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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar do mesmo ritual ano após ano. Ano novo, vida nova, costuma dizer-se. Prometemos mais tempo, menos excessos, mais saúde, mas os estudos dizem-nos que a maioria das resoluções começa a falhar ainda em janeiro e muitas logo na primeira semana. Olá, Eduardo. A mudança entusiasma-nos, mas depois choca com a rotina. É um problema de falta de força de vontade?

Olá, Judite. Bom ano.

Bom ano. Bom ano pra si também.

Não posso esquecer de dizer essas coisas.

É verdade.

E pra esse senhor que nos lançou, Ricardo Conceição.

Cá estou. Chamou, Eduardo. Cá estou.

Meu Deus, ele está aí. Que privilégio.

É uma festa pra arrancar o ano. Um abraço, Eduardo.

Um abraço pra si também, Ricardo. E pros nossos ouvintes, claro. Judite, eu acho que nós somos todos muito batoteiros. A verdade é essa. Porque se me disser assim: "Eduardo, somos ou não somos capazes de promover transformações da nossa vida?" Somos, Judite. E tanto somos que quando somos obrigados a fazê-las, levamo-las a eito e muitas vezes fazemos afirmações como, por exemplo: "Às vezes há males que vêm por bem", dando a entender que se não tivesse sido um sobressalto significativo que tivéssemos vivido, se calhar não teríamos tomado um conjunto de resoluções que estariam pra ser tomadas há muito tempo e foram ficando em banho-maria de uma forma mais ou menos interminável. Podemos, sim. Não precisamos de um ano novo. O ano novo é daqueles momentos simbólicos em que nós assumimos um conjunto de mudanças que são perfeitamente exequíveis, mas nós somos todos batoteiros e às vezes passamos a vida a vociferar contra as empresas em que qualquer mudança de rotina traz ali um coro de protestos e as pessoas estão tão habituadas a funcionar num determinado modo. Há colegas meus que até falam acerca disso como se fosse uma zona de conforto, e eu acho que uma zona de conforto nunca pode ser uma rotina, porque uma rotina nos entedia e nos estraga devagarinho. Mas de facto, nós vivemos as mudanças de uma forma tola, porque é como se, de repente, deixássemos de controlar um conjunto de coisas, como se até aí as controlássemos, de facto.

Mas as resoluções falham porque pedimos demais a nós próprios, sobretudo.

Às vezes. Às vezes é verdade que sim, mas às vezes falham, sobretudo porque pedimos. Só por isso. Às vezes é mais fácil, em vez de pedirmos, sermos crescidinhos o suficiente e dizermos com toda a humildade: "O que eu quero mesmo mudar nisto ou naquilo?" E depois nós temos que ter a noção de que mudar não é uma coisa que surja como um raio de luz que nos atravessa e que de um momento pro outro nos leva a tomar as decisões que não tomamos.

Mas isso é o que toda gente espera por ser passagem de ano, não é? Que haja algo mágico que aconteça.

Não. Ainda bem que ninguém nos ouve, muito menos o Ricardo neste momento, mas as mudanças são um bocadinho à bruta. A certa altura mudamos porque entendemos teimosamente que temos que mudar. E quando levamos essa mudança uma, duas, três, quatro, cinco vezes por diante, só quando nós começamos a ter os ganhos dessa mudança é que ela se torna tão óbvia e depois tão indispensável que passa a fazer parte de nós. Mas nós mudamos se quisermos. Mudamos, aliás, mais facilmente do que parece. Não podemos só ir à boleia do Ano Novo, mas se formos também não é por aí que vem mal ao mundo. Agora, não mudar é que é uma tolice, porque é como se não mudar nos trouxesse segurança e não mudar traz-nos, sobretudo, um divórcio em relação à vida. Um divórcio devagarinho, porque a vida se faz de surpresas, de espanto, de mudanças, e só não existem mais, porque nós passamos muitas vezes os dias a tratar a vida ao pontapé.

Faz mais sentido falar em hábitos pequenos do que em grandes resoluções, por exemplo?

Eu tenho alguma alergia em relação aos hábitos.

Aos hábitos pequenos.

E àqueles hábitos que são fantásticos. Judite, nós precisamos de rotinas por uma razão simples, porque as rotinas são um excelente estabilizador de humor, organizam-nos a vida. E é bom que em muitos aspectos ela esteja organizada. Aquilo que a mim me preocupa é que em determinadas circunstâncias esteja tão organizada, que, no limite, por absurdo, seja possível numa agenda de uma tal Judite haver uma entrada a dizer: "Não te esqueças da Judite". Ou numa agenda de um tal Eduardo, entra uma entradinha da agenda a dizer: "Não te esqueças de namorar", porque quando chegamos a este ponto, então estamos doentes. A vida precisa de um conjunto de coordenadas que nos oriente, sem que, contudo, isso sejam tantos hábitos, como eu passo a vida a ver em tantas pessoas, que têm uma lista de coisas por fazer, que é uma coisa magnífica, porque lá pormos coisas nas listas, nós pomos. O problema é quando nós criamos uma lista, vamos fazendo meia dúzia de coisas e a lista vai ficando maior. Não, nós precisamos de assumir com toda a clareza o que queremos da vida. E se nós queremos mudar meia dúzia de coisas, que às vezes são coisas que são significativas, queremos perder peso, vamos lá, queremos levar a vida mais a sério, vamos lá, etc. Mas é altura de nós podermos assumir que viver é aprendermos com as coisas. E às vezes nós, que somos pessoas tão capazes de aprender, fazemos os possíveis e os impossíveis pra não o fazer e, portanto, não mudar ou fazer por não mudar, ou zangarmo-nos pedindo que outros mudem pra nós, quando se calhar o que faz sentido é nós mudarmos pra os outros, já agora, e mudarmos aquilo que entendemos que deve ser mudado é que, de facto, faz sentido.

Eduardo, ficamos por aqui. Esperemos que as nossas resoluções durem mais do que janeiro. Eu estou a fazer por isso.

Eu tenho uma resolução, que é voltar a fazer um ou dois "Porque sim?" não é resposta durante este ano de 2026.

Olha, Ricardo Conceição.

Apareci aqui de clandestino.

Vê lá o que prometes.

Ricardo Conceição, se depender de mim e dessa senhora, não são um, nem dois, são mais.

Vamos a isso. Apareci aqui de clandestino, quem nos ouve em podcast não vai perceber nada disto, mas é que isto também faz parte de uma emissão de rádio, que é corrida. Um grande abraço e um bom ano, Eduardo.

Um grande abraço para os dois.

Bom ano. Obrigada, Eduardo.

Muito obrigado.