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Começa agora mais um Porque Sim Não É Resposta com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França, comigo está o Bruno Vieira Amaral e hoje o tema é: telemóveis. Telemóveis nas escolas, sim ou não, Eduardo? Olá, boa tarde.

Olá Judite, olá Bruno.

Olá Eduardo.

Se pudesse sugerir, não, claramente, Judite. Porque eu não percebo a grande vantagem que isso pode representar. Compreendo perfeitamente que os alunos possam, queiram e devam ter o telefone na sua mochila, mas utilizá-lo como utilizam. Em contexto de aulas, são inúmeros os episódios em que eu escuto alunos que relatam a maneira como utilizam o telemóvel quando o professor está a explicar, quando de alguma forma estão enfadados com aquilo que se passa na aula, etc. Utilizá-lo no recreio sistematicamente nem sequer é razoável, porque no fundo acabam por não conviver uns com os outros como deviam. E portanto, fazer da escola um local, de certa forma, protegido da utilização de telemóveis, eu acho que era vantajoso para todos. Vantajoso para os alunos, evidentemente, e vantajoso para as escolas. As escolas às vezes dizem que quando usam propor uma coisa dessas, há sempre um levantamento geral, sobretudo das mães, que entendem que os telemóveis dos filhos são uma belíssima forma de elas estarem a par de tudo o que se passa, de os controlarem, de irem monitorizando uma e outra coisa e, portanto, dizem às escolas: "Enfim, mas as escolas têm autonomia para dizer não e acabou-se." Fazendo-se um bocadinho de vítimas que se não levam isso por diante, muitas vezes a culpa é das mães. E aqui parece-me talvez um bocadinho demagógico em excesso, mas quem sabe.

Era isso que lhe queria perguntar, Eduardo. Afinal de contas, de quem é a responsabilidade? Os pais querem que os filhos estejam contactáveis, tenham os telemóveis com eles, mas as escolas têm toda a liberdade, têm toda a autonomia, como dizia, para poderem impor regras, incluindo a regra da utilização do telemóvel ou da não utilização do telemóvel durante o tempo de aulas e também durante os recreios.

Pois têm. É por isso que eu não entendo porque é que as escolas não assumem um conjunto de pontos de vista, que não precisam de ter unanimidade, não têm que ter unanimidade, mas por criarem que deviam ter. Agora, o que é importante é que de alguma forma as escolas assumam o seu aspecto formativo, levando tudo isso às últimas consequências e, de facto, aquilo que se passa, volto a dizer, mesmo no contexto das aulas, não é razoável. Não é de todo razoável, porque aquilo que nós estamos a permitir é que é um instrumento muito precioso para todos nós, talvez não tão precioso assim para crianças de sete e de oito anos, porque já começam a existir muitas que têm telemóvel. E eu aqui tenho muita dificuldade em perceber.

E redes sociais?

Ó Bruno, o que é mais grave é que têm redes sociais antes dos 12 e que as redes sociais muitas vezes são subscritas pelos pais e, portanto, têm o aval dos pais e têm dados nesses telemóveis, o que é muito preocupante. É facílimo ver o tipo de pesquisas que os miúdos fazem, em que intervalo etário acabam por estar e, de repente, começam a receber um conjunto de dados que eles não foram buscar, mas que são, de certa forma, catapultados para os seus telemóveis. Alguns conteúdos que não deviam lá estar de maneira nenhuma, de caráter sexual e outras coisas do gênero. E isso tudo só é possível porque nós, na escola de uma maneira, em casa de outra, nos encolhemos de uma forma incompreensível quando se trata de definir regras que no limite não têm nada de opressivo, mas têm que ter um ponto de vista em relação àquilo que é o bom senso, que é aquilo que se espera.

Falava da idade. Há alguma idade que se possa dizer: "Ok, a partir daqui já é normal ter um telemóvel."

Muito obrigado por ter feito essa pergunta. Vou ficar muito acarinhado por muitas pessoas. Judite, com toda a sinceridade, se nós pudessemos os 12 anos como a baliza. Eu diria sim, claramente, mas tenha noção que isso faz com que toda aquela gente simpática com menos de 12 anos se transforme numa espécie de inimigo público e que os pais fiquem muitas vezes zangados, porque como eu digo, os pais continuam a ter a ideia, e bem, nalgumas circunstâncias, que o telemóvel é útil para comunicar em tempo real com os filhos, mas o que é importante é que tenham presente que de facto, atrás do telemóvel vem o pacote todo. Vêm as pesquisas que os pais não controlam, vêm os videojogos a torto e a direito que os pais não controlam, vem todo um conjunto de aspetos que não são razoáveis e sobretudo, considerando a escola, eles têm é mais é que fazer pela vida, misturarem-se uns com os outros. Hoje estão tímidos, amanhã são as pessoas mais populares daquele grupo. Tudo aquilo que é indispensável e aquilo que as escolas muitas vezes sugerem também é verdade, Judite Durante a pandemia foi isto a torto e a direito. É até recomendável que eles levem os telemóveis pra escola, porque durante os intervalos não fazem tanto barulho, não fazem tantas asneiras e acabam por estar mais metidos consigo, que é tudo o que uma escola não pode querer, quando se trata de jovens crianças ou adolescentes que começam a aprender a entrar na adolescência.

Nós tínhamos este tema em carteira depois de um ouvinte ter falado do telemóvel no quarto do adolescente, mas entretanto também recebemos um e-mail de uma mãe muito preocupada porque a filha de 10 anos não usa telemóvel, não tem telemóvel, mas à volta toda gente tem. E ela pede um telemóvel constantemente.

Claro, mas eu compreendo isso, porque é a tendência do momento, é no fundo uma verdadeira emancipação. Passo a ser uma pessoa crescida, tenho um número de telefone, se me quiserem mandar uma mensagem, eu estou aqui e responderei rapidamente como eles fazem. Mas nós não podemos ser pais que se revalem por um certo populismo, porque é suposto que nós tenhamos uma ideia do que queremos dos nossos filhos, do que entendemos que é razoável pra eles. E que em função disso, tenhamos que dizer sim ou não, mesmo que o não vá contra a tendência do momento e contra muitos pais de muitas crianças à nossa volta, que são excelentes pais, mas que às vezes facilitam demais nestas coisas e não deviam facilitar.

E quando as crianças, aquelas que os pais decidem, bem ou não, já vamos saber, não lhes dar telemóvel, sofrem por essa pressão que os outros colegas têm e usam na escola. Como é que os pais depois lidam com isto?

É um problema desta mãe, aliás.

É um problema, exatamente. E que não será só desta mãe.

Claro.

Não, é de certeza absoluta. Lidam com muito sofrimento, com muitas dúvidas, com a sensação de que no fundo, podem estar a criar ali crianças quase excluídas do grupo, porque depois os grupos do WhatsApp mandam nisto tudo. Mas volto a dizer, os pais também têm que ter uma noção daquilo que entendem que devem ser os tempos próprios dos filhos, porque hoje é com o telemóvel, amanhã é com as saídas à noite. Depois de amanhã, com as primeiras experiências com o álcool. E muitas vezes os pais têm opiniões muito claras em relação às coisas, mas depois encolhem-se, porque, no fundo, a tendência parece ter uma força de arrastamento que não os deixa irem contra a corrente e, portanto, passarem por períodos em que os filhos entendem que estão mal equipados os pais e que os pais não são tão cabeças abertas quanto os pais dos amigos, que é tudo aquilo que os pais, evidentemente, não suportam perceber.

Eduardo, hoje ficamos por aqui e amanhã voltamos para mais um tema. Até lá, ouça-nos em podcast, também no site do Observador, e continue a escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, muito obrigada, um grande abraço e até amanhã.

Até amanhã, Eduardo.

Obrigado, até amanhã. Um abraço para os dois.