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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta", com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de uma separação, quando um dos pais surge como uma espécie de ida à Disney e o outro fica associado às rotinas e regras, e aí instala-se o medo. Um dos pais teme ser menos amado por fazer aquilo que é necessário. Olá, Eduardo. Os filhos confundem amor com permissividade quando são mais pequenos?
Olá, Judite, boa tarde. Uma vez ou outra.
Vejo.
Uma vez ou outra. Os filhos não são tão distraídos assim, são muito atentos ao pormenor, discriminam de forma muito clara as pequenas nuances de comportamento dos pais. Mas é verdade também que, na prática, aquilo que acaba por acontecer é que são pequeninos e portanto, em muitas circunstâncias, acabam por não ser tão capazes de ir ao pormenor, em tempo real, porem as legendas corretas no comportamento de um e de outro e portanto, são suscetíveis, às vezes, de alguma manipulação. E é verdade que eles entendem que um pai mais permissivo é um pai fixe. E nem sempre um pai fixe é o melhor dos pais do mundo.
O pai Disney, que é uma expressão que a nossa ouvinte usa no e-mail que lhe enviou, prejudica o vínculo com a mãe ou esta é uma fase muito transitória?
Judite, eu não digo que prejudique, porque as crianças depois vão fazendo uma síntese de episódio em episódio ao longo de uma vida. Portanto, também não há como se fazerem enviesamentos tão profundos em função de situações soltas. É verdade que é sempre muito mais apetitoso para um dos pais ser o fixe. E nessas circunstâncias, o outro, em muitas situações, fica com a gestão corrente. Habitualmente, as mães são as chatas oficiais da família, são aquelas que, no fundo, estão em cima dos testes, dos trabalhos de casa, como é que foi a escola, o que foi o almoço, etc. E chamam a si um conjunto de responsabilidades em relação às quais os pais muitas vezes não consideram, pura e simplesmente, porque no fundo têm quem responda por elas. E portanto, numa circunstância dessas, fica tudo muito mais confortável para o pai Disney. Evidentemente que pela vida afora, as crianças vão mastigando isso tudo muito bem e vão percebendo que nem sempre um pai Disney é o melhor pai do mundo e portanto, não é por acaso que nalgumas circunstâncias, elas escolhem o pai Disney para os programas sociais, para aquelas coisas mais desafiadoras, para umas brincadeiras às vezes mais ousadas e tudo mais. Mas verdade seja, quem lhes dá segurança é quem habitualmente não tem essa dimensão tão Disney e chama a si uma série de tarefas chatas que, noutras circunstâncias, um pai Disney deixa passar.
É fácil explicar a uma criança que regras também são uma forma de amor?
Não é preciso explicar.
Não?
Não é preciso explicar. Não, Judite. Elas apanham isso com toda a clareza, até por uma razão simples: porque, ao contrário de algumas leituras esdrúxulas, de alguns pais que acham que as regras são opressivas e outras coisas desse gênero, na verdade, as crianças têm muito a noção de que as regras lhes dão um perímetro de ritmos muito previsíveis, dando-lhes alguma segurança. E portanto, dando essa segurança, da qual elas, aliás, retiram enormes mais-valias, não é preciso estar a explicar o óbvio para elas perceberem a função preciosa que isso acaba por ter.
Mas o medo de perder o amor pode levar os pais a educar piores, ou não?
Tantas vezes, Judite. Tantas. Para si, para mim, para todos os pais, sim. Às vezes, quando nós estamos mais inseguros, somos muito mais fixes, muito mais Disney. E portanto, nessas circunstâncias, sim. Quando estamos inseguros, quando estamos mais tristes, quando temos um tráfego muito intenso de coisas de um lado para o outro da nossa cabeça, às vezes somos um bocadinho mais Disney, claro. Porque às vezes temos tantas coisas viradas de uma vez, que a última que nos apetecia era compararmos uma briga ou haver sequer uma nuvenzinha negra sobre o amor de um filho por nós. E portanto, as subimos para o ar, chutamos para o alto e fazemos de conta que não vemos. Quantas vezes, todos nós, todos, em algum momento não acabamos por fazê-lo?
O que acontece quando um dos pais sente que está sempre a perder na comparação? Isso vai trazer também algum conflito entre os pais separados?
Traz. E eu acho ótimo que traga. Quando os pais estão separados, isso fica tudo muito mais complicado, porque há pais que fazem questão, quase como se fosse uma birra, de serem os pais Disney. Eu posso perceber isso quando, às vezes, um pai, para pegarmos nos formatos mais habituais, está 15 dias sem ver um filho e, portanto, naquele fim de semana em que o tem, quer, sobretudo, gozá-lo e de alguma forma brincar, exaustir. Tudo menos fazer o papel chato.
Menos a sopa.
Claro. "Não queres comer sopa? Eu faço de conta que ela não é indispensável", e esse tipo de coisas. Sim, claro. E, portanto, eu acho que também temos que relativizar esse tipo de coisas. Também é verdade que no contexto de uma separação, também há mães que entendem que as regras que uma criança tem são as regras delas e não as regras dos pais. E, portanto, nem sempre as mães têm razão, mesmo quando nós estamos, às vezes, a falar de guardas conjuntas com residências alternadas. Portanto, o personagem Disney da história nem sempre é o pai. Muitas vezes é o pai, é verdade que sim, mas nem sempre é o pai. Ou nalgumas coisas será o pai, noutras seguramente será a mãe. E se for assim, eu já fico muito mais descansado, porque nunca corremos o risco de chegar a um patamar em que um é oficialmente o polícia bom e o outro oficialmente o polícia mau.
Porque esta ouvinte, que é amiga da mãe, que sente que está sempre a perder na comparação. A questão é se há formas de sossegar o coração materno, que não está a perder.
O tempo é a melhor forma de a sossegar. Porque admito que, no imediato, haja um dos pais que faça questão de impor uma discrepância muito grande, de forma a ser tão sedutor, tão apelativo, que o outro fique reduzido a uma personagem secundária. Isso nem sequer é inteligente, mas não é seguramente justo para uma criança. Mas o tempo ajuda a pôr verdade nisto tudo.
Como assim?
Porque aqueles pais que vão à boleia de uma ideia de que se forem mais macios, mais adocicados, estão ali a reunir créditos para a vida toda, estão rigorosamente enganados. Porque é ótimo ter uma mãe ou um pai adocicados, mas é muito melhor ainda quando eles, no fundo, são um reservatório de sabedoria, são um reservatório de bom senso e às vezes a sabedoria e o bom senso manifesta-se quando eles são um bocadinho chatos, como é evidente, e pela vida fora, aquilo que dá o colo, dá uma aura, uma luminosidade e uma segurança muito grandes. Mas aquilo que nos torna robustos e de facto sábios e capazes de assumir frustrações e vencer os medos, são aquelas pessoas que nos vão pondo legendas e legendas. Às vezes até nos zangamos com elas e depois à medida que crescemos, percebemos que os instrumentos que nos deram, às vezes, são aquilo que faz a diferença entre sermos esclarecidos ou ficarmos um bocadinho opacos diante dos desafios que a vida nos traz. Portanto, a prazo, a vida encarrega-se por verdade nisto tudo. Se os pais não se desperdiçarem ou não ficarem teimosamente com uma função e só uma destas para cada um de si próprios, ganham e os filhos ganham mais ainda.
Portanto, ser pai ou mãe também é dizer não e não perder o amor por isso, não é?
Seguramente.
Eduardo, vamos de fim de semana. Voltamos na segunda-feira com mais um tema. Um grande abraço, Eduardo. Bom fim de semana.
Igualmente para si. Um bom fim de semana.
Até segunda.
E até segunda.