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Bem-vindo ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje, 28 de maio, assinala-se o Dia Internacional do Brincar, uma data celebrada em mais de 40 países, que, como nos recorda o Eduardo Sá, não é uma pausa da vida das crianças, é a vida das crianças e um direito universal consagrado pela ONU. Mas a verdade é que, Eduardo, boa tarde, aos olhos dos adultos, brincar tornou-se, de alguma forma, um perigo. Por quê?

Lá está dito. Eu não acho que seja um perigo, mas é um bem em vias de extinção, e nós temos que lidar com ele dessa maneira. Os adultos querem muito as crianças à imagem deles, querem as crianças a pôr o trabalho à frente de tudo mais. E isso faz com que, por mais que seja generosa sua atitude em relação a toda a formação que querem dar aos filhos, e compreende-se por quê, a determinada altura, brincar passou a ser cada vez mais um bem escasso. Dantes, as crianças brincavam só ao fim de semana, o que já dizia muito pouquinho. Agora, ao fim de semana preparam testes, preparam trabalhos e muitos têm explicações para além das atividades sociais que umas ou outras acabam por ter. E, portanto, feitas as contas, realmente elas brincam muito pouco. E eu acho que os pais não o dizem de forma explícita, e volto a dizer, claro que não o fazem por mal, mas o que se passa é que num contexto destes, entendem que brincar é uma coisa mais ou menos acessória na vida de uma criança. E eu gostava de dizer que é mais importante que a escola. Ajuda-as a pensar, ajuda-as a formular problemas e resolvê-los, ajuda-as num conjunto de competências absolutamente sem fim e, portanto, crianças que não brincam não são crianças tão saudáveis assim. Era ótimo que nós tivéssemos noção disso. E é como diz, às vezes, parece que aquilo que é uma verdadeira vitamina do crescimento para as crianças, de repente, parece ter se transformado num perigo nas mãos dos adultos. E ainda bem que é um Dia Internacional de Brincar pra falarmos disto a sério.

No seu texto, "Brincar é um perigo", faz uma distinção entre os jogos didáticos, os jogos de estratégia, o brincar às mães e aos filhos, ao faz de conta, aos esconde-esconde. Há diferença do ponto de vista do desenvolvimento entre estas formas de brincar?

Nada. Tudo se complementa. Mas sim, é verdade, às vezes cria-se a ideia que há um brincar de primeira e um brincar de segunda, um brincar que é útil e um brincar que é mais ou menos acessório. E, portanto, o jogo simbólico, nem que seja às mães e aos filhos, seja o que for, é tão importante como o jogo de estratégia. Jogar xadrez ou fazer de conta são coisas igualmente importantes. E às vezes não é assim que é colocado e tem de ser. Os pais têm que perceber que as crianças, para crescerem saudáveis, têm que brincar todos os dias. Pode ser um bocadinho, paciência, mas têm que brincar todos os dias. E brincar não significa terem a mãe e o pai a brincar com elas, que fique claro. A mãe e o pai não têm que estar a brincar com os filhos, porque os filhos têm uma imaginação prodigiosa e são ótimos a usá-la como um verdadeiro canivete suíço para abrir oportunidades para inúmeras coisas, para inúmeras brincadeiras, que de outra forma não conseguiriam fazer.

Os ecrãs e os videojogos aparecem no seu texto como uma espécie de brincar sem alma, com a ponta dos dedos, mas contra o corpo. É possível brincar verdadeiramente num ecrã ou algo se perde?

É claro que sim. Mas sim, é verdade também que eu me preocupo muito pelo fato de os nossos filhos brincarem muitas vezes sem usarem o corpo. É muito liofilizado, sujam-se pouco, magoam-se pouco. E, portanto, eu acho que, inclusive, andar à bulha é um patrimônio da humanidade e eles andam muito pouco à bulha, portanto, não aprendem a usar a agressividade de uma forma proativa. E, de fato, eu entendo, quem não entende, que quando nós chegamos, depois de um dia de trabalho, completamente estafados a casa, tê-los quietinhos, agarrados a um ecrã, é um espaço pra nós respirarmos fundo e dizermos: "Que alívio!" Mas a verdade é que os ecrãs, que têm videojogos fantásticos, que ajudam a inteligência das crianças, não podem ser uma espécie de babysitter. E, portanto, uma coisa é as crianças brincarem 20 ou 30 minutos com o ecrã, outra coisa é brincarem uma hora ou duas. E aquilo que de alguma forma podia ser útil, transforma-se num obstáculo ao crescimento saudável. E, portanto, é muito bom que os pais percebam que ninguém quer fazer cruzadasContra as novas tecnologias, mas cuidado: ecrãs demais fazem mal à saúde mental das crianças. E isso nunca é demais referir, porque eles todos, de uma forma demasiado precoce, têm cada vez mais acesso, não só a ecrãs. Eu conheço muitas crianças que a partir dos sete anos têm acesso a redes sociais, que é um completo absurdo. E longe de mim dizer que os pais fazem isso por mal. Olha, condescendem, porque há umas amigas que têm as danças do TikTok, porque se não entrarem naquele jogo, de repente ficam excluídas quando chegar a altura do recreio. Mas os pais têm que ser uma reserva de sensatez, mesmo que às vezes tenham que dizer que não. E às vezes é tão difícil aos pais dizerem não.

O que os pais podem fazer para devolver o brincar às crianças?

Perceberem que as crianças estão a perder tempo de brincar todos os anos, que é uma coisa catastrófica. Perceberem que brincar não é uma atividade saudável das crianças. Brincar é uma atividade saudável da natureza humana. E se os pais querem ficar um bocadinho surpreendidos ou chocados, porventura, que não percam de vista que quem não sabe brincar é porque está a ter uma relação tristonha, deprimidota com a vida. E, portanto, eu fico muito preocupado que os pais brinquem pouco, riam pouco e se desmanchem a rir ainda menos. E, portanto, nós não queremos crianças deprimidas, queremos crianças com sucesso escolar, evidentemente, mas atenção, quanto mais elas tiverem relação com brincar, relação diária, volto a dizer, mais sucesso escolar, mais inclusivas são, mais saudáveis são. É tão fácil.

Antes de terminarmos o programa, vamos falar do próximo dia 1 de junho, segunda-feira, Dia da Criança, porque o Eduardo anda a reunir reclamações e sugestões de crianças e nós queremos pedir mais aos nossos ouvintes. E para isso basta enviar um clipe de som, um áudio gravado no telemóvel para eduardosa@observador.pt ou para o WhatsApp da rádio, e eu vou dizer o número, 910024185. Vou repetir, 910024185. E isto é pedir aos filhos e aos netos reclamações, sugestões para a vida, para a escola, para o dia a dia e gravar um pequeno áudio com a reclamação e enviar para este número. Na segunda-feira, dia 1 de junho, o Eduardo e eu vamos falar nessas sugestões, vamos dar voz às ideias e às reclamações dos mais pequenos.

Sim, um verdadeiro livro de reclamações e os pais que se preparem.

O Eduardo já tem uma lista longa de sugestões. Eu já vi algumas e há ideias absolutamente surpreendentes.

As crianças não andam distraídas, não andam nada.

É verdade.

E quando elas são chamadas a reclamar, fazem-no com uma lealdade absolutamente exemplar. E é isso que nós vamos aproveitar. A Escola Amiga da Criança está nos a ajudar muito a recolher muitas destas reclamações, mas elas são tantas e tão variadas que se ainda por cima tiverem o reforço dos nossos ouvintes, nós vamos fazer um programa um bocadinho mais crescido, que nos vai dar espaço para falar muito a sério daquilo que as crianças pretendem para a vida e vão ter a oportunidade de perceber que elas não são mesmo tão pequeninas como às vezes parecem.

É assim mesmo. Eduardo, até amanhã. Amanhã com mais um programa.

Até amanhã, Judite.

Obrigada, até amanhã.

Obrigada.