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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar de um caso de uma ouvinte que escreveu ao Eduardo pra saber o que fazer. A história é simples, mas não muito feliz. Tem uma criança de três anos, um bebê de sete meses com problema oncológico, passa os dias no hospital, como se percebe, e vive com a culpa de sentir que abandonou a filha mais velha, que entretanto diz que já não gosta dela, entre outras coisas. Eduardo, olá. Esta é uma situação complicada, mas é normal a reação da criança de três anos?
Olá, Judite. Claro que é normal. Eu acho que é muito importante conversarmos destas coisas, por quê? Porque estes acontecimentos sucedem muitas vezes quando uma criança está doente e quando precisa de passar por um hospital. Invariavelmente, e a meu ver, de certa forma, mal, porque devia ser mais repartido, mas invariavelmente sobra para a mãe. Portanto, é compreensível que uma criança, seja pequenina ou seja maior, sinta que nem sempre tem todo o espaço que reclama na atenção da mãe. E as crianças nisso são de uma bondade absolutamente fora do vulgar. E é normal que elas se apaguem um bocadinho, que façam por não existir, que se tentem adequar, que tirem boas notas, que sejam quase exemplares na medida do possível. O que significa que vão engolindo cada vez mais e, portanto, vão ficando mais tristonhas, mais deprimidotas, como, volto a dizer, é rigorosamente saudável numa circunstância destas. Porque viver um sofrimento familiar acaba por ser qualquer coisa semelhante a um terramoto. Mas o que eu acho importante é que às vezes, quando nós temos a irreverência dos nossos filhos, quando um irmão está adoentado ou quando está doente, ou quando os pais estão muito preocupados com ele, ou às vezes até pode não estar doente, pode só estar num conflito grande com a escola e os resultados teimarem em não aparecer e andar tudo às vezes muito inflamado em casa, como acontece em todas as famílias. Eu fico sempre mais descansado quando uma criança pega num caderno reivindicativo, o põe ali no colo dos pais e busca começar a destrunfar. E começa-se a destrunfar pelo mais óbvio, que é: "Já não gosto de ti" ou "Tu só gostas da mana ou do mano". Ou muitas vezes as crianças começam a fazer alguns comportamentos que nós, na psicanálise, vamos chamando, às vezes mais metaforicamente, como se compreende, comportamentos mais regressivos. Isto é, começam a reivindicar a chucha e outras coisas do gênero, como quem diz: "Bom, se eu fizer de conta que sou mais pequenino do que sou, talvez eu tenha mais umas migalhas de mãe ou de pai." E, portanto, nessas circunstâncias, tudo isto é normal. Os pais nunca, quem de nós está habilitado para lidar com isto de uma forma esclarecida e equilibrada? Nunca estamos, estamos sempre muito assustados numa circunstância destas. E, portanto, é compreensível que às vezes os pais cedam, se calhar não deviam ceder, porque quando começam a ceder este caderno reivindicativo, fazem por bondade, mas de repente, cedência em cedência, as dificuldades tornam-se maiores. Mas o que é importante, sobretudo muito importante, é que quando os pais ficam assustados, todos nós, que somos ótimos a adivinhar aquilo que os nossos filhos pensam, temos uma baliza aberta e chutamos para fora. E, portanto, nessas circunstâncias ficamos uns trapalhões, e é normal que seja assim. E os nossos filhos, quando nos sentem trapalhões e assustados, ficam ainda mais assustados. E, portanto, quando batem o pé, nós temos que respirar fundo e dizer: "Nem tudo está tão virado do avesso como à primeira vista pode parecer."
Esta ouvinte diz que tem medo, genuinamente, que a filha, que não entende o que se está a passar, deixe de gostar dela. Isso é sequer possível?
Bem-vinda ao mundo das pessoas saudáveis, Judite França. Claro que não é possível. Judite, claro que não é possível, mas quando um filho nosso, pode ser pequenino ou pode ser maior, ou às vezes nem precisa de haver um ciclone dentro de casa. Às vezes, porque andamos mais distraídos, ou menos pacientes, só isto. É natural que um filho diga isso. As mães têm sempre uma saída airosa na ponta da língua: "Mas se lá, tu não gostas de mim, mas eu continuo a gostar de ti a mesma." Eu não sei onde é que as mães aprendem esse tipo de coisas, mas têm sempre esta saída na ponta da língua Menos quando isto se repete duas ou três vezes. Porque quando se repete duas ou três vezes, isto pega fogo e as mães tremem da cabeça aos pés. Claro que não é possível. Quando um filho diz: "Não gosto de ti", ainda bem que aquilo que eu vou dizer a seguir só existe noutros países, Judite, França, é como os políticos de outros países quando dizem que não sobem os impostos antes de os subirem duas vezes. E portanto, quando os nossos filhos dizem: "Não gosto de ti", estão a dizer gosto de ti duas vezes. Enfim, não me desiludas e mostra que tu percebes o que eu te quero dizer quando digo que não gosto de ti. Às vezes dizem mais: "Vou arranjar outra mãe", que é das coisas mais deliciosas que se pode dizer a uma mãe, porque eles dizem isso com convicção. E isso deixa logo sossegada a mãe, porque percebe bem que quando os nossos filhos dão para a demagogia são uns artistas.
Também é normal, no meio disto tudo, que esta mãe tenha uma sensação de culpa, mesmo que não faça sentido nenhum culpar-se, não é?
Já basta a sensação de culpa que uma mãe tem quando tem um segundo filho e que interpreta sempre um segundo filho como se fosse uma traição ao primeiro. E é só um segundo filho. É mesmo só um segundo filho. Agora, quando uma mãe tenta corresponder a todos os apelos, a todas as exigências dos filhos ou às exigências dela própria, que são as maiores de todas, aliás, e sente que, como tantas vezes, Judite e eu já ouvimos, que eu sinto que estou a falhar em todos os lados ao mesmo tempo, claro que o sentimento de culpa vai aumentando, sobretudo porque há situações de saúde de algumas crianças que não se resolvem numa semana, não se resolvem em dois ou três meses e às vezes exigem anos, como situações que têm a ver com intervenções cirúrgicas prolongadas e outros tipos de coisas, transplantes, etc. Coisas tão difíceis. E imagine aquilo que é um sentimento de uma mãe, porque depois a mãe sente-se a falhar, sente que o casamento dela está meio constipado porque já ninguém sabe para que lado é que se há de virar. A relação com os filhos não é o que devia ser, a relação com o filho doente fica completamente desorganizada, porque uma pessoa está de coração tão apertado que cede a todos os pedidos e mais alguns, porque pensa: "Mas eu agora vou aqui contrariar por quê?" E de repente isto vira uma bola de neve. É tão fácil. Isto nos pode acontecer a qualquer momento e às vezes nem sempre os serviços de saúde percebem as mães e os pais como deviam.
Também há mais essa. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Até amanhã, Judite. Um abraço também para si.