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Sejam bem-vindos a mais um "PopUp", o programa de cultura pop da Rádio Observador, que é como quem diz, o encontro semanal que junta estes ilustres, que um dia ainda hão de voltar a conversar juntos no mesmo estúdio outra vez: Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Bucher Mendes. Esta semana vamos falar de traduções literárias, mas vamos também falar de prêmios, de música e de prêmios na música. E é por aí que vamos começar com a boa dica. Foram entregues no passado domingo os Grammys, os prêmios da indústria musical americana, que acabam por ser os mais mediáticos da pop em geral. Apesar disso e da quantidade de estrelas em palco, as coisas este ano foram algo complicadas. Esta foi a cerimônia de entrega dos Grammys com a menor audiência de sempre. Pedro Bucher Mendes, vamos começar por ti, até porque sei que tens uma teoria ou algumas teorias para explicar isto. É assim?

Sim, espero que sim. A pandemia torna claras muitas coisas e, neste caso, fica claro que nós não queremos saber dos prêmios em si. Queremos saber quem ganhou o Oscar, ou Grammy, ou o que for, mas o nosso envolvimento, ou engagement, como se diz agora, com estas coisas não é intelectual, mas sim emocional. Todos nós, até os mais eruditos ou os mais distantes das coisas frívolas, no fundo, precisam da passarela vermelha, dos saltos, das roupas, dos sapatos, dos decotes, dos cabelos, dos penteados, dos smokings, dos discursos, da atmosfera, inclusive daqueles planos de realização, daquelas fotografias em que apanham o colega aplaudir ou com ar de chateado, para nos envolvermos com este tipo de prêmios. Estes prêmios nos Estados Unidos são uma indústria em si. Enquanto que em Portugal, por exemplo, os Globos de Ouro da SIC têm obviamente uma dimensão de indústria, mas que são pagos pela SIC, os Grammys, ou os Emmys, ou os Oscars são indústrias, porque estes espetáculos, estas transmissões, são depois vendidas para televisões em todo o mundo e têm patrocinadores, têm marcas envolvidas. Só a questão dos giveaway bags, em que as estrelas recebem montes de coisas. Portanto, é toda uma indústria e precisa, de facto, do raio da cerimônia. E sem a cerimônia com pessoas, e com pessoas humanas a fazer coisas que as pessoas humanas fazem, a verdade é que tudo isto perde imensa importância. Eu desta vez vi só as gordas dos Grammys. Devo admitir aqui que nem sequer me interessou ver a fundo os prêmios, porque de facto falta qualquer coisa, e esse qualquer coisa é quase tudo. E essa é que talvez seja a questão principal que o Covid nos ensina.

Por outro lado, Maria Ramos Silva, esta foi uma das cerimônias, talvez a cerimônia que mostrou um outro lado, o que é possível mudar ao fazer uma produção destas, também porque foram obrigados a isso. Obviamente, houve a questão dos prêmios. As mulheres ganharam os prêmios mais importantes, isso é importante. E a produção teve que ser reinventada. Houve política, como tem havido, houve Dua Lipa e Harry Styles com atuações que vale a pena rever no YouTube e que vão continuar a alimentar cliques, etc. Não tem bem a ver, mas fez-me lembrar, por exemplo, a final do Festival da Canção em Portugal este ano, que também teve que ser reinventada por causa de tudo isto e que eu acho que resultou muito bem. Mas a questão é que esta reinvenção não quer dizer que depois exista um reflexo nas audiências e que as pessoas gostem. O Pedro deu aqui uma dica para os motivos disto, mas é um paradoxo, porque não vale a pena reinventar ou tentar fazer diferente.

Não, eu acho que é interessante o que o Pedro diz, porque depois tu tens o reverso da medalha, que é a maior parte das críticas que eu li, na verdade, até destacavam esta cerimônia como tendo sido uma das mais entusiasmantes dos últimos anos, precisamente porque talvez mais despojadas. Afastou-se ali aquele fogo de artifício, aquele brilho, o número de pessoas mais limitado, de participações. A passadeira vermelha, lá está, remetida para aquele formato digital, que entretanto as celebridades também já adaptaram bem e, portanto, sabem dar a volta àquilo. No fundo, é como se tivéssemos a assistir uma série de cerimônias unplugged. Quase tudo numa versão mais sutil, mais discreta, mais acústica. Mas a verdade é que depois o que o Pedro lembra, temos o outro lado, que é: nós queremos é festa, e nós queremos ali um registo de explosão. Nós queremos o evento em si.

Queremos o máximo de cor possível, de glamour possível.

E, portanto, isto talvez resulte para estritamente ao nível da crítica musical, se quiseres, porque de facto encontraram-se ali soluções muito simpáticas, muito felizes. Mas se é para seguir por aí, então, depois ao mesmo tempo questionavam-se outros aspectos, que é até do ponto de vista da arrumação e das categorias, os Grammys apresentam muitas lacunas. Basta pensar como vivem intensivamente de formato pop. Mas depois tu tens, por exemplo, categorias R&B, mas nunca ligaste ao punk. Passado 20 anos, lembraram-se dos Strokes para álbum rock do ano. Quer dizer, há aqui depois uma série de incongruências.

Esse lado dos prêmios continua

Ou seja, é música. Não conseguimos fazer o espetáculo de outros anos por causa das limitações da pandemia, mas ao mesmo tempo continuamos a não tratar a música, se queremos de facto ver isto como um evento musical ou mais virado para este lado, com esse rigor e com esse detalhe que talvez merecesse, porque então têm que olhar para aquilo com outros olhos. Agora, eu não sei que expectativa podemos ter em relação aos Oscars. Acredito que apesar de tudo consiga congregar mais espectadores, mas sinto que também ficará aquém desse grau de espetacularidade toda que nós procuramos, obviamente, quando nos prometem uma cerimónia destas.

Ainda por cima, Oscars que também têm vindo a decair na atenção que têm naquela noite. Continuando aqui nos Oscars, Bruno Vieira Amaral, se calhar é preconceito meu, mas vou deduzir que não prestaste muita atenção aos Grammys.

Nem uma.

Cá está.

Li os noticiários do dia seguinte.

Exato. Esta semana também foram anunciadas as nomeações precisamente para os Oscars. Será seguro dizermos que se avizinha uma noite talvez mais concorrida ao nível dos prémios, porque não há um vencedor óbvio, apesar de ainda não sabermos bem como é que vai ser o formato. Sabemos que vai ser em dois sítios, mas ainda não sabemos bem dos detalhes, ou porque os Oscars serão entregues no dia 25 de abril e os Estados Unidos estão muito confiantes no seu plano de vacinação. Será que já será tempo de liberdade para estas galas e passadeiras vermelhas, etc.?

Os produtores do programa, da transmissão televisiva, devem estar à espera que sim.

Exato.

A transmissão televisiva vive muito desse glamour, mas a cerimónia em si, o interesse que desperta nas pessoas, vive dos filmes, das estreias durante o ano e das estreias em sala. E não aconteceu este ano, ou praticamente não aconteceu este ano. Ao olhar aqui para a lista de nomeados, aquilo que me chama a atenção é quase o total desinteresse que esta cerimónia, este ano irá despertar. Não há um filme forte que tenha marcado o ano. O filme que tem mais nomeações é o "Mank", mas para o filme mais importante da Netflix e para o filme com mais nomeações este ano, passou relativamente ao lado. Não houve grandes discussões. Eu lembro-me que há três anos, por exemplo, com o "Roma", houve muito mais discussão. No ano passado, houve muito mais discussões à volta, por exemplo, do "O Irlandês" e do "Marriage Story", da Netflix também. E este ano as coisas passaram completamente ao lado, porque faltaram as estreias em sala. Mesmo as plataformas digitais beneficiam deste efeito de competição com o cinema tradicional, com as estreias habituais em sala. E isso depois reflete-se também numa cerimónia como a dos Oscars, porque é o fechar de um ano. A cerimónia normalmente é o corolário de todo um ano. E nós sentimos que este ano não aconteceu grande coisa. E aí está a prova. Houve muitos filmes cuja estreia foi adiada, algumas produções que ficaram suspensas. E aqui está o corolário, é um absoluto desinteresse. Se tudo continuar assim, e acho que não vai mudar, imagino que as audiências do programa este ano sejam absolutamente catastróficas para os produtores, que deviam esperar, mais o facto de ainda haver muitas pessoas em alguns sítios em confinamento, que houvesse mais interesse das pessoas verem em casa. Mas falta o sal, falta o tempero a estes ingredientes, e os ingredientes também não são grande coisa, olhando assim à primeira vista.

E há aquela questão, o "Mank", do David Fincher, também, se não estou enganado, foi o filme mais nomeado para os Globos de Ouro e acabou por não ganhar nenhum prêmio.

É que o filme, que eu me tenha apercebido, também posso ter estado um bocadinho alheado, creio que não suscitou grande adesão, nem grande polêmica, nem a favor, nem contra. Eu lembro-me do ano passado, chegamos aqui a falar do filme do Martin Scorsese, do "O Irlandês". Houve grande discussão, se era bom, se não era, se tinha uma duração excessiva, discutiu-se a questão das nomeações para a Netflix. Este ano, eu sim, perfeitamente alheado em relação a isto. E nem o filme, que supostamente era a estreia, o lançamento mais importante, cinematográfico, entre aspas, da Netflix este ano, teve um efeito no grande público. Creio que passou relativamente ao lado.

Muito bem, antes do final do programa, vamos às sugestões da semana com o Post-it. Vamos continuar aqui com o Bruno, vamos ver se conseguimos dar conta das sugestões todas ainda na primeira parte. Bruno, queres falar-nos de um programa que estreou há pouco tempo na televisão portuguesa, o "Hell's Kitchen"?

Sim, vi por curiosidade, para saber como é que aquilo funcionava, se era boa televisão ou não. E acho que é um modelo que já foi experimentado, obviamente, já foi testado, que vive muito do carisma do Ljubomir Stanisic. Eu agora acho que não se diz assim, porque eu oiço aquela voz da SIC a pronunciar Stanisic e fico com medo de estar a ter algum crime.

Não há problema.

E que vive da personalidade dele, daquela agressividade de macho alfa, que vai marcar o programa e que vai pôr os próprios concorrentes com os nervos em franja. Acho que esse é o objetivo. Enquanto televisão, acho que tem um programa com uma grande dinâmica, obviamente que é uma dinâmica criada, é artificial, como em qualquer concurso. Ou seja, a narrativa é criada, é provocada, e uma vez mais com as intervenções cirúrgicas ou às vezes a martelo pneumático do Staniszewski, mas acho que é um produto televisivo interessante.

Antes do final da primeira parte, estou só a olhar para o tempo, e será melhor continuarmos as sugestões quando voltarmos para a segunda parte. Voltamos já a seguir. Estamos de volta para a segunda parte do "Pop Up" com Maria Ramos Silva, Bruno Vieira Amaral e Pedro Boucher Mendes. Vamos esperar que desta vez este vosso estimado apresentador e pivô atine com os botões. Um pedido de desculpas sentido. Vamos recuperar as sugestões da semana, que deixámos penduradas da primeira parte. Pedro Boucher Mendes, queres falar-nos de uma conta de Instagram que tem sido tua companhia?

Verdade, que é mais do que uma conta de Instagram, chama-se Food52. A palavra food, F-O-O-D, 52, cinco, dois. Podem encontrar no Instagram, mas também na internet. Finalmente encontrei um local onde posso aprender receitas.

Finalmente.

Sim, porque há muitas, sabemos milhares no YouTube, milhares de contas. Esta Food52 é hoje em dia um conglomerado destas coisas, inclusive tem lojas e vende talheres nos Estados Unidos, não sei se vende para a Europa. Foi fundada por uma jornalista do "New York Times" há uns anos e vendida em 2019 por muitos milhões de dólares a uma empresa de mídia. Mas de facto as receitas têm uma normalidade e com pessoas normais, e a forma como estão filmadas, descritas e até escritas, faz-nos sentir que é possível para nós replicarmos em casa. Já fiz algumas. Eu gosto bastante de cozinhar e já fiz algumas. A ponto de recomendar que sigam a conta no Instagram, se tiverem Instagram, ou então que vão lá, Food52, para quem gosta de cozinhar.

Eu aprecio também sempre a forma algo militar, ou faz lembrar o bingo, com que o Pedro soletra os nomes das coisas. E divide.

Assim não engana.

Assim não engana.

Muitas pessoas, inclusive em televisão e na rádio, dizem as coisas muito depressa. Eu gosto muito do depois as pessoas não percebem. Por isso eu faço esta pausa para que as pessoas percebam.

É verdade, depois estas dicas não servem para nada.

Exatamente. Maria, tu trazes aqui um livro. Conta-nos tu, é mais fácil.

Sim, é uma edição bilingue dos CTT, chama-se "História do Bailado em Portugal". É uma resenha histórica desta arte, daquilo que foi produzido nos últimos anos em Portugal. Não de uma perspectiva académica, pelo contrário, que era próxima do grande público. O trabalho é do António Lajinha, um dos nossos decanos da dança. Eu recomendo. Para além disso, se forem fãs dos selos, portanto da filatelia, também tem uma emissão especial associada a esta edição. É um belíssimo dois em um.

Muito bem, depois das galas e dos prémios, coisas que nos ficam tão bem, e destas sugestões, seguimos em frente para falar de livros, coisas que também nos servem às medidas, mesmo que de vez em quando alguns detalhes se percam na tradução. Servimos agora o pop de arroz. Há poucas semanas, e peço desculpa pela minha má pronúncia holandesa, Marijke Lucas Rijneveld, será algo assim, a holandesa escolhida para traduzir o livro de poemas da americana Amanda Gorman, a mesma que vimos declamar na tomada de posse de Joe Biden, desistiu da tarefa depois de um artigo na revista "Volkskrant" que denunciava a escolha, porque não correspondia em nada à autora. Não tinha a mesma cor de pele, não vinha da mesma realidade social, cultural, entre outros argumentos. Entretanto, tudo isso se transformou numa onda de choque. Já outros nomes foram recusados para a mesma tarefa e desde então a questão tem surgido, questão que eu vou lançar aqui ao Bruno Vieira Amaral, excelso autor, também ele artista das coisas da tradução, de quando em vez. Bruno, deve haver critérios para quem pode ou não pode traduzir determinada obra? Ou seja, toda esta questão, no teu entender, faz sentido?

Já te vou responder.

Ok.

Mas deixa-me dizer aqui que agora estou a sentir-me um bocadinho pré-histórico, porque o Pedro sugeriu uma conta do Instagram com receitas e a Maria falou de uma história do bailado, e eu estive aqui a sugerir um programa da televisão generalista que foi visto acho que por quase dois milhões de pessoas. Sinto-me completamente pré-histórico.

Fizeste muito bem.

Fizeste muito bem para equilibrar.

É a democracia deste programa. É isto.

Lamento uma sugestão como esta. Para a próxima trarei-

É que nós temos diversidade, Bruno, ao contrário de alguns tradutores e autores.

E aproveitando também a deixa da Maria Em relação à tradução, eu acho que o único critério que tem que existir é o da competência. Não há outro, ainda que os editores, ao fazerem essa escolha, de quem é que vai traduzir uma determinada obra, possam ter em consideração outros elementos que acrescem à experiência e à competência do tradutor. Provavelmente haverá alguns livros, seja de ficção, seja de não ficção, seja de poesia, que se calhar haverá vantagem em que o tradutor seja alguém que perceba muito sobre aquilo que vai traduzir.

Exato, determinado tema específico.

Específico ou o tipo de literatura. Imagina um tradutor especialista em literatura negra ou feita por autores negros nos anos 50, ou nos anos 60, ou no século XX. Provavelmente, essa pessoa tem mais competência, ou provavelmente não, é mais competente, será mais competente para traduzir um autor dessa época do que outra que só traduziu textos jurídicos ou poesia.

Mas aí continuas na questão da competência.

Da competência. Em relação à cor da pele, ou à idade, ou ao gênero, acho que é um bocadinho estranho, porque além de tudo, estamos a reduzir o autor a uma identidade que não sabemos se está ou não associada ao tipo de literatura que faz. Pode estar, pode não estar.

Ou que pode ser um dos elementos.

Claro que é um dos elementos da identidade, e que a experiência da pessoa, por exemplo, de um negro nos Estados Unidos, é condicionada pelo fato de ser negro nos Estados Unidos. Mas se ele escrever, isso não reduz a sua literatura apenas a essa parte da sua identidade. Eu lembro, por exemplo, aqui há uns tempos, o James Baldwin, que é um autor cujo interesse na obra se renovou nos últimos anos e que tem sido traduzida, a ficção e a não ficção, mas creio que sobretudo ficção, tem sido traduzido nos últimos anos em Portugal. Por exemplo, um dos livros dele foi traduzido pela Isabel Lucas, que é jornalista e também tradutora, que é autora também de livros, uma grande conhecedora da literatura norte-americana. E ela é uma mulher portuguesa, que não é negra. E o James Baldwin era homossexual. Portanto, vamos à procura de uma pessoa que partilhe todas estas características para traduzir? Não, não pode ser esse o critério. Acho que não deve ser esse o critério. Se a pessoa depois não tiver competência, o que é mais importante, ter competência técnica para traduzir e capacidade, como é óbvio, de entrar no espírito da obra. Eu lembro que aqui há uns tempos, quando o Frederico Lourenço publicou a tradução dele da Bíblia, que essa questão se levantou: será que a Bíblia pode ser fidedignamente traduzida por alguém que não é crente? Esta questão foi discutida e acho que é uma discussão que se pode ter e em relação a outras questões identitárias também. Mas vamos sempre depois acabar na competência, ou se tem competência técnica para se traduzir ou não se tem. Depois haverá outros aspetos que até têm que ver com a experiência de cada indivíduo, que o podem aproximar mais ou menos daquela obra e da capacidade de traduzir aquela obra, mas isso, creio eu, não tem que ver com a cor da pele, ou com a idade, ou com o gênero. Tem que ver com o trabalho do tradutor, que é, para além dessa competência técnica, da capacidade de traduzir à letra, traduzir também o espírito da obra em que está a trabalhar.

Maria Ramos Silva, este caso de Amanda Gorman, vamos tratar assim o caso para simplificar. Acreditas que terá uma onda de choque, de facto continuada no tempo, que poderá colocar algo que possamos chamar de método de tradução que tem sido usado até agora em causa, ou passará e ficará como um caso isolado quando a poeira assentar?

Eu espero que reforce essa ideia que o Bruno resumiu muito bem. Há, de facto, um critério que é extensível, aliás, às outras áreas profissionais e da nossa vida de uma maneira geral, que é o da capacidade, do talento e da competência, portanto, e que obviamente são as mais relevantes. Neste caso, nós partimos deste em particular, o da Amanda Gorman. Eu não sei como é que se poderia dizer "Já a formiga tem catarro" em holandês ou em catalão, que são, neste caso, as pessoas mais ou menos visadas aqui no processo.

Duas línguas fáceis.

Duas línguas fáceis. Mas, de facto, acho estranhíssimo e faz-me sempre alguma confusão como é que, a pretexto uma ideia de inclusão, esse processo de inclusão possa passar necessariamente por uma exclusão, e uma exclusão gritante. Porque é o que o Bruno dizia, quer dizer, temos que arranjar uma pessoa que seja tal e qual, que seja assim, assado, quer dizer, quase por catálogo escolhida pela sua cor da pele, pela sua idade, pelo seu tom de cabelos, olhos, quer dizer, isto é um feito barato.

Maria, deixa-me só dizer uma coisa que eu queria ter dito. É que há uma outra questão que está ligada a toda esta questão da cor da pele, se um branco pode traduzir um negro, que é a experiência de um negro em Portugal, de alguém que tenha nascido e crescido em Portugal, é radicalmente diferente da experiência de um negro nos Estados Unidos. É diferente. E imagina que o tradutor até é negro, mas a experiência de vida dele é completamente distinta da autora do poema. O que é que pesa mais?

Obviamente. Porque, de facto, há essas subtilezas todas. Tu podes ter uma proximidade que não é forjada pelo teu tom de pele ou por uma série de outras referências, mas sim por coisas que até não nos são óbvias. E mais uma vez esta ideia que estás a gerar, e por isso é que eu falava há pouco da diversidade, porque há um princípio subjacente, penso eu, ao desejo destas pessoas, que é de aumentar a diversidade, mas acabam por ter o efeito precisamente oposto, que é tornar o mundo ainda mais homogêneo.

Ou pelo menos compartimentado.

Ou muito compartimentado. As gavetas. E depois com todas as suas consequências naturais. No caso da autora holandesa, ela própria acaba, isto muito também na onda da cultura de cancelamento, acaba por se afastar, porque também não quer chatices, e não quer levar com a pressão de...

Tem mais que fazer.

Tem mais que fazer.

Tem outros planos para a vida.

Chegas a um ponto em que, de facto, o tradutor catalão, que é um tipo aparentemente respeitadíssimo, que já traduziu Shakespeare, Homero, e dizer: "Eu também não era grego e também não era o Bard inglês, não fui contemporâneo de nenhum dos dois, mas teria que ser para os traduzir". Os danos que tu causas ali no trabalho, no meio daquelas pessoas, é de facto extraordinário. Eu penso que o senhor até dizia: "Bom, há ali alguns que apesar de lhe terem tirado essa tradução, mas que lhe iriam pagar à mesma". Eu não sei se receberia 1 € nestas circunstâncias, muito honestamente, como profissional, porque eu acho isto de facto extraordinário. Como é que é possível que isto seja uma questão? Porque tirando essas subtilezas de que o Bruno falava, em Bank, uma coisa é tu saberes que alguém, eu sou, imagina, perita na cultura clássica, e portanto, estarei mais vocacionada do que outro colega meu para fazer aquele trabalho. Isto é uma coisa. Tu, de repente, crias aqui um ruído que é extraordinário, sobretudo porque muitas vezes se compara a relação entre autor e tradutor com uma espécie de diálogo silencioso. Há ali uma conversa, mas com umas vozes que não é suposto nós escutarmos, porque espera-se que haja ali um timbre muito sereno, que não estejamos permanentemente nesta dissonância, numa espécie de orquestra falhada, como nós parecíamos a semana passada. Mas estas questões e estes desejos, estes quase imperativos, transformam a coisa num ruído absolutamente ensurdecedor. E continuamos em terra de ninguém, porque esta obra penso que ainda não há tradutor, portanto, não sei exatamente qual será o destino. Não sei, será criado um concurso especial para eleger uma pessoa que possa fazer isto condignamente? Não sei.

Pedro Boucherie Mendes, enquanto leitor, procuras saber quem traduz um livro estrangeiro que estás a ler em português? Isso influencia de alguma forma a tua decisão sobre ler ou não ler, ou até como ler esse mesmo livro?

Se forem livros em línguas que eu não domino, e são quase todas, não tenho outro remédio. Se quiser aceder àquela obra, embora muitas vezes prefira ler em inglês uma tradução do neerlandês ou do alemão do que em português. A língua portuguesa tem alguns problemas, o Bruno saberá isto muito melhor do que eu. Por exemplo, "had" em inglês, "ele fez" ou "eles fizeram", em português corremos o risco de o tradutor meter muitos "tinhas". "Eles tinham passado a noite juntos e tiveram fome à meia-noite", portanto, estamos sempre a levar com os T e com o verbo ter. E também escrever "eles haviam passado a noite juntos" é completamente diferente de lermos "they had spent the night together" ou o que for. Portanto, eu acho que não é nada fácil traduzir. Acho que, pelo que sei, paga-se pessimamente mal aos tradutores. Não é sequer um trabalho muito respeitado em Portugal. Eu acho que o tradutor em Portugal é visto muito, e até por nós em geral, ou seja, estou-me a incluir nisso, como alguém que faz um serviço, uma espécie de pessoa que tira um café. E não é assim. Há alguns tradutores ótimos, que até são escritores. O Bruno, por exemplo, é tradutor também. A Tânia Ganho, que já falámos aqui, que é uma ótima tradutora e publicou um romance de que falámos aqui também há uns meses. Acho que há algumas pessoas que conquistam por mérito próprio, também há o Serra Espreira, a Maria de Vale do Gato, estou a nomear agora, que conquistam por mérito próprio, quase uma coautoria.

Paulo Faria, eu acho que é um dos exemplos.

Paulo Faria, sim, que é um ótimo escritor também.

Em relação às traduções que ele tem feito do Cormac McCarthy. E o Filipe e a Nina Guerra, do António Pescada, do Russos. Há uma série de autores que nós já associamos, uma série de tradutores que já associamos a certos autores.

E que nos últimos anos também foram incluídos na primeira página. Acabam por ter esse destaque também no objeto.

Mas não acontece tanto em Portugal como talvez devesse acontecer. Por exemplo, os tradutores dos russos, não é como se haja 44 tradutores diferentes aptos a fazê-lo. Mas eu acho que devia ser bem mais respeitado o papel dos tradutores. Não sei se não deveria haver um prémio para a melhor tradução. Não sei se há.

Acho que existe, mas como todos os prémios em Portugal, ninguém liga nada.

Não tem passadeira vermelha.

Mas é isto. Esta questão do poema desta autora que a pele não é caucasiana, não é branca, não sei bem qual é a palavra. Não estou para meter em sarilhos também.

Vamos pôr branco, que é mais simples.

O argumento de que deve ser alguém da cor do autor é um argumento bastante estranho, mas talvez no curto prazo, devemos, no limite, fingir que atendemos ao argumento ou que pensamos a pensar nisso, porque muitas vezes estas coisas são pequenas fagulhas que ateiam incêndios gigantescos, como sabemos. Como dizia o Mao: "Toda a longa viagem começa num pequeno passo". Não sei se ele não dizia.

Citar Mao, nem esta nem esta, Nala.

Extraordinário.

E portanto, algumas destas questões, eu acho que, sobretudo na chamada era do digital e das redes sociais, em que tudo se propaga a uma velocidade incrível. Não sei, talvez mereça que pensemos sobre o tema. Não vou nem traduzir a obra, e estou borrifando. Mas às vezes nós, com as nossas famílias, os nossos amigos, no fundo estamos a falar do vinho, quando na verdade o subtexto é outro. Quereríamos estar a falar de outra coisa. E não sei se não deveríamos escutar com alguma atenção os argumentos de todas as partes e talvez pensar se é uma questão ou não é, em vez de cortarmos logo a direito, criando assim a possibilidade de conflito. Eu admito que a idade me tem dado uma certa tendência para não reagir logo, uma coisa que eu fazia muito e ainda faço, infelizmente, para pensar melhor sobre estas coisas, porque podem esconder outros sentimentos, recalcamentos, que podem dar em coisas muitíssimo mais graves só por causa de um raio de um poema, pode haver coisas muito mais graves.

A ponderação de Pedro Buchinho Mendes aqui a fechar este tema. Antes do final do programa, vamos fazer a habitual viagem no tempo com o Isso é que era bom. O filme "Fargo" estreou-se em março de 1996, há 25 anos, um dos melhores exemplos da criatividade dos irmãos Coen, pelo menos digo eu, e um dos títulos que representou uma mudança definitiva, não no sucesso crítico, mas no sucesso comercial da dupla, juntamente com o "The Big Lebowski", que foi lançado dois anos depois. E a propósito desta maravilha de filme, a pergunta desta semana é: qual o vosso filme favorito realizado pelos irmãos Coen e por quê? Maria Ramos Silva, vamos começar por ti.

Eu citaria esses dois. Eu gosto muito do "Fargo", mas falaste do "The Big Lebowski", que é de facto uma coisa monumental. Em termos de elenco, é aquilo que se chama pôr a carne toda no assador. Eles são todos muito escolhidinhos a dedo. E não é por acaso que passa a história como passa e que acaba por lhe darmos o destaque. De facto, tem momentos absolutamente épicos, que eu ainda hoje quase tenho vergonha do que me desperta em termos de riso, da comicidade daquilo. E portanto, sendo registos muito diferentes, mas acho que teria necessariamente esses dois no meu top. Acho que sim.

Pedro Buchinho Mendes, qual é a tua escolha?

Olha, claramente o "No Country for Old Men", claramente. Mas eu recordei agora que eles fizeram o "Hudsucker Proxy" e fiquei com imensa vontade de ver, que é um filme, não sei se se lembram, com o Tim Robbins, bastante antigo, que até foi um fracasso, que eu tenho ideia que ele se atira do prédio ou inventa um brinquedo esquisitíssimo. E fiquei com imensa vontade de rever esse filme. E eu sou do tempo, claro, do "Raising Arizona" e do "Big Lebowski", mas o "No Country for Old Men", sem dúvida.

E para fechar, Bruno Vieira Amaral, qual é o teu favorito dos irmãos Coen?

O meu favorito é o "Fargo". De todos os filmes deles, é aquele que se estiver a dar na televisão, e este é o meu critério, eu fico sempre a ver, mesmo que tenha visto há dois dias. Dois dias depois, se o filme estiver a passar na televisão, fico a ver. Gosto, claro, a grande personagem deles é o Lebowski. Acho que é inultrapassável. Também gosto muito, como o Pedro, do "Este País Não É Para Velhos", ainda que já note ali uma certa calcificação do estilo. Parece que não é tão fresco como no "Fargo" e tão cómico como no "Arizona Júnior". Há também um que eu gosto muito e que talvez esse ainda seja mais estiloso e por isso talvez tenha sido tão mal recebido na altura, que é "O Barbeiro".

Exatamente.

De 2001. "The Man Wasn't There", acho que se chama assim o filme. Tem uma Scarlett Johansson muito novinha e o Billy Bob Thornton como protagonista. Na altura passou um pouco ao lado, também, mas é um dos meus preferidos deles. Mas se tiver que escolher um, escolho o "Fargo".

Muito bem, fica a dica e fica o aniversário redondo. Chegamos assim ao fim de mais um "Pop-Up". Voltamos na próxima semana. Até lá.