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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Ter a guarda conjunta de um filho e educá-lo em conjunto não é a mesma coisa. A lei fala em responsabilidades parentais exercidas em comum, mas a casa do pai e a casa da mãe podem ser dois mundos diferentes. Duas horas de deitar, duas regras de ecrãs, dois critérios para os trabalhos de casa. Separa-se a conjugalidade, mas devia também separar-se a parentalidade? Aliás, haverá guarda conjunta sem co-parentalidade? E é disso que falamos hoje. Olá, Eduardo. Comecemos pela distinção de fundo. O que é que separa uma guarda conjunta, que é um arranjo jurídico e logístico, de uma verdadeira co-parentalidade?
Olá, Judite. No meu entendimento, uma guarda conjunta pressupõe uma co-parentalidade. Não vale a pena nós querermos que haja um contrato milimétrico entre os pais em relação a um conjunto de parâmetros, mas faz todo sentido que independentemente da mãe e do pai serem diferentes, como já eram, aliás, haja meia dúzia de coordenadas que sejam mais ou menos semelhantes, porque esse mínimo denominador comum dá, de facto, um sentimento de estabilidade a uma criança e, portanto, não significa que depois, ao passar de uma casa pra outra, oscile entre mundos que às vezes não têm rigorosamente nada a ver um com o outro. Judite, às vezes há pais e mães que fazem questão de fazer tudo tão diferente, que aquilo que está em análise não é propriamente os interesses ou o cuidado que querem ter em relação a um filho, mas uma teimosia, uma birra, às vezes uma forma de, através do filho, hostilizarem a mãe ou o pai. Isso não é razoável. E, portanto, numa guarda conjunta, no meu entendimento, os tribunais até se deviam omitir de dizer: "Fica deste dia até aquele dia", porque se parte do princípio, um bocadinho romântico, eu reconheço, de que os pais são crescidos o suficiente para responderem pelas necessidades e pelos direitos de um filho e terem os procedimentos adequados perante um contexto desses.
As regras e as rotinas, se forem mesmo iguais nas duas casas, os horários, a hora de deitar, os ecrãs, os trabalhos de casa, mesmo a comida, ou, por outro lado, uma criança aguenta bem que se faça de uma maneira ou de outra?
Judite, as crianças têm alguma versatilidade, é verdade, mas repare, uma criança quando está, por exemplo, com a mãe, se deita às 20h30. E quando está com o pai, se deita às 23h ou 23h30. Já é uma diferença muito significativa. Quando uma criança, quando está com o pai, por hipótese, pegando noutro exemplo, tem um acesso mais ou menos reservado a ecrãs e quando está com a mãe, tem o acesso absolutamente ilimitado, faz muita diferença. Quando num sítio lhe exigem que ela tenha modos à mesa ou que cumpra aquilo que toda a gente cumpre e noutro lhe permitem uma certa anarquia de regras, faz muita diferença. E, portanto, num contexto destes, a guarda conjunta muitas vezes não significa uma co-parentalidade e devia significar. E não é para bem dos pais, nem é pra que a mãe mande na vida do pai ou vice-versa. É para bem de uma criança, que é, independentemente das diferenças da mãe e do pai, enfim, filha dos dois e a requerer da parte deles uma atenção que é suposto que seja dedicada, delicada e coerente. Claro, sem dúvida.
Há um padrão também que se repete, que é quando a criança vira uma espécie de correio diplomático entre os pais. "Diz à tua mãe que..." "Pergunta ao teu pai se..."
Tão feio, porque de repente ela é empurrada, literalmente, pra um fogo cruzado. E aquilo que se ganha é que uma criança se sente todos os dias com uma autoestima a acanhar-se mais um bocadinho, porque no final de contas, vive literalmente a medo, Judite. E eu pergunto-me se os pais que uma vez, no meio de um desabafo qualquer, meio tolo, façam uma observação dessas. Judite, paciência, vale o que vale. Quando isto é regra, não pode ser, porque isto magoa tanto e, portanto, às vezes os pais não têm uma noção muito clara, mas isto é maus trato. E um maus trato como esse não pode ficar omisso perante a atenção dos pais, porque a partir do momento em que se banaliza, vale tudo? Não pode ser. Mas isto é muito frequente, tragicamente frequente, digo eu, na vida de muitas crianças.
Teríamos pano pra mangas pra este tema, porque muitas vezes o pai fixe e a mãe fixe e as regras que são diferentes exatamente pra marcar território. Eduardo, hoje ficamos por aqui, não temos mais tempo. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, um grande abraço. Obrigada.
Outro.
Até amanhã.
Até amanhã, Judite.