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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar da campanha de Natal de uma conhecida empresa de telecomunicações que aborda questões relacionadas com a masculinidade tóxica que circula nas redes sociais. O anúncio é feito pelo artista Dilas que, através de um rap de um minuto, faz um apelo à ação para combater a violência e o ódio contra as mulheres. Olá, Eduardo. Por que quis trazer esta publicidade para o programa?

Olá, Judite. Judite, porque eu acho que nós precisamos falar disso. E precisamos de falar, porque, por um lado, esta masculinidade tóxica existe. Se calhar, eu vou me confrontando com episódios na órbita da violação por parte de mulheres que me incomodam muito, porque eu estaria tentado a imaginar que vivíamos num mundo diferente e que estas pessoas, que ainda por cima algumas delas foram adolescentes e viveram isto numa clandestinidade total, mas que são pessoas absolutamente informadas e que têm tantos custos pela vida fora em relação a isto, que me parece que nunca é demais falar destas coisas. Por outro lado, há o outro lado da questão, Judite, que é: eu acho que aquilo que se cultiva em relação aos homens, muitas vezes, é muito sexista e parte-se do pressuposto de que, no final de contas, eles não são feitos por dentro das mesmas características que as mulheres acabam também por ter. E, portanto, cria-se aqui uma onda que eu não acho muito razoável, sendo certo que eu fico muito contente quando vejo marcas chamarem a si a responsabilidade. Claro, não o fazem de forma inocente, nem têm que o fazer. Mas chamarem a si a responsabilidade social e fazerem num formato que eu tenho a noção que só por si não vai resolver nada, mas muitos apelos destes, muitas interpelações, sobretudo, desta natureza, vão fazer com que muitos miúdos que andam às vezes completamente intoxicados com redes sociais e com imagens e ideias sobre a mulher absolutamente obscurantistas, possam ter uma nesga de luz. E com isso possam, pelo menos, dar os primeiros passos para que se tornem pessoas melhores, basicamente.

O fato de ser um jovem e um conhecido rapper a fazer este apelo tem impacto?

Judite, tem, porque utiliza, no fundo, uma linguagem e um formato de comunicação que inevitavelmente acaba por ter muito maior recetividade por parte das pessoas mais jovens. E depois, repare, eu acho que às vezes nós cultivamos uma ideia, também em relação aos jovens, que é um bocado pateta, porque eu acho que no fundo partimos do pressuposto de que eles são todos uns distraídos. Tão distraídos que mesmo quando chega a altura das campanhas eleitorais, agora menos, mas muitas vezes as estações televisivas vão buscar uns comentadores de 20 e muito pouquinhos anos, sem formação, às vezes sem a clarividência indispensável, mas sempre com a ideia de que elas são fixes porque trazem uma mota nova a falar de política e confundem, parece-me a mim, um comentador com influencer. E, portanto, a certa altura, quando nós nos confrontamos com isto, eu fico muito contente, porque finalmente há marcas que dizem, por outras palavras: "Ei, atenção, a miudagem é muito pouco distraída, a miudagem é tão respeitosa em relação a discursos inteligentes, mesmo que sejam com um murro na barriga, que de facto nós não os vamos tratar como se fossem débeis, mais ou menos adestráveis, e vamos falar claro, como se fala de forma vertical para as pessoas", porque temos a ideia de que se o fizermos numa linguagem que porventura é mais adaptada àquela que eles consomem e que de alguma forma gostam mais, nós temos a noção que eles apanham a onda e mais facilmente os pomos a pensar. E feito desta forma, eu fico muito contente.

Há discursos misóginos nas redes sociais, há mais do que havia antigamente ou agora estão mais expostos porque estão nas redes sociais?

Muito mais, Judite. Eu acho que nós vivemos num tempo um bocadinho estranho. Considerando aquilo que se passa na Assembleia da República e a maneira como às vezes quem devia pôr regras na discussão, vinda de onde vier, não o faz. Tudo é possível, mas a mim preocupa-me muito a forma como se banaliza a maldade e se banaliza a estupidez. E se banaliza a um ponto de se embrulharem comentários Que são violentos. Eles próprios são violentos sobre as mulheres, que são cada vez mais frequentes. Houve uma altura que eu achava que as pessoas ao menos tinham vergonha de ter esse tipo de atitudes mal-educadas e muito pouco inteligentes. Agora exibem-nas, que é uma coisa que me assusta, e os nossos filhos, e isso ainda me assusta mais. E por isso eu aplaudo a decisão australiana de dizer assim: "Oi, vamos lá falar de redes sociais só a partir dos 16, se não se importam". Por quê, Judite? Porque nós temos esta ideia completamente inocente, mas grave e escorregadia, de que eles lá por estarem em casa estão muito mais protegidos, menos expostos a perigos. E enquanto eles estão fechados no quarto, estão a consumir influencers, tutoriais, conteúdos que aparentemente são uma paródia, mas que no fundo veiculam este tipo de coisas, que são um atentado à formação dos jovens, são um mau trato. Só que se fosse um mau trato individual, que deixa marcas, um Estado chega-se à frente e diz: "Ui, não pode ser". Como é um mau trato aberto, completamente aberto e cujas consequências não se veem logo, o Estado reage como se isto não fosse nada com ele. E, portanto, cada um por si, Deus por todos, que é uma coisa que a mim me inquieta muito, sobretudo quando se fala de maldade.

E sobretudo quando se fala no limite do uso dos telemóveis e da internet.

Sim, e se passa esta ideia de que tudo aquilo que foram conquistas tão importantes da humanidade, nomeadamente em relação às mulheres, de repente parece quase moda. Isto não pode ser uma moda, Judite. Parece quase moda fazer comentários de uma baixaria tal e de uma violência tal, que de repente funcionam como slogans na política. Repete-se não sei quantas vezes um slogan e de repente parece um facto político. E nós não podemos assobiar pro ar. E por isso eu fico muito contente que uma marca diga assim: "Vamos lá falar a sério, mesmo que seja com um murro na barriga, vamos usar o tipo de conversa que eles muitas vezes usam, mas vamos lá falar claro pra ver se eles são ou não são capazes de pensar", e são.

Nós tivemos este ano a série "Adolescence", que se tornou num fenômeno global e o primeiro-ministro britânico, na altura, anunciou que o filme ia ser exibido nas escolas todas do Reino Unido. Há uma maior consciência agora?

Ó Judite, claro que há. A França já pôs este tipo de discussão também na ordem do dia e evidentemente que nós todos temos a noção que a vida tem uma velocidade de cruzeiro muitas vezes muito maior do que, no final de contas, a nossa capacidade para regular certas coisas. Não há drama nenhum nisso. É sinal que a vida puxa por nós com desafios que às vezes precisam de ser exagerados nalgumas circunstâncias para serem regulados noutras. Não é por aí. Agora, este tipo de discurso merecia uma peça como essa, que essa operadora de telecomunicações fez, como se calhar outras, porque são muitas contribuições como essas, por pessoas que merecem a admiração dos jovens, que os põem a pensar e fazem o contraditório que as redes sociais não fazem. Porque é isso que me incomoda, é que eles não têm contraditório. Isto traz-lhes o contraditório de uma forma tão clara e tão bem feita, que é impossível ficar indiferente.

Eduardo, hoje ficamos por aqui. Vamos de fim de semana prolongado e voltamos na terça-feira.

Ó Judite, o seu prolongado.

Foi entusiástico.

Muito entusiástico.

Até...

Bom fim de semana.

Bom fim de semana, até terça-feira.

Até terça.