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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de terapia através de inteligência artificial. Olá, Eduardo. Por que um adolescente prefere desabafar com uma inteligência artificial em vez de um adulto de confiança?

Olá, Judite. Preferir, talvez não prefira. Mas num primeiro momento, sim, é mais privado, pode-se escolher a plataforma e, sobretudo, esconder da família e dos amigos aquilo que se está a fazer. É uma forma que lhes dá a ilusão de um faça você mesmo, tão querida aos adolescentes, como se eles fossem capazes de resolver os seus problemas sem precisarem da ajuda de ninguém. E, portanto, num primeiro momento, eu compreendo que eles façam esse tipo de abordagens, porque eles têm ali à mão e porque, valha a verdade, Judite, eu perco a conta aos adultos que em muitas circunstâncias, quando têm um problema de vida, dialogam com os ChatGPT desta vida e tentam encontrar respostas para resolver os seus problemas. Portanto, acaba por ser um admirável mundo novo. Nada chocante, devo lhe dizer. Agora, o que é muito importante, que nós também não percamos de vista, é que esta inteligência artificial está longe de ser muito inteligente e, portanto, dá respostas adequadas, muito dentro daquilo que é uma curva normal, respostas concertadinhas, muito bem arrumadas, etc. Que, por mais que tenham uma capacidade de ligação de informação fantástica, a verdade é que depois não são capazes de pegar em todos os pequenos pormenores, porque, valha a verdade, também às vezes há técnicos de saúde mental que não são capazes de o fazer. Mas é suposto que quando há um técnico de saúde mental muito experimentado, ele funcione em relação àquilo que se passa dentro de alguém, como um cirurgião. Pega nos pequenos pormenores, liga-os com delicadeza. É suposto que ponha tudo isso a funcionar e que ajude a resolver problemas que durante muito tempo pareciam mais ou menos crônicos e que às vezes eram embrulhados em leituras precipitadas, como aquelas que a inteligência artificial dá, ou como outras que lhes chegam através de tutoriais ou influencers que eles próprios também escutam, às vezes mal, às vezes muito mal, para tentarem num primeiro momento resolver os problemas que se evolumam na vida deles.

O sigilo à volta destas conversas, e há um estudo brasileiro que diz que o sigilo à volta destas conversas chega aos 70%. Isso diz-nos alguma coisa sobre a relação entre pais e filhos?

Judite, às vezes diz. Vamos lá ver. Eu acho que quando os pais têm um filho com dificuldades psicológicas, e todos os nossos filhos mais tarde ou mais cedo as têm, não vejo que faça sentido termos uma leitura sequer alarmista com isso. É claro que os pais ficam assustados, ficam às vezes aflitos, simplesmente. E eu compreendo que peçam ajuda. Até aqui, tudo bem. Já não entendo, devo dizer, que quando se ajuda, nomeadamente um adolescente, haja uma barreira de silêncio em relação aos pais. Também não entendo que às vezes haja uma certa promiscuidade entre aquilo que se fala com o técnico de saúde mental ou com uma plataforma, e aquilo que de alguma forma se divide com os pais. Durante muito tempo, e eu fico muito orgulhoso por isso, a psicanálise chamou a atenção para a necessidade de separar estes territórios. Quem falasse com os pais, não falava com os adolescentes. Por quê? Porque era uma maneira de deixar claríssima a privacidade que um adolescente precisa ter para se confiar e para, de alguma forma, ter as garantias de que pode abordar seja o que for, sem que aquela informação fuja de controle e se vire contra ele. O que não quer dizer, e eu digo isso com muita ênfase, porque vejo cada vez mais colegas meus não conversarem com os pais acerca daquilo que se passa com os filhos. O que não quer dizer que os pais não devam ter acesso àquilo que se passa com os filhos. Têm que ter acesso. Os pais têm que perceber até que ponto é que as pessoas que acompanham os filhos são pessoas capazes, sensatas, adequadas e, já agora, que fazem leituras tão finas e tão sintéticas que lhes dão pistas para atuar com eles. Muitas vezes, quando se fala com os pais, aquilo que está em questão é os pais terem instrumentos e grades de leitura que façam com que adequem os seus comportamentos a algumas dificuldades, umas maiores, outras menores dos filhos, e com isso os possam ajudar a vencer. E, portanto, eu compreendo e aplaudo a privacidade dos adolescentes quando se fala de saúde mental, mas não entendo, quer quando se cria uma promiscuidade no sentido de: "Olha, estivemos a falar disto É como se, de repente, o adolescente não tivesse direito a uma relação de confiança, onde a informação fica ali preservada e muito bem acarinhada, mas também não entendo, de modo nenhum, que os pais sejam considerados quase como figuradores disto e não tivessem todo o direito de perceber e de participar na evolução dos filhos, porque de outra maneira, nós estamos a querer ser imparciais e estamos a criar uma belíssima confusão.

Que perigo existe quando é a máquina, e não um profissional, a validar ou não o sofrimento de um jovem?

As máquinas são todas muito grosseiras, as máquinas assentam em grelhas de sintomas e essas grelhas de sintomas, quando são manuseadas, inclusivamente pelas pessoas, dão muitas vezes leituras muito enviesadas. Dou-lhe um exemplo: quando a Judite tem uma febre, a febre é fácil de avaliar, basta ter um termômetro, mas ter 37,2 é estar um bocadinho adoentada de um ponto de vista psicológico. 37,5 pode significar um pouco mais, mas 37,5 durante dois ou três meses significa que, de facto, sendo uma pontinha de febre, como muitas vezes se diz, já indicia qualquer coisa que está a passar muito para além do razoável. Ou seja, quando se faz uma leitura macroscópica de um sintoma, não se ligam os sintomas entre si e muito menos se faz uma leitura compreensiva, de maneira a perceber-se como é que se chegou àquele sintoma e como é que se sai dele. Isto é, quando a Judite tem uma ponta de febre, mal estaríamos se o seu médico de família começasse por lhe dar um antibiótico de largo espectro. Tem a ponderação de perceber até que ponto é que o seu corpo reage e, se não reagir, depois avaliar qual é a bactéria, se for o caso, que está a contaminar e, portanto, num contexto destes, muitas vezes as plataformas são leituras muito superficiais, muito generalistas, muito normativas e às vezes, em vez de se resolver um problema, fica-se com um conjunto de respostas que eu continuo a dizer, são compreensíveis, tomando em consideração tudo o que são computadores e telemóveis que os adolescentes têm à sua disposição, mas mal estaríamos que daí eles tivessem as pistas consistentes e o acompanhamento ponderado, e já agora, o aconselhamento indispensável, que os ajudassem a resolver problemas, coisa que só uma relação clínica com alguém seguro, de preferência sensato e já agora experiente, pode dar.

Fica aqui a receita que não passa pela inteligência artificial. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Outro para si, Judite, e até amanhã.