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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje olhamos para um dado preocupante: Portugal é o segundo país da OCDE onde mais se consomem antidepressivos e o primeiro no consumo de ansiolíticos. O uso destes medicamentos tem aumentado de forma consistente nas últimas décadas. Entre 2000 e 2017, mais do que triplicou. Eduardo, olá. A pergunta não é simples, mas é curta: por quê? Por que razão consumimos tantos antidepressivos e ansiolíticos?
Olá, Judite. Porque eles acabam por ser prescritos. Porque acabaram por ser um instrumento que acaba por estar mais à mão das pessoas, até porque, convenhamos, nem sempre elas têm à disposição recursos para pegarem naquilo que se passa com elas e mexerem de uma forma significativa nisso tudo, a ponto de ultrapassarem essas dificuldades e de transformarem nas, no final de contas, em fatores de crescimento.
Está a falar da terapia em si.
Por exemplo.
Sem medicação.
Claro. Não quer dizer que uma coisa e outra tenham que estar em alternativa, como se compreende. Mas a mim preocupa que, números redondos, se consuma em Portugal, anualmente, neste tipo de fármacos, o dobro dos livros que são comprados pelos portugueses. Estamos a falar de 13 milhões de livros e quase o dobro deste tipo de substâncias. O que significa que, ao contrário daquilo que as pessoas de alguma forma dão a entender, e muito bem, porque elas não têm que expor aquilo que são as suas questões mais íntimas, as suas dificuldades mais reservadas, se calhar andamos todos menos equilibrados do que nós gostaríamos. E, portanto, muitas vezes este tipo de soluções, que no essencial não resolvem os motivos pelos quais os sintomas acabam por surgir, mas atenuam, minimizam e de alguma forma criam condições de vida que fazem com que as pessoas sintam que sem eles se sentem significativamente pior. Agora, estes números ajudam-nos a perceber, e vários responsáveis da saúde em Portugal ao longo dos anos têm chamado a atenção para isso, que de uma forma serena, não precipitada, muito menos demagógica, mais comparticipada por todos os especialistas desta área, nós temos que chegar a um patamar onde a saúde mental entre. Eu dou o exemplo das seguradoras, que de uma forma cada vez mais frequente, nos seus seguros de saúde, já preveem um número, que não é um número enorme de sessões, mas um número de sessões que ainda assim comparticipam, o que dão a entender, bem, acho eu, que a saúde mental não é um luxo, antes pelo contrário, e quanto mais ela estiver dentro do que nós assumimos que é a saúde mental propriamente dita, os nossos desempenhos pessoais, a nossa relação com o nosso corpo, muitos quadros psicossomáticos que acabam por surgir, a nossa vida familiar e, já agora, a nossa relação com o trabalho e com a vida, acabam por ser tão diferentes que tudo junto, os custos que isso tudo representa, nomeadamente no âmbito do Sistema Nacional de Saúde, compensam, mas largamente os ganhos que isso vem a trazer à vida das pessoas.
Mas o elevado consumo está ligado a uma maior prevalência de doenças mentais ou a uma cultura que utiliza a medicação com muita facilidade?
As duas coisas, Judite. Eu agradeço-lhe imenso a subtileza da sua questão, porque se não faz. Nós temos sempre, ainda, apesar de tudo, a tentação de imaginar que saúde mental é uma coisa mais ou menos difusa, culpa nossa, às vezes, porque falamos pouco dela também. Mas escorregamos sempre para uma realidade em que partimos do pressuposto que sempre que não estamos tão saudáveis como era de se supor, estamos a escorregar para a doença mental e associamos a doença mental a perturbações graves que, no fim da linha, acabam por se traduzir, por exemplo, por quadros psicóticos muito graves, o que não é assim. Na saúde física, só porque estamos constipados ou porque fazemos uma gripe ou porque precisamos de um antibiótico circunstancialmente, não significa que estejamos com uma doença degenerativa ou com carcinoma em mãos. Portanto, como é óbvio, a saúde mental é isto mesmo, acabam por ser reações muitas vezes saudáveis. Algumas destas reações de ansiedade e depressão, eu continuo a chamar a atenção que são traços de saúde, são sinais vitais. Mas às vezes há ainda a tentação de medicar, até porque as pessoas solicitam no imediato: "Resolva-me depressa este problema sem que eu tenha que mexer nalguma coisa". E há a tentação de prescrever, porventura, de uma forma não tão ponderada como talvez pudesse ser. E, portanto, conjugam-se aqui um conjunto de fatores que fazem com que isto tudo mal gerido, aquilo que poderia ser só um episódio viral à escala da clínica médica ou uma infecção bacteriana, se for mal gerido por um ano, dois, três, quatro, de repente, onde não havia um problema, passa a haver um problema muito grande. E às vezes os técnicos de saúde, querendo ser generosos, podem contribuir para esses problemas. E, portanto, estes números ajudam-nos a perguntar só isto: tem que ser assim ou nós podemos ter um conjunto de cuidados que, sem pormos umas abordagens contra as outras, no final de contas, bem geridas, acabem por reverter em favor da saúde mental das pessoas.
Eduardo, ficamos por aqui hoje. Amanhã voltamos com mais um tema. Obrigada, um grande abraço e até amanhã.
Eu é que lhe agradeço. Um abraço para si, Judite. Até amanhã.