelo menos eu só reparei, o Civil War do Alex Garland.
Também reparei de forma acidental.
O Alex Garland é o autor daquele livro que deu origem ao filme The Beach, A Praia, com o DiCaprio, um filme de que eu gosto muito e que muito pouca gente gosta. Eu li o livro antes de ver o filme e adorei o livro, e ainda hoje recomendo. O Garland depois transformou-se num cineasta. Criou aquela ideia do 28 Days Later, 28 Dias Depois, aquela coisa pós-apocalíptica. Este Civil War é uma América do futuro, onde houve uma guerra civil, ou como se diz em Lisboa, "civil". Tem uma ótima Kirsten Dunst. Ela é muito boa. E o Wagner Moura, que também é um rapaz bem apessoado, vai bem.
É sim.
E o filme vai devagarinho, às vezes parece um episódio do Walking Dead, sem zumbis, mas é um filme interessante, porque é uma espécie de road movie. O objetivo da Kirsten Dunst, que é fotógrafa, é chegar à Casa Branca para fotografar o presidente, uma espécie de símbolo ainda da união ou da possível união que possa haver nos Estados Unidos. É um filme catita.
Catita, mas é bom.
Não sei se já saiu, mas já me chegou às mãos. O Estado Novo em 101 objetos, da jornalista Fernanda Cachão, uma montra da ditadura portuguesa. É um livro de capa dura, não há muitos em Portugal, da Lua de Papel, e compila objetos do Estado Novo ou associados ao Estado Novo ou associáveis ao Estado Novo. Desde o cartaz das tabernas ao edital mural das praias, ou seja, como é que as pessoas se deveriam vestir. Tem desenhos também do preso comunista, tem a televisão de Marcelo Caetano, tem, talvez o meu favorito, o teclado H César, das máquinas de escrever. Eu não sei o suficiente sobre o Estado Novo para saber se é uma obra completa ou se esquece alguma coisa óbvia.
Não é a tua especialidade.
Sim, também não tive ainda vagar ou tempo para estar a ver se há alguma coisa em falta, mas este tipo de livros fazem sempre falta, porque são livros com pequenas histórias e eu acho que não tenho a certeza que para nos conhecermos hoje e para tentarmos perceber certas coisas que acontecem, é importante voltar ao passado e ver como é que foi o percurso das coisas. O Estado Novo, como sabemos, é o regime de Salazar, que acabou em 74.
Infelizmente, para alguns. És um incendiário.
Já com esta distância temporal, o livro tem algumas partes que são até divertidas. Obviamente, não teve graça nenhuma ser um preso político, mas tem algumas partes que são divertidas e até insólitas, e é um daqueles livros que nós podemos ler um bocado e fechar e depois amanhã abrir noutra página qualquer. Acho que sim, que é altamente recomendável. O Estado Novo em 101 objetos, uma montra da ditadura portuguesa, de Fernanda Cachão.
Muito bem, deixa-me só sugerir muito rapidamente um livro que não é em português, é um livro em estrangeiro, que se chama "Girl On Girl", é da Sophie Gilbert, que é uma jornalista da revista The Atlantic. Vale o que vale, é uma teoria explicada e justificada. Eu ainda não li o livro, mas tenho muita curiosidade. Ela argumenta que a cultura pop entre as décadas de 90 e 2000, a cultura pop feminina, deixou uma geração de mulheres em conflito com elas próprias. Não sei por que é que se está a rir.
Estás para que tu elabores.
Qual é que foi a época?
Entre o final dos anos 90 e o início da primeira década do século XXI. Estamos nos anos 2000.
Mas foram as mulheres entre elas à chapada?
Não, não é chapada, não estamos a falar de violência.
É a mulher figurada.
Não estamos a falar de violência. Isto é que eu acho interessante, de como a cultura pop é tão influenciada pela, se quiserem chamar, vida real, como ao mesmo tempo consegue influenciar a vida real. E é uma coisa que funciona em círculo. E ela argumenta precisamente como é que uma influencia a outra e depois o processo aconteceu exatamente ao contrário, incutindo, se calhar, ideias ou construindo modelos ou fixando uma espécie de moral que acabou, em muitos casos, diz a autora, por resultar numa espécie de desilusão. Eu estou curioso para perceber como é que ela desmonta isto e porque explica isto.
Sim, porque numa década tu tens "Sex and the City" como "Riot Grrl". Acabas por estar ali no meio.
E eu acho isto muito curioso, acho estes fenômenos muito interessantes. E se calhar há outras pessoas que também acham.
Muito bem.
Não é só eu e os meus amigos. Mas agora vou deixar a Maria Ramos Silva brilhar. Também tens um livro.
Tenho. Queres que comece por aí?
Que também tem música.
Que também tem música. Posso começar por aí, então.
Podes.
É um livrinho daqueles livros de ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, este assinado por João Governo, e muito bem escrito, ele escreve muito bem, portanto, isso também não é novidade. Chama-se "Tira o Disco e Toca ao Vivo". De alguma forma, também vai buscar essa fase, porque é uma fase determinante em termos de mudanças de fabrico e, sobretudo, de audição, de escuta dessa música. Mostra, por exemplo, uma coisa como o Nepstar fez, na fragmentação da música e, de alguma forma, como Entre os concertos e a edição dos álbuns passaram a cumprir vocações e funções absolutamente distintas. As pessoas antes davam concertos para editar e lançar mais álbuns e hoje é o contrário, os discos são quase uma coisa residual, quase cartão de visita, que depois pode eventualmente abrir a porta para quando se lançam discos, se quer. O Bowie tinha essa frase muito profética, que o autor também recupera aqui, que é: "Preparem-se, porque um dia a única coisa que vai sobrar é uma vida de digressão na estrada". E parece que é verdade, de alguma forma, os espetáculos são hoje a operação.
Ele raramente se enganou.
Ele nunca se enganou, é verdade. E depois, eu não sei se lhe devo chamar de documentário, porque eu não sinto como um documentário. Olha, usando aqui, o Pedro há bocado falava de um road movie, eu acho que é um arena movie, para ser honesta. É essencialmente um filme que tem, obviamente, uma dimensão documental, mas acho que vai muito para além disso. Chama-se "Tardes de Solidão". Eu estava, como sabes, há muito tempo a tentar ver este título do Alberto Serra. Ele venceu a Concha de Ouro no Festival de San Sebastián. Teve essa, julgo eu, para além da curiosidade, acredito, estética e poética de se entregar a um tema tão controverso como a tauromaquia. Ele segue aqui essencialmente um matador de touros, que é um dos mais virtuosos da atualidade, o peruano Roca Rey. Ele também é um tipo, para além de ir muito bem nas arenas, também maneja muito bem as redes sociais e tem uma vasta legião de gente a segui-lo, miúdos e não tão miúdos. Eu acho que, muito honestamente, para quem não é aficionado, aliás, é totalmente contra este tipo de andanças, eu desaconselho até o visionamento. Muito honestamente, porque acho que, obviamente, há planos muito fechados, é muito gráfico e, portanto, não é certamente um filme que foi feito para convencer descrentes. Não é de todo. Também não sei se é propriamente um filme para aficionados, tenho dúvidas que seja. É essencialmente, quanto a mim, uma belíssima oportunidade e um belíssimo registo para quem gosta de cinema, ponto final. Ou seja, para alguém que vai ver um filme filmado por um ponto de vista que não é o de uma corrida de touros e que é, sobretudo, muito fiel a esse título, essas tardes de solidão e essa vida, essa dimensão solitária no duelo, seja entre o homem e o touro na arena, mas também depois um lado muito pouco visível, normalmente, que é os milhares de quilómetros que estas pessoas fazem entre praças durante uma temporada, enfiados num carro, toureiam num sítio de manhã, à tarde estão noutro. E eu acho que ele consegue, de facto, captar isso muito bem, sobretudo aquele bailado permanente com a morte, porque é isso mesmo que acontece, goste-se ou não, ali na cara do touro. E, portanto, se gostam de cinema, é favor dar uma oportunidade. Além do mais, ele estreia esta semana e o Alberto Serra vai estar no NIMAS no dia 29 às 21:15. Portanto, se quiserem aproveitar e fazer-lhe umas perguntas, é aparecer.
Muito bem, sugestões entregues, estão sempre disponíveis em podcast. Sigam-nos para não perderem nenhum episódio. Voltamos na quinta-feira. Até lá.