Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje temos um dilema que inquieta uma mãe. O filho de 10 anos vai começar o segundo ciclo e entre a escola e as atividades desportivas, a mãe receia que a criança ainda não se consiga organizar para estudar e por isso pensa inscrevê-lo num centro de estudos. Olá, Eduardo. A questão desta mãe é muito clara. Faz sentido confiar que ele vá aprendendo a responsabilizar-se, mesmo que isso seja duro para todos em casa, porque já sabemos que há trabalhos de casa ao final do dia e isso gera muitas vezes uma entropia no resto do jantar e mesmo na hora de dormir.

Olá, Judite. É uma questão tão sensível, ainda por cima nesta altura do ano, quando as famílias andam todas a tentar organizar agendas, compatibilizar horários, aquelas coisas dificílimas, dignas de um puzzle de muitas peças. Como é que eu lhe hei de dizer isto? Eu, se calhar, talvez não seja o maior adepto dos centros de estudos ou de explicações. E talvez não seja, por quê? Não quer dizer que não haja centros magníficos, com pessoas dedicadíssimas. Mas aquilo que muitas vezes os próprios pais assumem, é que os centros servem, sobretudo, para fazer os trabalhos de casa antes de eles chegarem a casa. E se for assim, muito sinceramente, eu tenho algumas dúvidas da mais-valia de um centro como esse. Claro que um cidadão de 10 anos está muito longe de ser capaz de se organizar a ponto de estudar de uma forma metódica todos os dias, porque é muito pequenino. E portanto, magnífico que tenha futebol a par das aulas, mas atenção, eu continuo a achar que os pais podem ser muito importantes a ensinar os filhos na relação com o estudo. Não acho, como é óbvio, que os nossos filhos precisem de estudar horas todos os dias, mas se nós reservarmos meia horinha antes do jantar, todos os dias, para que eles hoje no Português, amanhã na Matemática, depois na História ou noutro sítio qualquer, passem pelo livro, correspondam a meia dúzia de trabalhos que os pais tenham para lhe dar. E o façam com autonomia, a ponto de depois, no final, os pais tomarem o pulso à tarefa e perceberem até que ponto é que eles trabalharam como deve ser. Eu gosto muito, porque primeiro os nossos filhos acham que nós somos uns chatos, deitam fom pelos ouvidos e acham que não vale a pena estudarem, porque não têm nenhum teste marcado. Mas se nós formos firmes nessa exigência, muito rapidamente, Judite, eles apanham a onda e percebem que mesmo quando estão a passar por aquelas matérias um pouco de prechinha, ficam ali meia dúzia de pontas soltas, que depois, no dia seguinte, eles utilizam em seu favor, mesmo querendo estar distraídos no meio de uma sala de aula. As crianças primeiro precisam de ter o pai e a mãe a fazer este trabalho. Por quê? Porque primeiro vêm os resultados e depois vem o método. Quando eles percebem que o método tem sentido e quando ficam todos orgulhosos com os resultados que acabam por ter, Judite, a seguir, eles vão lá em piloto automático e com todo o brio. Até lá, são pequeninos e, portanto, não vale a pena termos a ideia que uma criança de 10 anos acaba por ser disciplinada e regrada a ponto de estar a estudar, porque não é assim. A contrapartida é que, se calhar, muitas vezes eles passam por esta ou aquela entidade que os ajuda a fazer trabalhos de casa. Chegam a casa, obviamente, não faz sentido que estudem, mas o que é grave é que muitas vezes a escola ajuda os miúdos a ter resultados, não os ajuda a aprender a estudar. E aí os pais são muito importantes, porque se fizerem, saímos todos a ganhar, pensando no dia de hoje e no dia depois, depois, depois de amanhã.

A responsabilidade de estudar e essa organização treina-se com o tempo.

Claro que sim. E à medida que os resultados aparecem, fica tudo mais fácil, porque aí já não precisamos de estar a persuadi-los, a convencê-los ou até de alguma forma, a vincar a necessidade de darem ouvidos àquilo que nós entendemos que têm que fazer. Aprende-se a estudar e aquilo que eu acho muito grave, e que todos nós vamos repetindo um ano atrás dos outros, é que os nossos filhos, porque são inteligentes, valha-me Deus, apanham as coisas no ar muitas vezes e têm resultados. Claro que têm resultados, mas aquilo que é muito importante é que os resultados se traduzam em aprendizagens. Eles saibam discorrer sobre aquilo que aprenderam quando estão a falar de um determinado tema no Português ou na História. E, portanto, nessas circunstâncias, nós precisamos de os ensinar a fazer. Porque depois de eles aprenderem, parece que já nasceram absolutamente capacitados pra uma tarefa como essa.

Depois temos a velha questão de gerir o equilíbrio entre as atividades extracurriculares, o tempo de estudo e o tempo do tédio também, não é?

É. Eu costumo sempre dizer, nessas alturas, que pra além de todas as atividades, também tem que ter lá uma janelinha de período pra brincar ou pra não fazer nada e pra ficarem, às vezes, com um aborrecimentozinho difícil de iludir. Sim, é absolutamente fundamental, por uma razão simples: quanto mais eles brincam, mais aprendem, melhor aprendem. E às vezes nós temos a ideia de que brincar é um adereço, quando é uma vitamina absolutamente fundamental para todo o crescimento escolar.

Há o risco da vida destes miúdos, já com 10 anos, se tornar demasiado agendada?

Tem coisas boas e tem coisas assim, assim. As coisas boas é que, de facto, o dia não estica e se nós formos um bocadinho metódicos, conseguimos dar-lhes um conjunto de aspectos para que o seu desenvolvimento seja, de facto, muito melhor. O lado assim, assim, é que é tão compartimentada que, de repente, eles andam numa correria pra um lado e pra o outro, vivem numa agitação sem fim, começam às 8h, terminam às 20h. E depois, como é que nós queremos que eles tenham cabeça pra fazer trabalhos de casa e, mais importante, como é que eles têm tempo pra eles e, já agora, pra aprenderem a estudar? E, portanto, nós temos que pôr isto, de aprender a estudar, como uma tarefa fundamental. Volto a dizer, eles são muito inteligentes, não precisam de estar duas horas a olhar pra um livro a fazer de conta que estudam, mas aquela meia horita com o método e com algum músculo por parte dos pais, uma semana, duas semanas, à terceira semana eles começam a perceber que levantam voo, nomeadamente no contexto da sala de aula, junto dos colegas, dando a entender que já sabem coisas que se calhar os colegas não apanharam e depois o brio deles faz o resto. E já não precisamos de andar ali a atazanar a cabeça, "vai estudar" e outras coisas do gênero, porque eles o fazem com toda a convicção de que aquilo faz sentido.

E assim é. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Obrigado, Judite. Um abraço pra si e até amanhã.