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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje eu tenho muita curiosidade, Eduardo, boa tarde, devo confessar, com este tema: somos todos mães judias? É que isto da mãe judia entrou na cultura popular há relativamente pouco tempo, vindo muito dos Estados Unidos e autores como Philip Roth ou como Woody Allen no cinema. Portanto, é algo que não está ainda bem enraizado na nossa cultura, mas que já temos alguma ideia do que seja. Afinal, o que é esta forma de maternidade ou de parentalidade do povo judeu, das mães judias?

Olá, Bruno. É mais uma forma de nós irmos buscar uma realidade cultural à nossa volta para tentarmos caracterizar um tipo de maternidade que vai ganhando forma e que, de algum modo, caracteriza bem as mães de hoje em dia. Vamos lá ver. As mães sempre foram aquelas pessoas atentas, dedicadas, prontíssimas a sacrificarem muitas vezes a sua autonomia e até a sua vida social por aquela criança, aquele bebê. E, portanto, este lado das mães é, de facto, muito bonito. E eu não acho que seja um exclusivo das mães judias. É um exclusivo das mães, digamos assim. Um dia vamos ter que falar dos pais em relação a isto, porque porventura não serão tão diferentes, embora isto se manifeste de maneiras distintas. E, portanto, aquilo que nós hoje temos é uma versão de mães que já não são as mães galinha de antigamente e que passam a ser, muitas vezes, à boleia desta influência caracterizada pelas mães judias, mães helicóptero, digamos assim, que são, no fundo, mães supercentradas na maternidade, independentemente das suas atividades profissionais, atentíssimas, com um investimento inacreditável sobre a vida dos filhos, completamente focadas nos resultados escolares, nas notas que eles têm. Muito controladoras, às vezes. Agora com air tags ainda por cima e com telemóveis, muito controladoras. Dantes, as mães galinha diziam: "O que eu gostava era de ser mosca". Agora não precisam de ser mosca.

Agora existe instrumentos técnicos, tecnológicos.

E, portanto, são mães, ponto final, na sua dimensão mais bonita. O que isso muitas vezes tem de escorregadio? É que esta versão de mães está também muito influenciada pelas redes sociais, e as redes sociais trazem permanentemente apelos, propostas, tutoriais, tudo o que lhe passe pela cabeça sobre as atitudes que se devem esperar de uma mãe. E é aqui que eu acho que as mães ficam perdidas entre o passado e o presente. O passado tem a ver com este lado atento, hipervigilante, completamente comprometido, empenhado. O presente tem muito a ver com esta necessidade destas mães, às vezes, não imporem limites, nem obrigarem, não dizerem tantas vezes que não, não quererem escorregar pro lado da gritaria e quererem ser mais doces, darem muito mais explicações sobre tudo e mais alguma coisa, irem à boleia do ritmo dos filhos como se antes as mães, coitadas, impusessem ritmos que não tivessem nada a ver com eles, o que não é de todo verdade. E, portanto, às vezes ficam perdidas nesta terra de ninguém. E é importante nós conversarmos acerca disto, porque as mães, as judias e as outras, sempre foram pessoas completamente, apaixonadamente envolvidas na maternidade, mas às vezes, com tantos tutoriais, tantas regras, tantas propostas, tantas coisas.

Tantas fórmulas. Muitas vezes aquilo que acabamos por ver são fórmulas que as mães e os pais, muitas vezes também, procuram seguir, esquecendo aquilo que há de singular em cada relação entre mães e filhos.

E já agora, esquecendo uma coisa: é que as mães das mães, as avós, não fizeram tudo bem. Fizeram imensas asneiras. E quando nós somos pais e olhamos para trás é que damos conta das asneiras que os nossos pais fizeram. Mas caramba, eles não fizeram tantas coisas mal assim, antes pelo contrário. E, portanto, nessas circunstâncias, as mães vivem debaixo de exigências que elas próprias colocam quando decidem ser mães e vivem cercadas por exigências de todas essas regras, tutoriais e esse tipo de coisas, que no final não as deixa ter o sexto sentido que elas têm como mais ninguém, não as deixa fazer bluff dizendo Que têm um Deus que adivinha, quando de facto às vezes até adivinham, e não as deixa errar tantas vezes. E portanto, o que é que nós temos, Bruno? Aquelas mães que todos nós já ouvimos à nossa volta, que são aquelas pessoas ótimas que nos dizem: "Olhe, eu já tentei tudo." E quando eu vejo uma mãe dizer isso, significa que ela, de facto, andou perdida por imensas coordenadas sem que a bússola estivesse ali e, portanto, nem sempre esta informação se capacita, às vezes antes pelo contrário, só complica. E é bom dizermos isto com clareza, para que as mães não se sintam envolvidas numa culpa de que ainda há tudo e às vezes parece não fazer nada como deve ser. Fazem coisas magníficas o tempo todo e não são tão diferentes das mães judias e das mães da humanidade.

De todos os tempos.

Graças a elas, a humanidade foi crescendo independentemente de muitas maldades e de muitas pessoas insensatas, que também é como são.

Não há aqui algo potencialmente perigoso neste cruzamento entre um desejo de controle, e não só controle dos filhos, controle do comportamento enquanto mães, e aquilo que podemos dizer que é uma espécie de relaxamento nas regras em relação aos filhos. Ou seja, haver um desejo de controle excessivo e, ao mesmo tempo, relaxar um pouco as regras para os filhos.

Eu acho que as mães toleram tudo, menos que os filhos sejam mal-educados. E eu acho que era tão importante nós podermos dizer: "Olhe, não fique assustada. Todas as crianças são um bocadinho mal-educadas, as nossas, as suas, todas. É por isso que existem pais, para nós corrigirmos alguns atitudes patetas, alguns devaneios e outras coisas do gênero, porque as crianças de fato não nascem ensinadas, também não precisamos de manual de instruções nenhum. Precisamos ir à boleia delas. E sempre que elas são um bocadinho mal-educadas, uma pessoa respirar fundo e dizer: "Não, eu não sou pior mãe por isso. Eu não tenho que escolher entre o amor e a autoridade, de acordo? Eu sou só mãe." E o só é uma coisa tão significativa, que eu acho que pode tirar peso, um peso de toneladas de cima de muitas mães, porque isso, em vez de as deixar ser mães de forma livre, dá-lhes uma liberdade condicional que só lhes faz mal.

É porque há uma obsessão contemporânea, não só em questões de maternidade, com o desempenho e quase com a avaliação métrica do desempenho. As mães, sobretudo com a pressão das redes sociais, são muito sensíveis a isso.

São, mas às vezes parece que estão a criar forças produtivas e são crianças. E as crianças têm que ter tempo para ser crianças e a melhor competência com que uma criança nasce é competência para ser criança. E portanto, nessas circunstâncias, eu acho que nós temos que aligeirar isto tudo, porque estamos a chegar a setembro, depois temos outubro e novembro, as primeiras notas do primeiro ano do primeiro ciclo, e é o drama, porque as mães têm todas a ideia de que a educadora do meu filho disse que ele tem uma inteligência emocional tão significativa, que eu chego a ter medo que ele seja sobredotado. E depois o pobre do rapaz traz da primeira prova que faz, constipa-se todo e temos a mãe numa espécie de montanha-russa para cima e para baixo. Não, é esta ideia de que as crianças precisam de tempo para crescer e os pais precisam de espaço para errar. E os piores pais e as piores mães do mundo, temos que dizer isto baixinho, são aquelas que não se deixam errar, que não querem errar, porque essas querem fazer tudo tão direitinho que erram mais vezes.

Calma, mães, está tudo bem. Não há razões para pânico e agora ainda estamos no período de férias, mas depois com o regresso da normalidade, o regresso às aulas, a pressão é muito grande, mas vai tudo correr bem. Chegamos assim ao fim de mais um "Porque sim, não é resposta". Estamos sempre em podcast, nas plataformas habituais e no site observador.pt. Envie-nos as suas questões e partilhe-as através do e-mail eduardosá@observador.pt. Eduardo, muito obrigado, um grande abraço e até amanhã.

Um abraço para si, Bruno, e até amanhã.