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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. Está conosco o Eduardo Sá, sempre de segunda a sexta-feira. Nesta semana do Web Summit, estamos por aqui a falar de tecnologia. Hoje, o nosso tema é pais e crianças. Aliás, é sempre assim à terça-feira. Eduardo, bem-vindo.
Olá, Eduardo.
Olá, Ana Filipa. Olá, Ricardo.
E vamos falar da influência que as telas hoje têm também no crescimento, na forma como educamos os nossos filhos. Andamos a rodear os miúdos de ecrãs, Eduardo.
Porque são ótimos para manter os miúdos quietos.
Completamente verdade.
E tudo isto tem um lado muito negativo também.
Devia ser proibido.
Eu acho que devia ser proibido. Começando pelo mais simples, ainda estou para saber porque é que não é proibido o uso de telemóveis pelos alunos durante os recreios nas escolas. Não consigo perceber.
Nos recreios, exatamente.
Isso é o nosso tema de amanhã: a tecnologia nas escolas.
Pronto, então vamos guardar para amanhã.
Sim, não vamos saltar etapas.
Exatamente. Mas no nosso dia a dia é de manhã, enquanto eles tomam o pequeno-almoço, quando chegam à casa.
Quer saber? Ainda bem que nós estamos no Observador e que a administração do Observador escuta todos os nossos programas.
Ainda bem que não estamos num jornal digital.
Exato.
É numa rádio.
E, portanto, eu achava ótimo. Juro que achava. Mas é que eu achava tão bonito que o Observador fizesse uns autocolantes que distribuísse pelos restaurantes de Lisboa a dizer assim: "O Observador recomenda que durante as refeições não se usem telemóveis", porque eu acho que era uma maneira ótima, para já, de fazer publicidade ao Observador e depois para participar numa discussão que eu acho que é fundamental que seja clara. Porque, de facto, é absolutamente escandaloso que nos restaurantes onde a classe média vai, porque têm mais possibilidades de comprarem vários tablets, só por isto. Se houver três crianças numa mesa, há três tablets numa mesa, que estão ali com os auscultadores, como deve ser, completamente agarrados. Os pais falam, claro que falam. Os miúdos estão completamente agarrados o tempo que for possível e nós ficamos descansados, porque, de facto, a refeição correu bem. Não, não correu bem. Correu de uma forma absolutamente catastrófica, porque para que os nossos filhos estejam quietos, se é necessário nós intoxicarmos todo o desenvolvimento deles com ecrãs, mal vai o mundo e nós não estamos a medir as consequências.
Eduardo, mas vamos imaginar este cenário. Vou aqui assumir a defesa dos pais.
Vamos lá.
Os pais, coitados, há dois meses que não conseguem ir jantar fora ou almoçar fora. E finalmente, dois meses depois, dois meses de intenso trabalho, uma vida agitadíssima, supermercados, aquelas coisas todas, marcações e futebol, essas coisas, conseguem finalmente ir almoçar fora. E o miúdo começa a fazer uma birra daquelas insuportáveis. Dá vontade de lhe dar o telemóvel. Não com o telemóvel, mas dar-lhe o telemóvel.
Esse detalhe é tão importante.
É só para esclarecer.
Muito bom.
Como reparou, eu hesitei.
Sim, eu acho que nós os dois ficamos pensando.
Onde é que ele vai.
Dar-lhe com o telemóvel. Às vezes apetece dar com o telemóvel.
Também.
E não é por isso que nós acabamos por ser maus pais.
Claro.
Mas vamos lá ver. Não vamos fazer disto uma cruzada absurda. E portanto, se num contexto desses, os pais entenderem que um cheirinho de telemóvel-
Quem é amigo dos pais, quem é? Estou brincando.
Não, ninguém quer ser fundamentalista, mas o que é verdade é que em muitos restaurantes, do princípio ao fim, as crianças estão agarradas a um tablet, não ligam a ninguém.
Estão dentro do ecrã.
Completamente. E o que é mais grave, é que em muitos restaurantes, e nós todos já presenciamos isso variadíssimas vezes, é inquietante quando uma família está cada uma com o seu ecrã, mas é absolutamente inquietante, como nós de certeza absoluta já vimos, quando está uma mãe e um filho adolescente ou um pai e um filho, que a mãe ou o pai falam e falam para o boneco, porque ele está rigorosamente agarrado ao ecrã enquanto come, enquanto tudo e mais alguma coisa. E às vezes, todos nós ficamos de coração apertado a pensar assim: "Mas este adolescente tem mãe ou tem pai?" Porque era suposto que a mãe ou o pai dissessem assim: "Vamos combinar uma coisa. Se eu não usar, tu não usas. Paciência." Não. E é isto que, de facto, acaba por estar em cima da mesa. Não é tanto o problema dos ecrãs, mas por que os pais, quando se trata de serem pais, têm a mania que para serem bons pais têm que ser fixes? Os pais fixes criam crianças atrevidas. Os bons pais criam crianças sensatas. Há uma ligeira diferença.
E o problema nesta questão das refeições com os miúdos mais pequenos é que depois isto torna-se regra, é que eles depois também aprendem: "Se não me dás um ecrã, eu não como."
Como é evidente.
E a partir daí tudo se torna muito complicado.
Como é evidente. Que os avós façam isso, uma pessoa aceita. Que os avós vão para a janela dar a sopa.
Estava a lembrar-me precisamente.
Uma pessoa aceita.
Eu ia para a janela ver as gaivotas, confesso.
É evidente, e por isso é que este homem ficou estragado.
Exato.
Mas que isso seja a regra para eles comerem não faz sentido absolutamente nenhum. Até por isto, porque obviamente, sejamos razoáveis. Um desenho animado estimula a imaginação, é uma maneira de as crianças terem acesso a uma história, que não muitas vezes converterem na capacidade de contar uma história que é ligeiramente diferente. Como um jogo, é muito importante para eles aprenderem a fazer raciocínio abstrato e não só raciocínio lógico. Os jogos são amigos da matemática, entre outras coisas. Mas evidentemente, que quando nós não percebemos o óbvio, que é a possibilidade de conversarmos uns com os outros, de pormos problemas em cima da mesa, é para isso que É útil conversarmos, aprender a resolvê-los, conhecer-nos e tudo mais. Se nós prescindimos disto, afinal de contas, pra que queremos uma família?
E depois há a questão, nós até falávamos dos YouTubers e dos pais que não se dão ao trabalho de perceber o conteúdo que os filhos consomem. Isso com os miúdos pequenos é gravíssimo, até porque eles depois aprendem a mudar tudo, a passar de vídeo pra vídeo.
Felizmente.
E, portanto, se os pais não estão muito atentos àquilo que eles estão a ver, às vezes os conteúdos, enfim. Aliás, o YouTube, basta acceder ao YouTube, ir virando de vídeo pra vídeo.
E vamos cá aos 13 anos. Quer dizer, era suposto que eles tivessem um perfil depois dos 13 anos. Depois dos 13 anos, será quando os pais entenderem que é razoável. Mas eu conheço crianças que antes dos 10 têm um perfil no Facebook. Que foi construído por quem? Pelos pais.
Pelos pais, sim.
A determinada altura, o que os pais pretendem com tudo isto? Não fica muito claro.
Isso agora até vira uma moda, não é verdade? Há certas influencers que criam logo contas quando os bebês nascem.
E, portanto, explique-me se houvesse um mundo com alguma sensatez. Se o Facebook tivesse alguma sensatez, não era didático se dissesse assim: "Vamos bloquear as contas, só porque sim, só pra criar uma regra" porque, senão, qual é a autoridade que nós temos pra dizer que depois se passam coisas esquisitas? E passam-se. Quando os miúdos têm 13 anos e têm pela primeira vez dados, é frequente, porque é facílimo com uma ilusia de likes, perceber se o perfil da pessoa que está do outro lado. É habitual, é mesmo habitual, que recebam algumas referências de conteúdos que entram entre o sexualizado e o pornográfico, que não foram buscar, foram-lhes lá plantados, quase como quem diz: "Aprenda a consumir". E as fotografias que lhes são pedidas são um caso grave, um caso de polícia, que é muito banal, é muito vulgar os adolescentes tirarem uma fotografia, aparecer caído do céu, porque é caído do céu alguém dizer assim: "Ipa, isto está um gira. Eu sou um mediador de uma agência de modelos, não queres tirar mais alguma peça de roupa?" E os adolescentes fazem isso no masculino e no feminino, e depois estão a viver sob períodos de chantagem com alguém a dizer assim: "Olha, vou divulgar as tuas fotografias pros teus amigos, pelos teus pais" e outras coisas do gênero. E, portanto, sim, os pais têm que ter uma opinião sobre isso e têm que intervir.
Têm de agir, não é? Têm de agir a tempo.
Sem dúvida.
E agir também pelo exemplo. Aqueles pais que partilham tudo que é fotografia dos filhos, por muito que o perfil seja limitado. Isto faz algum sentido?
Não há nada 100% limitado, não é?
Nunca há, não é?
Filipe, muitas vezes isto discute-se quando finalmente um casal se divorcia e um dos pais entende, e bem, que tem o direito de veto em relação às fotografias que o outro dos pais coloca nas redes sociais. E peço desculpa, se existe uma Comissão Nacional de Proteção de Crianças e de Jovens, e existe, liderada por uma pessoa por quem eu tenho o maior respeito e o maior carinho e admiração, eu não entendo. Dra. Maria do Rosário, isto é pra si. Eu não entendo porque é que todos nós, sabendo aquilo que algumas personalidades públicas fazem, explorando os filhos, sublinhemos em amarelo, explorando, quer pra criar peças com conteúdo de humor, quer para dizer: "Olha, estas botas são um agradável patrocínio disto e daquilo". E, portanto, há pais que vivem explorando os filhos, só que são pais da classe média. Porque se os filhos andassem a ser explorados nas fábricas de Paço de Ferreira, aqui d'El Rei, que as crianças andavam a ser exploradas. Como andam a ser exploradas, onde é que anda a Procuradoria neste registro? Devia andar. Onde é que anda a Comissão Nacional de Proteção? Não só de dados de crianças e de jovens. Deviam ter uma opinião, que era uma opinião formativa. Ninguém quer andar aqui no furor sei lá do quê, mas devíamos ter uma opinião formativa, porque essas crianças estão a ser exploradas. E o que é que se faz? Não se faz. E, portanto, desde o modo como se põem fotografias a torto e a direito, que não é só pela proteção de dados, é por tudo o resto que vem a seguir, porque há um tudo o resto que vem a seguir. E há gente sensata, mas há gente doente.
Mas também temos pais que são pessoas sensatas a fazer isso. Temos outros que são completamente contra, que nem um dedo da criança aparece, outros que publicam vídeos e conversas.
E pronto, e a determinada altura, uma Comissão Nacional de Proteção de Dados, que às vezes tem assim uns furores, que às vezes passam ligeiramente das marcas. Mas pronto, percebe-se que a função pode justificar o exagero. Devia, às vezes, ter esta função didática de dizer assim: "Não, não devem fazer". Porque eu percebo que os pais sejam vaidosos. Quem é que não é vaidoso como pai?
Claro. E os miúdos têm graça, não é?
Os miúdos têm a maior graça do mundo. O problema é que, a determinada altura, há muitos aspectos da vida deles que não devem estar nas redes sociais para proteção de todos.
E perdemos o controle também da privacidade da própria criança, não é?
Em absoluto.
E, Doutor, voltando aqui um bocadinho ao consumo que eles fazem, através do telemóvel, através de computadores, faz sentido criar um gênero de calendário? Há pais que têm estas regras. Eles podem ver meia hora por dia depois do jantar, antes de ir pra cama, televisão.
Eu, se pudesse recomendar, recomendava sempre antes do jantar.
Um bocadinho antes, depois de virem da escola.
Sim.
E, portanto, faz sentido criar esse calendário até, por exemplo, ao fim de semana?
Sim.
Manter as regras sempre.
Quer dizer, não vejo que venha uma grande turbulência ao desenvolvimento de uma criança, se ao fim de semana tiver direito a mais. Não vejo que venha daí um Deus me livre se nas manhãs de sábado ou nas manhãs de domingo, até porque os pais gostam muito de dormir de manhã e ainda bem Possam ter acesso a desenhos animados de manhã. Já não percebo porque é que têm acesso a desenhos animados ou a jogos de manhã, porque depois quando se trata de os pais interromperem e dizerem assim: "Pronto, agora tem que se acabar e vais ter que te vestir, vê lá!" Dá aquelas confusões que todos nós sabemos, para as quais os pais colaboraram de forma involuntária, com a melhor das boas-fé, mas de uma maneira mais escorregadia do que deviam.
E a partir de que idade, desculpa, Ricardo? Faz a tua pergunta, porque esta é muito diferente.
Ia só perguntar se devem ser sempre os pais a comandar o comando lá de casa.
Pois, mas isso sem dúvida absoluta que sim.
Mas não é isso que se passa, não é?
Devem ser as mães.
Não ouvimos nada agora, Ricardo. Eu acho que a bondade de pais, quando de repente há sempre um canal qualquer que é do gosto das crianças, mas que bom haver a bondade dos pais, que os filhos sejam os donos do comando e os pais quase peçam por favor para ver um serviço noticioso ou outras coisas do gênero, é como se lá em casa, em vez de haver um Estado de Direito, houvesse uma república do voluntariado, onde os mais pequenos mandam e os mais velhos, que deviam de alguma forma ser o garante da autoridade, andassem ali a pedir desculpa por terem que fazer aquele papel.
Vou deixar a minha pergunta para amanhã. Eu ia perguntar a partir de que idade é que eles devem começar a ter telemóvel, mas o argumento de irem para a escola e levarem o telemóvel também entra aqui. Portanto, o nosso tema de amanhã é precisamente a tecnologia na escola e vamos falar também sobre isto, fica prometido. O Eduardo Sá está sempre conosco, pode procurar por esta edição que vai ficar disponível já a seguir em podcast em observador.pt. Obrigada, Eduardo. Até amanhã.
Podem levar o telemóvel.
Sim, pode. É a exceção.
Mas não na refeição.
Não durante o almoço e o jantar e o pequeno-almoço. Obrigada, Eduardo. Até amanhã. Esta e outras edições do "Porque Senão É Respostas" estão disponíveis em podcast em observador.pt. O Eduardo Sá amanhã junta-se a esta emissão especial. Já a seguir senta-se também conosco por aqui neste nosso estúdio na varanda do Centro Vasco da Gama. Rádio Observador. Ouça este e outros conteúdos em observador.pt/rádio e subscreva os nossos podcasts.