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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de um e-mail sobre uma adolescente de 15 anos que se magoa a si própria de forma repetida, cada vez mais grave. Está a ser acompanhada clinicamente, mas não tem ligação emocional ou profissional a quem a acompanha. Olá, Eduardo. Por que uma adolescente se magoa a si própria, se automutila?
Olá, Judite, boa tarde. Tirando aquilo que muitas vezes são comportamentos de grupo, de muitas adolescentes, às vezes repartidas por muitas latitudes, ritualizarem um comportamento desse, fazerem um pequeno corte, porque um ídolo, alguém que elas respeitam, tem um comportamento que vai para lá daquilo que elas esperariam. Este tipo de comportamento tornou-se razoavelmente banal, até porque foi sendo cada vez mais difundido e, portanto, mais ao acesso de muitos adolescentes. Este comportamento tem uma função de papel absorvente, Judite. Quando a vida de um adolescente está um bocadinho abrasiva, quando as coisas se tornam, nem que seja momentaneamente, muito difíceis. Alguém na escola os atormenta permanentemente. A vida em casa, às vezes, está virada do avesso. Olham-se ao espelho e não se reconhecem no próprio corpo, etc. Às vezes, o sofrimento lá dentro é tão abrasivo que depois induzir uma dor aguda, acaba por descentrar a atenção durante um bocadinho daquilo que atormenta e cria ali uma bolsa de oxigênio que parece permitir respirar. Há aqui um pormenor que eu acho que é muito importante. É muito diferente um adolescente cortar-se superficialmente ou cortar-se de forma profunda, cortar-se episodicamente ou cortar-se de forma regular, cortar-se solitariamente ou cortar-se em grupo, ou cortar-se no punho, no antebraço, portanto, num sítio claramente visível, ou cortar-se nas axilas ou nas virilhas, onde obviamente a dor é significativamente maior e a cicatrização mais difícil. Digamos que o formato do corte é diretamente proporcional à dimensão da dor.
Por que a dor física surge, de alguma forma, como um alívio para a dor interna? Como é que se faz esta transposição?
Judite, porque às vezes a dor interna é muito grande, porque em muitos filmes de conflitos bélicos em que se recorre à tortura, por exemplo, nós todos vamos vendo aquelas personagens que às vezes induzem golpes na mão através de um vidro que escondem para suportar a outra dor e, portanto, se isto nos diz alguma coisa, diz o quanto às vezes há adolescentes que estão embrulhados num sofrimento muito grande, porque às vezes a vida na adolescência não é fácil. Às vezes concorrem muitas coisas e há alturas em que parece tudo muito virado de pernas pro ar e, portanto, essa dor às vezes é tão grande e eles têm, às vezes bem, às vezes mal, a sensação de que as pessoas à sua volta não são capazes de pôr as legendas certas no momento adequado, que tentam fazer tudo isto tão solitariamente, com a sensação de que são capazes de resolver por eles. Tudo isto que depois, de facto, a dor aguda acaba por ser parceira de situações que se tornam muito sufocantes. Há aqui um pormenor: é que às vezes esta dor passa a ser um recurso que se vai utilizando de uma forma recorrente para outro tipo de pequenas dores, seja um desencontro amoroso ou outras coisas do gênero. E, portanto, é de facto preocupante quando um adolescente, em vez de fazer um movimento destes isolado ou episódico, passar a fazê-lo com alguma regularidade. Quando a Judite diz: "Bom, não há aqui uma química muito boa com a pessoa que está a ajudar esta adolescente".
Era o que eu queria perguntar.
Essa provavelmente é a password mais sensível, não é? Não havendo essa química, essa cumplicidade, essa segurança de que aquela pessoa não só entende o que se está a passar, como de alguma forma traz um antídoto para aquelas dores De forma a poder superar-se este movimento automutilatório, na ausência dessa química, claro que eu fico preocupado, porque a relação custo-benefício que um relacionamento desses pode ter, corre o risco de ficar muito comprometido e, portanto, não corresponder, nem de perto, por vezes, àquilo que quer este adolescente, quer os pais, de alguma forma, esperam.
Além de procurar ajuda, o que os pais podem fazer no imediato, quando se apercebem desta situação?
A primeira reação dos pais, e eu percebo muito bem, porque nós também somos pais e estamos preparados para os nossos filhos estarem felizes com a vida que têm. E, portanto, quando nós percebemos que um filho está muito abatido e ainda por cima tem este tipo de comportamentos, os pais ficam como baratas tontas. É o normal de quaisquer pais que não estão de todo preparados para isto. E nenhum pai e nenhuma mãe estão. É muito importante, no entanto, que estes pais também peçam ajuda, mas que também percebam que não podem pôr muito pó de arroz nisto. Isto é, condescender, tirar lâminas, x-actos, tampas de esferográficas do alcance de um adolescente, como se, no fundo, nós tivéssemos ali uma atitude potencialmente suicidária. Não vale a pena os pais se exporem a isso. É um comportamento preocupante, é um comportamento de algum risco. Não é um comportamento logo suicidário, nem nada que se pareça. Mas se os pais ficam muito assustados, a condescender com aquilo que não deviam, a certa altura correm o risco de estar a ser controlados por este tipo de comportamentos. E aquilo que os pais muitas vezes fazem, porque ficam muito aflitos, é condescenderem com pedidos, com exigências, com desabafos, que em condições normais não mereceriam esse tipo de condescendência, como se, no fundo, fizessem tudo o possível e o impossível para que esses comportamentos não se repitam. E esta atitude assustada dos pais, por mais que seja compreensível, será tudo aquilo que eles não devem fazer e, portanto, ganhamos mais se eles, de alguma forma, se insurgirem de maneira veemente contra este tipo de comportamentos, do que se eles se forem encolhendo. Como se dissessem: "Eu faço tudo, mas, por favor, não repitas esse tipo de atitude".
Há sinais que indicam que a situação pode agravar-se?
Há sempre os sinais clássicos. Porque quando os nossos filhos parecem começar a ficar demasiado silenciosos, de preferência de um dia para o outro, quando nós percebemos que perdem a irreverência, o mau feitio e ficam ali como se fossem o homem invisível. Quando murmuram, em vez de falarem, quando fogem à relação, em vez de partilharem aquilo que sentem, evidentemente, que isto significa, independentemente da idade, Edite, que eles não estão bem, que estão assustados, que estão ali com um problemazão para resolver. E nessas circunstâncias, mais do que os pais se porem de volta deles, explica, diz o que se passa, etc. Mais vale os pais ousarem fazer aquilo que os pais fazem muito bem, que é terem um palpite acerca do que está a acontecer, porque os pais são tão intuitivos que no meio de mil hipóteses, eles têm muitas probabilidades de irem direitinhos àquilo que será a preocupação que está a dominar aquele filho. Sobretudo para depois o resgatarem e o ajudarem como deve ser.
Claro. Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema e até lá, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Um abraço, Edite, e até amanhã.