Estudantes da Universidade da Beira Interior (UBI) manifestaram-se esta quarta-feira contra a intenção do Governo de aumentar as propinas, cortes no investimento público, a reforma da ação social e contra o decreto de “exclusão”.
João Rodrigues, um dos organizadores do protesto, disse à Lusa que os estudantes estão contra “as medidas que o Governo está a propor ou a implementar e que vão prejudicar quer os estudantes quer as instituições do ensino superior”.
Além do aumento das propinas, “também o teto do valor das residências vai sobrecarregar o orçamento das famílias. Na Covilhã, por exemplo, o teto das residências é de 70 euros, o que dá liberdade de aumentarem as mensalidades até esse valor”.
Outra das questões que os estudantes contestam é a revisão do regime jurídico dos graus e diplomas académicos, que apelidam de ‘Decreto de Exclusão’.
“O documento foi aprovado em Conselho de Ministros e assenta, essencialmente, em três pontos. O primeiro é criar novas provas de ingresso ao Ensino Superior, em literacia e numeracia. Além disso, cria quotas para os mestrados e doutoramentos, que não visam incluir, mas sim excluir estudantes”, afirmou João Rodrigues, adiantando que “apenas 35 por cento dos alunos com a nota mais alta é que pode entrar no mestrado e no doutoramento são 25 por cento. Nem todos os estudantes querem prosseguir estudos, após a licenciatura, mas se fizerem parte dos que têm melhor nota podem estar a tirar a oportunidade a outros que gostariam de continuar a estudar“.
Segundo os estudantes, além de vagas que podem não ser preenchidas, “cria-se uma espécie de elite com este filtro, prejudicando outros, como os trabalhadores estudantes, que são por vezes mais carenciados e não podem comparecer a todas as aulas, mas que também têm direito à sua formação”.
O subfinanciamento da UBI é outro dos motivos do protesto, apesar de ser uma reclamação com décadas. “Vemos a UBI destacar-se em várias áreas, mesmo a nível internacional, pela qualidade do ensino que presta, mas depois o Governo não acompanha esse desempenho com o devido financiamento“, lamentou João Rodrigues.
A falta de investimento, segundo este estudante, sente-se mais em cursos como Cinema ou Design de Moda, “porque os materiais usados nestas formações são muito caros”.
Inês Sobrado está no terceiro ano da licenciatura de Cinema e sente a falta dos materiais. “Estou na área de imagem e nós temos falta de câmaras de cinema, o pessoal de som sente muita falta de bons microfones, os microfones de lapela são essenciais para a criação cinematográfica e assim não é fácil. Temos três unidades curriculares em que temos que fazer um filme em menos de três dias, mas sem material adequado é difícil”, refere.
A estudante adianta que no curso, “o dinheiro disponível chega apenas para comprar um microfone por ano, sendo que há outros materiais que são consumíveis, como lâmpadas”.
Os estudantes recordaram no protesto que a intenção de aumentar as propinas “foi derrotada no ano letivo passado pela mobilização dos estudantes, incluindo na Covilhã”, adiantando que “o atual Governo não só não contraria a política dos últimos anos e as injustiças e desigualdades que sentimos todos os dias, como as vem agravar” e apontam o dedo não só ao Governo, como “ao Chega e à Iniciativa Liberal, que têm alinhado com a política do Governo, mas também o PS, que já se comprometeu com a aprovação do Orçamento do Estado para 2027, ou seja, permitindo medidas como os cortes no investimento e o aumento das propinas”.