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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje, a pedido de um ouvinte, vamos falar de masculinidade tóxica. Olá, Eduardo, boa tarde. Vamos começar por definir masculinidade tóxica. O que esta designação quer dizer?

Olá, Judite. Olá, Bruno.

Olá, Eduardo.

Não sei. Judite, é tão engraçado. De vez em quando andam por aí umas etiquetas, algumas delas inteligentes até, que de repente pegam fogo e as pessoas repetem. E eu acho importante que, de alguma forma, nós possamos debruçar sobre elas, mas com alguma ponderação. Eu imagino que isto tenha a ver com aquela ideia de que os homens, começando por alguns exemplos, quando nasce um bebê, são ótimos a ajudar. Aquela pergunta clássica: "E o teu marido ajuda?", como se, no fundo, ele fosse uma fada do lar só porque é capaz de mudar uma fralda, entra muito a peito nisso. Aquela ideia de que os homens não choram e não se comovem, e que têm muita dificuldade em dizer de maneira clara aquilo que sentem a propósito das pessoas de quem gostam. E aquela forma, que no outro dia estávamos aqui a conversar, que leva a partir do pressuposto que, naturalmente, num casal, os homens têm que ter maior rendimento que as mulheres, porque senão se sentem pouco homens por causa disso, etc. Se for por aí, de facto, eu percebo que haja uma masculinidade tóxica e que nessas circunstâncias, ela intoxique, sobretudo, os homens em questão, que talvez vivam cercados de um conjunto de lugares comuns que no final de contas os limitam muito e lhes tiram, ou pelo menos inibem, algumas das grandes qualidades que eles têm. Do outro ponto de vista, eu também tenho medo que se crie a ideia de que todas as características dos homens, ou grande parte delas, serão tendencialmente tóxicas, porque de repente até parece que temos que pedir desculpa por sermos homens e termos uma visão sobre as coisas que não é necessariamente uma visão desequilibrada sobre elas. E, portanto, às vezes eu tenho medo que haja aqui, às vezes no ar, uma certa tendenciazinha para achar que tudo que está virado avesso no mundo é culpa dos homens, e os homens são responsáveis por muitas coisas, nem sempre bonitas. É verdade que não. Mas cuidado, os homens têm lágrimas com cloreto de sódio, coração, pensam, também querem mudar o mundo, também querem ser felizes, vejam bem. E também querem ser bons pais e bons companheiros, aquelas coisas todas. E, portanto, às vezes eu tenho medo que, pondo isto a circular, se repita e parece que por trás de cada homem está um reservatório de toxicidade. O que, valha a verdade, não é verdade.

Eduardo, mas não serão esses homens de que acabou de falar, esses homens que também choram, também querem mudar o mundo e são boas pessoas, as primeiras vítimas de certos comportamentos tóxicos dos outros homens? Nós estamos a falar deste assunto à boleia da sugestão de um ouvinte que se sente ostracizado pelos grupos de outros homens, quer na família, quer no trabalho, por não aderir a certos códigos. Esses códigos existem, esses comportamentos existem, chamemos-lhes tóxicos ou outra coisa qualquer.

Admito que em algumas famílias seja assim, mas também eu acho que um homem, agora tenho medo de escorregar, pronto, vejam bem. Mas eu tenho medo que um homem que queira assumir-se como homem, possa também ser uma força tranquila. O François Mittérrand me desculpe.

A apropriação.

Exatamente. Possa ser uma força tranquila e que mesmo quando está engolido por estas ideias completamente enviesadas e pouco rigorosas até, tenha a coragem que, desculpe, um homem também deve ter, para que, de forma equilibrada, ajude a mudar o mundo, começando, desde logo, a mudar as pessoas das respectivas famílias, que às vezes, de uma forma muito precipitada, fazem um conjunto de ilações que não são, de facto, sérias. Agora, eu também entendo. E é tão engraçado às vezes, Bruno, sabe? Agora estamos só nós dois, não há a Judite, não há mais ninguém a escutar-nos. Mas é muito engraçado, porque todos nós, de forma intuitiva, todos os homens, acabam por ter uma ideia de uma certa configuração que as mulheres fazem abstrato daquilo que é um homem. E aquilo que, de facto, entendem como um homem, dá espaço para um lado carreiro, dá espaço para um lado clarividente e corajoso, que pode ser até protetor em muitas circunstâncias. Não me interprete mal, como se no fundo os homens existissem pra proteger as mulheres, porque isso já deu Até num debate na Universidade de Coimbra, uma reação de uma candidata à Assembleia da República, e muito bem. Mas que podem ter tudo isso e podem saber pegar num bebê, e podem saber comover-se, e podem ter rasgos de paixão e tudo mais. E isto, de facto, é muito importante. Agora, cuidado, porque as mulheres muitas vezes falam desta toxicidade e alimentam, horror de vezes. Quantas mulheres -- nós os dois, de certeza absoluta -- já escutámos a dizer que no dia em que fossem os homens a ter bebês, a humanidade acabava porque eles não aguentavam senão ter um. Cuidado! Há muitos homens que se sacrificam horrores pelas suas famílias, que trabalham e fazem sacrifícios inacreditáveis. Os homens estão habituados a ser segundas figuras durante um mês, dois meses, 12 meses, 24 meses, quando os seus bebês, compreensivelmente, passam a vida a pescar o olho à mãe e os homens são uma entidade mais ou menos secundária nisso tudo. E cuidado! Eu nunca vi nenhum homem dizer assim: "O que seria de uma mulher se fosse uma personagem secundária nesta triangulação com o filho e com o pai do filho? Porque se fosse assim, ela nunca mais aceitaria ter um segundo filho". Eu nunca vi os homens dizerem isso em relação às mulheres, que poderiam fazer, mas não fazem. Portanto, às vezes esta toxicidade é também muito alimentada pelas mulheres, mesmo quando são mães de rapazes. Tenham cuidado, porque às vezes alimentam este tipo de enviesamentos mais do que supostamente imaginam.

Eduardo, ficamos por aqui.

Estava aí?

Estava aqui.

Estava escondidinho a ouvir atentamente.

E a tomar notas. Hoje ficamos por aqui. Voltamos amanhã com mais um tema. Até lá, escreva-nos para eduardosa@observador.pt e também ouça-nos em podcast. Eduardo, obrigada, um grande abraço e até amanhã.

Um abraço. Um abraço para os dois e até amanhã.