Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de telemóveis, mas não só os que os adolescentes usam. Olá, Eduardo. Falamos muito de adolescentes que usam telemóveis, mas pode um adulto exigir moderação quando também vive permanentemente ligado a um telemóvel?
Não.
Não pode, não é?
Lá vais tu. Não, não pode. Os pais, falando da comparação entre os adultos e os adolescentes, porque os adolescentes estão sempre na berlinda em relação aos telemóveis, porque os pais passam a vida a dizer que o telemóvel é uma espécie de prolongamento do corpo e que nunca o largam, etc. Mas tomando como comparação os adolescentes, eu não acho que haja uma diferença tão grande assim, pelo contrário. Eu acho que os pais só não reconhecem o quanto vivem com o mesmo tipo de dependências, nomeadamente redes sociais, que os seus filhos, porque se calhar perdem a cara, ficam com vergonha e fica ali um embaraço um bocadinho grande no ar. Mas é idêntico em todas as alturas. Vendem-se dispositivos para que as grávidas quando amamentam estejam a ver uma série. E aqui eu acho que devia ser um bocadinho proibido, porque eu percebo que é um momento que quando se repete uma vez, duas, três, muitas, acaba por ser um bocadinho cansativo, exaustivo até. Mas o bebê está ali a alimentar-se mais com os olhos da mãe do que propriamente com a mama e aquele olhar que interage com ele faz muita diferença. Não havendo esse olhar muito focado no olhar dele, ele fica assustadiço. Assustadiço significa mama menos, dorme pior, fica mais agitadote. Mas ao longo do crescimento é muito semelhante. E o telemóvel passou a ser indispensável à mesa de pequeno-almoço, muitas vezes demais até. À mesa do almoço, quando se vai no automóvel, que é uma coisa muito engraçada, os casais agora falam menos porque um conduz, o outro vê de uma forma sistemática as redes sociais e isto, sem fazer dos telemóveis e das redes sociais, sobretudo, um drama, devia ser uma interpelação para nós, porque nos afasta, porque nos torna menos comunicativos, porque nos torna mais distraídos, mais impulsivos e com muito mais dificuldade de falar de forma clara das coisas. Tudo junto. Se calhar merecíamos estar atentos a esse tipo de escorregadela, que uns mais do que outros, claro, todos acabamos por ter.
Até que ponto é que projetamos nos adolescentes as dificuldades que são, afinal, nossas?
Muitas vezes, o tempo todo. Quando nos zangamos com eles, claro que temos toda a legitimidade do mundo para nos zangarmos, mas quando nos zangamos com eles, às vezes uma parte significativa da nossa zanga, sobretudo aqueles desabafos um bocadinho mais intempestivos ou mais arestas, uma parte desses desabafos tem a ver com coisas que os adolescentes fazem, outras têm a ver com algumas partes do seu comportamento que são iguaizinhas ao nosso. Nós queremos protegê-los dos nossos erros, muitas vezes, sem dúvida, mas às vezes não nos damos conta que estamos a zangar conosco. E não é pecado que nos zanguemos conosco. É mais escorregadio quando o fazemos através de interposta pessoa, neste caso, um filho que tenhamos que seja adolescente e que esteja sempre agarrado ao telemóvel.
O problema é: como é que se ensina o autocontrole digital sem dar o exemplo?
Não se ensina. Eu acho que não se ensina e eu acho que é como em tudo na vida. Nós educamos com exemplos, não educamos com bons conselhos. Quanto mais maus exemplos damos, às vezes sem nos darmos conta, mais inundamos de bons conselhos as nossas palavras com os adolescentes. Não. Os adultos fazem dois quilómetros de scroll todos os dias nos seus telemóveis, o que é uma enormidade. Passam imenso tempo, nas mais diversas circunstâncias, ao telemóvel. E o que é engraçado é que muitas vezes não usam para falar com pessoas que são importantes para eles. Usam, sobretudo, nesta distração permanente, que é trazerem um conteúdo para dentro deles, um conteúdo que tem uma validade de dois ou três segundos, e passarem para outro, sem se darem conta que é como se estivessem a mordiscar um alimento e a mordiscar outro. Nós estamos a empanturrar a nossa cabeça de pequenas informaçõezinhas Pequenos videozinhos, coisas mais patetas, outras mais curiosas, outras feias e caricatas. Mas ao termos a cabeça empanturrada destas coisas, isto ocupa lugar. Isso é que eu acho que às vezes nós não nos damos conta, ocupam muito lugar, ficam ali uma infinidade de digestões por fazer. E portanto, quando se trata de nós pegarmos naquilo que se passa conosco e pormos legendas por ali abaixo, de uma forma clara, sintética, etc. Estamos tão pesados, que não é por acaso que muitas vezes chegamos ao fim do dia meio atordoados. E não é só pelo trabalho. Às vezes é, às vezes é simples, trânsito e tudo mais, mas é muito também por este tipo de intoxicaçãozinha que de uma forma repetida nós levamos todos os dias.
E o que se perde numa relação entre pais e filhos quando o ecrã ocupa esse lugar todo de atenção?
Edite, perde-se muito e perde-se muitas coisas muito importantes. As pessoas vão-se afastando, as pessoas vão deixando de se conhecer umas às outras, coabitam, mas convivem pouco, sabem pouco das histórias uns dos outros. E todos nós sabemos que o grande desafio da natureza humana, aquilo que nos caracteriza como espécie, é esta capacidade de transformarmos a experiência de vida em histórias. E quando nós não partilhamos as histórias, estamos lá, mas vamos ficando próximos e distantes. E portanto, isto não ajuda a que se crie uma ligação familiar. E isto às vezes vai a tal ponto que começa a ser frequente, e eu digo isso com um sorriso nervoso, que muitas vezes há mães, pais e filhos, que estando na mesma casa, comunicam por WhatsApp. O que é uma coisa muito assustadora.
E pais distraídos são pais menos simpáticos?
São. Sabe por que, Edite? Porque nós quando trazemos isso tudo para dentro da nossa cabeça, nós ficamos bem quando saboreamos, quando degustamos, quando compreendemos, quando retiramos dali um ensinamento qualquer e ficamos mais seguros de nós. Nós com isto tudo ficamos agitadotes e ficamos zangados, ficamos muitas vezes mais zangados. Não estamos abertamente zangados, mas não somos as pessoas mais atentas, mais capazes de escutar, com o olhar mais simpático do mundo. Ficamos muito embrenhados em nós próprios e naqueles conteúdos. E não vale a pena que tenhamos a ideia de que de repente nos tornamos muito acessíveis. É como se na nossa testa estivesse ali um letreiro a dizer: "Perigo, alta tensão". E quando é assim, as relações dão faísca e queimam mais do que deviam. E isso é que às vezes não nos passa pela cabeça, mas existe.
É um problema que não é deles, é um problema que é nosso, não é?
Sim, claro.
Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema e até lá já sabem, escrevam-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Outro para si, Edite. Até amanhã.