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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje perguntamos por que os filhos, quando crescem, parecem tão pouco solidários e até empáticos em relação aos pais. Boa tarde, Eduardo. Estamos a falar de que fase do crescimento dos filhos? Quando os filhos chegam já à idade adulta, quando são pais ou um bocadinho antes disso?
Olá, Bruno. Boa tarde. Da adolescência pra frente.
Ah, ok.
Da adolescência pra frente. Porque há tantos pais que se queixam disso. É muito curioso e sendo tantos pais, obriga-nos a perguntar: por quê? E a impressão que dá é que os filhos estão tão habituados a que os pais sejam tão exemplares nas suas funções, sejam capazes de recorrer a tudo e a mais alguma coisa. Mesmo quando se constipam, nunca fiquem doentes pras suas funções parentais, etc. Que pela vida fora, às vezes têm muita dificuldade em fazer movimentos empáticos, no sentido de perceber o que a minha mãe está a sentir, o que o meu pai está a sofrer. E nessas circunstâncias, anteciparem-se e terem gestos carinhosos, gestos de bondade, gestos rigorosamente solidários, alguns deles. E a impressão que dá é que eles ficam, para efeitos de carreira, para efeitos de parentalidade, pras suas relações, etc. Eles são adultos em tudo, mas parecem insistir numa posição infantil em relação aos pais, como se os pais não precisassem de mimo e não precisassem de colo. É muito engraçado, quando os filhos são pequeninos, são capazes de dizer muitas vezes: "Amo-te e gosto de ti" e serem atentíssimos ao nosso olhar e anteciparem-se a qualquer coisa que nós consigamos dizer para terem um gesto de carinho. E depois parecem ficar muito enteramulados, muito embaraçados, com muita dificuldade de dizer a uma mãe ou a um pai que os admiram, que gostam deles e dar-lhes o colo indispensável que eles muitas vezes precisam pra ter. Às vezes é preciso as mães andarem a rezingar o dia inteiro pra que alguém faça uma luzinha e diga: "Bom, até que ponto isso não se resolve só com um abraço?" E portanto, nessas circunstâncias, é muito curioso, porque há mães crescidas e pais crescidos, que têm filhos de 20, 30 e por aí adiante, que se queixam invariavelmente de um registro muito egocêntrico. Egocêntrico demais, digo eu, Bruno, pra estas idades, que faz com que eles pareçam não querer reconhecer a fragilidade dos pais, as inseguranças dos pais, como se, no fundo, funcionassem como os nossos filhos quando são pequeninos e nos sentem assim a tremelicar, que a primeira coisa que nos fazem quando são bebês, é simularem que nos dão uma palmada no rosto como quem diz: "Desperta, afasta a vida, não faças isso, eu preciso de ti forte". Só que uma coisa é quando eles têm sete, oito ou nove meses, outra muito diferente é quando eles têm 30 ou 40 anos.
Sim, quando já estão nessa fase será diferente, mas no período da adolescência não é normal que os filhos tenham uma fase, eu não sei se revolta ou será parva, é a expressão do Eduardo, mas eu não sei se será um período de revolta ou se não será um período natural do desenvolvimento pessoal, ou seja, passar de uma fase de uma intensa submissão e até quase idolatria dos pais, para uma fase de questionamento dos pais. Isso é desejável até que aconteça ou não?
Isso é saudável que aconteça. E é saudável por uma razão simples: habitualmente, os nossos filhos são mais desafiadores em relação àquele dos pais com quem se identificam mais. É por isso que os rapazes medem forças muitas vezes com o pai e as raparigas, pela vida fora, com a mãe. É verdade que sim, é uma maneira como se eles dissessem: "Pronto, eu vou te diminuir o valor facial, vou te desvalorizar um bocadinho, vou te desqualificar aqui ou ali, vou utilizar a ironia como uma forma de minimizar esta ou aquela qualidade que tu possas ter e, em contrapartida, eu deixo de sentir que nunca mais é sábado. Tenho ali uma maneira de crescer, de forma a ficar mais crescido, mais igual e às vezes até maior do que tu." Isso tudo é razoável e é saudável, pra dizer a verdade, Bruno. Mas também é verdade que os pais às vezes encolhem-se demais em relação a isso. Chocam de frente menos do que era suposto. Hoje, os conflitos de gerações parecem ter passado um bocado de moda, porque há uma geração atrás eram muito mais assanhados, muito mais sofridos. Os pais hoje encolhem-se um bocadinho e é importante que não se encolham, porque quando os filhos estão a fazer esse movimento Acima de tudo, o que eles querem perceber? Se os pais são suficientemente fortes, primeiro, pra perceber a linguagem cifrada que está naquele gesto e depois pra reagirem a ela com firmeza, mas agora com elegância.
Eduardo, deixa eu só perguntar isto. Se os pais adotarem essa postura mais compreensiva, podem estar a contribuir inadvertidamente até pra um maior afastamento em relação aos filhos?
Sem dúvida nenhuma. Aliás, este lado, às vezes, egocêntrico e pouco solidário, muitas vezes começa aí. Os pais engolem em seco o tonzinho, às vezes não é o tom, é quase um desgar no olhar que os magoa. Eu acho que devia ser proibido engolirem seja o que for, porque de algum modo, quando o fazem, estão a dar um aval a um conjunto de situações que não são razoáveis. Os pais não podem ser a rainha mãe, anularem-se como se a sua vida se resumisse às conquistas que os filhos possam fazer a seguir, porque se for assim, estão a encaminhá-los para um lado da sua personalidade que não é o mais bonito do mundo e que não é seguramente aquele que os pais mais anseiam que eles tenham.
Quanto mais os pais se anulam, Eduardo, mais os filhos tendem a tornar-se egocêntricos?
É rigorosamente assim, Bruno. E por isso é que eu tenho medo, porque depois entre serem egocêntricos e serem narcísicos, há um degrauzinho a separá-los. E depois eles têm a ideia que por dominarem as novas tecnologias ou por dominarem o inglês, ao contrário dos pais, de repente tenham toda a legitimidade do mundo para dar um conjunto de lições de moral aos pais, que quem tem 15, 16, 18 ou 20, não tem manifestamente experiência e não tem sabedoria sequer para o fazer, mas muitas vezes os pais encolhem-se. E quando fazem isso, era bom que tivessem a noção que estão a desistir aos bocadinhos, de forma passiva, de terem filhos. E isso é uma coisa que magoa muito e que não devia sequer existir.
Quando é que é expectável que a relação, a postura dos filhos em relação aos pais, se altere? Ou seja, quando é que é expectável que eles passem a ser mais solidários e até empáticos? Normalmente, diz-se que é quando têm filhos e começam a perceber de outra forma o papel dos pais. Mas também não acontece quando se tem filhos, às vezes cria-se aqui uma espécie de guerra, ou seja, a educação do meu filho é também uma mensagem contra os meus pais, contra a forma como fui educado.
Quantas vezes, não é, Bruno? Nessas circunstâncias, eu acho que os pais que vão por aí contra os seus próprios pais, digamos assim, mais tarde ou mais cedo vão descobrir uma dura realidade. Claro que nem todos os pais fazem isso. Claro que muitos dos pais que fazem isso têm ressentimentos grandes em relação ao seu crescimento e em relação a um ou outro dos seus pais. Mas aquilo que eles muitas vezes redescobrem é que vão sendo tão condescendentes, tão ao contrário daquilo que eles imaginam que os seus pais foram pra si, que de repente, às vezes, têm de um filho, um lado mais exigente, e às vezes, pequeno tirano, que os pais não conseguiam ser. E, portanto, às vezes a vida é mesmo uma porta giratória. Quando nós fugimos de qualquer coisa que nos dói sem percebermos por que nos dói e sem trazermos a sufrágio, o melhor que conseguimos é ficar presos a elas. E, portanto, às vezes os filhos repercutem muitas das coisas mal feitas que os nossos pais fizeram e quando nós os usamos para limpar, sobretudo feridas da nossa infância, às vezes parecemos ficar presos a elas pra sempre. Isso é que é trágico, claro.
Porque há essa ideia também de que esse tipo de educação pode criar fraturas na relação entre os pais e os filhos e também, claro, obviamente, entre os filhos e os avós.
É verdade, mas há uma coisa é que os avós depois são muito disruptivos, digamos assim. Quando um avô ou uma avó manifestam a sua enorme bondade em relação ao neto, os filhos às vezes ficam muito perplexos. Como é que ele ou ela são capazes de deixar que o neto faça tudo aquilo que eles nunca permitiram que ele fizesse. E às vezes os pais vão além dessa questão e vão pro caminho certo. É que se os avós hoje fazem isso, é porque apesar de todas as suas falhas, se calhar foram muito mais aquilo que são com os netos do que à primeira vista pode parecer. Às vezes, mesmo quando somos crescidos, temos uma visão muito infantil sobre os nossos pais e sobre o nosso crescimento. Entende-se, mas às vezes é perigoso e escorregadio.
Porque continuamos, de alguma forma, sempre a ser filhos, não é?
Exatamente.
E a pôr-nos desse ponto de vista.
Exatamente.
Eduardo, chegamos ao fim de mais um "Porque sim, é resposta". Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt. Pode sempre enviar-nos as questões, dúvidas e partilhas através do e-mail eduardosar@observador.pt. Eduardo, muito obrigado, um grande abraço. Até amanhã.
Um abraço grande, Bruno, e até amanhã.