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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Uma mãe escreve ao Eduardo com o caso do filho que é agredido por outra criança com ferimentos visíveis. A escola não informa dos casos e atribui a situação a pequenos desentendimentos. Eduardo, boa tarde. Pode uma escola desvalorizar episódios repetidos de violência física?

Olá, Judite. Poder, não devia poder. Mas fazem. E eu não me canso de chamar a atenção, que eu não percebo qual é o protocolo que as escolas empiricamente adotam para que façam todas, praticamente, o mesmo perante este tipo de circunstâncias, que são, de facto, circunstâncias graves. As escolas não são tão rigorosas na avaliação do que se passa quanto deviam. Muitas vezes fazem leituras um bocadinho exorbitantes, porque na verdade, o que é que nós temos? Temos que as escolas às vezes castigam vítima e agressor, que é uma coisa que não tem nem pés nem cabeça. Fazem às vezes uns processos a roçar processos sumários, em que, em boa verdade, as vítimas nem sequer têm uma oportunidade de defesa, que é uma coisa que não se entende. E depois empurram com a barriga e desvalorizam e muitas vezes deixam que as coisas cheguem a maio para depois finalmente dizerem que já que estamos no fim do ano, não vamos estar a mexer nisso tudo. Eu fico muito zangado, devo dizer, porque eu percebo que as escolas não possam estar a tomar conta de todos os miúdos ao mesmo tempo, nem devem, no meu entendimento, ter circuitos internos de televisão, como algumas têm, de uma forma muito questionável. Mas é suposto que tenham um auxiliar de educação, nomeadamente, a dar uma vista de olhos nos recreios e quando este tipo de situações se dão, a avaliar as coisas e a proteger quem precisa de ser protegido. E portanto, não é normal, não é razoável. Acho que às vezes as escolas nem se dão bem conta pela negligência. E estou a falar de escolas públicas e privadas, é isso, muito semelhante, pelos custos desta negligência, porque eu já perdi a conta dos miúdos que a certa altura começam a cair com todo o seu rendimento escolar, como se compreende, com que descontração e alegria é que vão para a escola quando sabem aquilo que lhes espera, e alguns recusam-se liminarmente a ir. E aí é que às vezes os pais acendem uma luzinha e tomam medidas um bocadinho mais musculadas, como deviam ter tomado desde o princípio, em relação a tudo isso.

Em idade pré-escolar, que é o caso, onde é que acaba aquele conflito normal entre crianças e começa aquilo que se pode chamar uma agressão?

Judite, a diferença está entre o episódico e o regular. Uma coisa são dois miúdos tomarem-se de birras e estarem ali numa briga que entretanto cresce e se aleijam mutuamente. Outra coisa é, de uma forma repetida, uma criança e sempre invariavelmente a mesma criança, ou o mesmo grupinho de crianças, que também acontece muito, infernizar a vida de uma vítima que, regra geral, são miúdos tranquilos, bondosos, que têm alguma dificuldade em reagir nestas circunstâncias e, portanto, o episódico talvez não mereça, como é óbvio, nenhuma decisão precipitada, se bem que atenta, como não podia deixar de ser, mas o regular, por favor, passa todos os limites.

O que deve fazer uma mãe quando deixa de confiar na resposta da educadora? Porque é isso que está a passar neste momento.

Escrever à direção da escola. Eu gosto sempre de coisas escritas. Escrever à direção da escola, na sequência das conversas informais que possa ter tido, chamando a atenção para a enorme preocupação e para a absoluta necessidade de existirem medidas a estes níveis. Eu lembro, Judite, que às vezes estas crianças que agridem são elas próprias filhas de pais às vezes muito difíceis e que, portanto, diante dos quais a própria escola se encolhe muito. Às vezes nem é sequer de saber o que se passa, é de contactar e assumir o óbvio, que é, se a escola e a direção não tomam medidas de proteção, evidentemente, esta informação drena-se para as entidades responsáveis e aí a escola, as direções regionais, as comissões de proteção de crianças, etc., a polícia segura E aí as escolas têm um 31 nas mãos, que era perfeitamente evitável se tivessem uma atitude muito mais atenta e muito mais rápida. E só quando às vezes se ameaça a direção de uma escola, é que de uma forma, ainda assim, nalgumas circunstâncias, um bocadinho atabalhoada, é que vêm as primeiras medidas de proteção. E isso a mim zanga muito, porque uma escola deve ser um local precioso para ensinar a boa educação. E esta negligenciazinha, esta distração repetida, é um exemplo de má educação que não pode acontecer.

Como é que se protege emocionalmente uma criança que entra em pânico só de pensar em ir pra escola? Se é possível, sequer.

Ós dito, uma mãe e um pai fazerem voz grossa e à frente da criança chamarem a educador e com educação, mas de uma forma de sobrórelho franzido, dizerem: "Nós entendemos que estamos a passar um bocadinho de todas as marcas. E se me der licença, eu falo agora mesmo com a direção." E, portanto, é muito importante que uma criança perceba de forma absolutamente inequívoca que os pais estão lá, que são pessoas sensatas, que não querem entrar numa espécie de pingue-pongue, ora agora agredes tu, ora agora agrido eu. E se fizerem isto de uma forma firme, uma criança não se sente desamparada, porque o grande mal disto tudo é que uma criança se sinta agredida por colegas, que supostamente podiam ser amigos, e ao mesmo tempo se sinta desamparada pelos adultos, sejam eles uma educadora, um professor ou os próprios pais. Isto não pode ser.

Há alguma altura em que mudar de escola é um ato de proteção?

Ós dito, no limite dos limites, eu admito que sim, mas a mim choca-me sempre isso, porque é como se, no fundo, as vítimas, para além de serem vítimas e para além de serem expostas a uma negligência que não se consegue entender, no limite, sejam elas as penalizadas e tenham que mudar de escola e refazer relações de amizade, como se, no fundo, fossem delatores premiados que começam a vida num sítio qualquer a partir do zero, quando só foram vítimas. E, portanto, é suposto que havendo justiça no mundo, que os maus, mesmo que sejam pequeninos e não tenham a exata medida do que estão a fazer, mas muitas vezes o façam porque os contextos em que crescem às vezes dão uma ajudinha mais do que era suposto pra que eles sejam assim, mas é suposto que não sejam os bons a ser castigados enquanto os maus ficam a rir, porque hoje é aquela criança que é a vítima, amanhã, se não se fizer nada, é a outra. Sendo certo que eu não estou a dizer que estes meninos que magoam sejam maus, ponto. Eu continuo a achar que eles próprios também são crianças que precisam de ser protegidas, porque como se compreende, que sentido tem nós imaginarmos que uma criança de quatro anos precise de andar a magoar sistematicamente um colega e a fazê-lo com essa gravidade. Que sentido é que tem imaginarmos que ele esteja de bem com a vida e seja só uma criança muito intensa, como às vezes as escolas dizem, quando muito intensa significa um bocadinho mais doente do que era suposto para uma criança de quatro anos, que nós queremos muito que sejam só crianças saudáveis e alegres e que tratem a escola como devia ser.

Esperemos que este caso corra melhor. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Outros para si. Até amanhã, Ós dito.