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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje trazemos o e-mail de uma mãe que nos conta que a filha não gosta de dormir sozinha. E desde que um novo bebê entrou na equação, a situação piorou. Mesmo com um quarto novo, negociações à mistura, as noites acabam inevitavelmente em birras e ida pra cama dos pais. Eduardo, olá. Como é que se lida com esta situação em que uma criança de sete anos insiste em dormir na cama dos pais?
Olá, Judite.
É difícil esta.
Mais ou menos, Judite, mas vamos lá ver. Esta rapariga não gosta de dormir sozinha ou, se nós quisermos perspetivar de outra forma, não acha graça nenhuma que, em vez de ser o bebê a dormir com a mãe, esteja ela a dormir com o bebê. E portanto, obviamente, num contexto destes, ela faz pela vida. Não tem graça nenhuma quando nos cai um bebê casa adentro, muitas vezes os pais com o olhar mais cândido do mundo, costumam dizer: "Não sei se está a perceber, foram eles que pediram". E as coisas nunca são bem assim e, portanto, é uma forma de os pais darem ênfase a qualquer coisa que é uma decisão deles e que tem que ser uma decisão deles e que obviamente que as crianças não perspetivam como a coisa mais simpática do mundo, sobretudo quando perdem mãe para um bebê. E portanto, nessas circunstâncias, uma criança de sete anos a fazer uma espécie de reclamação enfática, a dizer assim: "Não acho graça nenhuma à decisão que tiveram, mas onde é que está o mundo?" E aquilo que a mim preocupa é a palavra negociação, Judite.
Pois.
Porque quando os pais chegam à negociação, isto com legendas quer dizer: "Por favor, tira-me deste aperto, porque isto já está a ficar um bocadinho sufocante pra mim e, portanto, nós não sabemos como é que te havemos de convencer e estamos aqui às voltas. Enfim, dá-nos uma luzinha, se fazes favor". É evidente que um quarto novo é muito simpático, é evidente que às vezes faltam as legendas fundamentais, Judite. E as legendas fundamentais são haver uma mãe, neste caso uma mãe, por quê? Porque o pai perde um bocadinho esse pai quando nasce um bebê, mas perde muito a mãe. E, portanto, o grande problema de uma rapariga de sete anos é mais ou menos este: "Até que ponto é que existindo um bebê na equação, eu vou continuar a ser a tua filha querida? Na verdade, digamos assim, a tua filha preferida. Até que ponto é que eu posso estar segura que vais continuar a gostar de mim? Ou, enfim, com sorte, e mal eu dê por isso, o meu lugar está ocupado por alguém que não tem a mínima graça e que de repente entrou aqui em casa na sua versão paraquedista". E, portanto, é isto que uma mãe tem que dizer a uma filha: "Minha querida, se tu pensas que a mãe, lá porque há um bebê, de repente, deixa de gostar de ti, esquece. Tu vais continuar a ser a filha mais velha da mãe", que é uma maneira de dizer: "Nada de confusões, OK?" Filha mais velha tem um estatutozinho, que não é de deitar fora. Mas lá está, quer dizer, uma rapariga crescida não precisa de estar a dormir com a mãe só pra se certificar que a mãe gosta dela, porque se for por causa disso, valha-me Deus, há coisas que nós fazemos só as duas, que evidentemente que não cabe lá mais ninguém, o pai, o bebê, etc. E, portanto, isto ganha-se dando a entender que não há negociações aqui em relação ao quarto, mas que evidentemente se compreende que quando aparece alguém que ocupa tanto espaço, meu Deus, qualquer pessoa fica num Jesus, num sufoco. E fica ali com uma dificuldade de respiração sem fim, Judite.
A negociação então dá mais força à resistência.
Sim, porque quando os pais negoceiam, estão numa aflição. "Olha, por favor, haverá aqui maneira de tu aceitares uma decisão que a mãe e o pai tomaram? Por favor, isto é um governo em diálogo, de acordo?" E os pais fazem isto com a maior das boas vontades, a maior das bondades, Judite. Todos nós somos capazes de fazer isso num impulso, mas não há dúvidas nenhumas acerca disso. Mas é a nossa versão assustada. E quando nós estamos numa versão muito assustada, os nossos filhos tiram-nos tão bem as medidas que pensam: "Ui, bom, já não bastava um bebê novo, ainda por cima tenho uma mãe assustada aqui a pedir por favor pra eu aceitar um quarto todo remodelado e à minha maneira. Portanto, se calhar isto não me dá a maior das seguranças e eu vou entrar aqui em reivindicações por melhores condições no meu contrato coletivo em relação aos meus pais". É isso que ela está a dizer. E, portanto, negociar aqui É escorregadio.
O bebé de 16 meses já dorme no seu quarto sozinho.
Aquele parvalhão esteve ali não sei quanto tempo de mãe e pai só para ele e agora eu não tenho direito. O raciocínio é este e é um raciocínio sensato. Se fossem estes pais deitar fora e esta criança não perderia tempo com isto. Mas lá está, quando se é filha única, evidentemente que é muito difícil a certa altura perder esse protagonismo, por mais que os pais não queiram. E muitas vezes não tem a ver com os pais, tem a ver com os nossos amigos quando chegam a casa, que dizem olá à criança crescida e se babam para o bebé. Tem a ver com os avós, tem a ver com as pessoas todas que fazem parte daquela envolvência. E, portanto, é natural que uma criança quando tem um irmão, passe por um período em que fique um bocadinho deprimida. É um bocadinho deprimida, é só isto. Ou seja, porcaria de vida a minha, mas eu vivia tão bem, de repente, levo um encontrão pelas escadas abaixo em que onde é que andamos. É um bocadinho isso que as crianças sentem. Claro que elas não são claras. Às vezes dizem isso com mais birras, às vezes dizem isso reclamando chucha. Às vezes dizem isso ficando mais certinhas, que provavelmente são aquelas que nos preocupam mais, porque são aquelas que ocupam menos espaço, menos reivindicativas, mas ficam a moer esta dor de uma forma um bocadinho interminável. Mas todas as crianças quando têm um irmão novo, ficam muito inseguras em relação ao lugar delas, em relação à importância, à preponderância, à luminosidade que têm ou que imaginam ter junto dos pais. E tudo isto se fala à margem das palavras, portanto precisam de uma mãe ou de um pai a dizer assim: "Olha, a mãe pode estar muito enganada, mas as legendas talvez sejam: tu estás com medo que eu deixe de gostar de ti. Não me digas. Mas é que deixei mesmo". E às vezes quando nós entramos na brincadeira e na provocação, os nossos filhos sentem-se tão mais seguros que depois as negociações nem sequer são precisas.
E quando os pais defendem o seu espaço como casal?
Isso quer dizer o quê?
Quer dizer que estão a ser justos ou que estão a ser egoístas?
Estão só a ser justos, mas isso nem entra na equação. Ou seja, quando uma criança vai dormir sozinha, não é porque a mãe e o pai têm o direito de dormir um com o outro. Não tem a ver com isso. Tem a ver com uma questão mais simples. No entendimento dos pais, isto é um degrauzinho importante para a autonomia dos filhos. E é. Os filhos começam a ser mais autónomos, não é do dia para a noite, é da noite para o dia. Aprendem a adormecer sem os pais, depois aprendem a dormir sem eles e depois aprendem a contar com eles, mesmo quando eles não estão sempre presentes. Sendo certo, quando eles dizem: "Jesus!", os pais estão logo ali. E, portanto, não vale a pena os pais virem com esse tipo de argumentos, porque senão ainda fazem pior, porque uma negociação com uma reivindicação dessas, quase como quem diz: "Olha, nós também temos direito a ter o nosso espaço só para nós", é estar a dar a uma criança de sete anos, um protagonismo que manifestamente ela não precisa de ter. Ela só está assustada, porque de repente há um bebé cheio de piada que entrou casa adentro e anda ali a colher os tempos de antena fundamentais de toda aquela gente, com esta criança de sete anos a dizer assim: "Mas eu era tão engraçada até há 16 meses para trás. O que aconteceu? Expliquem-me." Só está muito assustada, só isso.
Vai passar.
Claro, passa. Bem gerido, passa mais depressa.
Um grande abraço, obrigada e até amanhã.
Até amanhã.
Até amanhã.