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Bem-vindos ao "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos de uma adolescente, um caso que nos chegou por e-mail, de uma adolescente presa a uma amizade marcada por comentários depreciativos e atitudes até abusivas. Quer afastar-se, mas tem medo de ficar sozinha numa turma onde os grupos já estão feitos. Olá, Eduardo. Como é que se distingue nesta idade os conflitos normais entre amigos de comportamentos que são abusivos?

Olá, Judite. Cair de paraquedas numa turma é sempre uma coisa muito difícil. Sempre. Porque saudavelmente, um adolescente entra numa turma numa atitude assustadiça. Assustadiço não é propriamente a pessoa mais simpática do universo e, portanto, é quase como se estivesse com o seu melhor ar de ouriço assustado a dizer: "Gostem de mim". Num primeiro momento, isto é o normal. Não significa que as pessoas da turma às vezes não sejam hostis, são muito, nalgumas circunstâncias. Mas significa que no primeiro momento, quem chega fica muito acanhado, muito encolhido, muito assustado. Claro que às vezes é um esforço tremendo, porque nós estamos a falar de adolescentes às vezes bem crescidos e que chegam ao intervalo e passam o tempo todo a mandar SOS à mãe, a sentir: "Tirem-me daqui, salva-me", outras coisas do gênero, o que faz com que os tempos em que uns estão próximos dos outros acabam por não ser muito simpáticos. Claro que haverá sempre pessoas numa turma que não são as pessoas mais cordiais do universo e que, às vezes, chegam mesmo a ser hostis, às vezes muito hostis, porque imaginem que quem chega é uma pessoa arranjada, bonita, com um olhar simpático e que desencadeia ali um certo mal-estarzinho, uma invejazinha. Às vezes há estas atitudes que são, de facto, mais do que ásperas, às vezes são maldosas. A medida é: aquilo que dura uma semana e dura duas, uma pessoa percebe que andam ali todos a tentar ganhar o lugar uns ao pé dos outros. Tudo o que se prolongue muito para além disso, a luz deve abrir imediatamente para amarelo, porque está a ficar escorregadio e perigoso.

E neste caso, é o medo da solidão que leva esta adolescente a ficar nesta posição?

Judite, mais ou menos. Eles são muito crescidos e são muito pequeninos. Aliás, se calhar somos todos. E numa circunstância destas, o que eles querem é que os colegas gostem deles. A questão não passa por serem as pessoas mais populares de uma turma, para mais quando acabam por chegar. Mas estão habituados a ter colo, a mãe e o pai dão-lhe colo, a família dá-lhe colo, os amigos dão-lhe colo e quando chegam a um sítio onde têm tudo menos colo, ficam muito assustados. Nessas circunstâncias, é natural que eles reajam desta forma. Não estão a ser alarmistas, estão só a ser uns meninos pequeninos que não estão, felizmente, digo eu, de um certo ponto de vista, preparados para atitudes agrestes e nessas circunstâncias ficam sem chão, porque lhes estão a exigir uma experiência que felizmente nunca tiveram.

Esta tendência para suportar este tipo de atitudes está relacionada com a autoestima?

Judite, também. Agora repare, nós todos temos uma autoestima que não é de betão e que tem as suas limitações que decorrem daquilo que são as solicitações a que ela é trazida. Numa circunstância destas, é muito difícil um adolescente, e volto a dizer, não só um adolescente, mas um adolescente que ainda por cima é pouco produzido, é mais inocente, mais transparente naquilo que sente, é muito difícil ter uma autoestima tão versátil que dê para aguentar estes safanões todos e ainda ficar mais forte, se for preciso. É natural que, perante este tipo de episódios, a autoestima fique feita em fanicos. E pior, não é só a autoestima, é depois quando chega a casa e desabafa e põe a cabeça no colo da mãe ou do pai, e quando fala disso, fala numa versão tão XXXL que a mãe ou o pai ficam num alarme tremendo, porque têm a noção de que tudo aquilo dói, mas depois as lamúrias, quando são feitas aos pais, têm uma dimensão ainda maior. Mas não há autoestima que resista maus tratos e todos temos, espero eu, uma maioria de nós, a esmagadora maioria de nós Todos temos a nossa autoestima a precisar muito de ser alimentada com mimo, ternura, atenção. E quando as coisas fazem lembrar aqueles jogos de futebol em que alguém entra a pés juntos às canelas e nós ficamos sem perceber por quê, a autoestima não chega pra tudo. Valha-me Deus, é como aquelas tarefas abertas: existe, mas está sempre em construção.

E qual é o papel dos adultos próximos, da família, da escola, quando estas dinâmicas que são prejudiciais a uma das partes acontecem?

Isso vem um bocadinho na sequência do que outros dias estávamos a conversar. Eu acho que as escolas têm que ter uma atitude muito diferente. Eu acho que as escolas pecam por isto. Eu vejo isso, por exemplo, nas escolas internacionais, pra não irmos mais longe, em que os alunos do ensino em português e do ensino em inglês, às vezes, não se falam uns com os outros. Eu vejo isso nas escolas públicas e nas privadas, em relação, inclusivamente, ao vestuário, às marcas e tudo mais. E, portanto, eu acho que as escolas um destes dias têm que acordar para outros tipos de realidades. Ou seja, ninguém quer que a escola tenha toda a responsabilidade de todas as áreas de formação dos nossos filhos, mas começa a ser cada vez mais urgente, num mundo que ainda por cima é tão estranho e tão maldoso, às vezes, que a empatia não seja uma coisa residual, que seja quase uma disciplina ou pelo menos um assunto que se leva a sério, porque de outra forma, se as escolas são demissionárias em relação a isto, e se os pais se põem naquela atitude: "Bom, os nossos filhos que se amanhem, vão ter que aprender a viver com isto" e não são interventivos com equilíbrio, nem precipitados, nem ao mesmo tempo demissionários. Se não têm uma atitude firme e protetora, temos uma dor de cabeça muito grande, porque a mim não preocupa só o rendimento escolar. A mim preocupa-me os cacos que ficam disto tudo e os estragos e as cicatrizes que ficam deste tipo de experiências não duram um mês ou dois. Às vezes, duram mais do que um ano ou dois. E é muito importante para que não tenhamos uma tentaçãozinha demissionária que, no final de contas, tentando ser imparcial, às vezes prejudica e acaba por ser uma negligência involuntária, todavia, mas uma negligência grave.

Portanto, o objetivo é não tolerar as amizades que nos diminuem. Eduardo-

Sim, tolerância zero

...tolerância zero. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Até amanhã.

Até amanhã.